Postal por escrito: Nova York

Nova York é o fecho mais perfeito para uma viagem de volta ao mundo. Ou então: Nova York é o fecho mais redundante para uma viagem de volta ao mundo. Você decide. Eu ainda não cheguei a uma conclusão, mas é possível que as duas hipóteses estejam corretas. Por que alguma coisa não pode ser perfeita e redundante ao mesmo tempo? Talvez seja o caso.

 

A qualquer momento, o mundo inteiro pode ser encontrado em Nova York. Tudo o que a gente não viu pelo caminho, durante a viagem, está aqui. Nova York tem os pretos que faltam à Cidade do Cabo e os latinos que dariam um outro charme a Sydney. Diferentemente de Tóquio, em Nova York você consegue achar com facilidade o endereço do mais obscuro dos restaurantes japoneses. (Porque aqui, ao contrário de Tóquio, todos os lugares têm endereço.)

 

Mas o que faz de Nova York a cidade-síntese do planeta é o fato de, mesmo sendo a capital do mundo rico, a cidade ter aparência, coloração, cheiro e textura de uma metrópole de Terceiro Mundo. Basta você sair das imediações do Central Park para se ver em quarteirões feios, sujos e malvados, que não destoariam da paisagem caso fossem despejados e precisassem se mudar para o centrão de São Paulo. Para o visitante desavisado é difícil compreender que lugares como o Meatpacking District e TriBeCa, que meteriam medo em Bombaim, no Cairo ou em Xangai, sejam tão badalados. Mas é justamente esse espírito que faz Nova York ser Nova York, e por isso o novo bairro da moda – perceptível, claro, apenas ao olhar treinado dos descolados profissionais – é o Lower East Side, que até anteontem era um antro de migrantes pobres e que, francamente, continua com cara de antro de migrantes pobres.

 

Uma das coisas que mais me divertem em Nova York é saber que a maioria das pessoas por quem eu cruzo nas calçadas mora em apartamentículos que qualquer pessoa de classe média baixa no Brasil qualificaria de insalubres. A diferença é que, enquanto na maioria dos casos a gente precisa se contentar com aquilo que tem dentro de casa, os nova-iorquinos têm a cidade mais vibrante do mundo à porta, para se esbaldar.

 

 

 

É sempre muito bom terminar uma viagem num lugar que você já "conhece" e curte. Em lugares assim, quaisquer dois dias já valem a pena: é como uma visita que você faz a um amigo querido ou a um parente distante. A função desse encontro é fazer com que você e a cidade não se percam de vista. Se a ausência for muito prolongada, talvez você e a cidade se estranhem lá na frente. Aparecendo de vez em quando, fica fácil para um acompanhar as mudanças do outro. A cidade vê que você engordou e ficou um pouquinho mais pobre, e tem uma oportunidade de avisar que daqui a pouco o hype vai estar no Lower East Side.

 

O simples fato de você não ter nenhum compromisso turístico básico – tipo subir em belvederes ou se deixar fotografar em frente a monumentos famosos – faz com que você se sinta íntimo dessa cidade. Ao passar pelos viajantes-de-primeira-viagem, aqueles de mapa na mão e câmera pendurada no pescoço, você se sente indiscutivelmente superior – por mais que até uma cidade atrás você estivesse de mapa na mão e câmera no pescoço. A verdade é que ninguém tem tanto preconceito contra turistas quanto o próprio turista.

 

Eu até tinha planejado explorar lugares novos em Nova York. Uma das minhas idéias era destrinchar o Brooklyn, que vem se hypando com força total nos últimos anos, e sem dúvida daria uma bela matéria. Mas o frio era tanto (mínimas de 10 negativos, máximas de zero grau, e ventando quase o tempo todo) que acabamos ficando pela "nossa" Nova York mesmo – uma cidade que começa no SoHo e vai até mais ou menos a rua 25, com uma ou outra escapadela a Midtown.

 

O quê? Torres Gêmeas? Não sei do que se trata. Nunca fui. Nunca reparei nelas nas vezes em que estive na cidade. Se eu não tivesse visto na TV, jamais desconfiaria de que alguma coisa anormal tivesse acontecido.



Escrito por Ricardo Freire às 14h51
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Pelo visto

(Ou: Plunct, plact, zum)

 

Bem lá no fundo, eu tinha esperança. Pequena, mas tinha. Se tudo acontecesse como eu tinha imaginado, o desembarque em Nova York provaria de modo irrefutável a animosidade americana contra o resto do mundo. Depois de mofar numa fila de duas ou três horas de comprimento, nós seríamos submetidos a toda sorte de humilhações pelo inquisidor da imigração. No melhor dos desfechos, o sujeito acharia suspeitíssimo que dois brasileiros chegassem a Nova York vindo pelo caminho mais longo. Acessando minha ficha no arquivo da CIA, a polícia de fronteira chegaria fácil aos textos subversivos que andei publicando na imprensa. Alarmes soariam quando descobrissem que eu conclamei meus conterrâneos a não viajar para os Estados Unidos enquanto os visitantes fossem tratados como terroristas em potencial. E se eles chegassem na parte em que eu afirmo que só iria aos Estados Unidos se fosse expressamente convidado? E na parte em que eu me ofereço para doar o restinho do meu visto para quem queira se sujeitar a ser tratado pela alfândega americana como um prisioneiro em Guantánamo? Com alguma sorte, eu poderia ser deportado imediatamente. Seria a glória: brasileiro expulso dos Estados Unidos por crime de opinião! Primeira página nos jornais, matéria no Jornal Nacional, chamada para o blog na capa do Uol. Hmpf. Qual o quê. Infelizmente, tudo não passou de um sonho. Os americanos fizeram o possível e o impossível para frustrar todas as minhas expectativas. A fila andou rapidinho, e em menos de meia hora eu estava no guichê da imigração. Botar os meus dois indicadores no scanner para tirar a impressão digital foi rápido e indolor – pior: muito mais digno do que muito interrogatório preconceituoso a que fui submetido em aduanas mundo afora em tempos de paz. "A passeio" e "Quatro dias" foi tudo o que eu precisei declarar. Plunct, plact, zum, thank you, pronto: eu tinha sido admitido nos Estados Unidos com fluidez e gentileza. Peraí. Cadê a truculência? Cadê a inquisição? Cadê a deportação? Cadê a chamada do blog na capa do Uol? Nada feito. Fazer o quê, né? Fica pra próxima, quem sabe.

Escrito por Ricardo Freire às 00h05
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The Cobaia Report

A primeira fez "tchan": deu um leve baratinho, uma leseira do bem, que permitiu agüentar acordado até o jantar. As aeromoças passaram para recolher as bandejas mais ou menos na hora de tomar a segunda pílula (duas horas depois da decolagem). A segunda, então, fez "tchum": adormeci (às sete da noite, no fuso de onde eu saí). Mas não um sono profundo de sonífero: um sono levinho de cochilo.

 

 

E assim foi o vôo: uma seqüência de cochilos de uma hora, uma hora e meia, duas horas. Sempre de olho no relógio, para não perder a hora do próximo comprimido (um a cada duas horas). Quando acenderam as luzes do avião para servir o café da manhã, eu não estava me sentindo um kibe amanhecido (moído, gorduroso e quebrado), como em todos os outros trechos noturnos deste périplo. Apesar das doze horas de vôo e das oito horas de fuso, saí do avião tão acordado quanto tinha entrado. O que veio mesmo a calhar, considerando que eu saí de Tóquio na quinta-feira às 4 da tarde e cheguei em Nova York na mesma quinta-feira às 3 da tarde. (Não, você não leu mal. Consulte o post imediatamente abaixo, "O dia da marmota".) Caso eu não me lembrasse de fatos concretos do vôo – por exemplo, a falta de gentileza das aeromoças da United comparadas às da Singapore, da South African e da Air New Zealand –, eu poderia achar que tinha vivido uma experiência de teletransporte. Continuei desperto por todo o resto do meu Dia da Marmota, vivendo quase metade daquela quinta-feira pela segunda vez no mesmo dia – se é que você me entende. Ou se é que eu me entendo. Deu para agüentar firme até o jantar que tínhamos marcado com nossa amiga A.C. O sono só bateu lá pela meia-noite – perfeito. Com o quê, o No Jet Lag saiu dessa aprovadíssimo. (Ainda não é hora de eu contar, mas posso adiantar que o bichinho só fez confirmar sua perfomance no vôo de volta para o Brasil.) No final, ficamos com uma caixa fechada – que vou esconder bem escondida, para não sucumbir à tentação de testar o No Jet Lag em terra, como sonífero light.



Escrito por Ricardo Freire às 09h19
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O Dia da Marmota

Na Cidade do Cabo o relógio marcava 4 horas mais tarde que no Brasil. Em Cingapura, 10 horas. Em Sydney, 13 horas. (No Japão a gente voltou um pouquinho: 11 horas.) Viajar na direção leste faz com que você "perca" tempo – o primeiro dia no lugar em que você chega é sempre mais curto do que o dia no lugar de onde você saiu. Se você voltar pelo mesmo caminho da vinda, parando nas mesmas escalas, vai recuperar esse tempo perdido de uma maneira, digamos, natural. Mas você insistir na direção leste e ultrapassar a Linha Internacional de Data, lá no meio do Pacífico, CABUM!: todo o tempo que você foi perdendo ao longo do caminho cairá de volta sobre a sua cabeça de uma vez só. Não que você perceba. A Linha Internacional de Data é como a virada do milênio, ou como o peso argentino na época da dolarização: uma convenção em que todo mundo precisa acreditar para que funcione. E – quer saber? É difícil pacas de acreditar. Como é que eu enfio na minha cabeça que vamos sair de Tóquio às 4 da tarde, ficar 12 intermináveis horas no ar, e chegar em Nova York às 3 da tarde do mesmo dia? Ou seja, UMA HORA ANTES do horário em que saímos do outro lado do planeta?

 

 

Mas este não vai ser o único atrativo do vôo. Vamos testar as milagrosas pílulas NO JET LAG que compramos no aeroporto de Auckland, na Nova Zelândia (escala técnica entre Sydney e Tóquio). Eu não pude resistir. Tava de bobeira na sala de embarque, quando o cartaz começou a piscar pra mim: NO JET LAG. NO JET LAG. NO JET LAG. Cheguei mais perto para entender do que se tratava. Comprimidos homeopáticos, dizia o cartaz. À base de camomila, arnica e outros babados. Aprovado pela FDA, o órgão regulador de comida e medicamentos dos States. Vendido também na Austrália, na Ásia, na Europa e na América do Norte. Com site e tudo: www.jetlag.co.nz. 11 dólares neo-zelandeses (pouco mais de 20 reais) por caixinha com 32 pílulas. À venda aqui mesmo neste saguão, na loja de revistas. Tome um comprimido na aterrissagem, um a cada duas horas (ou a cada quatro, caso você durma), outro na decolagem, e pronto: sinta-se bem no seu novo fuso horário. Tá bom, No Jet Lag. Não custa tentar. (Em Nova York eu conto se funcionou.)

Escrito por Ricardo Freire às 07h42
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Última chamada, portão 35

TAKAYAMA – Ela bem que tentava, mas não conseguia terminar uma frase sequer. Às vezes calhava de emendar três, quatro palavras; mas quando lhe faltava a palavra seguinte, ela parava, forçava a memória e, quando via que não ia ter jeito, caía naquela gargalhada nervosa-tímida-simpática a que a gente acaba se acostumando depois de alguns dias no Japão. "Sorry my English!", "Sorry my English!", ela repetia, entre um hihihihi e outro. Eu não sabia se valia a pena tentar dizer a ela que no nosso país muito menos gente ainda falava inglês; que em nossas estações de trem não havia sinalização em inglês; que os alto-falantes dos vagões dos nossos metrôs não anunciavam as estações em inglês; e que nossas destilarias de saquê não mantinham meninas simpáticas como ela, capazes de fazer o tour de demonstração nessa língua engraçadíssima, o inglês com cócegas. Por via das dúvidas, me limitei a ficar repetindo "it's OK, it's OK" e a acompanhar seus hihihihis com uns hahahahás. Em algum lugar entre as fotos da colheita do arroz e as fotos do tratamento dos grãos ela conseguiu entender que a gente era do Brasil, o que permitiu que a gente chegasse ao engenho de destilação e aos barris de armazenamento trocando informações valiosas, como "Japan... cold. Brazil.... hot!" – um tópico que fazia muito sucesso, sempre que vinha à baila. No final do tour, depois de provar quatro saquês diferentes, ainda ganhamos dois calicezinhos para levar para casa. E para cada arigató que eu lançasse, ela devolvia com o de sempre: "Sorry my English!". E hihihihi.

 

 

 

Takayama é uma cidadezinha serrana a 2 horas e pouco de Nagóia. A pureza de suas águas faz a fama dos saquês produzidos por aqui; todo mês de fevereiro, as destilarias da cidade abrem as portas para visitantes – uma por dia. Além do saquê, a cidade tem algumas ruas históricas com casario de madeira preservado; nos arredores é possível visitar vilas rurais de arquitetura também peculiar. Nada disso talvez valha o que deixamos de ver, caso ficássemos mais um dia em Kyoto. Mas se não tivéssemos vindo, teríamos perdido uma linda viagem de trem, acompanhando o curso de um rio de águas verdíssimas margeado por uma floresta de pinheiros. Não teríamos nos divertido com o tour do saquê em inglês com cócegas. Não teríamos nos hospedado no ryokan mais simpático de toda a viagem, onde dormimos com vista para o rio e a lua cheia e a neve caindo na ponte, e comemos sashimi de peixe de rio e a carne mais tenra de que podemos nos lembrar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

É a última de nossas oito noites no Japão. (Pareceu mais porque esse blog é que nem novela brasileira em Portugal: vai ao ar com váááááários dias de atraso.) Você talvez tenha vontade de perguntar: e então, deu pra conhecer o Japão?

 

Vamos combinar uma coisa? Nunca use esse verbo, "conhecer", aplicado a viajar. Não existe a mínima possibilidade de se "conhecer" lugar nenhum viajando. Ao viajar para longe de casa, o único lugar que a gente talvez venha a conhecer melhor é o lugar de onde a gente veio. Os outros lugares a gente nunca conhece – a gente só visita.

 

E o que eu visitei no Japão? Eu visitei as vendedoras de comida do trem-bala, que fazem reverência aos passageiros antes de sair com o carrinho para o próximo vagão. Eu visitei as moças do caixa que pegam o seu dinheiro com as duas mãos e devolvem o troco com as duas mãos, também. Eu visitei um lugar em que a interação entre duas pessoas faz surgir um universo paralelo (e passageiro) de gentileza e delicadeza e simpatia que eu sinceramente não sei se conseguiria sustentar a vida inteira.

 

Se na saída, no controle de imigração, eu tivesse que deixar uma declaração ao povo japonês, faria minhas as palavras da guia da destilaria de saquê de Takayama: Sorry my English!

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 14h57
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Nossos comerciais, por favor

Na televisão, só dá elas: um bando de avestruzes que esquiam no comercial do consórcio formado entre as companhias JR (ferroviária), JAL e ANA (aéreas) para levar os japoneses a esquiar no inverno. O programa se chama "Japan Snow Project" e o slogan é "We want snow!". Que língua será essa? Avestruzês? (Esqueci de fotografar os banners nas estações de trem, então importei essas imagens do site da Japan Rail.)

 

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 12h30
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Protocolos de Kyoto

As placas da estação dizem: Kyoto. O painel de mensagens dentro do vagão informa, com todas as letras: Kyoto. A voz do alto-falante do trem também fala, num inglês claríssimo: Kyoto Terminal. Ainda bem: se não dissessem, você não teria como adivinhar. A Kyoto onde você desembarca é uma grande cidade japonesa como outra qualquer – e não a cidadezinha tradicional parada no tempo que consta do arquivo de imagens pré-instaladas da sua cabeça. A estação é enorme e moderníssima, toda de vidro, acoplada a um hotel de luxo e uma loja de departamentos. Quer dizer: de uma certa forma, a avenida em frente à estação parece parada no tempo, sim – nos anos 70, para ser mais exato, com uns prédios feios que só.

 

 

 

Mas não, você não errou de estação. A Kyoto antiga continua em cartaz, em bolsões históricos espalhados pela cidade. E o mais incrível: chegar até eles é bico. O posto de informações turísticas distribui um mapinha superprático que mostra como se locomover de ônibus e metrô por entre os pedacinhos mais fotogênicos de Kyoto. Um outro folheto traz quatro roteiros de caminhadas por essas regiões. No próprio terminal de ônibus urbanos anexo à estação, as placas dos pontos finais informam, em inglês, as áreas de interesse histórico servidas por cada linha. Para cumprir todos os circuitos, o visitante precisa de pelo menos três dias inteiros na cidade. Como só teríamos uma tarde, uma noite e uma manhã, era preciso estabelecer prioridades. Guardamos a maleta de mão num dos guarda-volumes da estação e fomos tomar um capuccino no Starbucks para decidir qual seria a caminhada da tarde. Optamos por explorar o bairro de Higashiyama – não só pelos templos, mas também por ser contíguo ao bairro de Gion (diga Guion), onde há a maior concentração de gueixas e aprendizes de gueixa (maikô) do Japão. Depois voltaríamos à estação para pegar a mala e tomar um táxi para o nosso ryokan. Na manhã seguinte, uma voltinha pelo Castelo de Kyoto e tchau.

 

(Continua no próximo post)



Escrito por Ricardo Freire às 22h17
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Kyoto entrega. Se Tóquio banca a difícil, Kyoto é facinha. Aos trinta segundos de caminhada em Higashiyama, finalmente nos sentimos no Japão. (Koya-san foi lindo, mas estava mais para Horizonte Perdido  do que para Shogun.) Não adianta. Por mais que se viaje, a gente sempre sucumbe ao clichê.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se eu fosse construir uma cidade cenográfica japonesa, é exatamente assim que ela seria. Andamos por ladeiras sinuosas, repletas de sobradinhos de madeira com cortinas de palha, portas de correr e luminárias de papel de arroz. Os templos se anunciam à distância – é só andar em direção aos pagodes salientes no horizonte. Riquixás arrastados por meninos carregam turistas, inclusive japoneses. As vitrines dos restaurantes não mostram comidas de um tipo só (ou sushi ou sopa ou tempurá), mas banquetes completos, os kaiseki, refeições de uma dúzia de minipratinhos (com preço entre 50 e 120 dólares por pessoa).

 

 

 

Então caiu a ficha. Eu, que adoro montar uma viagem como quem monta um menu – com aperitivo, entrada, sorbet, prato, sobremesa, café e licor –, deveria ter planejado o trecho nipônico da viagem como um banquete japonês. Começar pelo mais delicado: o shashimi fresquíssimo, os legumes arranjados da maneira mais artística. A seguir, frituras enxutas e picles ardidos. Então um cozido exótico, com um molho inesperado. E só no final, naquela hora que você já está pedindo a segunda garrafinha de saquê , servir o arroz bastantão. O banquete japonês é assim: somente depois de encantar os olhos e aguçar o paladar é que o cozinheiro se preocupa em encher a barriga dos comensais. Traduzindo em estratégia de viagem – o itinerário ideal de um tour ao Japão começa por Kyoto (delicada, familiar e de fácil digestão), passa por um ou outro lugar mais exótico e aí, só no final, quando o viajante já estiver encantado e alegrinho, é que deve atacar a cumbucona de arroz de Tóquio. Falei. Bom apetite.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 22h17
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Depois da caminhada, voltamos para a estação para pegar a mala e tomar um táxi para nosso ryokan. Para quem perdeu algum capítulo anterior, ryokans são hotéis ao estilo japonês, onde você dorme em colchõezinhos baixos estendidos no tatâmi, toma banho à japonesa (lavando-se num chuveirinho e depois relaxando num ofurô) e janta um pequeno banquete kaiseki no seu próprio quarto. Os preços assustam. A diária mais barata de um ryokan realmente tradicional beira os 300 dólares – os mais bestas podem custar de 500 ou 600 dólares. Em termos relativos, entretanto, o preço não é tão absurdo, já que só o jantar custaria metade do que o ryokan está cobrando. Por causa do jantar, o check-in num ryokan deve ser feito no máximo até às 5 e meia da tarde – senão a cozinha não tem tempo de preparar todos os pratos. A corrida de táxi foi curtinha (menos de 15 minutos) e barata (10 dólares). Para nossa surpresa, nosso ryokan, chamado Motonago, ficava exatamente no bairro que a gente tinha percorrido à tarde. (Confesso que escolhi este ryokan pelo preço – era o ryokan tradicional com a diária mais em conta no site Japanese Guest Houses.com – e acabei esquecendo de pesquisar a localização.) A recepção foi bem mais calorosa do que no mosteiro de Koya-san. Três japonesas de quimono não paravam de rir e fazer reverências, irashaimassé, hai, arigató. Aliás, a única maneira de fazer com que elas parassem de fazer reverências foi pedir para tirar uma foto. Por um momento, achei que a minha câmera emitia um gás paralisante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O quarto era menor, porém mais confortável que o do mosteiro. Não tinha vista para o jardim, mas vinha com seus próprios banheiros (tanto o banheiro de tomar banho quanto o banheiro de ir ao banheiro). Preste atenção, por favor, porque aqui o parágrafo vai ficar meio confuso. Apesar do nosso banheiro de tomar banho ser ocidental (American style, ou americanustaru), o banheiro de ir ao banheiro era japonês (Japanese style, ou japanizustaru). Foi o primeiro banheiro japonês da viagem. Esqueci de fotografar (desculpa), mas eu diria que se trata de uma espécie de banheiro turco elevado por um pedestal. Até onde eu entendi, você sobe no pedestal, fica de cócoras e então faz o que precisa ser feito. Se a gente não quisesse passar por essa experiência antropológica, tudo bem: era só descer ao térreo, onde ficavam os banheiros comuns a todos os quartos. Ali, os sinais se invertiam, e o banheiro de tomar banho era japanizustaru, com banquinhos e ofurô, e o banheiro de ir ao banheiro era americanustaru, com privada, assento quentinho e jato d'água.  

 

 

 

Vestimos nossos yukatas (os quimonos de ficar em ryokan) e descemos para o banho japonês. Às 7 em ponto uma das japonesas da recepção – agora com um quimono mais requintado – chegou para arrumar a mesa para o jantar. Tentamos apagar a luminária fluorescente pendurada bem em cima da mesinha do jantar, mas ela não deixou – e de quebra mandou ver num sermão em japonês, provavelmente sobre a importância de se enxergar a comida, mesmo que para isso seja preciso lançar mão de iluminação de estádio de futebol. Nosso kaiseki veio em quatro etapas. Primeiro o sashimi, fininho e elegante, e uns potinhos com legumes chiquérrimos. Depois, peixe grelhado, picles e umas friturinhas, tudo tão bonito que dava pena de estragar o layout. Da terceira vez que subiu, nossa garçonete de quimono trouxe dois fogareirinhos com água e umas lascas de nabo (acho), onde jogou pedaços de carne que ficaram cozinhando sobre um foguinho daqueles de réchaud. Quando as chamas se apagaram, a carne estava cozida – e então deveria ser mergulhada num delicioso molho adocicado. Na última rodada veio o missoshiro e a cumbuca de gohan (arroz). Claro que esperamos a moça sair para misturar um shoyuzinho no arroz, um ato que sabemos ser totalmente ilegal (talvez até mesmo imoral) por aqui, mas que faz parte da nossa tradição japonesa particular lá de casa. Felizmente, ao voltar para limpar a mesa e deixar o chá verde e a sobremesa (três morangos), nossa garçonete fingiu que não viu os resquícios de shoyu nas nossas cumbuquinhas de arroz, poupando-nos, assim, de mais um sermão nipônico.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 22h16
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Desligamos a luz branca, e, como já tinha acontecido no mosteiro, o quarto voltou a ficar lindo. Às nove e meia, nossa criada voltou para arrastar a mesinha e fazer nossas "camas". Ligamos a TV e ficamos zapeando os canais abertos. Em cada um deles, uma variante do mesmo programa, nada muito diferente do Domingo Legal do Gugu. E achamos tudo aquilo muito japonês: ofurô, banquete, cama no tatâmi e sete SBTs para zapear.

 



Escrito por Ricardo Freire às 22h07
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Dormindo com os monges

 

KOYA-SAN – São oito da manhã e não tomamos banho. Nem vamos tomar. O banheiro de tomar banho só abre das 4 da tarde às 9 da noite. Tomamos o nosso ontem à noite. Não havia outros hóspedes, nem mesmo japoneses, mas ainda assim seguimos o protocolo do banho público japonês à risca. Pegar um banquinho. Sentar no banquinho. Abrir o chuveirinho. Espalhar água pelo corpo. Fechar o chuveirinho. Ensaboar o corpo. Acionar o chuveirinho novamente. Lavar-se até não sobrar mais nenhum resquício de sabonete no corpo. E só então entrar na grande banheira de ofurô. A gente, pelado; a água, pelando. (Desculpe. Não resisti.) Se o banheiro estivesse aberto agora de manhã, teríamos repetido a dose? Provavelmente, não. Faz muito frio. 5º negativos? 8º negativos? O mosteiro não tem calefação. O caminho do quarto até o banheiro de tomar banho é longo e gelado. No outro banheiro – o banheiro de ir ao banheiro – a única fonte de calor é o assento térmico da privada. Não, obrigado: o próximo banho vai ser em Kyoto, mesmo. Preferimos ficar aqui, encapotados, engorrados, enluvados e encachecolados, passeando pelas alamedas do mais bonito cemitério budista do Japão.

A alameda principal do cemitério de Koya-san tem dois quilômetros e leva a Okuno-in – o templo onde Kobo Daishi, o fundador da seita budista Shingon, está enterrado. Enterrado, não: acredita-se que Kobo Daishi não tenha morrido, mas que se encontre em estado permanente de meditação. Além de Kobo Daishi, que está neste endereço desde o século IX, aqui estão enterrados os budistas mais poderosos do Japão. Alguns dos mausoléus têm portais e esculturas; outros ostentam murais de madeira escritos de cima a baixo. A bruma da manhã e as árvores altas dão um ar místico que eu já conhecia de fotos – e que a neve só faz acentuar. Poderíamos ficar aqui a manhã inteira – mas se a gente perder o ônibus das 8h44 para a estação, não vamos conseguir chegar a Kyoto antes do meio-dia.

Como é que a gente veio parar aqui, mesmo? Ah, sim. Era junho do ano passado. Eu estava na Internet, em busca de um ryokan (hotel tradicional japonês) em Kyoto que coubesse no meu orçamento. Foi quando eu topei com o site da Japanese Guest Houses (www.japaneseguesthouses.com), uma pequena central de reservas em ryokans tocada por um americano. O site, completo e facílimo de navegar, traz descrições e fotos de ryokans de várias faixas de preço em 100 cidadezinhas espalhadas pelo país. Você escolhe seus ryokans, preenche um formulário, e o tal do americano cuida de tudo. De repente, abriu-se para mim a possibilidade de conseguir hospedagem em ryokans de cidades fora do circuito básico, em que o processo de reserva só é feito por fax ou telefone – e em japonês, obviamente. Um desses lugares é Monte Koya, ou Koya-san, um vilarejo a duas horas de Osaka que é a capital espiritual da seita budista Shingon – fundada, como você já sabe, por Kobo Daishi, que continua em estado permanente de meditação em seu mausoléu no templo Okuno-in. Koya-san tem mais de 100 mosteiros; muitos deles, veja só, aceitam hóspedes. Além de dormir no mosteiro, o hóspede experimenta a cozinha (vegetariana) dos monges e participa das orações ao amanhecer. Sair do fuzuê de Tóquio direto para um oásis zen-budista na montanha me pareceu um movimento perfeito, que valia sacrificar um dos dias em Kyoto. (Depois acabei arranjando uma outra cidadezinha simpática para conhecer, Takayama, e Kyoto virou uma reles parada de 24 horas.)

 

A viagem até aqui foi um pequeno épico japonês. Amanhecemos no Terminal 1 do aeroporto de Narita (!) para depositar As Duas Malonas no guarda-volumes e poder viajar light de trem. Do aeroporto pegamos um trem para a estação Tokyo, então um trem-bala até Shin-Osaka, daí um metrô até a estação Nanba, seguido de uma troca de estações a pé (tipo 10 minutos) para então pegar um trem superlento até Gokurakubashi, onde finalmente tomamos o funicular até Koya-san. Cansou? Imagine se a gente estivesse com As Duas Malonas (a Preta, com as roupas de verão, suadas pelo calor da Cidade do Cabo, de Cingapura e de Sydney; e a Prateada, com livros, guias e roupas de inverno para o Japão e Nova York).

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 20h40
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Chegamos a Koya-san às 3 da tarde. Os principais templos da cidade – situados num complexo conhecido como Garan – fechariam às 4 e meia. Resolvemos ir ao Garan antes mesmo de passar no mosteiro, com bagagem e tudo. Eu não comprei os direitos de imagem para publicar fotos de passageiros RiqTours neste blog, mas devo dizer que tenho fotos de alguns-de-vocês-sabem-Quem arrastando uma malinha de mão (de rodinhas) pela neve, enquanto este que vos bloga fotograva templos. Esses dois aí de baixo são exemplos raríssimos de pagodes de dois telhados (normalmente eles têm três ou cinco).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mosteiro em que ficaríamos hospedados se situa na extremidade oposta do vilarejo, às portas do cemitério. Fomos andando pela calçada congelada, passando pela frente de mosteiros e mais mosteiros, entremeados por uma ou outra loja. Durante todo o caminho fui decorando a frase com que abordaria algum passante, assim que chegássemos ao lugar onde o mapa indicava ser o nosso mosteiro: "Hai! Shojoshin-in?".( "Hai!", como você bem sabe, quer dizer "Hai!", mesmo. E "Shojoshin-in" vem a ser o nome do nosso mosteiro.) Chegamos ao lugar onde o mapa indicava ficar o nosso mosteiro, abordei um passante, falei "Hai! Shojoshin-in?" e ele respondeu coisas que eu não entendi, mas que pelo ideograma de seus gestos deviam significar "desculpe, eu não falo inglês". Repeti, então, a frase tão arduamente decorada – "Hai! Shojoshin-in", tentando fazer cara de quem estava falando japonês. Meu interlocutor continuou achando que eu falava inglês – e então eu lembrei que tinha impresso (ou imprimido? nunca sei) o e-mail do americano da Japanese Guest Houses que trazia os nomes dos ryokans escritos em ideogramas japoneses. Mostrei para o passante-san; ele sorriu, falou um monte de coisas que eu não entendi, mas estendeu o braço direito em direção ao prédio atrás da gente, num ideograma gestual que eu entendi como "é aqui mesmo".

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 20h39
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O monge que nos recebeu não devia ter mais do que 20 anos. Veio quase correndo, com medo de que a gente esquecesse de tirar os sapatos e calçar os chinelos de plástico que ficam de plantão na escadinha da porta principal. Preenchemos a ficha de entrada e ele então deu as instruções, escrevendo os números num bloco de papel, para não haver mal-entendidos. Jantar, 6 e meia. Banho, até 9 horas. Amanhã, 6 e 20, bum bum bum (entendemos como hora do despertar). Ritual matinal, 6 e meia. Café da manhã, 7 e meia. Check-out, 10 horas. Hai? Hai. Mandou deixar a maleta por ali mesmo e foi nos mostrar o alojamento. Avisou: "Best room!" e disparou na frente. Nós fomos atrás, e eu já estava agradecendo: "Arigató". (A essas alturas eu já tinha notado que os japoneses não falam arigatô, e sim arigató. Ou pelo menos eu ouvia assim.) Atravessamos um salão vazio, subimos uma escadinha, viramos num corredor; o monge falava "Best room!" e eu agradecia, "Arigató!". Chegamos, e só então eu entendi que ele queria nos mostrar o banheiro de tomar banho, "bathroom", e não o melhor quarto, best room.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De todo modo, nosso quarto não era mau – e, dada a inexistência de outros hóspedes, deveria ser mesmo o melhor. Tínhamos um janelão com vista para um o jardim japonês (congelado, claro). A mesa estava posta com chá e docinhos de feijão. No canto do quarto podíamos ver nossos yukatas – quimonos que devem ser usados enquanto você está num ryokan. O aquecedor a gás aumentava a sensação de rusticidade. Só duas coisas estavam fora do script: a televisão (!) e a luz fluorescente da luminária principal. Mas acendemos só uma lanterna no chão, e tudo ficou monasticamente japonês. Ficamos tomando chá verde e contemplando a noite cair sobre o jardim japonês congelado, até que o monge viesse nos chamar para o jantar.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 20h36
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Ao contrário do que acontece nos ryokans, nos mosteiros de Koya-san as refeições não são servidas no quarto, mas numa salinha à parte, parecida com os reservados dos restaurantes japoneses do Brasil. Todos os mosteiros de Koya-san preparam "shojin-ryori" – uma culinária estritamente vegetariana, característica do budismo local. Pensamos que iamos sofrer, mas o jantar no Shojoshin-in acabou se revelando nossa mais inesquecível refeição japonesa. Até o tofu era saboroso – e era bom mesmo que fosse, porque ao todo tivemos que experimentar quatro variações em torno do tema (com texturas e temperos diferentes, incluindo uma versão doce). Os picles não exageram no vinagre, e os monges preparam uns cogumelões adocicados que vou-te-contar. Já o shoyu tinha um azedinho delicioso que não encontramos em nenhum outro lugar. Aproveitamos que não tinha ninguém vendo, e tacamos shoyu no arroz. (Desculpaê, kudassai.) Na volta ao quarto, nossos futons já tinham sido desenrolados e arrumados para uma noite de sono. Fomos para o banho e, depois de meia hora de ofurô, dormimos como pedras de jardim japonês – acordando só ao amanhecer, ao bum bum bum do gongo chamando para as orações matinais.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 20h32
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Acordamos, vestimos nossos yukatas e ficamos esperando o monge vir nos buscar para o ritual. Seis e vinte e cinco. Seis e vinte e oito. Seis e meia, nada. Será que era para ficar esperando? Ou será que era para ir direto? Eu não me lembrava de nenhuma instrução específica. Seis e trinta e cinco, resolvemos sair em busca de algum sinal de atividade religiosa. O monge jovenzinho do dia anterior tinha nos mostrado onde ficava o banheiro de tomar banho, onde ficava o banheiro de ir ao banheiro, onde ficava a salinha de comer, mas não tinha mostrado onde ficava o templo-templo. Decidimos então voltar ao portão de entrada e pegar o corredor que levava à ala oposta de onde estávamos. Deu certo. Começamos a ouvir vozes ao longe, em volume crescente. Deslizamos uma porta de correr, e lá estavam eles. Quatro monges de cabeça raspada, sentados sobre as próprias pernas, no tatâmi, de frente para um altar dominado por um enorme Buda. Vimos uma fileira de bancos inteiriços encostados na parede e nos sentamos. Começamos então a absorver o ambiente. Flâmulas vermelhas penduradas no teto dividiam o recinto em dois. Em frente ao Buda havia objetos (enfeites?) antigos, posicionados simetricamente, além de frutas (oferendas?). Na extrema direita, na mesma linha dos monges, uma mulher estava sentada numa caderinha muito baixa. Tanto os monges quanto a mulher tinham livros grossos à frente, nos quais liam as orações. Um dos monges – o segundo, da esquerda para a direita – tinha sob sua guarda também um bumbo (deitado) e alguns bastões de madeira. Quem comandava tudo era o monge da extrema esquerda – os outros respondiam ou faziam a segunda voz. Na hora me ocorreu que o tom e o jeito de rezar daqueles monges não era muito diferente do que conhecemos como canto gregoriano. Quando eu estava começando a viajar no mantra dessa idéia, porém, um dos monges olhou para trás e veio até mim. Apontou para os nossos yukatas, nos levou até a porta de correr e falou: "Change!". Como assim? A gente tinha amarrado errado? (A gente sabia que tinha alguma coisa de amarrar o kimono com a esquerda sobre a direita, ou contrário.) Quando a gente estava do lado de fora, ele apontou para ali mesmo e falou: "Change". Pelo jeito, não era o caso de ir até o quarto e trocar totalmente de roupa. Na hora, chegamos à conclusão de que era para tirar o yukata de baixo, que de repente devia ser só um pijama, e ficar só com o yukata de cima, que era quentinho e tinha cara de quimono. Será? Ele voltou para dentro, nós tiramos os yukatas de baixo e entramos novamente. Acho que era isso mesmo, porque dali a cinco minutos fomos inclusive convidados para dar uma passadinha por trás das flâmulas – e por trás do Buda também – e queimar incenso numa pira. De volta ao nosso banquinho, acompanhamos o fim do ritual, com uma intervenção cada vez maior do bumbo e da marcação de ritmo com os bastões. Daí os monges e a mulher se levantaram, fizeram "Hai!" e um deles disse: "Go room now". Voltamos ao quarto e ficamos esperando nos chamarem para o café da manhã.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 20h31
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Eu falei café da manhã? Teria sido mais apropriado falar "desjejum". Experimente amanhã cedo: arroz japonês, chá verde e picles. Mas quem precisa de café (ou de banho) depois de rezar com monges budistas e cometer gafes indumentárias graves logo pela manhã? Abreviamos o desjejum, arrumamos a maleta de mão e fomos gastar nossa última hora em Monte Koya passeando por entre os túmulos dos budistas vips. Àquela hora, e naquele frio, não havia mais ninguém vivo no cemitério mais bonito do Japão. Lá pelas tantas, caímos na gargalhada. Valeu a pena. Um dia a mais em Kyoto não teria sido tão divertido.

 



Escrito por Ricardo Freire às 20h30
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Atendendo a pedidos: Monte Fugidio

 

 

 

 

 

 

 

Atendendo a um pedido feito num comentário de um post lá embaixo, aí vai a prova de como o Monte Fuji pode ir pras cucuias, dependendo da fotometragem da sua câmera. Num dia ensolarado de inverno, o branco do cume nevado pode empastelar l-e-g-a-l com o azul-bebê estourado do céu (foto da esquerda). Quer dizer: pelo menos numa câmera digital com tudo funcionando no automático (como é o meu caso). Numa câmera convencional, de preferência com filme Fuji, talvez a montanha dê sempre o ar da sua graça...



Escrito por Ricardo Freire às 10h37
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No pagode do xogum

NIKKO – A duas horas de Tóquio, Nikko é um complexo de templos que serve de mausoléu para o xogum Tokugawa Ieaysu, morto no século XVI. O templo principal, Tosho-gu, foi construído por seu neto, o xogum Tokugawa Iemitsu, seguindo instruções deixadas em testamento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quá-quá-quá. É sempre assim: cada vez que um simples turista (como eu) visita templos ou palácios em qualquer lugar do mundo, o pobre é engolido por um tsunâmi de nomes, datas e acontecimentos teoricamente imprescindíveis para se entender o lugar. Mas como dificilmente deram essa aula na escola (e se deram, a gente cabulou), o que a gente acaba retendo são coisas como "Nossa! Lembra aquele pagode chocante de cinco andares que tinha lá em Nikko?". Se fosse para dar um tom educativo a esse post, eu lembraria à distinta platéia, e em especial a todos os que algum dia venham a escrever sobre o Japão e a China, que "pagode" é uma palavra portuguesa (significa "confusão" e se aplica tanto a prédios com cinco telhados quanto a rodas de samba de fundo de quintal). "Pagoda" é só a versão inglesa desta palavra, e não deve nunca, jamais, never ser usada em textos no nosso idioma. Obrigado. Onde eu estava, mesmo? Ah: em Nikko. Pois bem. Assim como em outros templos que visitaríamos em outras cidades, no Tosho-gu você pode comprar uma espécie de cartãozinho de madeira e deixar um pedido por escrito às dividindades xinto-budistas. Pois não é que, no meio de todos os pedidos em japonês, nós achamos um com letras romanas arranjadas da mesma maneira que fazemos aí no Brasil?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 09h22
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Caso você já tenha ido a Bangkok, Nikko funcionará como uma espécie de "momento Tailândia" na sua estada em Tóquio: uma pausa para ver cores e dourados não em néon, mas em templos antigos. E caso o visitante seja tão ignorante quanto eu, a ponto de não saber que aqueles três macaquinhos tapando os olhos, os ouvidos e a boca representam um clássico provérbio budista ("Não dou atenção ao mal, não dou ouvidos ao mal, não dou voz ao mal"), pronto: já fica sabendo. Tanto o provérbio quanto os macaquinhos vieram da China, no século XIII; o entalhe de Nikko é o mais antigo que se pode encontrar no país. Talvez você saia de Nikko sem se lembrar do nome da dinastia Tokugawa, mas de repente pode gravar o nome dos macaquinhos: Kikazaru (o que não dá ouvidos ao mal), Iwazaru (o que não dá voz ao mal) e Mizaru (o que não dá atenção ao mal).

 

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 09h17
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Só no carteiraço

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se você quer viajar um pouquinho pelo Japão, o Japan Rail Pass é um bom investimento. Por 280 dólares (praticamente o preço de uma passagem Tóquio-Kyoto ida e volta), você tem direito a 7 dias de viagens ilimitadas pelos trens da Japan Rail (JR -- ou "Djêi Ár", em japonês). Mesmo enquanto você ainda está em Tóquio, você pode usar o passe para fazer passeios aos arredores – por exemplo, a Nikko (os macaquinhos, no post aí de cima) e a Odawara (onde você compra outro passe para ir a Hakone e ver o Fuji-san, vários posts para baixo). E não só isso: o passe dá direito aos trens metropolitanos da JR, como os da Linha Yamanote, a maior mão-na-roda para você se deslocar por Tóquio. (Nas linhas do metrô, no entanto, você vai precisar comprar passagem.) Mas o mais bacana do passe da JR talvez não seja nem a economia. É que, com ele na mão, você não entra pela "roleta", como os outros mortais – você vai pelo ladinho das catracas magnéticas, mostra o passe para o chefe da estação conferir a data, e pronto: hai kudassai arigatô gozaimashté, é só passar. Você está no país mais igualitário do mundo, mas basta aparecer uma catraca que você vira VIP. Hai!

 

P.S.: A única desvantagem do JR Pass é que você precisa andar o tempo todo com o seu passaporte -- que pode ser pedido a qualquer momento pelo chefe de estação para ver se o passe é seu mesmo. Em seis dias, ninguém pediu o nosso. Mas foi bom para ter a sensação de andar por aí com o passaporte no bolso, sem ter absolutamente nenhum receio de ser assaltado.

 



Escrito por Ricardo Freire às 09h11
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Cadê os posts novos?

Desculpaê, gente. Tô meio atrasadão. Mas entre hoje de noite e amanhã de manhã eu ponho mais uma safra de posts no ar. (Aproveitem para viajar nos arquivos: tem posts mais ou menos fresquinhos da Cidade do Cabo, Cingapura e Sydney. É só clicar no "Histórico",  ali na coluna da direita.) Inté!

Escrito por Ricardo Freire às 14h34
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