Postal por escrito: Tóquio
Era hora do rush no metrô.
(Parênteses: não, não vou contar a história dos pobres passageiros sendo empurrados por guardas de luvas brancas para dentro do vagão entupido de gente. Segundo minhas fontes, as TVs normalmente filmam essa cena na estação Shinjuku – a mais movimentada da cidade – às 8 e meia da manhã, quando o rush matinal está nos píncaros do cúmulo do auge. Em cinco dias pegando o metrô direto, não vi nada remotamente parecido. Posso inclusive testemunhar perante o júri que quase sempre consegui me sentar – pelo menos em algum trecho. Fecha parênteses.)

Como eu ia dizendo, era hora do rush no metrô. Acomodado num assento de costas para a janela, e de frente para todos os outros passageiros – muitos deles, em pé –, um homem aparentando menos de 30 anos abriu uma pasta de zíper e tirou lá de dentro um envelope estreito. Eu tinha feito câmbio num banco dois dias antes, e a funcionária irashaimassé kudassai arigatô gozaimás do banco tinha colocado meu dinheiro num envelope igualzinho – deduzi na hora de que se tratava de um envelope de dinheiro. Eis que o sujeito sentado no metrô na hora do rush tira o envelope de dinheiro da pasta, abre o envelope de dinheiro, tira o dinheiro do envelope e começa a contar o dinheiro fora do envelope. Eu por acaso cheguei a comentar que ele estava sentado no metrô na hora do rush? Pois então. Não era muito dinheiro – eram 6 ou 7 mil yens, 60 ou 70 dólares –, mas mesmo assim não pude deixar de ficar profundamente chocado.

Sabe aquela frase-padrão que a gente lê nos guias, "tome todas as precauções de segurança que você tomaria normalmente numa cidade grande"? Em Tóquio, por favor, não tome nenhuma das precauções de segurança que você tomaria numa cidade grande. Ande o tempo todo com o passaporte (nós tínhamos que andar com os nossos – explico melhor num dos próximos posts). Pendure a sua câmera digital caríssima no pescoço e desfile pela rua. Coloque um bolo de dinheiro no bolso da calça e vá em frente. O único perigo que você corre é perder uma dessas coisas na rua e não achar nunca mais.

É esquisito andar na rua com total sensação de segurança. É anormal, entende?, saber que nem nos becos mais sombrios você corre algum perigo. E olha que o que não falta em Tóquio são lugares sombrios. Por sinal, uma das grandes satisfações de visitar Tóquio é descobrir que não, São Paulo não é a cidade mais feia do mundo.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 14h27
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Mas ninguém vem a Tóquio pela paisagem ou mesmo para ver monumentos. Talvez a única "atração turística" tradicional da cidade seja o templo Senso-ji, em Asakusa, lá para os arrabaldes do meu armário, digo, hotel. Mas é um templo pobrinho, que não é páreo para os monumentos de Nikko (a duas horas de distância). A parte mais bacana da visita a Senso-ji foi ter passado pela frente de um jardim-de-infância bem na hora da saída – e aquele monte de mamães japonesas indo buscar seus pimpolhos a bordo da versão japa da Caloi Ceci.
 
Onde é que eu estava, mesmo? Ah, sim: Tóquio não serve para ver paisagens nem monumentos. Tóquio serve para você saber o que é viver num formigueiro. Provavelmente as nossas grandes cidades também sejam formigueiros; a diferença é que, no formigueiro de Tóquio, você é um cupim. Ou um besouro. Ou uma lesma. Às vezes dá vontade de ser um tamanduá, mas passa.
  
Talvez na Tailândia, na Índia ou no Vietnã seja assim também. Só que na Tailândia, na Índia ou no Vietnã você nem chega a entrar de verdade no formigueiro. Você pega um tuk-tuk, ou não resiste ao assédio dos riquixás, ou às vezes já tem um sujeito te esperando no aeroporto com uma plaquinha com o teu nome. Em Tóquio você não pode se movimentar com as mordomias inerentes ao Terceiro Mundo. E se puder, convenhamos, a cidade vai perder completamente a graça.
Agora que acabou, posso até dizer que me hospedar num armário foi mais interessante do que se eu estivesse na suíte do Bill Murray no Park Hyatt. Tóquio não está nos néons em torno das grandes estações. Tóquio está na diminuição do seu espaço pessoal. Não que Tóquio seja claustrofóbica. De jeito nenhum. Você tem menos espaço, mas a cidade é infinita.

Cinco dias é muito pouco para entender Tóquio. Mas cinco dias é tempo demais para ficar em Tóquio. Estava na hora de ir para o Japão. Fui!
(Continue ligado. Vem aí mais Japão ao longo da semana.)
Escrito por Ricardo Freire às 14h26
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Visitando Fuji-san
Em dias claros, ele aparece do lado direito do trem para quem vai de Tóquio em direção a Nagóia e Kyoto. Se você zerar o cronômetro logo que o trem deixa a estação Shinagawa, entre 20 e 25 minutos mais tarde (dependendo do número de paradas) você vai avistar o Monte Fuji. Mas por muito pouco tempo. Dois minutos, se tanto, e pof!: o Monte Fuji desaparece por trás de uma montanha para nunca mais reaparecer.
Dois minutos de Monte Fuji é pouco para você? Pois é possível ir até o pé do Monte Fuji, e até mesmo escalar o Monte Fuji (existem albergues no meio da subida para quem queira desenrolar seu saco de dormir).
Calma, calma, nós não chegamos a tanto. Mas aproveitamos que a previsão do tempo indicava um dia perfeito de sol e viajamos até o parque de Hakone – o lugar mais próximo de Tóquio para quem deseja contemplar a montanha-logotipo do Japão.
Os japoneses chamam o Monte Fuji de "Fuji-san". Muitos guias dizem que "Fuji-san" significa "Sr. Fuji", o que denotaria todo o respeito que os japoneses têm por sua montanha sagrada. Dando uma googlada rápida, porém, vi textos dizendo que "san", no caso, significa "monte", escrito com um ideograma diferente do "san" de senhor, e que essa história de "Sr. Fuji" é furadíssima. Só para dificultar as coisas, no entanto, outros sites dizem que há duas maneiras de escrever (e dizer) "Monte Fuji": "Fuji-san" e "Fuji-yama" – e que os japoneses preferem "Fuji-san" justamente pela semelhança oral (e não escrita) com o "san" de senhor, revelando todo o respeito etc. etc. Eu não tenho o mínimo ideograma de quem esteja com a razão. Só sei que daqui para a frente posso me referir à Marisa Monte tanto como Marisa-san quanto como Marisa-yama.
O passeio toma quase um dia inteiro, mas se o céu estiver claro, vale muito a pena. Para começar, você anda meia hora de trem-bala (provavelmente o primeiro trem-bala da sua viagem) – e no caminho já dá aquela espiada-relâmpago no venerável monte, um pouco antes de descer em Odawara. Aí você compra um passe (entre 28 e 40 dólares, dependendo do dia da semana) que dá direito a viagens ilimitadas numa porção de meios de transporte que servem a região de Hakone. Primeiro você pega um trenzinho lento, depois um ônibus mais lento ainda. Uma hora depois de desembarcar do trem-bala, finalmente você chega a Hakone-moto, que fica à beira de um lago. Epa. O que é aquilo ali atrás das montanhas na margem de lá? Fuji-san! Irashaimassé!

A etapa seguinte consiste em atravessar o lago num.... navio pirata.
 
Por favor, não me pergunte por quê. Só sei que, enquanto eu estava preocupado em fotografar Fuji-san, boa parte dos passageiros estava mais era a fim de virar papagaio japonês de pirata.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 11h12
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No meio do lago a vista de Fuji-san é ainda mais bonita. Mas de repente acontece o mesmo fenômeno registrado no trem-bala: o Monte Fuji some. Aproveitei para ver as fotos que tinha tirado. Você acredita que o fotômetro digital da minha câmera tinha apagado o Monte Fuji de quase metade das fotos? Monte Fugidio, isso sim.
 
Na outra margem a viagem continua por um bondinho (que eles chamam de "ropeway"). Aqui você volta a enxergar Fuji-san – praticamente de pertinho – por quase quinze minutos. Então você diz sayonará para a montanha sagrada e entra num funicular (que eles chamam de "cable car"). Acabou? Não. Ainda tem aquela uma hora de trenzinho até a estação do trem-bala.
Sim, eu tive problemas sérios com os endereços de Tóquio. Mas o endereço do sr. Fuji eu acertei de primeira.

Escrito por Ricardo Freire às 11h12
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Japonês é tudo diferente, né?
TÓQUIO – Normalmente, andar de metrô tem vantagens e desvantagens. Você chega mais rápido, mas acaba deixando de ver a paisagem. Em Tóquio, não. Em Tóquio você não perde nada viajando de metrô. Pelo contrário: não há melhor lugar para observar os japas em seu estado natural. Não digo que seja elegante ficar observando os nativos – com exceção de um ou outro grupo de adolescentes, que também acham graça em observar gaijin, o japonês médio fica totalmente na dele o tempo todo. É como se os outros não existissem. Ou melhor: é como se ele não existisse. Quando não está com o olhar ocupado – num livro, num jornal, ou mais freqüentemente na tela de um celular, jogando ou trocando torpedos –, o passageiro do metrô de Tóquio simplesmente fecha os olhos e tenta, ou finge, tirar um cochilo.

É no metrô que você vai perceber que japonês é tudo diferente. Os ingleses podem ser todos iguais, mas japonês é tudo diferente. Os irlandeses são xerox uns dos outros, os escandinavos são feitos em série, os turcos são clonados, mas japonês é tudo diferente. Tem japonês pálido, tem japonês moreno, tem japonês bolachudo, tem japonês de rosto comprido, tem japonês com cara de esquimó, tem japonês com cara de índio, tem japonês até com cara de japonês. Só não tem japonês gordo nem japonês mal-vestido. Quer dizer: ter, tem – mas minha pesquisa de campo no metrô de Tóquio indica que são estatisticamente irrevelantes. Em Tóquio ao menos, japonês é tudo diferente. E os gordos e mal-vestidos se limitam à margem de erro.
Algumas estações são tão grandes que você pode demorar dez ou quinze minutos até alcançar a saída. Mas nesse caso você nem sequer precisa achar a saída: as estações maiores são verdadeiras cidades auto-suficientes, com galerias e mais galerias conectadas diretamente a shoppings, lojas de departamento e edifícios comerciais. (Anote aí: se você quiser que seu negócio dê certo em Tóquio, construa uma ligação direta com alguma grande estação. Não, eu não vou cobrar pela consultoria.)
Querendo andar de metrô e ver a paisagem de Tóquio ao mesmo tempo, basta pegar a Linha Yamanote – um trem de superfície que percorre um circuito oval, abraçando a (imensa) área central de Tóquio e passando por praticamente todas as grandes estações. Viajar na Yamanote à noite – ou, melhor ainda, ao entardecer – é o city-tour mais bacana que você pode fazer. Só quando você está a bordo do trem de superfície é que Tóquio se revela por inteiro: um deserto de concreto sem-graça com oásis de néon salpicados aqui e ali (em torno das maiores estações). Entre uma grande estação e outra, quando você se cansar da monotonia cinza da cidade apagada, basta olhar para dentro do vagão – você vai ver japoneses lendo, teclando no celular ou fingindo tirar um cochilo. Mas garanto que você não vai encontrar nenhum japonês igual ao outro.

Escrito por Ricardo Freire às 13h46
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Le dernier mêtôrô
(Ou: Cinderela japonesa à meia-noite vira cápsula)
TÓQUIO -- Por onde é que eu começo? Talvez pela velhinha japonesa que passou por mim para ir ao banheiro, antes do avião começar os procedimentos de aterrissagem em Tóquio. Eu estava de bobeira no fundo do avião, esticando as pernas, e ela veio, toda senhorinha e completamente japonesa, "Hai!", reverência, risinho envergonhado, enfim, um clichê ambulante a 11 mil metros de altitude. A velhinha passou por mim e então se pôs a analisar a porta do banheiro. Ela olhou, olhou, olhou para aquela rodelinha em torno da maçaneta onde estava escrito VACANT, e não teve coragem de tentar abrir. E com razão. Se você analisar a palavra VACANT com os olhos de quem tenta decifrar um ideograma, você vai chegar à conclusão de que boa coisa aquilo não deve dizer. Esse V colocado ao lado de um V invertido e cortado por um tracinho; esse C vazio de tudo; esse T áspero e seco no final -- é lógico que o ideograma VACANT significa algo como tente mais tarde, minha senhora. Então ela se virou e olhou para mim -- e veja bem: ela olhou para mim não como quem pede ajuda, mas como quem pede desculpas por ter sido tão tola e ter chegado até ali perto, quando de longe dava para ver que estava escrito VACANT, e que VACANT quer dizer tente mais tarde minha senhora --, ela olhou para mim, envergonhadíssima, e já estava voltando resoluta para o seu lugar, quando eu gesticulei em japonês: "Hai!". (É muito fácil gesticular em japonês. Basta você fazer cara de japonês de comercial, emendar uma pequena reverência com a cabeça e dizer "Hai!". Gesticular em francês também é bico. Você faz cara de nojo, dá de ombros e solta um "Pffff!".) Eu gesticulei "Hai" e ela entendeu pelo ideograma do meu gesto que o banheiro estava livre, sim, bastava ela não ter medo daquelas seis letras estranhas em volta da maçaneta. Ela agradeceu, hai!, sei lá quê arigatô gozamaishtá, e então puxou a porta para fora, empurrou a porta para dentro e conseguiu entrar. Quando a velhinha desapareceu no banheiro, eu pensei: eu sou você amanhã. Não, não. Eu sou você daqui a pouquinho. (O famoso Efeito Kirin.)
Continua no post abaixo
Escrito por Ricardo Freire às 00h15
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Antes de mais nada, preciso dizer que eu sou muito mal-acostumado. Quando eu chego a um lugar, eu já pesquisei dois ou três guias, vasculhei meu arquivo de revistas, entrei na Internet, fiz meu dever de casa direitinho. Normalmente depois de 48 horas eu já manjo a cidade. No terceiro dia, eu chamo a cidade de você, e ela me chama de Mr. Freire. Tudo bem, eu sabia que Tóquio não seria tão fácil assim. Mas eu não poderia imaginar o tamanho do baile que eu levaria nos meus primeiros dias. Nas primeiras 48 horas – as mesmas 48 horasque eu levo para me sentir em casa numa cidade – Tóquio me humilhou, me torturou, me espezinhou. Tóquio só não me bateu porque um lutador de sumô não bate – só derruba. Tudo bem: agora eu sei que não foi intencional. E que a culpa, no final das contas, foi minha.

É o seguinte. Quando eu escrever uma matéria sobre Tóquio – e isso aqui, apesar do tamanho, não é uma matéria, são só anotações de serviço – vou colocar bem no começo, em negrito e sublinhado, para não passar despercebido: não tente achar nenhum endereço específico em Tóquio. Se não for um shopping, uma loja de departamentos, um templo ou um parque, não perca seu tempo nem desperdice sua paciência. Se o lugar não tiver um letreiro no velho e bom alfabeto romano, esqueça. Você não vai achar. A não ser que você tenhaum concierge que escreva os seus endereços preciosos em japonês e um motorista de táxi que leve você até a porta. Fora isso, só mesmo se você, sei lá, tiver uma sobrinha que esteja aprendendo japonês e venha junto com você.
Eu tenho uma sobrinha que está aprendendo japonês, a Aninha. Ela começou pelo Pokémon, evoluiu para o mangá, entrou para um curso do consulado japonês de Porto Alegre e já estudou dois ou três anos, com ótimas notas. Só que a Aninha está na Escócia agora. Trazer a Aninha com a gente, porém, sairia mais barato do que ficar num hotel com concierge e só andar de táxi pra cima e pra baixo.
Não é só um prolema de alfabeto. Os endereços japoneses são ainda mais indecifráveis que os ideogramas japoneses. Só as grandes aenidas têm nome – que, em termos de endereço, não servem para nada. Existe uma avenida chamada Meiji Dori, mas não existe um endereço como Meiji Dori, 100. O sistema é assim. Os bairros são subdivididos em pequenas regiões numeradas. Dentro de uma região, cada quarteirão tem seu número. Dentro de cada quadra, cada casa ou edifício tem o seu número também. Por exemplo: o endereço Shibuya 10-3-20 significa que o que você procura está na vigésima casa da terceira quadra da décima micro-região do distrito de Shibuya. Dizendo assim parece quase praticamente tipo assim superfácil. Só que nenhum desses números está visível em lugar nenhum.
(Fico pensando se o fato dos japoneses adorarem viajar em grupo não se deva a uma total incapacidade de entender o sistema ocidental de endereçamento. Como assim, Faria Lima com Rebouças? Qual é a lógica dessas duas avenidas fazerem esquina?)
A única maneira de você achar um endereço é se alguém informar o caminho passo a passo – desça na estação tal, peque a saída tal, agora está vendo um luminoso assim-assado? É pro lado oposto. Passe pelo banco, vire na segunda máquina de chá gelado, ache um letreiro verde e amarelo, e voilà: o restaurante é o terceiro da esquerda para a direita. O ideal-ideal mesmo é que toda essa explicação seja ilustrada por fotos. O meu hotel fez assim no site de‚Œes, e por isso esse foi o único endereço que eu achei sem problemas.
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Escrito por Ricardo Freire às 00h14
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Ah, o nosso hotel. Por que todas as minhas fontes resolveram conspirar contra mim ao mesmo tempo? Peguei a dica do Andon Ryokan (www.andon.co.jp) numa Traveller, edição inglesa (normalmente mais bem informada do que a americana). Ryokans são htéis ao estilo japonês – tatâmi em vez de camas, portas de correr, luminárias de papel. Quando são realmente tradicionais, os ryokans custam caríssimo. Tóquio não tem nenhum ryokan tradicional – só um punhado de ryokanzinhos meia-boca que fazem as vezes de pensão.
O Andon Ryokan caiu nas graças da Traveller inglesa por ser um ryokan-design – um ryokan que até a Wallpaper acharia bacana, caso a Wallpaper se dispusesse a indicar hotéis de 78 dólares sem banheiro no quarto. Eu entrei no site e achei tudo legalzinho. Além do quê, estava querendo me hospedar em ryokans de verdade no interior do Japão – e precisava economizar na minha estada em Tóquio. 78 dólares por noite é só um poucomais do que duas pessoas pagam num albergue em Tóquio. Um japonês que perca o trem e precise se hospedar num hotel-cápsula vai pagar quase a metade disso.
Eu deve£òia saber. Quando a esmola-design é muita, o santo-design desconfia. Por fora o ryokan é bárbaro: um predinho revestido pr vidro fosco verde-água. À primeira vista parece uma pequena filial da DPZ em Tóquio. Só que uma pequena filial da DPZ em Tóquio teria salões, móveis da Forma, bicicletas do Petit e quadros do Zaragoza. Em lugar disso, o Andon Ryokan tem cubículos-design. Os quartos não chegam a ser cápsulas, mas são armários. Cada cubículo tem 1,69m de largura – eu sei porque medi com meu próprio corpo, e essa é a minha altura exata. Conheço alguns closets que dão quatro ou cinco desses. O problema nem é dormir num armário. Depois que você acostuma, fica até, digamos, aconchegante. O esquisito e chegar e sair. Nem a bicha mais indecisa do planeta entrou e saiu tanto do armário quanto eu nesses cinco dias.
Tudo bem. A Traveller inglesa me mandou para um armário-design. Mas um armário bem-localizado, um armário no fervo, um armário perto de tudo o que um hóspede-design procura? Nananina. A região do meu armário, Minowa, descrita no site do meu armário como "um pedaço ainda bucólico de Tóquio, onde se pode observar a vida como era antes", no meu guia sairia como um dos pedaços mais desoladores de Tóquio, onde se pode observar como pode ser triste a vida por aqui. Com exceção do parque de Ueno e do templo de Asakusa, nós estavamos a pelo menos 7 estações de distância de qualquer coisa com algum interesse na cidade.
Mas não seja por isso. Tudo é experiência, e eu estava tendo o privilégio de viver cinco dias como um dekassegui. Ou, vá lá, um dekassegui-design.
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Escrito por Ricardo Freire às 00h13
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Morar longe, contudo, tem uma vantagem. Eu posso ficar mais tempo dentro do paraíso para estrangeiros em Tóquio. O metrô.

No metrô e nos trens japoneses, tudo é inacreditavelmente bilíngüe. O nome das estações, o aviso do próximo trem no painel, a indicação do caminho para as baldeações e para as saídas -- está tudo transcodificado para o alfabeto romano. Ah, os romanos. Como eles podiam ser tão complicados com números mas tão geniais com letras? Como é que 26 letrinhas poem substituir 6 mil ideogramas? Decerto, não podem. Os japoneses devem olhar para esse emaranhado de caracteres, G-I-N-Z-A, S-H-I-N-J-U-K-U, e char tudo vazio e sem significado. VACANT, como o banheiro do avião da vovozinha. Tente mais tarde, minha senhora.
Se não bastassem as placas, os avisos sonoros também são bilíngües. Por causa de meia-dúzia de estrangeiros, todos os milhões de usuários do metrô de Tóquio são obrigados a ouvir os anuncios das estações e das interligações com outras linhas em inglês também. Imagina ouvir no metrô de São Paulo: "next station, An-ran-ga-báu. Transfer to Dja-ba-kwa-rah Line". Graças a isso, basta passar meia hora no metrô para se ter a ilusão de que Tóquio é a cidade mais preocupada do mundo em fazer o estrangeiro não se perder. Trata-se de uma cilada, claro. É só emergir de qualquer estação que você não ter a mais remota idéia de para onde deve ir para achar o que quer que seja.
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Escrito por Ricardo Freire às 00h12
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Como eu já disse, aquelas 48horas que eu normalmente levo para me achar numa cidade foram as 48 horas que eu levei para me dar conta de que jamais me acharia em Tóquio. A iluminação me sobreveio depois de quase duas horas perdidas em Shinjuku para achar um rstaurante que dois guias diferentes -- o Time Out e o Eyewitness (editado no Brasil pela Publifolha) -- indicavam como o tempurá com o melhor custo x benefício de Tóquio. Diga-se a meu favor que havia uma diferença de duas quadras entre o mapa do Time Out e o do Eyewitness. Mas mesmo com o dobro de chances de achar o endereço correto, eu rodei, rodei, rodei uma eternidade e não achei a porra do cazzo do maldito infeliz tempurá com o melhor custo x benefício de Tóquio. Foi nesse momento que Buda, Confúcio e todas as divindades xintoístas me iluminaram, e eu percebi que não preciso -- nem ninguém precisa -- experimentar o tempurá com o melhor custo x benefício de Tóquio para gostar de Tóquio. Eu saí do meu transe e me lembrei que rodar uma eternidade para achar qualquer coisa em qualquer lugar é o programa de pior custo x benefíco de uma viagem.

Foi então que eu formulei o meu doravante clássico Postulado de Tóquio. Que diz o seguinte. Contentese em achar as coisas que podem ser encontradas na boca da estação. Ache as lojas de departamento de Ginza. Os edifícios modernos de Shinjuku. As teens fantasiadas de Harajuku. O boulevard de grifes de Omotosando a Ayoama. O cruzamento famoso de Shibuya. A putaria de Roppongi. O comércio moderninho de Dakanyama. É só emergir da estação, e você já achou o que procurava. Agora: na hora de comer, beber ou comprar, a portinha que chamar a sua atenção naquele instante vai oferecer o melhor custo x benefú€io para a sola do seu sapato.

Minha vida mudou depois do Postulado de Tóquio. Eu ainda vivia como um dekassegui-design, mas pelo menos podia entrar na mais fuleira birosca de udon (uma espécie de miojo para adultos) ou no primeiro sushi de esteira rolante que aparecesse na minha frente, sem dramas de consciência.
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Escrito por Ricardo Freire às 00h11
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Havia um programa gastronômico, no entanto, que já estava na pauta desde antes do Postulado de Tóquio. Queriamos jantar na cobertura do hotel Park Hyatt – um dos cenários mais marcantes do filme "Encontros e Desencontros", de Sofia Coppola. Não só pela vista, nem tanto em busca de uma compensação pelo nosso armário-design – é que, depois de algumas horas em Tóquio, o filme tinha deixado de ser a história bobinha sobre o não-encontro entre um ator americano e uma garota mal-amada, e tinha se revelado uma reportagem fiel e muito bem realizada sobre a incomunicabilidade entre uma cidade e seus visitantes. Como conseqüência, o restaurante do Park Hyatt tinha deixado de ser uma curiosidade para se tornar, para nós, um sítio de peregrinação.
Liguei e consegui reserva para as 9 e meia – meio tarde, para Tóquio. Eram 9 e cinco quando colocamos pé para fora da saída Oeste da estação Shinjuku. Sabíamos que o Park Hyatt ficava pertinho dos prédios imensos da Prefeitura de Tóquio, numa zona de Shinjuku de baixa densidade, ahn, prediográfica. Ia ser bico achar o hotel. Era só seguir o mapa e procurar um luminoso, uma portaria, uma fila de táxis. Às 9 e vinte já tínhamos passado da Prefeitura, e nada de Hyatt. Andamos prum lado e pro outro. Só prédios de escritórios com andares e andares de luz fluorescente e portarias fechadas. Foi então que vimos uma ruela saindo pela lateral de um desses prédios e, nela, uma fila de táxis. Desesperados, perguntamos a um motorista pelo Park Hyatt. Ele apontou para o prédio em frente.
Por que a gente não tinha achado? Porque o letreiro erar discretíssimo. A entrada era pelos fundos do grande prédio de escritórios que tínhamos visto na avenida. Os primeiros 40 andares eram, de fato, escritórios. O Park Hyatt começava no 41º. andar. Caceta! Caralho! Putaquepariu! Nem o cazzo da porra de um hotel americano eu consigo achar nessa cidade!
Subimos. O restaurante fica no 52º. andar e se chama, perdão, New York Grill. Deve ser o mais lindo Terraço Itália do planeta. A vista do bar, para o lado de Shinjuku com mais arranha-céus, é mais bacana que a dorestaurante. Mas como nos deram uma mesa bem na janela, não pudemos reclamar. Eu tinha levado comigo meu controle remoto, e depois da dificuldade em achar o hotel, não havia outra alternativa senão apertr o botão do foda-se. Não, não vou dizer quantas diárias do armário-design nós gastamos naquele jantar. Só vou dizer que comemos muito bem e nos sentimos os dekasseguis mais bestas da História.
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Escrito por Ricardo Freire às 00h10
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Às 11 e quinze começamos a subir a avenida em direção à estação Shinjuku. Á medida que a gente se aproximava da estação, o filme deixava de se "Encontros e Desencontros" para virar "Koyaanisqatsi". Tóquio inteira corria para não perder o último metrô – ou mêtôrô,como diz a voz do trem no começo de cada aviso. Eu já tinha minha estratégia definida: andar quatro estações e pegar o último trem da linha Hibyia, que nos deixaria a três quadras de casa. A primeira parte do plano deu certo. Aos trancos e barrancos, chegamos inteiros a Ebisu e pegamos o trem da linha Hibyuia um nadinha antes da meia-noite. O trem então andou uma estação só – e parou. Finito. Tá pensando o quê? Que aqui é Paris? Que o último metrô vai necessariamente até o fim da linha? Nananinanão!!!
Por esse momento eu não esperava – o metrô, que até alguns posts atrás era "o paraiso do estrangeiro em Tóquio" – tinha nos deixado na mão. Estávamos na terceira estação de nossa linha – a nossa era a antepenúltima, umas 15 paradas adiante. Ou seja: havia uma cidade inteira a cruzar. Numa situação dessas, um japonês se dirigiria ao hotel-cápsula mais próximo. Nós não podiamos fazer isso. Primeiro, porque já tinhamos, mal ou bem, nossa própria cápsula. Cápsula-design, mas cápsula. Depois, não tínhamos como saber se havia hotéis-cápsula em Hiro-ô (o nome da estação em que o trem encalhou). E, finalmente, 45 minutos atrás nos estávamos jantando no Park Hyatt, e o nome do filme é "Encontros e Desencontros", e não "Cinderela".
Sem considerar outra saída, emergimos da estação e fizemos sinal para o primeiro táxi que passou. Falei "Minowa" para o motorista e ele repetiu: "Minowa. Hai!". (Que emoção: meu primeiro diálogo inteiramente em japonês.) Olhei para o taxímetro e descobri que a bandeirada em Tóquio é 660 yens (6 dólares e 60 cents). Comecei a ler o aviso afixado atrás da poltrona do motora. Os priemeiros 3 km custam 660 yens. A partir daí são 80 yens a cada 200 metros.
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Escrito por Ricardo Freire às 00h09
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Eu só comecei a avaliar o tamanho da encrenca quando o taxímetro já marcava 30 dólares, mas as placas de trânsito ainda falavam de bairros com nomes de estações bem distantes da nossa. Aos 50 dólares, aquilo começou a doer. Porque a gente não estava indo para o Four Seasons nem para o aeroporto pegar um avião em cima da hora: a gente estava indo para um armário em Diadema. Lá pelos 60 dólares aconteceu algo engraçado (sim, àquela altura eu já estava achando graça): era uma e cinco da madrugada, e o trânsito parou. Obras.
Perto dos 70 dólares, avistamos um luminoso com o nome de nossa estação: Minowa. Só que não era essa a avenida que a gente conhecia. E como acharíamos a nossa saída, se a estação estava fechada? Em pânico de ter que pagar 70 dólares para ficar num lugar desconhecido de Tóquio, me lembrei que tinha comigo um cartãozinho com o mapa do armário. O mapa usava o alfabeto romano, mas se eu apontasse a estação e o hotel, o motorista não teria como não achar. Aproveitei o trânsito parado e dei o cartão para o motorista. Ele olhou. E olhou. E olhou. Eu pensava: VACANT. VACANT. VACANT. Passe mais tarde, minha senhora.
Então o táxi andou mais um pouco e virou na avenida seguinte. Alú“io. Era a nossa avenida. Daqui já sabíamos chegar a pé. Mas por 73 dólares eu quero mais é ser deixado na porta de casa, concorda? O motorista andou mais um pouco e, por contingência de trânsito, chegou ao nosso quarteirão pelo lado oposto ao que chegávamos a pé. Então ele parou numa bifurcação. Nós também não sabíamos dizer qual das duas ruelas era a certa -- mas tudo bem, a gente podia descer ali, se não fosse uma seria a outra. Antes que pudéssemos falar isso (em gestês, claro), no entanto, o motorista deu uma guinada -- e se mandou para o lado totalmente oposto ao nosso armário. Ei! Pára! Stop! No! -- nós gritamos.
Demorou quase uma quadra para o motorista decifrar o ideograma do volume de nossos apelos. Quando ele parou, o taxímetro marcava 7.540 yens. 75 dólares. Eu estava empobrecido, porém realizado. O JAPONÊS TAMBÉM NÃO TINHA CONSEGUIDO ENTENDER UM RELES MAPINHA! Foi a glória. Sem dúvida, foram os 75 dólares mais bem empregados de toda a viagem.

Escrito por Ricardo Freire às 00h08
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Essa vai pro Larry Rohter
SYDNEY – Desculpa, Austrália. Eu sei que você não tem nada a ver com essa briga. Mas eu não pude deixar passar a oportunidade de recortar essa sereia dos mares gelados do sul em desagravo às pelancudas de Ipanema desencavadas pelo fotógrafo do New York Times. Pronto. Cumpri com o dever pátrio. Mais notícias a qualquer momento, lá do Japão.
Escrito por Ricardo Freire às 16h26
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Postal por escrito: Sydney
Uma das características em comum entre as grandes cidades do mundo é que elas se acham. Ande por Paris, por Nova York, por Londres, por Roma, por San Francisco, por Barcelona, pelo Rio, e você percebe que essas cidades não fazem nada para combater o seu complexo inato de superioridade. Mesmo quando têm problemas crônicos ou insolúveis, como o clima (no caso de Londres), a violência (no caso do Rio) ou a paranóia (no caso atual de Nova York), as grandes cidades do mundo têm certeza de que estão abafando e não perdem a chance de colocar o forasteiro no seu devido lugar.

Sydney tranqüilamente pode ser escalada nesse time de cidades de primeiríssima grandeza. Sydney é linda, gostosa, tranqüila, simpática e civilizada – eu não conheço nenhuma outra grande cidade que mereça esses cinco adjetivos ao mesmo tempo. Mas – engraçado: Sydney não se acha. Quer dizer, depois de uma semana por aqui, não achei que Sydney se achasse. Pode ser que Sydney se ache tanto, mas se ache tanto, que faça uma força incrível para fingir que não está se achando. Mas acho difícil. Você não acha?
(Parênteses: viajar é, sim, tirar conclusões precipitadas sobre os lugares que você visita. Se você não quer tirar conclusões precipitadas, não viaje – faça um doutorado. Fecha parênteses.)
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Escrito por Ricardo Freire às 16h11
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Uma revista de culinária daqui traz uma entrevistazinha com Anthony Burdain, o cozinheiro que virou escritor de best-sellers ("Cozinha Confidencial", "Por um prato de comida"). Bourdain diz que gosta de Sydney porque aqui é a única "no-bullshit zone" da Terra. O único território livre de frescura do planeta. (Nota do tradutor: livre de frescura no sentido de formalidade e hipocrisia. Porque do outro tipo de frescura Sydney está lotada – a cidade é uma das capitais do mundo gay.)
Os Sydneysiders – ou sídneis, como quer o meu genial amigo Guime – são tão acessíveis e despojados que não parece que alguém precise nascer aqui para se tornar rapidamente um deles. Eu não consigo me imaginar transformado num parisiense, num florentino ou num carioca ainda nesta encaranação. Mas, sei lá por quê, acho que bastava eu piorar ainda mais a minha pronúncia, e pronto: até eu poderia ser um sídnei.

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Escrito por Ricardo Freire às 16h11
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Mas será que eu gostaria de ser um sídnei? A cidade é deslumbrante, não há dúvida. Sua baía – que eles chamam de Harbour – é toda recortada, e oferece quarenta prainhas (atenção: eu falei quarenta) com balneareabilidade perfeita. Pegamos uma barca nas docas de Circular Quay e em quinze minutos estávamos em Watsons Bay, onde nos esperavam duas praias pequenininhas, de águas transparentes, que um carioca jamais pensaria em procurar na baía de Guanabara. As barcas – ou os ferries, se você preferir – são os morros de Sydney: é a bordo deles que você aprecia as belezas de Sydney, tanto as naturais quanto as construídas pelo homem. (A propósito: não há avenidas beira-mar. Sydney só se mostra para quem passeia por suas águas.)

O centrão de Sydney, chamado de CBD (Central Business District) é o endereço dos hotéis mais clássicos, e desemboca no cartão-postal da cidade: a Ópera de Sydney, com seu vizinho Jardim Botânico e a Ponte da Baía (Harbour Bridge) ao fundo. Para lá do centrão, em direção ao fundo da baía, ficam as docas do Darling Harbour. Ali foi montado um turistódromo de proporções quase lasvegasianas, com shoppings, monotrilho, cassino, aquário e uns três puertos maderos de restaurantes, bares e lanchonetes.

A Sydney mais bacana, claro, fica fora da zona turística. As primeiras docas para cá do centrão são as de Wooloomooloo, onde um armazém restaurado com inteligência e talento virou um hotel (o W), um condomínio de apartamentos e uma ala de restaurantes, todos chiquérrimos.
(Novos parênteses. Provavelmente você não esteja familiarizado com a minha definição para os pontos cardeais em português do Brasil. É assim: para o viajante brasileiro – eu incluído, e na janelinha – não existe esse negócio de norte, sul, leste e oeste. Os pontos cardeais, em português do Brasil, são: à esquerda, à direita, pra cá, pra lá, na frente, atrás, em cima e debaixo. Fecha novos parênteses.)
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Escrito por Ricardo Freire às 16h11
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Subindo o morro atrás das docas de Wooloomooloo, você passa pela zona do nem-tão-baixo-meretrício-assim (Kings Cross) e chega a Darlinghurst – que, junto com Paddington e Surry Hill, forma o triângulo de bairros descolados. Por ali todos os restaurantes são bacanas, inclusive os baratos. Muitos deles não têm grana para – ou não se deram ao trabalho de – investir numa licença para vender bebidas, e por isso funcionam em regime "BYO" (bring your own, traga sua própria garrafa). Outros têm licença, e mesmo assim aceitam o BYO, cobrando uma rolha bem módica. Como se não bastasse ser um Leblon gastronômico, Darlinghurst ("Darlo" para os de casa), em especial, está cheio de hotéis charmosos e baratos – alguns até baratíssimos. Se for verão, não esqueça suas Havaianas – entre as oito da manhã e as oito da noite, é o que todo mundo calça.

As praias ficam meio longe – principalmente para quem está de ônibus. Se bem que, apesar de ter tanta praia, Sydney não é propriamente uma cidade de praia. Eu até poderia dizer que a temperatura da água não deixa – quem consegue entrar n'água em Sydney provavelmente foi pingüim em alguma vida passada. Mas não é isso. A relação da cidade com a praia é totalmente diferente da que a gente está habituado. As pessoas aqui vão à praia como quem vai a um parque – não como quem vai à sala de estar da nação, como no Brasil. Falam muito que os australianos têm cultura de praia, mas nós temos muito a ensinar a eles – a começar pelo queijo de coalho na brasa. Em troca, eles poderiam nos contar como é que se consegue manter uma baía inteira limpa mesmo com portos funcionando e barcas e mais barcas cruzando pra lá e pra cá o tempo todo. Deixo aqui uma sugestão de factóide para o César Maia: dar a concessão da Baía da Guanabara à prefeitura de Sydney, para fazer o que quiser. Aposto que em dez anos todos poderíamos mergulhar e abrir os olhos na enseada de Botafogo.
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Escrito por Ricardo Freire às 16h10
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Mesmo com toda a beleza, toda a limpeza, toda a simpatia e toda a civilização, não sei se eu gostaria de virar um sídnei. Pensando bem, morar aqui pra quê? Para não empinar o nariz? Para não desenvolver um charme que ninguém conseguiria imitar? Para não lançar aquele olhar de eu-moro-na-melhor-cidade-do-mundo-e-você-não? Ah, assim não tem graça.
Demorou, mas eu achei o defeito de Sydney. O defeito é que Sydney não se acha.

Escrito por Ricardo Freire às 16h10
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Alô, alô, W Sydney
Tenho uma quedinha toda especial por hotéis. Está bem: tenho uma quedona por hotéis. A parte mais importante do planejamento de minhas viagens é a escolha de onde vou me hospedar. Importo guias, fuço as revistas, me interno na Internet, e só sossego quando descubro o hotel mais charmoso e bem-localizado que a minha grana pode comprar.
Antigamente, graças ao patrocínio de Gustavo Franco, do Banco Central, a minha grana (e a sua, e a de todo brasileiro que viajava) podia comprar hotéis bem mais bacanas do que hoje em dia. Por isso mesmo, para os crentes da minha religião, planejar as viagens com antecedência ficou ainda mais necessário. Só reservando três, quatro, seis meses antes você vai conseguir aquele hotelzinho espetacular de 100 dólares, aquela pensão de 60 dólares onde você moraria o resto da vida ou mesmo aquele albergue tão profissa que faz você se sentir num hotel.
Fora isso, existe um truque infalível para dar um upgrade no departamento hotelaria da sua viagem: passar a última noite num hotel que não cabe no seu bolso. Ou que não caberia, caso você dormisse lá todos os dias da sua viagem. Como é seu último dia, você já passeou quase tudo o que tinha que passear, e vai poder curtir o hotel. E vai voltar para a casa com a ilusão de que passou as férias inteiras naquele palácio.
Escolhi Sydney para aplicar o truque do upgrade de último dia porque seria o lugar em que ficaríamos mais tempo – uma semana. Além do quê, Sydney tem um W. E os W's são os hotéis mais interessantes que surgiram ultimamente.
Aula de história em um parágrafo: no final dos anos 80, em Nova York, um sujeito chamado Ian Schrager inventou o hotel-design. Chamou designers de vanguarda como Philippe Starck e Andrée Putman e mudou para sempre aquele jeito Hilton de ser dos hotéis. Mais ou menos na mesma época, o inglês Chris Blackwell, que já tinha posto o reggae na moda com a gravadora Island, começou a transformar predinhos art-déco em hotéis descolados em Miami, e deu o empurrão para South Beach ser o que é hoje. Finalmente, no sudeste da Ásia, o indonésio Adrian Zecha inventava o luxo de pés descalços e serviço impecável, com a rede Aman de pequenos resorts.
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Escrito por Ricardo Freire às 15h26
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Demorou um pouco, mas as grandes redes de hotéis começaram a incorporar o design (philippe-starkiano), a descontração (chris-blackwelliana) e alguns mimos orientais (amanianos). Mas nenhuma rede foi tão longe quanto a Sherwood (que controla, entre outros, os Sheraton). Os caras simplesmente criaram uma marca do zero, a W, para ser a sua rede-design, mais ou menos como as grandes gravadoras inventam selos independentes para produzir coisas de que não seriam capazes no esquemão dominante. Eles trouxeram gente de fora da hotelaria – alguns dos cérebros do projeto foram tirados da tok-stok chique Pottery Barn e da livraria Barnes & Noble – e conseguiram inventar uma rede de hotéis modernos, gostosíssimos e muito animados. Seus ambientes são contemporâneos, sem jamais caírem na afetação de Philippe Starck e seus imitadores. O serviço é jovem, atencioso e hipercompetente. Em cima do minibar sempre existem coisas inesperadas para se comprar – o de Sydney tinha garrafas de água de chuva australiana (!), baralhos com informações sobre os bares da cidade e comprimidos para superar jet-lag e ressaca.
 
O W Sydney entra fácil na lista de hotéis mais bonitos do mundo: fica num armazém portuário restaurado em que todas as estruturas – até mesmo as esteiras de transportar carga – continuam aparentes.
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Escrito por Ricardo Freire às 15h25
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No vão central, o bar do térreo – o baladíssimo Waterbar – tem um pé direito "natural" de cinco andares.
 
Na lateral do hotel fica o "puerto madero" mais chique da cidade, as docas de Wooloomooloo, com pelo menos seis restaurantes hypados.
  
E se não bastasse, ainda ganhamos um upgrade, e fomos instalados num loft. Tipo assim duplex. Manja, upgrade do upgrade? Valeu cada centavo de dólar australiano.
Escrito por Ricardo Freire às 15h25
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Big Saturday
SYDNEY -- Sabadão de sol. Nenhuma nuvem no céu. Pego minha equipe de reportagem e vou direto a Bondi (repita: Bondái) estudar o rato-de-praia australiano, ratus praiense australiis, em um dia propício.

Dos bairros centrais da cidade até Bondi você leva entre 15 e 20 minutos de táxi, ou 50 minutos de ônibus. Existem praias mais próximas, dentro da baía, mas são todas pequeninhas e de mar calmo; quem quer esticar a toalha na areia ou entrar com a prancha no mar precisa ir às praias oceânicas. Dessas, Bondi é a mais badalada; Manly, do outro lado da baía, é a mais fácil de chegar (basta pegar uma balsa no cais central).
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Escrito por Ricardo Freire às 12h08
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Forçando um pouco a barra, dá até para se sentir no Brasil. Procurando bem, está tudo aqui: o casal do frescobol, a panaca do frisbee, a rapaziada do surf, até mesmo um pessoalzinho jogando futebol – perdão, beach soccer. Mas então você percebe que alguma coisa está errada. Alguma coisa, não – muita coisa está errada. Ou certa demais, sei lá.
  
Por exemplo: olha esse calçadão. Não é esquisito um calçadão em que só passa gringo?
  
Agora repara que doideira. Só passa gringo, mas mesmo assim não tem um camelô! Um camelozinho pra vender uma canga sequer! Cadê minha canga com o desenho da Ópera de Sydney? Cadê meu postal com aborígenes de fio dental? Vou ter que atravessar a avenida e comprar na loja? Desaforo!
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Escrito por Ricardo Freire às 11h39
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