Postal por escrito: Tóquio

Era hora do rush no metrô.

 

(Parênteses: não, não vou contar a história dos pobres passageiros sendo empurrados por guardas de luvas brancas para dentro do vagão entupido de gente. Segundo minhas fontes, as TVs normalmente filmam essa cena na estação Shinjuku – a mais movimentada da cidade – às 8 e meia da manhã, quando o rush matinal está nos píncaros do cúmulo do auge. Em cinco dias pegando o metrô direto, não vi nada remotamente parecido. Posso inclusive testemunhar perante o júri que quase sempre consegui me sentar – pelo menos em algum trecho. Fecha parênteses.)

 

 

 

Como eu ia dizendo, era hora do rush no metrô. Acomodado num assento de costas para a janela, e de frente para todos os outros passageiros – muitos deles, em pé –, um homem aparentando menos de 30 anos abriu uma pasta de zíper e tirou lá de dentro um envelope estreito. Eu tinha feito câmbio num banco dois dias antes, e a funcionária irashaimassé kudassai arigatô gozaimás do banco tinha colocado meu dinheiro num envelope igualzinho – deduzi na hora de que se tratava de um envelope de dinheiro. Eis que o sujeito sentado no metrô na hora do rush tira o envelope de dinheiro da pasta, abre o envelope de dinheiro, tira o dinheiro do envelope e começa a contar o dinheiro fora do envelope. Eu por acaso cheguei a comentar que ele estava sentado no metrô na hora do rush? Pois então. Não era muito dinheiro – eram 6 ou 7 mil yens, 60 ou 70 dólares –, mas mesmo assim não pude deixar de ficar profundamente chocado.

 

 

 

Sabe aquela frase-padrão que a gente lê nos guias, "tome todas as precauções de segurança que você tomaria normalmente numa cidade grande"? Em Tóquio, por favor, não tome nenhuma das precauções de segurança que você tomaria numa cidade grande. Ande o tempo todo com o passaporte (nós tínhamos que andar com os nossos – explico melhor num dos próximos posts). Pendure a sua câmera digital caríssima no pescoço e desfile pela rua. Coloque um bolo de dinheiro no bolso da calça e vá em frente. O único perigo que você corre é perder uma dessas coisas na rua e não achar nunca mais.

 

 

 

É esquisito andar na rua com total sensação de segurança. É anormal, entende?, saber que nem nos becos mais sombrios você corre algum perigo. E olha que o que não falta em Tóquio são lugares sombrios. Por sinal, uma das grandes satisfações de visitar Tóquio é descobrir que não, São Paulo não é a cidade mais feia do mundo.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 14h27
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Mas ninguém vem a Tóquio pela paisagem ou mesmo para ver monumentos. Talvez a única "atração turística" tradicional da cidade seja o templo Senso-ji, em Asakusa, lá para os arrabaldes do meu armário, digo, hotel. Mas é um templo pobrinho, que não é páreo para os monumentos de Nikko (a duas horas de distância). A parte mais bacana da visita a Senso-ji foi ter passado pela frente de um jardim-de-infância bem na hora da saída – e aquele monte de mamães japonesas indo buscar seus pimpolhos a bordo da versão japa da Caloi Ceci.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Onde é que eu estava, mesmo? Ah, sim: Tóquio não serve para ver paisagens nem monumentos. Tóquio serve para você saber o que é viver num formigueiro. Provavelmente as nossas grandes cidades também sejam formigueiros; a diferença é que, no formigueiro de Tóquio, você é um cupim. Ou um besouro. Ou uma lesma. Às vezes dá vontade de ser um tamanduá, mas passa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Talvez na Tailândia, na Índia ou no Vietnã seja assim também. Só que na Tailândia, na Índia ou no Vietnã você nem chega a entrar de verdade no formigueiro. Você pega um tuk-tuk, ou não resiste ao assédio dos riquixás, ou às vezes já tem um sujeito te esperando no aeroporto com uma plaquinha com o teu nome. Em Tóquio você não pode se movimentar com as mordomias inerentes ao Terceiro Mundo. E se puder, convenhamos, a cidade vai perder completamente a graça.

 

Agora que acabou, posso até dizer que me hospedar num armário foi mais interessante do que se eu estivesse na suíte do Bill Murray no Park Hyatt. Tóquio não está nos néons em torno das grandes estações. Tóquio está na diminuição do seu espaço pessoal. Não que Tóquio seja claustrofóbica. De jeito nenhum. Você tem menos espaço, mas a cidade é infinita.

 

 

 

Cinco dias é muito pouco para entender Tóquio. Mas cinco dias é tempo demais para ficar em Tóquio. Estava na hora de ir para o Japão. Fui!

 

(Continue ligado. Vem aí mais Japão ao longo da semana.)

Escrito por Ricardo Freire às 14h26
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Visitando Fuji-san

Em dias claros, ele aparece do lado direito do trem para quem vai de Tóquio em direção a Nagóia e Kyoto. Se você zerar o cronômetro logo que o trem deixa a estação Shinagawa, entre 20 e 25 minutos mais tarde (dependendo do número de paradas) você vai avistar o Monte Fuji. Mas por muito pouco tempo. Dois minutos, se tanto, e pof!: o Monte Fuji desaparece por trás de uma montanha para nunca mais reaparecer.

 

Dois minutos de Monte Fuji é pouco para você? Pois é possível ir até o pé do Monte Fuji, e até mesmo escalar o Monte Fuji (existem albergues no meio da subida para quem queira desenrolar seu saco de dormir).

 

Calma, calma, nós não chegamos a tanto. Mas aproveitamos que a previsão do tempo indicava um dia perfeito de sol e viajamos até o parque de Hakone – o lugar mais próximo de Tóquio para quem deseja contemplar a montanha-logotipo do Japão.

 

Os japoneses chamam o Monte Fuji de "Fuji-san". Muitos guias dizem que "Fuji-san" significa "Sr. Fuji", o que denotaria todo o respeito que os japoneses têm por sua montanha sagrada. Dando uma googlada rápida, porém, vi textos dizendo que "san", no caso, significa "monte", escrito com um ideograma diferente do "san" de senhor, e que essa história de "Sr. Fuji" é furadíssima. Só para dificultar as coisas, no entanto, outros sites dizem que há duas maneiras de escrever (e dizer) "Monte Fuji": "Fuji-san" e "Fuji-yama" – e que os japoneses preferem "Fuji-san" justamente pela semelhança oral (e não escrita) com o "san" de senhor, revelando todo o respeito etc. etc. Eu não tenho o mínimo ideograma de quem esteja com a razão. Só sei que daqui para a frente posso me referir à Marisa Monte tanto como Marisa-san quanto como Marisa-yama.

 

O passeio toma quase um dia inteiro, mas se o céu estiver claro, vale muito a pena. Para começar, você anda meia hora de trem-bala (provavelmente o primeiro trem-bala da sua viagem) – e no caminho já dá aquela espiada-relâmpago no venerável monte, um pouco antes de descer em Odawara. Aí você compra um passe (entre 28 e 40 dólares, dependendo do dia da semana) que dá direito a viagens ilimitadas numa porção de meios de transporte que servem a região de Hakone. Primeiro você pega um trenzinho lento, depois um ônibus mais lento ainda. Uma hora depois de desembarcar do trem-bala, finalmente você chega a Hakone-moto, que fica à beira de um lago. Epa. O que é aquilo ali atrás das montanhas na margem de lá? Fuji-san! Irashaimassé!

 

 

 

A etapa seguinte consiste em atravessar o lago num.... navio pirata.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por favor, não me pergunte por quê. Só sei que, enquanto eu estava preocupado em fotografar Fuji-san, boa parte dos passageiros estava mais era a fim de virar papagaio japonês de pirata.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h12
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No meio do lago a vista de Fuji-san é ainda mais bonita. Mas de repente acontece o mesmo fenômeno registrado no trem-bala: o Monte Fuji some. Aproveitei para ver as fotos que tinha tirado. Você acredita que o fotômetro digital da minha câmera tinha apagado o Monte Fuji de quase metade das fotos? Monte Fugidio, isso sim.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na outra margem a viagem continua por um bondinho (que eles chamam de "ropeway"). Aqui você volta a enxergar Fuji-san – praticamente de pertinho – por quase quinze minutos. Então você diz sayonará para a montanha sagrada e entra num funicular (que eles chamam de "cable car"). Acabou? Não. Ainda tem aquela uma hora de trenzinho até a estação do trem-bala.

 

Sim, eu tive problemas sérios com os endereços de Tóquio. Mas o endereço do sr. Fuji eu acertei de primeira.

 

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h12
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Japonês é tudo diferente, né?

TÓQUIO – Normalmente, andar de metrô tem vantagens e desvantagens. Você chega mais rápido, mas acaba deixando de ver a paisagem. Em Tóquio, não. Em Tóquio você não perde nada viajando de metrô. Pelo contrário: não há melhor lugar para observar os japas em seu estado natural. Não digo que seja elegante ficar observando os nativos – com exceção de um ou outro grupo de adolescentes, que também acham graça em observar gaijin, o japonês médio fica totalmente na dele o tempo todo. É como se os outros não existissem. Ou melhor: é como se ele não existisse. Quando não está com o olhar ocupado – num livro, num jornal, ou mais freqüentemente na tela de um celular, jogando ou trocando torpedos –, o passageiro do metrô de Tóquio simplesmente fecha os olhos e tenta, ou finge, tirar um cochilo.

 

 

 

É no metrô que você vai perceber que japonês é tudo diferente. Os ingleses podem ser todos iguais, mas japonês é tudo diferente. Os irlandeses são xerox uns dos outros, os escandinavos são feitos em série, os turcos são clonados, mas japonês é tudo diferente. Tem japonês pálido, tem japonês moreno, tem japonês bolachudo, tem japonês de rosto comprido, tem japonês com cara de esquimó, tem japonês com cara de índio, tem japonês até com cara de japonês. Só não tem japonês gordo nem japonês mal-vestido. Quer dizer: ter, tem – mas minha pesquisa de campo no metrô de Tóquio indica que são estatisticamente irrevelantes. Em Tóquio ao menos, japonês é tudo diferente. E os gordos e mal-vestidos se limitam à margem de erro.

 

Algumas estações são tão grandes que você pode demorar dez ou quinze minutos até alcançar a saída. Mas nesse caso você nem sequer precisa achar a saída: as estações maiores são verdadeiras cidades auto-suficientes, com galerias e mais galerias conectadas diretamente a shoppings, lojas de departamento e edifícios comerciais. (Anote aí: se você quiser que seu negócio dê certo em Tóquio, construa uma ligação direta com alguma grande estação. Não, eu não vou cobrar pela consultoria.)

 

Querendo andar de metrô e ver a paisagem de Tóquio ao mesmo tempo, basta pegar a Linha Yamanote – um trem de superfície que percorre um circuito oval, abraçando a (imensa) área central de Tóquio e passando por praticamente todas as grandes estações. Viajar na Yamanote à noite – ou, melhor ainda, ao entardecer – é o city-tour mais bacana que você pode fazer. Só quando você está a bordo do trem de superfície é que Tóquio se revela por inteiro: um deserto de concreto sem-graça com oásis de néon salpicados aqui e ali (em torno das maiores estações). Entre uma grande estação e outra, quando você se cansar da monotonia cinza da cidade apagada, basta olhar para dentro do vagão – você vai ver japoneses lendo, teclando no celular ou fingindo tirar um cochilo. Mas garanto que você não vai encontrar nenhum japonês igual ao outro.

 



Escrito por Ricardo Freire às 13h46
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Le dernier mêtôrô

 

 

(Ou: Cinderela japonesa à meia-noite vira cápsula)

 

TÓQUIO -- Por onde é que eu começo? Talvez pela velhinha japonesa que passou por mim para ir ao banheiro, antes do avião começar os procedimentos de aterrissagem em Tóquio. Eu estava de bobeira no fundo do avião, esticando as pernas, e ela veio, toda senhorinha e completamente japonesa, "Hai!", reverência, risinho envergonhado, enfim, um clichê ambulante a 11 mil metros de altitude. A velhinha passou por mim e então se pôs a analisar a porta do banheiro. Ela olhou, olhou, olhou para aquela rodelinha em torno da maçaneta onde estava escrito VACANT, e não teve coragem de tentar abrir. E com razão. Se você analisar a palavra VACANT com os olhos de quem tenta decifrar um ideograma, você vai chegar à conclusão de que boa coisa aquilo não deve dizer. Esse V colocado ao lado de um V invertido e cortado por um tracinho; esse C vazio de tudo; esse T áspero e seco no final -- é lógico que o ideograma VACANT significa algo como tente mais tarde, minha senhora. Então ela se virou e olhou para mim -- e veja bem: ela olhou para mim não como quem pede ajuda, mas como quem pede desculpas por ter sido tão tola e ter chegado até ali perto, quando de longe dava para ver que estava escrito VACANT, e que VACANT quer dizer tente mais tarde minha senhora --,  ela olhou para mim, envergonhadíssima, e já estava voltando resoluta para o seu lugar, quando eu gesticulei em japonês: "Hai!". (É muito fácil gesticular em japonês. Basta você fazer cara de japonês de comercial, emendar uma pequena reverência com a cabeça e dizer "Hai!". Gesticular em francês também é bico. Você faz cara de nojo, dá de ombros e solta um "Pffff!".) Eu gesticulei "Hai" e ela entendeu pelo ideograma do meu gesto que o banheiro estava livre, sim, bastava ela não ter medo daquelas seis letras estranhas em volta da maçaneta. Ela agradeceu, hai!, sei lá quê arigatô gozamaishtá, e então puxou a porta para fora, empurrou a porta para dentro e conseguiu entrar. Quando a velhinha desapareceu no banheiro, eu pensei: eu sou você amanhã. Não, não. Eu sou você daqui a pouquinho. (O famoso Efeito Kirin.)

 

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Escrito por Ricardo Freire às 00h15
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Antes de mais nada, preciso dizer que eu sou muito mal-acostumado. Quando eu chego a um lugar, eu já pesquisei dois ou três guias, vasculhei meu arquivo de revistas, entrei na Internet, fiz meu dever de casa direitinho. Normalmente depois de 48 horas eu já manjo a cidade. No terceiro dia, eu chamo a cidade de você, e ela me chama de Mr. Freire. Tudo bem, eu sabia que Tóquio não seria tão fácil assim. Mas eu não poderia imaginar o tamanho do baile que eu levaria nos meus primeiros dias. Nas primeiras 48 horas – as mesmas 48 horasque eu levo para me sentir em casa numa cidade – Tóquio me humilhou, me torturou, me espezinhou. Tóquio só não me bateu porque um lutador de sumô não bate – só derruba. Tudo bem: agora eu sei que não foi intencional. E que a culpa, no final das contas, foi minha.

 

 

É o seguinte. Quando eu escrever uma matéria sobre Tóquio – e isso aqui, apesar do tamanho, não é uma matéria, são só anotações de serviço – vou colocar bem no começo, em negrito e sublinhado, para não passar despercebido: não tente achar nenhum endereço específico em Tóquio. Se não for um shopping, uma loja de departamentos, um templo ou um parque, não perca seu tempo nem desperdice sua paciência. Se o lugar não tiver um letreiro no velho e bom alfabeto romano, esqueça. Você não vai achar. A não ser que você tenhaum concierge que escreva os seus endereços preciosos em japonês e um motorista de táxi que leve você até a porta. Fora isso, só mesmo se você, sei lá, tiver uma sobrinha que esteja aprendendo japonês e venha junto com você.

 

Eu tenho uma sobrinha que está aprendendo japonês, a Aninha. Ela começou pelo Pokémon, evoluiu para o mangá, entrou para um curso do consulado japonês de Porto Alegre e já estudou dois ou três anos, com ótimas notas. Só que a Aninha está na Escócia agora. Trazer a Aninha com a gente, porém, sairia mais barato do que ficar num hotel com concierge e só andar de táxi pra cima e pra baixo.

 

Não é só um prolema de alfabeto. Os endereços japoneses são ainda mais indecifráveis que os ideogramas japoneses. Só as grandes aenidas têm nome – que, em termos de endereço, não servem para nada. Existe uma avenida chamada Meiji Dori, mas não existe um endereço como Meiji Dori, 100. O sistema é assim. Os bairros são subdivididos em pequenas regiões numeradas. Dentro de uma região, cada quarteirão tem seu número. Dentro de cada quadra, cada casa ou edifício tem o seu número também. Por exemplo: o endereço Shibuya 10-3-20 significa que o que você procura está na vigésima casa da terceira quadra da décima micro-região do distrito de Shibuya. Dizendo assim parece quase praticamente tipo assim superfácil. Só que nenhum desses números está visível em lugar nenhum.

 

(Fico pensando se o fato dos japoneses adorarem viajar em grupo não se deva a uma total incapacidade de entender o sistema ocidental de endereçamento. Como assim, Faria Lima com Rebouças? Qual é a lógica dessas duas avenidas fazerem esquina?)

 

A única maneira de você achar um endereço é se alguém informar o caminho passo a passo – desça na estação tal, peque a saída tal, agora está vendo um luminoso assim-assado? É pro lado oposto. Passe pelo banco, vire na segunda máquina de chá gelado, ache um letreiro verde e amarelo, e voilà: o restaurante é o terceiro da esquerda para a direita. O ideal-ideal mesmo é que toda essa explicação seja ilustrada por fotos. O meu hotel fez assim no site de‚Œes, e por isso esse foi o único endereço que eu achei sem problemas.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 00h14
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Ah, o nosso hotel. Por que todas as minhas fontes resolveram conspirar contra mim ao mesmo tempo? Peguei a dica do Andon Ryokan (www.andon.co.jp) numa Traveller, edição inglesa (normalmente mais bem informada do que a americana). Ryokans são htéis ao estilo japonês – tatâmi em vez de camas, portas de correr, luminárias de papel. Quando são realmente tradicionais, os ryokans custam caríssimo. Tóquio não tem nenhum ryokan tradicional – só um punhado de ryokanzinhos meia-boca que fazem as vezes de pensão.

 

O Andon Ryokan caiu nas graças da Traveller inglesa por ser um ryokan-design – um ryokan que até a Wallpaper acharia bacana, caso a Wallpaper se dispusesse a indicar hotéis de 78 dólares sem banheiro no quarto. Eu entrei no site e achei tudo legalzinho. Além do quê, estava querendo me hospedar em ryokans de verdade no interior do Japão – e precisava economizar na minha estada em Tóquio. 78 dólares por noite é só um poucomais do que duas pessoas pagam num albergue em Tóquio. Um japonês que perca o trem e precise se hospedar num hotel-cápsula vai pagar quase a metade disso.

 

Eu deve£òia saber. Quando a esmola-design é muita, o santo-design desconfia. Por fora o ryokan é bárbaro: um predinho revestido pr vidro fosco verde-água. À primeira vista parece uma pequena filial da DPZ em Tóquio. Só que uma pequena filial da DPZ em Tóquio teria salões, móveis da Forma, bicicletas do Petit e quadros do Zaragoza. Em lugar disso, o Andon Ryokan tem cubículos-design. Os quartos não chegam a ser cápsulas, mas são armários. Cada cubículo tem 1,69m de largura – eu sei porque medi com meu próprio corpo, e essa é a minha altura exata. Conheço alguns closets que dão quatro ou cinco desses. O problema nem é dormir num armário. Depois que você acostuma, fica até, digamos, aconchegante. O esquisito e chegar e sair. Nem a bicha mais indecisa do planeta entrou e saiu tanto do armário quanto eu nesses cinco dias.

 

Tudo bem. A Traveller inglesa me mandou para um armário-design. Mas um armário bem-localizado, um armário no fervo, um armário perto de tudo o que um hóspede-design procura? Nananina. A região do meu armário, Minowa, descrita no site do meu armário como "um pedaço ainda bucólico de Tóquio, onde se pode observar a vida como era antes", no meu guia sairia como um dos pedaços mais desoladores de Tóquio, onde se pode observar como pode ser triste a vida por aqui. Com exceção do parque de Ueno e do templo de Asakusa, nós estavamos a pelo menos 7 estações de distância de qualquer coisa com algum interesse na cidade.

 

Mas não seja por isso. Tudo é experiência, e eu estava tendo o privilégio de viver cinco dias como um dekassegui. Ou, vá lá, um dekassegui-design.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 00h13
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Morar longe, contudo, tem uma vantagem. Eu posso ficar mais tempo dentro do paraíso para estrangeiros em Tóquio. O metrô.

 

 

 

No metrô e nos trens japoneses, tudo é inacreditavelmente bilíngüe. O nome das estações, o aviso do próximo trem no painel, a indicação do caminho para as baldeações e para as saídas -- está tudo transcodificado para o alfabeto romano. Ah, os romanos. Como eles podiam ser tão complicados com números mas tão geniais com letras? Como é que 26 letrinhas poem substituir 6 mil ideogramas? Decerto, não podem. Os japoneses devem olhar para esse emaranhado de caracteres, G-I-N-Z-A, S-H-I-N-J-U-K-U, e char tudo vazio e sem significado. VACANT, como o banheiro do avião da vovozinha. Tente mais tarde, minha senhora.

 

Se não bastassem as placas, os avisos sonoros também são bilíngües. Por causa de meia-dúzia de estrangeiros, todos os milhões de usuários do metrô de Tóquio são obrigados a ouvir os anuncios das estações e das interligações com outras linhas em inglês também. Imagina ouvir no metrô de São Paulo: "next station, An-ran-ga-báu. Transfer to Dja-ba-kwa-rah Line". Graças a isso, basta passar meia hora no metrô para se ter a ilusão de que Tóquio é a cidade mais preocupada do mundo em fazer o estrangeiro não se perder. Trata-se de uma cilada, claro. É só emergir de qualquer estação que você não ter a mais remota idéia de para onde deve ir para achar o que quer que seja.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 00h12
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Como eu já disse, aquelas 48horas que eu normalmente levo para me achar numa cidade foram as 48 horas que eu levei para me dar conta de que jamais me acharia em Tóquio. A iluminação me sobreveio depois de quase duas horas perdidas em Shinjuku para achar um rstaurante que dois guias diferentes -- o Time Out e o Eyewitness (editado no Brasil pela Publifolha) -- indicavam como o tempurá com o melhor custo x benefício de Tóquio. Diga-se a meu favor que havia uma diferença de duas quadras entre o mapa do Time Out e o do Eyewitness. Mas mesmo com o dobro de chances de achar o endereço correto, eu rodei, rodei, rodei uma eternidade e não achei a porra do cazzo do maldito infeliz tempurá com o melhor custo x benefício de Tóquio. Foi nesse momento que Buda, Confúcio e todas as divindades xintoístas me iluminaram, e eu percebi que não preciso -- nem ninguém precisa -- experimentar o tempurá com o melhor custo x benefício de Tóquio para gostar de Tóquio. Eu saí do meu transe e me lembrei que rodar uma eternidade para achar qualquer coisa em qualquer lugar é o programa de pior custo x benefíco de uma viagem.

 

 

Foi então que eu formulei o meu doravante clássico Postulado de Tóquio. Que diz o seguinte. Contentese em achar as coisas que podem ser encontradas na boca da estação. Ache as lojas de departamento de Ginza. Os edifícios modernos de Shinjuku. As teens fantasiadas de Harajuku. O boulevard de grifes de Omotosando a Ayoama. O cruzamento famoso de Shibuya. A putaria de Roppongi. O comércio moderninho de Dakanyama. É só emergir da estação, e você já achou o que procurava. Agora: na hora de comer, beber ou comprar, a portinha que chamar a sua atenção naquele instante vai oferecer o melhor custo x benefú€io para a sola do seu sapato.

 

 

 

Minha vida mudou depois do Postulado de Tóquio. Eu ainda vivia como um dekassegui-design, mas pelo menos podia entrar na mais fuleira birosca de udon (uma espécie de miojo para adultos) ou no primeiro sushi de esteira rolante que aparecesse na minha frente, sem dramas de consciência.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 00h11
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Havia um programa gastronômico, no entanto, que já estava na pauta desde antes do Postulado de Tóquio. Queriamos jantar na cobertura do hotel Park Hyatt – um dos cenários mais marcantes do filme "Encontros e Desencontros", de Sofia Coppola. Não só pela vista, nem tanto em busca de uma compensação pelo nosso armário-design – é que, depois de algumas horas em Tóquio, o filme tinha deixado de ser a história bobinha sobre o não-encontro entre um ator americano e uma garota mal-amada, e tinha se revelado uma reportagem fiel e muito bem realizada sobre a incomunicabilidade entre uma cidade e seus visitantes. Como conseqüência, o restaurante do Park Hyatt tinha deixado de ser uma curiosidade para se tornar, para nós, um sítio de peregrinação.

 

Liguei e consegui reserva para as 9 e meia – meio tarde, para Tóquio. Eram 9 e cinco quando colocamos  pé para fora da saída Oeste da estação Shinjuku. Sabíamos que o Park Hyatt ficava pertinho dos prédios imensos da Prefeitura de Tóquio, numa zona de Shinjuku de baixa densidade, ahn, prediográfica. Ia ser bico achar o hotel. Era só seguir o mapa e procurar um luminoso, uma portaria, uma fila de táxis. Às 9 e vinte já tínhamos passado da Prefeitura, e nada de Hyatt. Andamos prum lado e pro outro. Só prédios de escritórios com andares e andares de luz fluorescente e portarias fechadas. Foi então que vimos uma ruela saindo pela lateral de um desses prédios e, nela, uma fila de táxis. Desesperados, perguntamos a um motorista pelo Park Hyatt. Ele apontou para o prédio em frente.

 

Por que a gente não tinha achado? Porque o letreiro erar discretíssimo. A entrada era pelos fundos do grande prédio de escritórios que tínhamos visto na avenida. Os primeiros 40 andares eram, de fato, escritórios. O Park Hyatt começava no 41º. andar. Caceta! Caralho! Putaquepariu! Nem o cazzo da porra de um hotel americano eu consigo achar nessa cidade!

 

Subimos. O restaurante fica no 52º. andar e se chama, perdão, New York Grill. Deve ser o mais lindo Terraço Itália do planeta. A vista do bar, para o lado de Shinjuku com mais arranha-céus, é mais bacana que a dorestaurante. Mas como nos deram uma mesa bem na janela, não pudemos reclamar. Eu tinha levado comigo meu controle remoto, e depois da dificuldade em achar o hotel, não havia outra alternativa senão apertr o botão do foda-se. Não, não vou dizer quantas diárias do armário-design nós gastamos naquele jantar. Só vou dizer que comemos muito bem e nos sentimos os dekasseguis mais bestas da História.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 00h10
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Às 11 e quinze começamos a subir a avenida em direção à estação Shinjuku. Á medida que a gente se aproximava da estação, o filme deixava de se "Encontros e Desencontros" para virar "Koyaanisqatsi". Tóquio inteira corria para não perder o último metrô – ou mêtôrô,como diz a voz do trem no começo de cada aviso. Eu já tinha minha estratégia definida: andar quatro estações e pegar o último trem da linha Hibyia, que nos deixaria a três quadras de casa. A primeira parte do plano deu certo. Aos trancos e barrancos, chegamos inteiros a Ebisu e pegamos o trem da linha Hibyuia um nadinha antes da meia-noite. O trem então andou uma estação só – e parou. Finito. Tá pensando o quê? Que aqui é Paris? Que o último metrô vai necessariamente até o fim da linha? Nananinanão!!!

 

Por esse momento eu não esperava – o metrô, que até alguns posts atrás era "o paraiso do estrangeiro em Tóquio" – tinha nos deixado na mão. Estávamos na terceira estação de nossa linha – a nossa era a antepenúltima, umas 15 paradas adiante. Ou seja: havia uma cidade inteira a cruzar. Numa situação dessas, um japonês se dirigiria ao hotel-cápsula mais próximo. Nós não podiamos fazer isso. Primeiro, porque já tinhamos, mal ou bem, nossa própria cápsula. Cápsula-design, mas cápsula. Depois, não tínhamos como saber se havia hotéis-cápsula em Hiro-ô (o nome da estação em que o trem encalhou). E, finalmente, 45 minutos atrás nos estávamos jantando no Park Hyatt, e o nome do filme é "Encontros e Desencontros", e não "Cinderela".

 

Sem considerar outra saída, emergimos da estação e fizemos sinal para o primeiro táxi que passou. Falei "Minowa" para o motorista e ele repetiu: "Minowa. Hai!". (Que emoção: meu primeiro diálogo inteiramente em japonês.) Olhei para o taxímetro e descobri que a bandeirada em Tóquio é 660 yens (6 dólares e 60 cents). Comecei a ler o aviso afixado atrás da poltrona do motora. Os priemeiros 3 km custam 660 yens. A partir daí são 80 yens a cada 200 metros.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 00h09
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Eu só comecei a avaliar o tamanho da encrenca quando o taxímetro já marcava 30 dólares, mas as placas de trânsito ainda falavam de bairros com nomes de estações bem distantes da nossa. Aos 50 dólares, aquilo começou a doer. Porque a gente não estava indo para o Four Seasons nem para o aeroporto pegar um avião em cima da hora: a gente estava indo para um armário em Diadema. Lá pelos 60 dólares aconteceu algo engraçado (sim, àquela altura eu já estava achando graça): era uma e cinco da madrugada, e o trânsito parou. Obras.

 

Perto dos 70 dólares, avistamos um luminoso com o nome de nossa estação: Minowa. Só que não era essa a avenida que a gente conhecia. E como acharíamos a nossa saída, se a estação estava fechada? Em pânico de ter que pagar 70 dólares para ficar num lugar desconhecido de Tóquio, me lembrei que tinha comigo um cartãozinho com o mapa do armário. O mapa usava o alfabeto romano, mas se eu apontasse a estação e o hotel, o motorista não teria como não achar. Aproveitei o trânsito parado e dei o cartão para o motorista. Ele olhou. E olhou. E olhou. Eu pensava: VACANT. VACANT. VACANT. Passe mais tarde, minha senhora.

 

Então o táxi andou mais um pouco e virou na avenida seguinte. Alú“io. Era a nossa avenida. Daqui já sabíamos chegar a pé. Mas por 73 dólares eu quero mais é ser deixado na porta de casa, concorda? O motorista andou mais um pouco e, por contingência de trânsito, chegou ao nosso quarteirão pelo lado oposto ao que chegávamos a pé. Então ele parou numa bifurcação. Nós também não sabíamos dizer qual das duas ruelas era a certa -- mas tudo bem, a gente podia descer ali, se não fosse uma seria a outra. Antes que pudéssemos falar isso (em gestês, claro), no entanto, o motorista deu uma guinada -- e se mandou para o lado totalmente oposto ao nosso armário. Ei! Pára! Stop! No! -- nós gritamos.

 

Demorou quase uma quadra para o motorista decifrar o ideograma do volume de nossos apelos. Quando ele parou, o taxímetro marcava 7.540 yens. 75 dólares. Eu estava empobrecido, porém realizado. O JAPONÊS TAMBÉM NÃO TINHA CONSEGUIDO ENTENDER UM RELES MAPINHA! Foi a glória. Sem dúvida, foram os 75 dólares mais bem empregados de toda a viagem.

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 00h08
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Essa vai pro Larry Rohter

 

SYDNEY – Desculpa, Austrália. Eu sei que você não tem nada a ver com essa briga. Mas eu não pude deixar passar a oportunidade de recortar essa sereia dos mares gelados do sul em desagravo às pelancudas de Ipanema desencavadas pelo fotógrafo do New York Times. Pronto. Cumpri com o dever pátrio. Mais notícias a qualquer momento, lá do Japão.

Escrito por Ricardo Freire às 16h26
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Postal por escrito: Sydney

Uma das características em comum entre as grandes cidades do mundo é que elas se acham. Ande por Paris, por Nova York, por Londres, por Roma, por San Francisco, por Barcelona, pelo Rio, e você percebe que essas cidades não fazem nada para combater o seu complexo inato de superioridade. Mesmo quando têm problemas crônicos ou insolúveis, como o clima (no caso de Londres), a violência (no caso do Rio) ou a paranóia (no caso atual de Nova York), as grandes cidades do mundo têm certeza de que estão abafando e não perdem a chance de colocar o forasteiro no seu devido lugar.

 

 

 

Sydney tranqüilamente pode ser escalada nesse time de cidades de primeiríssima grandeza. Sydney é linda, gostosa, tranqüila, simpática e civilizada – eu não conheço nenhuma outra grande cidade que mereça esses cinco adjetivos ao mesmo tempo. Mas – engraçado: Sydney não se acha. Quer dizer, depois de uma semana por aqui, não achei que Sydney se achasse. Pode ser que Sydney se ache tanto, mas se ache tanto, que faça uma força incrível para fingir que não está se achando. Mas acho difícil. Você não acha?

 

(Parênteses: viajar é, sim, tirar conclusões precipitadas sobre os lugares que você visita. Se você não quer tirar conclusões precipitadas, não viaje – faça um doutorado. Fecha parênteses.)

 

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Escrito por Ricardo Freire às 16h11
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Uma revista de culinária daqui traz uma entrevistazinha com Anthony Burdain, o cozinheiro que virou escritor de best-sellers ("Cozinha Confidencial", "Por um prato de comida"). Bourdain diz que gosta de Sydney porque aqui é a única "no-bullshit zone" da Terra. O único território livre de frescura do planeta. (Nota do tradutor: livre de frescura no sentido de formalidade e hipocrisia. Porque do outro tipo de frescura Sydney está lotada – a cidade é uma das capitais do mundo gay.)

 

 

Os Sydneysiders – ou sídneis, como quer o meu genial amigo Guime – são tão acessíveis e despojados que não parece que alguém precise nascer aqui para se tornar rapidamente um deles. Eu não consigo me imaginar transformado num parisiense, num florentino ou num carioca ainda nesta encaranação. Mas, sei lá por quê, acho que bastava eu piorar ainda mais a minha pronúncia, e pronto: até eu poderia ser um sídnei.

 

 

 

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Escrito por Ricardo Freire às 16h11
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 Mas será que eu gostaria de ser um sídnei? A cidade é deslumbrante, não há dúvida. Sua baía – que eles chamam de Harbour – é toda recortada, e oferece quarenta prainhas (atenção: eu falei quarenta) com balneareabilidade perfeita. Pegamos uma barca nas docas de Circular Quay e em quinze minutos estávamos em Watsons Bay, onde nos esperavam duas praias pequenininhas, de águas transparentes, que um carioca jamais pensaria em procurar na baía de Guanabara. As barcas – ou os ferries, se você preferir – são os morros de Sydney: é a bordo deles que você aprecia as belezas de Sydney, tanto as naturais quanto as construídas pelo homem. (A propósito: não há avenidas beira-mar. Sydney só se mostra para quem passeia por suas águas.)

 

 

 

O centrão de Sydney, chamado de CBD (Central Business District) é o endereço dos hotéis mais clássicos, e desemboca no cartão-postal da cidade: a Ópera de Sydney, com seu vizinho Jardim Botânico e a Ponte da Baía (Harbour Bridge) ao fundo. Para lá do centrão, em direção ao fundo da baía, ficam as docas do Darling Harbour. Ali foi montado um turistódromo de proporções quase lasvegasianas, com shoppings, monotrilho, cassino, aquário e uns três puertos maderos de restaurantes, bares e lanchonetes.

 

 

 

A Sydney mais bacana, claro, fica fora da zona turística. As primeiras docas para cá do centrão são as de Wooloomooloo, onde um armazém restaurado com inteligência e talento virou um hotel (o W), um condomínio de apartamentos e uma ala de restaurantes, todos chiquérrimos.

 

(Novos parênteses. Provavelmente você não esteja familiarizado com a minha definição para os pontos cardeais em português do Brasil. É assim: para o viajante brasileiro – eu incluído, e na janelinha – não existe esse negócio de norte, sul, leste e oeste. Os pontos cardeais, em português do Brasil, são: à esquerda, à direita, pra cá, pra lá, na frente, atrás, em cima e debaixo. Fecha novos parênteses.)

 

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Escrito por Ricardo Freire às 16h11
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Subindo o morro atrás das docas de Wooloomooloo, você passa pela zona do nem-tão-baixo-meretrício-assim (Kings Cross) e chega a Darlinghurst – que, junto com Paddington e Surry Hill, forma o triângulo de bairros descolados. Por ali todos os restaurantes são bacanas, inclusive os baratos. Muitos deles não têm grana para – ou não se deram ao trabalho de – investir numa licença para vender bebidas, e por isso funcionam em regime "BYO" (bring your own, traga sua própria garrafa). Outros têm licença, e mesmo assim aceitam o BYO, cobrando uma rolha bem módica. Como se não bastasse ser um Leblon gastronômico, Darlinghurst ("Darlo" para os de casa), em especial, está cheio de hotéis charmosos e baratos – alguns até baratíssimos. Se for verão, não esqueça suas Havaianas – entre as oito da manhã e as oito da noite, é o que todo mundo calça.

 

 

As praias ficam meio longe – principalmente para quem está de ônibus. Se bem que, apesar de ter tanta praia, Sydney não é propriamente uma cidade de praia. Eu até poderia dizer que a temperatura da água não deixa – quem consegue entrar n'água em Sydney provavelmente foi pingüim em alguma vida passada. Mas não é isso. A relação da cidade com a praia é totalmente diferente da que a gente está habituado. As pessoas aqui vão à praia como quem vai a um parque – não como quem vai à sala de estar da nação, como no Brasil. Falam muito que os australianos têm cultura de praia, mas nós temos muito a ensinar a eles – a começar pelo queijo de coalho na brasa. Em troca, eles poderiam nos contar como é que se consegue manter uma baía inteira limpa mesmo com portos funcionando e barcas e mais barcas cruzando pra lá e pra cá o tempo todo. Deixo aqui uma sugestão de factóide para o César Maia: dar a concessão da Baía da Guanabara à prefeitura de Sydney, para fazer o que quiser. Aposto que em dez anos todos poderíamos mergulhar e abrir os olhos na enseada de Botafogo.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 16h10
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Mesmo com toda a beleza, toda a limpeza, toda a simpatia e toda a civilização, não sei se eu gostaria de virar um sídnei. Pensando bem, morar aqui pra quê? Para não empinar o nariz? Para não desenvolver um charme que ninguém conseguiria imitar? Para não lançar aquele olhar de eu-moro-na-melhor-cidade-do-mundo-e-você-não? Ah, assim não tem graça.

 

Demorou, mas eu achei o defeito de Sydney. O defeito é que Sydney não se acha.

 



Escrito por Ricardo Freire às 16h10
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Alô, alô, W Sydney

Tenho uma quedinha toda especial por hotéis. Está bem: tenho uma quedona por hotéis. A parte mais importante do planejamento de minhas viagens é a escolha de onde vou me hospedar. Importo guias, fuço as revistas, me interno na Internet, e só sossego quando descubro o hotel mais charmoso e bem-localizado que a minha grana pode comprar.

 

Antigamente, graças ao patrocínio de Gustavo Franco, do Banco Central, a minha grana (e a sua, e a de todo brasileiro que viajava) podia comprar hotéis bem mais bacanas do que hoje em dia. Por isso mesmo, para os crentes da minha religião, planejar as viagens com antecedência ficou ainda mais necessário. Só reservando três, quatro, seis meses antes você vai conseguir aquele hotelzinho espetacular de 100 dólares, aquela pensão de 60 dólares onde você moraria o resto da vida ou mesmo aquele albergue tão profissa que faz você se sentir num hotel.

 

Fora isso, existe um truque infalível para dar um upgrade no departamento hotelaria da sua viagem: passar a última noite num hotel que não cabe no seu bolso. Ou que não caberia, caso você dormisse lá todos os dias da sua viagem. Como é seu último dia, você já passeou quase tudo o que tinha que passear, e vai poder curtir o hotel. E vai voltar para a casa com a ilusão de que passou as férias inteiras naquele palácio.

 

Escolhi Sydney para aplicar o truque do upgrade de último dia porque seria o lugar em que ficaríamos mais tempo – uma semana. Além do quê, Sydney tem um W. E os W's são os hotéis mais interessantes que surgiram ultimamente.

 

Aula de história em um parágrafo: no final dos anos 80, em Nova York, um sujeito chamado Ian Schrager inventou o hotel-design. Chamou designers de vanguarda como Philippe Starck e Andrée Putman e mudou para sempre aquele jeito Hilton de ser dos hotéis. Mais ou menos na mesma época, o inglês Chris Blackwell, que já tinha posto o reggae na moda com a gravadora Island, começou a transformar predinhos art-déco em hotéis descolados em Miami, e deu o empurrão para South Beach ser o que é hoje. Finalmente, no sudeste da Ásia, o indonésio Adrian Zecha inventava o luxo de pés descalços e serviço impecável, com a rede Aman de pequenos resorts. 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 15h26
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Demorou um pouco, mas as grandes redes de hotéis começaram a incorporar o design (philippe-starkiano), a descontração (chris-blackwelliana) e alguns mimos orientais (amanianos). Mas nenhuma rede foi tão longe quanto a Sherwood (que controla, entre outros, os Sheraton). Os caras simplesmente criaram uma marca do zero, a W, para ser a sua rede-design, mais ou menos como as grandes gravadoras inventam selos independentes para produzir coisas de que não seriam capazes no esquemão dominante. Eles trouxeram gente de fora da hotelaria – alguns dos cérebros do projeto foram tirados da tok-stok chique Pottery Barn e da livraria Barnes & Noble –  e conseguiram inventar uma rede de hotéis modernos, gostosíssimos e muito animados. Seus ambientes são contemporâneos, sem jamais caírem na afetação de Philippe Starck e seus imitadores. O serviço é jovem, atencioso e hipercompetente. Em cima do minibar sempre existem coisas inesperadas para se comprar – o de Sydney tinha garrafas de água de chuva australiana (!), baralhos com informações sobre os bares da cidade e comprimidos para superar jet-lag e ressaca.

 

 

 

 

 

 

 

O W Sydney entra fácil na lista de hotéis mais bonitos do mundo: fica num armazém portuário restaurado em que todas as estruturas – até mesmo as esteiras de transportar carga – continuam aparentes.

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 15h25
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No vão central, o bar do térreo – o baladíssimo Waterbar – tem um pé direito "natural" de cinco andares.

 

 

 

 

 

 

 

Na lateral do hotel fica o "puerto madero" mais chique da cidade, as docas de Wooloomooloo, com pelo menos seis restaurantes hypados.

 

 

 

 

 

 

 

E se não bastasse, ainda ganhamos um upgrade, e fomos instalados num loft. Tipo assim duplex. Manja, upgrade do upgrade? Valeu cada centavo de dólar australiano.



Escrito por Ricardo Freire às 15h25
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Big Saturday

SYDNEY -- Sabadão de sol. Nenhuma nuvem no céu. Pego minha equipe de reportagem e vou direto a Bondi (repita: Bondái) estudar o rato-de-praia australiano, ratus praiense australiis, em um dia propício.

 

 

Dos bairros centrais da cidade até Bondi você leva entre 15 e 20 minutos de táxi, ou 50 minutos de ônibus. Existem praias mais próximas, dentro da baía, mas são todas pequeninhas e de mar calmo; quem quer esticar a toalha na areia ou entrar com a prancha no mar precisa ir às praias oceânicas. Dessas, Bondi é a mais badalada; Manly, do outro lado da baía, é a mais fácil de chegar (basta pegar uma balsa no cais central).

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 12h08
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Forçando um pouco a barra, dá até para se sentir no Brasil. Procurando bem, está tudo aqui: o casal do frescobol, a panaca do frisbee, a rapaziada do surf, até mesmo um pessoalzinho jogando futebol – perdão, beach soccer. Mas então você percebe que alguma coisa está errada. Alguma coisa, não – muita coisa está errada. Ou certa demais, sei lá.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

Por exemplo: olha esse calçadão. Não é esquisito um calçadão em que só passa gringo?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Agora repara que doideira. Só passa gringo, mas mesmo assim não tem um camelô! Um camelozinho pra vender uma canga sequer! Cadê minha canga com o desenho da Ópera de Sydney? Cadê meu postal com aborígenes de fio dental? Vou ter que atravessar a avenida e comprar na loja? Desaforo!

 

(Continua no post abaixo)

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h39
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Se você estava pensando em emigrar para a Austrália e ganhar a vida alugando cadeira na praia, pode tirar seu ornitorrinco da chuva. Pelo que eu vi nesse sabadão, o negócio de aluguel de cadeiras na praia em Sydney vai devagar quase parando. Não vi ninguém alugando. E como só tem um concessionário, ele nem precisa escrever sua inicial no encosto das cadeiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu já estava quase alugando uma espreguiçadeira e pedindo a primeira cervejinha do dia quando descobri que não existe ninguém vendendo, contrabandeando nem traficando bebida, comida ou mercadoria de nenhum tipo. Aquele pessoal uniformizado de vermelho e amarelo que eu avistei de longe, veja bem, não são ambulantes, não – são voluntários salva-vidas. Garotos e garotas que passam os fins de semana com camisetas de manga comprida cuidando para que nenhum surfista ou banhista se congele naquele mar de 14 graus Celsius.

 

 

 

Então tive uma idéia. Eu vou ficar aqui e ser um voluntário na praia. Mas vou salvar vidas ao meu modo. Vou levar caipirinhas a todos os que estejam morrendo de tédio. Quando ninguém estiver olhando, vou assar queijo de coalho e distribuir aos velhos e às crianças. E se a polícia vier atrás de mim, vou sair correndo, gritando: Olha o mate! Olha o limão! Limão e mate! Limão e mate! Tenho certeza de que sou capaz de fazer até a água esquentar.

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h32
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Utzon, o fantasma da Ópera

 

Em 1957, um jovem arquiteto dinamarquês chamado Jørn Utzon se inscreveu no concurso mundial que escolheria o projeto para a nova Ópera de Sydney. Quando seu projeto foi escolhido, ninguém poderia imaginar que o prédio viria a se tornar o símbolo de Sydney, o ícone maior da Austrália e provavelmente o edifício moderno mais fotografado do planeta.

 

Não, quem diz isso não sou eu – é Louise, a simpaticíssima guia do tour de uma hora pelo interior do prédio. (Aliás, dos prédios – só de perto é que a gente nota que a Ópera de Sydney é formada por três edifícios: um teatro maior, um menor e um restaurante.) Louise é bonita, carismática e sincera: não esconde nenhum dos podres da história para nós, que pagamos 25 dólares australianos (50 reais) por cabeça e queremos saber tudo, tintim por tintim. Sentados na galeria do teatro principal da Ópera, somos informados que, uma vez escolhido o projeto arquitetônico, se passaram alguns anos até que todos os detalhes de engenharia e acústica pudessem ser resolvidos. Nesse meio tempo, a oposição venceu as eleições para o governo de Nova Gales do Sul – e os novos mandarins, achando o projeto muito caro, resolveram meter o bedelho e cortar custos aqui e ali.

 

Contrariado, Utzon apresentou uma carta de demissão – achando que não seria aceita. Mas foi, e o projeto foi acabado por uma comissão de engenheiros australianos que desfigurou bastante os interiores desenhados por Utzon. O dinamarquês não veio à inauguração do prédio, em 1973 – e nem depois, por mais que tenha sido convidado. Há coisa de dois ou três anos o governo australiano voltou a manter contato com Jørn Utzon, e ele aceitou fazer um projeto de reforma dos interiores da Ópera. Um desses ambientes já está pronto – um pequeno foyer, com vista para a baía, batizado com o nome do arquiteto.

 

 

 

 

 

 

 

O engraçado é que só quando você entra nesse ambiente, de chão de madeira crua e teto sem forro, com todas as estruturas aparentes, é que você percebe a breguice dos carpetes e acrilicos de (alguns dos) outros ambientes. Mas nem depois de fazer as pazes com o governo Utzon se digna a deixar sua casa em Maiorca, na Espanha, para visitar seu filho mais famoso. Segundo Louise, ele alega medo de avião – uma desculpa deveras niemeyeriana. A propósito – se de longe a Ópera parece um veleiro, um pássaro ou um trailer do Guggenheim de Bilbao, de perto a gente não em como não pensar numa Pampulha gigantesca. Na sua recusa em visitar Sydney, no entanto, Utzon se revela bem mais profissional que Niemeyer: Jørn Utzon acredita que um prédio só é bonito de verdade quando você tem prazer de entrar nele.

 



Escrito por Ricardo Freire às 10h31
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Viajar é...

... colecionar benjamins.

A eletricidade é uma só em qualquer lugar do mundo – vá lá, em alguns lugares é 110, em outros, 220. Mas a criatividade do ser humano é infinita, então cada país com representação diplomática na ONU se acha no direito de inventar sua própria tomada, pessoal e intransferível. Não existe lógica nenhuma na adoção da tomada xis ou da tomada ípsilon – tipo assim, uma mesma tomada para todos os países de um mesmo continente, ou uma tomada pan-imperial para todas as ex-colônias de determinado país, ou uma tomada única para todos os países que usem leite de coco e/ou exagerem na pimenta. Não. A cena é recorrente. Lá pelas 11 e meia da noite, eu vou ligar o meu laptop, e só então descubro que todos, absolutamente todos os plugues que eu comprei desde a popularização dos computadores portáteis não servem no cantinho do planeta que, naquele instante preciso, eu chamo de lar. Eu pensei que já tinha resolvido esse problema para sempre, quando comprei, na França, um kit com plugues das mais variadas posições e orientações sexuais. Mas a Austrália me obrigou a sair no meio da noite e aumentar a minha coleção. Mais um pouco e eu vou precisar comprar uma pequena mochila só para carregar meus benjamins.

... fazer recenseamento de Havaianas.

Dizem que no verão europeu já foi assim. Mas como eu não sei o que é um verão europeu desde que o real parou de valer um dólar, só pude ver com os meus próprios olhos agora. O fato é que Sydney inteira usa Havaianas. Está bem: Sydney inteira usa chinelos de dedo. À primeira vista, metade desses chinelos são Havaianas. Mas daí você olha melhor e percebe que existem muitas sandálias parecidas com Havaianas. Se você examinar com atenção – como eu, que agora não tiro mais meus olhos do chão – vai notar que, com toda segurança, pelo menos 20% dos chinelos usados pelos habitantes de Sydney são Havaianas brasileiras. As que se vêem mais na rua são a marronzinha, a preta e a branca. A que tem a bandeira brasileira na tira também faz sucesso (consta que foi o "hit" do verão europeu) – mas além dela existe uma série de Havaianas legítimas específica para o mercado daqui, com a bandeira australiana. Durante o dia, fora do centrão da cidade, você vê mais gente de chinelo de dedo do que de tênis – o que permite intuir que, fora do centro da cidade, tem mais gente calçando Havaiana do que Nike. Será que era isso que Caetano queria dizer com "Sejamos imperialistas!"? A única coisa que não combina é que queremos ser imperialistas com produtos que têm nomes de outros lugares. As sandálias brasileiras não são cariocas, mas Havaianas; o guaraná não se chama Amazonas, mas Antarctica, e a cerveja brasileira que a Interbrew quer marquetear no mundo inteiro não leva o nome do deus Tupã nem do deus Olorum, mas do deus Brahma.

... não saber para que lado olhar na hora de atravessar a rua.

Já faz quinze dias que estou perambulando por lugares de língua e mão inglesas. Mesmo depois de todo esse tempo, continuo sem saber de que lado vem o carro que vai me atropelar. Por isso, antes de atravessar a rua, olho para um lado. Olho para o outro lado. Então olho para cima, depois olho para baixo, aí dou uma volta completa no meu próprio eixo e, finalmente, espero algum nativo aparecer, quando então aproveito para atravessar junto.

... descobrir que seu inglês não serve para nada.

Não tenho certeza, mas se eu entendi direito quando me explicaram, os mesmos ideogramas chineses significam coisas idênticas tanto em mandarim quanto em cantonês – a pronúncia é que é inteiramente diferente. Em inglês é assim também. Os australianos usam as mesmas letras que os ingleses e os americanos na hora de compor suas palavras, mas pronunciam como se falassem uma mistura entre o cockney e o finlandês. Quando falo com garçons, recepcionistas e atendentes em geral, nunca consigo entender mais do que 37,4% do que eles dizem. Isso me deixa muito inseguro, e, como conseqüência, só consigo falar entre 12,1 e 13,5% do que sou capaz. Ainda não me machuquei nem coloquei ninguém em risco por causa disso, mas meus colóquios australianos já provocaram resultados inesperados. Ontem mesmo, no pub aqui perto do hotel, eu pedi duas taças de vinho e uma água com gás, e me serviram duas taças de vinho e... uma de champanhe. Mas nada se compara ao restaurante vietnamita nouveau a que fomos outro dia. Dos quatro pratos que pedimos, dois vieram trocados. Em vez de cogumelos com alho e pimenta veio um camarão com gengibre e coco. E no lugar do carneiro com macarrão de coentro veio um carpaccio de bife de Kobe com feijão verde. Tudo porque, em vez de recitar o nome do prato inteirinho, eu resolvi ser fino e pedir pelo nome do ingrediente principal. Eu poderia ter mandado os pratos de volta, mas a noite estava bonita, o restaurante era agradável e nós resolvemos não causar nenhum tsunâmi na cozinha. De todo modo, aprendi a lição. Na hora da sobremesa, em vez de pedir só uma "crème brûlée" e receber, quem sabe, uma banana split, eu olhei nos olhos do garçom e falei, pausadamente: gin-ger and li-me crè-me brûl-lée with es-pres-so jel-ly and tof-fee. P-l-e-a-s-e.

 



Escrito por Ricardo Freire às 22h10
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Procura-se: defeito

 

SYDNEY – Já estou há três dias em Sydney. (Sim, este blog é que nem novela brasileira em Portugal: chega sempre com algum atraso.) São três dias em que tenho estado na busca incessante de algum defeito na cidade. Infelizmente, até agora, não consegui achar nenhum.

 

 

Por culpa do guia Time Out Sidney, estou irremediavelmente instalado no bairro mais descolado da cidade, Darlinghurst ("Darlo" para os mais chegados). A cidade é desagradavelmente limpa e bonita. Para piorar, as pessoas são extremamente simpáticas. Tudo parece ter sido irritantemente feito para você se sentir à vontade em qualquer lugar. E como se não bastasse, os dias têm sido insuportavelmente esplendorosos. E dê-lhe agüentar um céu sem nuvens, uma brisa constante e noites sempre fresquinhas, dia após dia. Assim não dá.

 

 

Quer dizer: existe um defeito em Sydney que eu identifiquei logo de cara. Para mim, o defeito mais evidente de Sydney está no fato de eu não morar aqui. Eu sei, eu sei, esse não é um defeito tão relevante. Trata-se de um defeito encontrável nas melhores cidades do mundo. Veja o caso do Rio de Janeiro, por exemplo. As pessoas falam da violência, falam da sujeira, mas na minha opinião o maior defeito do Rio de Janeiro é que eu não moro lá. (Alguns dirão que esta talvez seja a única qualidade que o Rio manteve nos últimos tempos, mas enfim – cada um, cada um.) Paris, por sinal, também tem esse defeito. E San Francisco. Salvador. Trancoso. Não, esse defeito que eu encontrei em Sydney é muito corriqueiro. Haverá outros, com certeza. Por mais que eles tentem esconder, eu hei de desencavar uns podres.

 

 

Essa cidade não sabe com quem está se metendo. Eu não saio daqui sem descobrir ao menos um defeitinho. Já estou até na pista de um. Haha! Me aguardem.

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h23
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Postal por escrito: Cingapura

 

Apesar do nosso hotel ficar em Chinatown, do outro lado da rua tem um templo hindu. Existe em outra parte da cidade um bairro chamado Little India, mas mesmo assim há pelo menos dois templos hindus em Chinatown. (E uma mesquita, também.) Nesse templo defronte ao hotel acontece um ritual estranhíssimo – para não dizer hilário. Primeiro o fiel entra e some lá dentro do tempo. Dali a um tempo ele volta ao pátio de entrada com um coco na mão. Não o coco inteiro – só aquela bola encrespada que contém a água. Ah, sim: o coco vem com um pavio, que o fiel acende numa pira. Uma vez aceso o pavio do coco, o fiel usa o coco para fazer um defumaçãozinha rápida (de descarrego?) nele mesmo. Não, ainda não começou a parte hilária. A parte hilária vem agora: o fiel tira o pavio do coco, joga o pavio na pira e... põe-se a arremessar o coco contra o chão da entrada do templo, TAC, TAC, TAC, até espatifar: PLEC! E se depois você achar que o chão ficou muito congestionado de restos mortais de coco, você pega uma vassoura e procede a uma lavagem básica das escadarias de Lord Shiva.

(Não, não fotografei. Eu precisaria nascer de novo para conseguir chegar com uma câmera na frente de uma pessoa que, não contente em catar coquinho, acende o pavio do coquinho e fica jogando coquinho no chão até arrebentar.)

Para presenciar uma cena assim na Índia, o visitante tem que superar o calor, a poeira, os insetos e o assédio de mendigos, aleijados, candidatos a guia e condutores de riquixá. Em Cingapura não: aqui ninguém vem importunar você. Não há lixo na rua. Os táxis são numerosos e vêm com quatro rodas e motor. E você nunca está a mais de cinco minutos de algum ambiente com ar-condicionado.

 

 

 

 

 

 

Cingapura tem povos de três culturas – chineses, malaios e indianos – vivendo com a maior renda per capita de qualquer país do mundo situado nos trópicos. Antes da crise asiática de 98, a renda média em Cingapura tinha batido a da França – me deu uma preguiça danada de gloogar uma estatística mais recente, mas ainda hoje eles devem dar um banho na gente.

 

 

 

 

 

 

Existem lugares mais exóticos e autênticos, mas Cingapura é perfeita como primeira escala de um tour pelo sul e sudeste asiáticos. Se me encomendassem um slogan para a cidade, eu tacaria: "Ásia para principiantes". A propósito, Cingapura daria um ótimo infomercial. Tipo assim:

Antes de conhecer a Ásia de verdade, passe no nosso showroom: Cingapura! Visite templos chineses, hindus e muçulmanos! Você não precisa nem entrar em restaurantes: basta passar numa de nossas inúmeras praças de alimentação (veja a foto) e fazer a festa, misturando pratos chineses, malaios e indianos! Cuidado com a pimenta! Mas não deixe de experimentar nossa deliciosa cerveja Tiger! Passeie pelas ruas restauradas de Chinatown com suas lojas e restaurantes transadinhos! Sim, é mais bonito que Hong Kong! E não se esqueça! Nós podemos ser budistas, muçulmanos e hindus, mas nossa verdadeira religião são as compras! Passe num dos 26 shopping centers da Orchard Road e comprove com seus próprios olhos!

O que eu vim fazer pela terceira vez na vida num lugar que é a Ásia para... principiantes? Uma escala técnica. Eu precisava ir da África do Sul para a Austrália uma companhia da Star Alliance (e, quando eu comprei a passagem, a South African ainda não tinha entrado para a aliança). Eis que entra em cena aquela que talvez seja a melhor desculpa para alguém vir a Cingapura: a Singapore Airlines – uma companhia aérea que consegue ser tão melhor, mas tão melhor que as outras, que até na classe econômica a gente percebe a diferença.

 



Escrito por Ricardo Freire às 21h58
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Projeto Cingapura

Se perguntassem a São Paulo que cidade ela gostaria de ser, São Paulo responderia, sem pestanejar: Nova York. Cá entre nós, ninguém esperaria uma resposta diferente. Desde pequenininha, São Paulo está acostumada a ouvir: você é a Manhattan paulista. A Nova York da América do Sul!

Ninguém nunca teve coragem de chamar São Paulo para uma conversa séria e dizer, nos olhos dela, que essa mania de morar longe do trabalho e de depender do carro para tudo (até para ir à padaria), convenhamos, não tem nada a ver com Nova York. Está mais para Los Angeles. Mas – tudo bem. Não vamos contar isso a São Paulo justo nessa altura do campeonato.

Se perguntassem a São Paulo que cidade ela não gostaria de ser, a resposta também estaria na ponta da língua: o Rio de Janeiro. Não que isso seja inteiramente verdade. Mas não tem problema. Cidades são humanas e precisam cultivar suas picuinhas e rivalidades – senão que graça tem a vida, não é mesmo?

No fundo, no fundo, a cidade que São Paulo gostaria de ser é a Cidade do México. Não pela cidade em si – até porque São Paulo não faz a mínima idéia de como a Cidade do México seja. O que São Paulo inveja na Cidade do Mèxico é o título. Ah, como São Paulo gostaria de encher a boca para dizer: "A maior cidade do mundo!". A gente sabe que isso é uma bobagem. Mas quem consegue convencer São Paulo disso?

Se São Paulo viajasse mais, se São Paulo conhecesse novos lugares, talvez descobrisse outros modelos para se inspirar. Eu, particularmente, acho que São Paulo se identificaria muitíssimo com Cingapura. Não, não tem nada a ver com os grandes projetos habitacionais que deram moradia decente a todos os cingapuranos. Nada a ver. São Paulo só tem cabeça para essas coisas de quatro em quatro anos, quando chega perto das eleições.

 

 

 

 

 

 

 O que São Paulo ia amar em Cingapura é que aqui existe uma Faria Lima inteira só de shopping centers. Imagine: 26 shopping centers! Numa Faria Lima só! (Fora uns outros doze nas transversais.) São Paulo ia ficar doidinha em Cingapura. Ou, então, morreria de ciúme. Por que o Iguatemi de Cingapura tem uma loja da Chanel e eu não tenho?



Escrito por Ricardo Freire às 21h53
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Faça o que eu digo...

CINGAPURA -- Se você vai fazer uma viagem intercontinental e vai chegar de manhãzinha (como é o caso, por exemplo, dos vôos do Brasil para Nova York), deixe o hotel reservado desde a noite anterior. Assim, quando você chegar amassado, arrasado e esbodegado de uma noite de cão enclausurado na lata de sardinha da classe econômica, você vai poder subir direto para o seu quarto, tomar banho, ir ao banheiro, trocar de roupa, tirar uma soneca – enfim, fazer o que for preciso para recuperar a dignidade, a auto-estima e a alegria de viver. Custa caro? Custa. Mas faça uma artimanha contábil: incorpore o custo dessa primeira diária à passagem. Divida por dois e tente acreditar que é uma sobretaxa de embarque.

De vez em quando eu me pego desobedecendo meus próprios ensinamentos. Aconteceu agora de novo. Só porque o vôo da Cidade do Cabo a Cingapura não era o primeiro da viagem, eu esqueci de reservar o hotel em Cingapura desde a véspera. Quando chegamos em Cingapura, o relógio local marcava 6 da manhã. Na África do Sul, onde tínhamos ficado cinco dias, ainda era meia-noite. No Brasil, de onde tínhamos saído há menos de uma semana, estava começando o Jornal Nacional. Talvez por não terem mais a mínima idéia de que horas fossem, nossos organismos tinham se recusado a dormir durante um minuto sequer durante as 13 horas de viagem (com escala em Johanesburgo).

Quando chegamos ao hotel, às 7 da manhã, eu já sabia o que a recepcionista ia dizer: sorry, o hotel está lotado, seu quarto vai ficar pronto às... 3 da tarde. Não tinha como ser diferente – o Hotel 1929 é o hotel barato & charmoso recomendado por todas as revistas bacanas para quem vem a Cingapura. Eu só consegui lugar porque reservei há muitos meses. Eu pensei em tudo – menos nas oito horas em que nos tornaríamos os dois únicos moradores de rua de Cingapura.

Nessas horas só há uma coisa que pode fazer a pessoa esquecer da sua condição de sem-teto: tomar café da manhã no melhor hotel da cidade. Deixamos as malas no depósito e fomos caminhando até o Raffles.

 

 

 

 

 

Ah, o Raffles. O Raffles Hotel talvez seja o mais bonito dos hotéis coloniais da Ásia. No tempo do dólar irreal, eu andei me hospedando em vários deles: o Oriental em Bangkok, o Peninsula em Hong Kong, o Taj Mahal em Bombaim, o Métropole em Hanói. Mas o Raffles sempre foi o meu – o nosso – favorito, pelo serviço impecável, pela vegetação tropical exuberante, pelo sikh de turbante sempre a postos na entrada (veja a foto) e pela total falta de esnobismo.

Mesmo com cara de quem tinha passado treze horas na classe econômica, fomos atendidos como se fôssemos hóspedes. No meio do caminho entre o buffet e a nossa mesa, sempre aparecia um garçom para pegar o prato da minha mão e levar ao meu lugar. Quando o café – expresso, duplo – estava pela metade na xícara, sempre aparecia um garçom para substituir por um café novinho.

No buffet, frutas exóticas – rambutan, longan (duas parentes da lichia), fruta-dragão (toda pintadinha), melancia amarela (veja a foto). Dim sum (bolinhos chineses no vapor). Mingau de coco com rodelas de banana. Mamão com parma. E outras mumunhas mais. A 20 dólares (americanos) por pessoa, nem é tão caro. (Um Singapore Sling, o drink oficial da cidade que foi inventado no Raffles, custa 10 dólares americanos em qualquer um dos bares do hotel.)

Saímos do Raffles e, puff! – o encanto acabou. Voltamos a ser dois sem-teto perambulando sem rumo e com sono sob a umidade equatorial de Cingapura. Lá pelas tantas, nos demos por vencidos e pegamos um táxi para nos refugiar no ar-condicionado da recepção do nosso hotel. Era uma e meia da tarde quando a recepcionista trouxe a Boa Nova: "Seu quarto está pronto, podem subir!". Entendeu por que esse post demorou tanto?

(Mais Cingapura, só amanhã, porque hoje eu preciso acabar a Xongas.)



Escrito por Ricardo Freire às 22h33
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A seguir cenas dos próximos posts

Só para avisar que eu publiquei os próximos trocentos posts na ordem direta de leitura. Comece em "Turismo de esquerda: teoria" e vá rolando a página normalmente até "Postal por escrito: Cidade do Cabo". Inté.



Escrito por Ricardo Freire às 15h47
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Turismo de esquerda: teoria

CIDADE DO CABO – Meu humorista de direita favorito, o americano P.J. O'Rourke, certa vez embarcou, só de sarro, num cruzeiro de comunistas americanos pelo rio Volga. Era o auge da guerra fria e a União Soviética ainda posava de superpotência. O cruzeiro dos comunas americanos fazia paradas não em vilarejos românticos ou igrejas históricas, mas em grandes hidrelétricas e em outros exemplos bem – perdão – concretos da eficiência soviética. Foi quando P.J. teve uma iluminação que mudaria o rumo da sua carreira. Se a vida real estava repleta de coisas hilariantes como cruzeiros de comunistas americanos por hidrelétricas do rio Volga, ele não precisaria mais se esfolar para inventar coisas engraçadas do nada. Bastava descobrir onde essas coisas engraçadas estavam acontecendo, ir até lá e simplesmente voltar com o relato debaixo do braço.

Mas não, nem toda viagem de esquerda encerra as possibilidades humorísticas de um cruzeiro de comunistas americanos pelo Volga.

 

A essência do turismo bem-intencionado pode ser encontrada in natura em guias como o Lonely Planet. Hoje em dia a série está um pouquinho mais relaxada, mas ainda assim continua sendo a melhor fonte de informação para quem não se contenta em apenas visitar um país pobre, mas quer também sentir na pele o que é viver sem ar condicionado, chuveiro e privada. O sujeito deixa para trás a sociedade de consumo e viaja para consumir toda a pobreza que o seu dinheiro puder comprar.

 

A vertente mais xiita do mochilismo encara a privação de conforto como algo tão interessante quanto (ou mais interessante do que) o destino que se está visitando. Em "Video night in Kathmandu", Pico Iyer – um de meus escritores de viagem de cabeceira – descreve os diálogos que entreouvia num café natureba na Freak Street, o ponto de encontro dos hippies no Nepal. Cada maluco tinha uma história de horror para contar –pânico e acessos de vômito num ônibus lotado serpenteando pelos precipícios do Tibete; semanas sem banho em pensõezinhas fétidas; comidas amorfas que causaram diarréias inenarráveis. Todos contavam suas histórias com entusiasmo e orgulho, como se disputassem um campeonato do qual sairia vencedor quem tivesse se ferrado mais. Ainda não está claro como isso pode melhorar as condições de vida no planeta – mas certamente esse tipo de viajante ajuda a pagar o karma dos que viajam só para ficar no bem-bom.

 

Paul Theroux, certamente o mais celebrado travel writer vivo, tem ojeriza a tudo aquilo que possa ser chamado de "atração turística". Para ele as únicas coisas interessantes que acontecem numa viagem se passam dentro da cabeça do viajante. Se você espremer bem Theroux, você vai ver que as coisas só acontecem na cabeça do viajante enquanto ele é submetido a atrasos, imprevistos, mal-entendidos e desapontamentos; nada de aproveitável acontece na cabeça do viajante quando ele está tomando sol na espreguiçadeira à beira da piscina num hotel cinco estrelas e o garçom chega com o balde de champanhe.

 

Bom. Em princípio eu não tenho nada contra férias ensolaradas a bordo de espreguiçadeiras e movidas a champanhe. Mas ninguém não precisa ser nenhum Paul Theroux para perceber que não há muito apelo jornalístico nessas viagens. É difícil relatar experiências assim sem cair em exibicionismo nem atrair olho-gordo.

 

Este, por sinal, é o melhor efeito colateral das viagens para destinos desprovidos de glamour: ninguém inveja. Além do mais, viajar para paises mais pobres que o seu pode elevar o seu moral. Meu amigo Newton Bento, grande filósofo do qual o mundo ainda ouvirá falar, disse que nunca gostou tanto de São Paulo quanto depois que passou uma semana em Cuba. Pela primeira vez depois de umas férias no exterior ele não se sentiu chegando num lugar miserável ao desembarcar de volta na Marginal do Tietê.

 

Até há pouco tempo existiam duas maneiras, absolutamente inconciliáveis, de se visitar um país mais pobre do que o seu. Ou você: (a) partia para vivenciar a pobreza, ou: (b) aproveitava para lavar a égua, dando-se a luxos que você não teria como sustentar na sua própria casa. Hoje, entretanto, já dá para: (c) fazer um pouquinho de cada, mais ou menos ao mesmo tempo. Os caras vêm, tiram você do ar-condicionado do seu hotel e... põem você no ar-condicionado de uma van. E então você sai para um breve porém edificante passeio pela vida real.

Escrito por Ricardo Freire às 15h43
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Turismo de esquerda: prática

Capítulo I – Na favela

 

CIDADE DO CABO – Eram 8h30 da manhã de um dia perfeito de verão: nenhuma nuvem no céu, e nadinha daquele vento que às vezes estraga dias perfeitos de verão na Cidade do Cabo. Mas em vez de subir à Table Mountain ou de ir à praia – duas coisas que ainda não tínhamos feito –, nós reservamos dois lugares numa van para ir conhecer uma township, como são chamadas as favelas sul-africanas. Precisar, não precisa – mas se você quer entender a África do Sul, o passeio funciona como um curso intensivo.

 

 

A primeira parada é ainda dentro da cidade – muito perto, aliás, de onde estamos hospedados. O Bo Kaap (Altos do Cabo) é um bairro exclusivamente muçulmano, habitado por descendentes de escravos malaios e indianos. Sua ocupação começou em 1834, quando a coroa britânica tomou o poder dos africâners (holandeses) e aboliu a escravatura. Hoje as casas valorizaram muito, e quem mora aqui é a elite dos malaios-do-Cabo (comerciantes, em sua maioria). Toda vez que há alguma coisa a comemorar na família – nascimento, casamento, formatura – os bo-kaapenses pintam a fachada de casa com alguma cor berrante, sempre constrastando com a cor berrante pintada anteriormente. Lembra do Carnaval dos Menestréis, daquele post lá de baixo? Pois o ponto final dos desfiles é aqui. (Por sinal, descobri o porquê do banjo, dos instrumentos de sopro e até mesmo do desfile: tudo isso foi incorporado ao carnaval deles depois da chegada de um cargueiro de New Orleans.)

 

A segunda parada é numa região desolada e baldia onde até a metade do século passado havia o bairro mais vibrante da Cidade do Cabo, o District Six (Bairro Seis), reduto de ex-escravos negros e mestiços, geralmente cristãos. (Ao contrário do que eu escrevi em outro post, 50% dos escravos eram negros, sim – trazidos, porém, de outros lugares da África; os negros nativos nunca foram escravizados, mas de todo modo a maioria acabou morrendo em guerras ou epidemias.) O District Six era a Lapa da Cidade do Cabo: o bairro dos artistas, da boemia, da malandragem. Mais do que isso, o District Six era um dos pouquíssimos bairros multi-raciais da África do Sul. Em 1948, quando os africâners retomaram o poder e implementaram o apartheid, o governo declarou o District Six "zona residencial branca". Em quinze anos, 60.000 negros e mestiços foram evacuados, com requintes de crueldade, para as townships, e suas casas foram inapelavelmente postas abaixo. As igrejas, no entanto, não foram demolidas (os donos do apartheid eram carolas), e os negros e mestiços – até mesmo em sinal de protesto – continuaram freqüentando suas paróquias. Com isso, nenhum branco quis se mudar para cá – e hoje o bairro é uma imensa terra arrasada. Mas não por muito tempo mais. Com o advento da democracia, antigos moradores se organizaram e criaram o Museu do District Six – uma exposição de marejar os olhos com fotos, jornais, músicas e relíquias do bairro. No chão do museu foi desenhado um mapa (veja a foto) onde os ex-moradores puderam escrever seus nomes na exata posição de suas casas. Uma comissão de notáveis foi formada para examinar todos os casos – e hoje, dez anos depois do fim do apartheid, já começam a ser construídas as primeiras casas a serem devolvidas aos desterrados. Não é emocionante? Pois se eu tivesse ido à praia, você não ficaria sabendo nada disso.

 

(continua no post abaixo)

Escrito por Ricardo Freire às 15h40
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Repetindo a trajetória dos evacuados, saímos do District Six com destino a três townships: duas antigas – uma habitada por coloureds, outra por negros – e uma relativamente nova (iniciada em 1983) e imensa (com um milhão de habitantes), chamada Khayelitsha.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A parte central de uma township não passa de um bairro pobre, habitado por gente remediada que foi transplantada à força do centro da cidade pelas leis de zoneamento racial do apartheid. A favela propriamente dita – onde moram os imigrantes mais recentes e/ou menos qualificados – fica na periferia da township. Por mais chocante que seja ver as nossas favelas no arrabalde de bairros ricos, é mais chocante ainda ver as favelas deles, no arrabalde de bairros pobres, em lugares desolados que o governo escolheu e cercou para os miseráveis morarem.

 

É tudo muito árido e triste, com pouquíssimo comércio. Mesmo nos pontos mais bonitinhos e fotografáveis não dá para sentir a energia que você percebe nas nossas favelas mais, digamos, prósperas. Talvez seja uma questão apenas de geografia – as favelas daqui estão numa região plana e arenosa, sem mato em volta, sem encosta de morro, sem vista. Pode ser também a arquitetura – os barracos são todos térreos, não se constrói nada na laje, não há escadarias ou labirintos. O fato é que não consegui sair de Khayelitsha com a sensação positiva com que saí da Rocinha (onde fiz um tour parecido) ou da favela de Ramos (em pleno Complexo do Alemão) onde fui pegar minha fantasia da Imperatriz Leopoldinense. À primeira vista, ser rico na África do Sul parece ser melhor do que ser rico no Brasil. Mas ser pobre no Brasil parece ser beeeem mais interessante do que ser pobre na África do Sul.

 

(Querendo passar um tempinho por aqui, você pode se hospedar no Bed & Breakfast da Vicky – custa 230 rand, ou 115 reais, por pessoa, com ar condicionado, café da manhã e jantar).

 

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 15h31
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Capítulo II – Na prisão

 

CIDADE DO CABO – A ilha Robben ("das focas", em holandês) já passou por várias encarnações. Primeiro foi usada como leprosário; na Segunda Guerra, virou base militar. Com a implantação do apartheid, foi transformada em prisão de segurança máxima para condenados por crimes politicos; Nelson Mandela, seu ocupante mais famoso, viveu aqui por 27 anos. A prisão foi desativada e hoje a ilha Robben virou um museu – destino do passeio mais politicamente correto do país.

 

Você pega um catamarã nas docas do Waterfront e, 25 minutos depois, desembarca na ilhazinha. O passeio já valeria pela vista – a Table Mountain à distância fica ainda mais impressionante. Os primeiros 45 minutos em terra são passados dentro de um ônibus, com uma guia explicando cada um dos prédios da ilha e contando pequenas histórias de horror político e racial. A primeira parte é OK. Mas a segunda é sensacional: você desce do ônibus e é levado para um tour pela prisão, guiado por um... ex-preso político. Eu não estava preparado (se você for, desculpe, estraguei sua surpresa), e por isso me senti saindo de um passeio turístico para entrar num documentário. Mr. Temba – o "nosso" preso politico – era filiado ao mesmo Congresso Nacional Africano de Mandela. Depois de dar seu depoimento por uns quinze minutos, ele abriu para uma sessão de perguntas. Lá pelas tantas, uma inglesa vestindo uma bata africana perguntou como ele via o que o seu partido estava fazendo no governo. Mr. Temba foi polido, mas deu para notar que ele acha do CNA no governo mais ou menos o que a senadora Heloísa Helena acha do PT no governo.

 

 

 

No final, fomos levados para conhecer a ala e a cela onde Mandela ficou preso, enquanto os alto-falantes tocavam uma gravação a capella feita por ex-presos políticos e que virou uma espécie de hino no país. A música ainda ecoava nos meus ouvidos enquanto o catamarã se aproximava das docas e o sol se escondia atrás da Table Mountain.

 



Escrito por Ricardo Freire às 15h21
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Capítulo III – No táxi

 

FRANSCHHOEK – "O senhor é parente de Paulo Freire?", me perguntou o motorista de táxi que veio nos pegar na pousada para nos levar a Franschhoek, na região vinícola do Cabo Ocidental. Como assim, Paulo Freire? Que eu soubesse, política era assunto de ontem. Hoje o cardápio previa um passeio por estradas panorâmicas na região dos vinhedos, duas sessões de degustação de vinhos e uma tarde à beira da piscina de nossa pousada em Franschhoek.

 

 

Mr. Aubrey, nosso motorista, era praticamente um intelectual. Admirava o trabalho de Paulo Freire por seu sucesso na alfabetização de sul-africanos negros. Dedicava seu tempo livre a investigar sua árvore genealógica (faltava-lhe descobrir por que sua bisavó materna foi a única escrava a não ser alforriada em vida pelo patrão). Perguntou se eu já tinha ido atrás da minha árvore genealógica, e eu falei que não, no Brasil a gente não vai atrás disso – sobretudo negros e mulatos. Expliquei que no Brasil alguns assuntos não se conversam. Que a gente não teria coragem de inventar um negócio como esse passeio à ilha Robben – e, se inventasse, não faria o mínimo sucesso.

 

Ele deveria me contar sobre a colonização francesa, alemã e holandesa na região dos vinhetos, sobre como eles exportam vinhos para a Inglaterra desde o século XVIII, sobre a evolução dos vinhos sul-africanos desde o fim do apartheid. Mas eu é que acabei lhe contando sobre Salvador, sobre o sincretismo católico-iorubá, sobre nossos réveillons de branco à beira do mar. E quando vi, já estávamos em Franschhoek, uma cidade de uma rua só, com mais restaurantes do que casas, no centro de um vale deslumbrante.

 

(Continua no post abaixo)

Escrito por Ricardo Freire às 15h14
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Instalados na pousada, fomos direto para a piscina. Às cinco horas, serviram o chá. Eu não sei o que Paul Theroux diria numa hora dessas, mas à beira da piscina, tomando chá, só me ocorreu o óbvio: de fato, este é um lugar que a Provence escolheria para recomeçar a vida bem longe de casa.

 

Hospedar-se nesta região é caro, mas os vinhos são baratos – e, de um tempo para cá, ficaram ótimos, também. Durante pelo menos um século, a legislação sul-africana determinou o tipo de uva que podia ser plantado e quais processos podiam ser usados na fabricação do vinho. Depois do apartheid essas leis caíram, e só então a indústria vinícola sul-africana pôde se modernizar, mudar as uvas plantadas e experimentar novos blends. Como resultado, os vinhos do país começam agora a ganhar novos mercados.

 

 

 

 

 

 

Mas isso quem nos contou não foi o Aubrey, nosso taxista mulato intelectual. Foi o John, um branquelão com jeito de redneck americano que nos levou ao aeroporto no dia seguinte – arrumando assunto para não precisar conversar a respeito dos quilômetros e mais quilômetros de muros que tentam, mas não conseguem, esconder o favelão de Kayelitsha dos carros que passam pela auto-estrada.



Escrito por Ricardo Freire às 15h09
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Postal por escrito: Cidade do Cabo

Sea Point é uma espécie de Copacabana que foi estudar na França

 

Agora entendi. Quando o presidente Lula visitou Windhoek, a capital da Namíbia, e proferiu sua famosa gafe – "Mas nem parece África!" –, ele não estava querendo ofender nenhum africano. Aquilo foi apenas uma pequena autocrítica, provavelmente em nome de todos nós. Quando Lula disse "Mas nem parece África", o que ele realmente quis dizer era: "Mas nem parece o Brasil!".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Table Mountain recoberta pelo "pano de mesa"; as docas do Waterfront, o shopping favorito da cidade; o bairro restaurado -- e GLS -- do Waterkant

 

Ao visitar minha primeira cidade branca no sul da África, duas coisas me vieram à mente. A primeira: não existem cidades brancas no Brasil. A segunda: não existem brancos no Brasil.

 

Eu já saí do Brasil sabendo que o Rio de Janeiro (ou qualquer outra de nossas grandes cidades) se revelaria uma cidade bem mais africana que a Cidade do Cabo. Eu só não estava preparado é para encontrar uma cidade tão, sei lá, suíça. Não há nenhum vestígio de Terceiro Mundo na Cidade do Cabo – nem aqueles que a gente já se acostumou a ver em Londres, Nova York ou Paris. Está bem: há guardadores de carros (muitos). Há pedintes (alguns). Mas nenhum está sem camisa, de bermudão e chinelo. E além do mais, o cenário em volta é tão certinho, tão limpinho, tão organizado, que parece que eles não são daqui – mais ou menos como os africanos que vendem bolsas Vuitton falsas nas ruas da Itália.

 

A praia de St. James, na orla do Índico

 

Você pode passar semanas inteiras na Cidade do Cabo sem se dar conta que está na África. A parte central da cidade tem um quê de São Francisco. As praias do Atlântico poderiam estar na Califórnia. No lado da península banhado pelo Índico, os vilarejos praianos mais antigos poderiam estar em Cape Cod ou na Cornualha – se em Cape Cod e na Cornualha fizesse esse sol que faz aqui no verão. Na bela região dos vinhedos, a apenas 45 minutos do centro da cidade, as novas construções não seguem mais o estilo colonial holandês, para forçar ainda mais uma bem marqueteada identificação com a Provence.

 

(E sobre as tais semelhanças entre a Cidade do Cabo e o Rio? Ah, sim: tem duas. Um bondinho e um montanhão.)

 

Muito prazer, Cabo da Boa Esperança. À esquerda, o oceano Índico. À direita, o nosso Atlântico.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 14h36
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Em nossa pousada no bairro de Tamboerskloof – a Cidade do Cabo está repleta de pousadas bacanas instaladas em charmosos casarões vitorianos – conhecemos dois brasileiros que vêm para cá há mais dez anos. Os dois ficaram chocados com a nossa insistência em procurar o lado africano da cidade. Como assim, comer comida local? Como assim, procurar um restaurante malaio-do-Cabo? Como assim, fazer um passeio à favela?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bem que o Rio podia ter umas pousadas que nem essa nossa em Tamboerskloof.

 

Assim que eu percebi que dava para passar semanas a fio na Cidade do Cabo sem perceber que se está na África, morri de rir. Porque me dei conta de que é impossível alguém passar 15 minutos no Brasil sem perceber que está no Brasil. E a razão é simples. Não há brasileiro – nem em Curitiba, nem em Gramado, nem mesmo em Blumenau – que seja suficientemente branco para disfarçar a nossa avacalhação. Não importa a cor da pele, somos cultural, intelectual e moralmente coloured. Graças a Deus.

 

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Clifton tem mordomia; Camps Bay tem calçadão e restaurantes; Boulders tem habituês de fraque.

 

Da próxima vez que vier, vou seguir o conselho dos brasileiros que conheci por aqui. Vou aproveitar o tempo firmíssimo dessa época do ano (o clima aqui não é subtropical, é mediterrâneo) para torrar em Clifton. (Mas não vou entrar na água, porque a 11 graus ela só é própria para pingüins.)Vou reservar os restaurantes da moda com antecedência e só pedir os vinhos dos produtores certos. Vou alugar um carro e aprender a dirigir na mão esquerda (o transporte público aqui não existe, e o táxi é caríssimo.)

 

E quando quiser curtir o melhor da África, é fácil: pego o primeiro avião para o Brasil.

 

 

Clifton é uma Ipanema sem ponto de ônibus por perto.



Escrito por Ricardo Freire às 14h23
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A Pedra Chata

 

 

CIDADE DO CABO – A Cidade do Cabo está ao pé de uma cordilheira que se estende até o final da península, no Cabo da Boa Esperança propriamente dito. Para quem está na parte central da cidade, a parte visível (e põe visível nisso) dessa serra é a Table Mountain, um maciço tão alto e tão largo que... bem, tão alto e tão largo que me força a reformular a minha primeira frase. Vamos lá. A Cidade do Cabo está não ao pé, mas ao rodapé da Table Mountain, um maciço de topo tão impressionantemente plano que não deve ter sido posto aí só para fins decorativos. Perambular aqui em baixo deve sujeitar a gente a um regime gravitacional diferenciado – para dizer o mínimo.

 

 

Ponto, parágrafo.

 

Eu podia continuar a vida toda tecendo loas à Table Mountain, à maneira dos suplementos de turismo. Mas por ordens do meu editor (eu) e do meu patrocinador (eu, de novo), o objetivo desta reportagem é fazer uma comparação entre as duas cidades imprensadas entre morro e mar dos dois lados do Atlântico Sul. Haverá quesitos em que a Cidade do Cabo vencerá com muitos corpos (ops) de vantagem, mas no capítulo montanhas de estimação, sorry, dá Rio. As montanhas do Rio são mais discretas e conhecem o seu lugar. Quando você consegue vislumbrar o Corcovado por entre os prédios, você tem certeza de que o Cristo está olhando por você naquele instante preciso. Chegar à enseada de Botafogo – ou, melhor ainda, vir do aeroporto pelo aterro do Flamengo – e dar de cara com o Pão de Açúcar é sempre uma experiência estética transcedental.

 

 

(Continua no post abaixo)

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h17
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Já a Table Mountain é exibida demais. Se você está na parte central da cidade, é impossível fugir dela. Na hipótese (remota) de ela não estar diante do seu nariz, é só olhar para o lado ou para trás, e pimba, ela estará lá. Como é que se diz Table Mountain em português? "Montanha da Mesa"? Acho esquisito. Se a Table Mountain ficasse no Rio, já sei como seria chamada: Pedra Chata.

 

Do outro lado da Table Moutain, no entanto, a coisa muda de figura: uma seqüência de picos conhecidos como os Doze Apóstolos emolduram as praias mais bonitas da península. Como você pode ver na foto ao lado, não dá pra não sentir inveja. Mais um pouco para o sul fica a Chapman´s Peak Drive – a Avenida Niemeyer da Cidade do Cabo; essa sim, humilha e põe a Niemeyer do Rio no chinelo.

 

 

 

 

 

Mas quer saber no que a Table Mountain ganha do Pão de Açúcar? No bondinho. O da Table Mountain é redondo, e tem uma bossa sensacional: o chão e giratório, e faz um giro completo durante a subida. Ninguém precisa brigar para ir do lado direito ou do lado esquerdo.

 

 

 

 

 

Uma vez lá em cima, no entanto, não há vista para nenhum Corcovado.

 

 

 Mas daí, também, já era pedir demais.

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h16
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A minha alegria atravessou o mar

CIDADE DO CABO – Primeiro imprevisto sensacional. Ninguém tinha me avisado, mas olha o que a Cidade do Cabo preparou para a minha chegada: um carnaval!

 

 

Quer dizer, suponho que é por minha causa. Pensa bem: um sujeito vem do Brasil com o firme propósito de traçar paralelos entre a Cidade do Cabo e o Rio de Janeiro, e logo na chegada fica sabendo que no dia seguinte – um 3 de janeiro que não é feriado nem nada – nada menos que 80 blocos (!) vão sair na avenida (!!), com gente fantasiada (!!!) tocando instrumentos de percussão e de sopro (!!!!) e fazendo piruetas com sombrinhas (!!!!). É óbvio que é por minha causa.

 

Se bem que, pelo que li na edição de sexta-feira passada do Cape Times esquecida na sala da minha pousada chique (outra hora falo nela, minha pousada chique), antigamente esse carnaval não era por minha causa, não. Tudo começou em 1834, na libertação dos escravos. Aqui começa uma parte confusa que eu só vou ter como explicar melhor hoje à tarde, quando eu voltar do meu Favela Tour. É que os escravos aqui na Cidade do Cabo não eram negros. Eram malaios, indonésios e indianos. E eram proibidos de tocar música ou fazer festa. Então, quando foram libertados – a um mês do Ano Novo –, eles fizeram o maior carnaval.

 

A coisa foi evoluindo, e os descendentes dos escravos foram se organizando em blocos, que aqui eles chamam de troupes. Em algum momento estabeleceu-se a tradição de todas as trupes saírem no Réveillon e voltarem às ruas nos dias seguintes. Lá pelas tantas, tiveram também a idéia de fazer o desfile virar uma espécie de campeonato entre as trupes. (Alguém conhece alguma história parecida?)

 

(Continua no post abaixo)

 



Escrito por Ricardo Freire às 03h57
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Eu perdi o primeiro desfile, que foi na noite de Réveillon. (Eles na certa devem ter pensado que eu já estava na cidade.) No dia 2, eles souberam que eu estava passeando pelo parque central da cidade, os Company Gardens, e uma trupe apareceu por lá, de surpresa. Foi lindo. Quase chorei. Mas como ninguém estava com fantasia de cetim, não parecia comissão de frente de escola de samba: parecia New Orleans.

 

 

Daí, no dia 3, quando eles iam desfilar de novo, eu tive que ir. Fui bem cedinho, às 9 meia da manhã, ao que eu poderia chamar de "concentração", mas que ninguém por aqui entenderia. A primeira trupe apareceu com uma hora e meio de atraso. Mas eu já estava me divertindo só de ver o povo chegar. Puxa vida. Não precisava se incomodar, Cidade do Cabo.

 

Não, não tente procurar esse evento no seu guia de viagem. O Carnaval dos Menestréis (é assim que se chama) praticamente não atrai turistas e comove muito pouca gente fora da comunidade coloured (não-brancos e não-negros). Os brancos ficam putos da vida porque o desfile leva o dia inteiro (há um intervalo enorme entre a passagem de um bloco e o bloco seguinte) e o trânsito vira um inferno. Outro motivo do Carnaval dos Menestréis não estar nos guias é que a festa é fofinha mas não tem essa animação toda. Todos os fantasiados e quase todos os espectadores são muçulmanos – e, como nós brazucas sabemos muito bem, o mais importante de um carnaval não é a qualidade da música, mas a quantidade de cerveja.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pena que ninguém tenha conseguido me explicar por que esse povo sai na rua tocando uma marchinha levemente acelerada (!) e pontuada por movimentos semi-acrobáticos (!!) feitos com sombrinhas abertas (!!!). Mas não seja por isso. Desde já me candidato a uma bolsa da Universidade de Pernambuco para passar quatro ou cinco verões – só os verões, por favor – pesquisando os pontos de contato entre as orquestras de frevo de Olinda e as trupes de menestréis da Cidade do Cabo.

 

Se a ONU, a Unesco ou o Unicef quiserem que eu vá pesquisar também o carnaval de Trinidad y Tobago, estou à disposição. Eu estava pensando em passar o carnaval em São Paulo, mas lá em casa a gente sacrifica tudo em prol da antropologia.

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 03h57
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Se é tarde, me perdoa

Eu por acaso já agradeci publicamente ao Alexandre Suannes pelo lindo layout do... (eu ia dizer cabeçalho, mas cabeçalho é muito feio), ahn, pelo lindo layout do banner lá do alto do blog? Não? Pois agradeço agora. Obrigado, Suannes. Essas letrinhas mergulhadas até a metade são o máximo. Você é um gênio.



Escrito por Ricardo Freire às 03h43
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É sal, é sol, é (África do) Sul

CIDADE DO CABO – Depois de uma tarde e uma noite por aqui, não sei até onde vou conseguir levar o meu projeto de encontrar paralelos entre o Rio e a Cidade do Cabo. Está certo que, por enquanto, eu só fiquei pela Gávea, pela Urca e pela Glória da Cidade do Cabo. Mas pelo que eu vi da Gávea, da Urca e da Glória da Cidade do Cabo, a Cidade do Cabo me pareceu uma prima ensolarada de... São Francisco. Mas tudo bem. Hoje devo subir ao Pão de Açúcar da Cidade do Cabo. Mais tarde vou dar uma chegadinha na Ipanema da Cidade do Cabo. Amanhã vou fazer um passeio à Rocinha (ou seria o Complexo do Alemão?) da Cidade do Cabo. Quinta-feira vou dormir na Itapaiva da Cidade do Cabo. Ainda preciso descobrir se existe alguma Copacabana na Cidade do Cabo. Mas se houver uma Barra da Tijuca na Cidade do Cabo, prometo passar reto.

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 04h11
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De como nascem as viagens

Viagens podem ser desejadas ou indesejadas. Podem ser arranjadas. Podem ser adotadas. (Podem ser abortadas, também.) Viagens podem ser prematuras. Viagens podem ser até gêmeas (junte duas viagens numa só, e voilà).

 

Poderia ser diferente, mas a verdade é que a maioria das viagens nasce por descuido, mesmo. Em cima da hora você se dá conta de que vem aí um feriadão ou o fim do ano ou as férias das crianças e precisa cumprir suas obrigações domésticas. (Viagens assim costumam ser geradas do jeito mais papai-mamãe que existe: indo direto ao anúncio da CVC no jornal de domingo, sem preliminares nem nada.)

 

As melhores viagens, no entanto, nascem (a) de aventuras irresponsáveis ou (b) de projetos maduros de longo prazo. Você se apaixona por um livro, por um filme, por uma comida, por uma foto, por uma idéia e imediatamente começa a gestar uma viagem que algum dia, se tudo correr bem, verá a luz.

 

Comigo já aconteceu de tudo quanto é jeito. Minha viagem mais esdrúxula e inesperada nasceu de um "Caraca!" que eu ouvi na mesa ao lado da minha, no trabalho. Um mês e meio depois eu poderia ser visto usando 20 mil milhas Smiles para voar até a Venezuela e passar o feriado de Corpus Christi no arquipélago caribenho de Los Roques, onde tirei a foto que ilustra este post. (Num dia que eu estiver sem assunto eu conto essa história inteira.)

 

A viagem para a qual estou embarcando hoje começou a nascer há uns cinco anos.  A idéia era ir à Cidade do Cabo e a Sydney numa mesma empreitada, e na volta escrever alguma coisa como "Todos os Rios de Janeiro do mundo". (Não me venha com São Francisco, Hong Kong ou Vancouver – Rio de Janeiro que é Rio de Janeiro tem que estar no Hemisfério Sul e ter clima, no máximo, subtropical.)

 

A coisa voltou à tona em fevereiro de 2004, quando eu sentei para reescrever meu primeiro livro, o "Viaje na Viagem" (que vai sair em algum momento de 2005 – se eu conseguir terminar –, lotado de informações inéditas, com o título "Almanaque Viaje na Viagem"). Eu tinha passado os últimos quatro anos perambulando nas horas vagas pelo litoral brasileiro, por conta do meu guia de praias (www.freires.com.br). Nesse tempo todo, as viagens para longe foram poucas, e todas vapt-vupt. Reescrever o livro provocou em mim a mesma comichão aeroportuária que o "Viaje" costuma provocar nos leitores. Além do quê, em alguns momentos eu me senti um pouco enferrujado. Como reescrever um livro louvando as grandes viagens superplanejadas, se fazia anos que eu não empreendia nenhuma viagem assim?

 

Foi então que resolvi colocar o Japão no roteiro. Pronto. Eu já tinha uma grande viagem para ficar superplanejando até janeiro chegar.

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 13h59
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Tecnicamente, vou dar uma volta-ao-mundo. Mas não é uma viagem volta-ao-mundo como uma volta-ao-mundo deve ser feita – cheia de escalas que provoquem choques culturais. Não. Meu roteiro é razoavelmente tranqüilo, com poucas escalas, numa seqüência que faz sentido. O que eu fiz foi aproveitar uma tarifa volta-ao-mundo para empreender uma viagem fora das rotas pré-existentes.

 

Para quem se interessa por detalhes técnicos: as alianças de companhias aéreas e os grandes consolidadores de passagens têm tarifas tentadoras para quem quer dar a volta ao mundo. Nos consolidadores você pode conseguir pechinchas tipo 1.000 e poucos dólares – só que, além de obrigatoriamente começar e terminar a viagem no Hemisfério Norte, você vai ter que encarar vôos em companhias engraçadas de países esquisitos. Para nós aqui embaixo a tarifa melhor é de 3.000 dólares na classe econômica, oferecida pelas alianças de grandes companhias aéreas (Star Alliance, da Varig, ou OneWorld, da American).

 

(Só entre nós: na verdade, a tarifa volta-ao-mundo mais barata que existe é a de 11.000 dólares viajando em primeira classe – que é mais ou menos o preço de um bilhetezinho do Brasil pra Europa ali na frente do avião. Meu amigo Gianfranco Panda Beting, que é muito mais chique que eu, já fez essa viagem umas três vezes – clique aqui pra ver o que ele conta.)

 

Para montar uma volta-ao-mundo você precisa, então, de duas coisas: escolher uma aliança de companhias e ter um agente de viagem experiente, que saiba lidar com os podes e os não-podes dessa tarifa. Eu escolhi a Star Alliance por ser a única que voava direto à África do Sul (e para coletar milhas Smiles em todos os trechos), e já tinha o Rubens, da Aviotur, meu super agente de viagem desde o milênio anterior. Apesar de o Panda recomendar ir na primeira classe e na direção oeste (duas decisões que ajudam você a driblar os efeitos do fuso horário), eu vou de econômica mesmo, por uma questão de pindaíba, e na direção leste, porque a seqüência de lugares fica mais interessante (em linhas gerais, vou do menos para o mais civilizado). Primeiro Cidade do Cabo, depois Cingapura, então Sydney, daí Japão e por fim Nova York. Prometo pelo menos um postal por escrito de cada escala (eu falei pelo menos).

 

Passei os últimos oito meses planejando tudo nos mínimos detalhes. Agora é torcer para que os imprevistos sejam sensacionais.



Escrito por Ricardo Freire às 13h57
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Leve o Rolex que você ama para passear em Punta

Parênteses para comentar a capa da Veja São Paulo dessa semana sobre Punta del Este.

* Eu entendo os meus amigos gaúchos que têm casa em Punta. Com exceção de Torres, o litoral gaúcho é desolador, e a gente-fina de Porto Alegre conhecia Punta muito antes dos primeiros mochileiros gaúchos descobrirem o sul de Santa Catarina.

* Eu também entendo os milhonas paulistas que vão pra Punta no Réveillon. Tirando um hotel em Ilhabela e um ou outro restaurante em Camburi, é difícil acreditar que o litoral paulista realmente se localize em São Paulo. (Além do mais, nessa época chove muito em Angra, e as águas mais transparentes da baía de Ilha Grande ficam tomadas por escunas com pagode jorrando pelos alto-falantes.)

* Finalmente, eu entendo os artistas e colunáveis do terceiro, do segundo e até mesmo do primeiro time que aceitam o jabá do cassino e vão posar pra Caras em suas suítes no Conrad.

* O que eu não entendo é um guia de Punta na capa da Vejinha. Uma matéria, vá lá – mas um guia completo, mostrando Punta como, sei lá, a praia onde Campos do Jordão vai veranear???Tudo bem, em Punta "ninguém precisa esconder seu Rolex", revela a reportagem. Mas o texto poderia ao menos fazer alguma menção à cor de doce-de-leite das praias oceânicas de Punta. (As águas azuladas que costumam aparecer nas fotos ficam no estuário do Prata.)

* O.K., eu vou parar de ser ranzinza. Os paulistanos formam o público que mais viaja no Brasil, e é ótimo que a principal revista da cidade dê uma mãozinha pra todo mundo aproveitar melhor suas viagens (em meados de 2004 a Vejinha já tinha publicado um bom guia de Buenos Aires). Mas antes de Punta eu acho que o paulistano merecia um guia para aproveitar o verão do Rio, de Búzios ou de Salvador. Aliás, que tal uma seçãozinha fixa nas duas Vejinhas informando os destaques da semana do outro lado da Ponte Aérea?

* Pronto, fechei os parênteses. Não está mais aqui quem falou. Fui até ali o Japão e já volto.

Escrito por Ricardo Freire às 13h53
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