Depois do furacão

Até quinta-feira passada, em três meses de existência, este blog tinha tido 14 mil acessos. Eis que então, na quinta-feira, o pessoal do Uol resolveu dar uma chamada de capa com uma frase de efeito tirada do post mais recente ("Luanda é uma mistura de Havana com Serra Pelada"), e aconteceu a avalanche: 10 mil visitantes em 24 horas. O mais incrível é que esse pessoal todo passou por aqui e só viu o trailer – o post definitivo estava preso dentro do meu computador, numa viagem interminável, e sem acesso à rede, entre Luanda, Johanesburgo e São Paulo. Caso você seja um desses 10 mil da quinta-feira e tenha resolvido voltar aqui, depois do feriado, para ver o que é eu queria dizer com aquilo, seja bem-vindo. Role a página, que você vai encontrar um postão enorme. Fui!



Escrito por Ricardo Freire às 07h29
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Alô? É da Bahia?

O pessoal da ótima pousada Vilangelim, de Imbassaí (a praia da foto aí de baixo), me manda um e-mail para dizer que os telefones da Bahia ganharam um oitavo dígito. Não, não foi ontem, não: foi no final de fevereiro, mas eu não me lembro de ter visto a notícia em lugar nenhum. Na maioria dos casos, basta acrescentar um "3" na frente do telefone antigo.

Dei uma pesquisada, e o único caso de mudança radical foi em Morro de São Paulo – cujos telefones passaram de 483 para 3652. Nas outras praias, tudo igual com um 3 na frente: Trancoso (e mais os fixos do Espelho e de Caraíva) 3668, Arraial d'Ajuda 3575, Itacaré (região central) 3251, Península de Maraú 3258, Boipeba 3653, Cumuruxatiba 3573, Praia do Forte 3676, Imbassaí 3677. Ontem, dia 26, entrou em vigor o oitavo dígito também para os telefones de Sergipe.

Você tem programa para esse domingo de Páscoa? Eu tenho: mudar todos os telefones da Bahia no meu site de praias, o Freire's.

(Para ir direto ao guia de Imbassaí no Freire´s, clique aqui.)



Escrito por Ricardo Freire às 12h13
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Eu tardo, mas...

Eu detesto quando o blog vira o making-of do blog, mas com 10 mil acessos entre ontem e hoje, preciso me explicar. É o seguinte: o hotel próximo ao aeroporto de Johanesburgo incluído na minha passagem da South African tinha até cassino, mas não tinha nem Internet no quarto nem business center. Precisei atravessar o oceano e chegar em casa para publicar. Mas aí vai, tipo assim quase praticamente superfresquinho, meu relato de cinco dias passados dentro do nosso espelho do outro lado do Atlântico.

Escrito por Ricardo Freire às 17h10
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Postal por escrito: Luanda

Ninguém vende chiclete nos engarrafamentos de Luanda. Mas se você quiser comprar tábua de passar, antena de TV, calcinha, relógio de parede, faqueiro ou sapato, é só esperar. Enquanto o trânsito estiver parado – e aqui a hora do rush vai das 8 da manhã às 8 da noite – sempre vai aparecer alguém para vender o mosquiteiro, o cinto, o abajur e a cueca que você estava precisando. Com sorte, você leva para casa ventilador, três em um, toalha, churrasqueira, benjamins, óculos de grau e a Caras da semana, sem jamais se incomodar em achar uma vaga para estacionar.

 

 

Você pode se chocar com a pobreza de um lugar em que todo mundo parece viver de vender alguma coisa na beira da estrada. Ou você pode admirar a vitalidade e a capacidade de um povo que inventa uma maneira de sobreviver entre os escombros de uma guerra que durou quase os 30 anos da existência do país. No meu caso, depois de quatro dias tentando encarar tudo da maneira mais otimista, de repente me vi caído na mais profunda depressão. Mas daí pedi um pudim de sobremesa e passou. (Lição no. 235: nunca faça regime em países em fase de reconstrução.)

 

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Escrito por Ricardo Freire às 17h08
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Não há turismo em Angola – os estrangeiros que estão por aqui, aos montes, não vieram a passeio. Se eu ligar para a recepção do hotel e pedir um táxi para ir à praia, a recepcionista vai achar graça. Mas tão logo haja a mínima estrutura (daqui a três, cinco, dez anos?), não tenho dúvida de que os turistas vão começar a aparecer.

 

A situação de Luanda é belíssima: a cidade fica à beira de uma baía que mais parece uma lagoa, protegida do mar aberto por uma peninsulazinha longa e bastante estreita que o pessoal aqui chama de "Ilha de Luanda". Ao longo da baía corre uma avenida que me lembrou muito o Malecón de Havana, com alguns prédios muito bonitos da época colonial e um forte encarapitado num morro (não há cidade colonial portuguesa sem morro).

 

 

A região da Ilha é o playground da cidade, com praias públicas extensas e – preciso deixar claro que a-do-rei isso – pequenas praias particulares, servidas por restaurantes muitíssimo bem montados, freqüentados pela elite angolana e pelos "expatriados", que é como são chamados os gringos (portugas incluídos) por aqui.

 

 

 

Assim como no Brasil, a pobreza é evidente demais – basta sair da região central que a cidade vira um interminável "musseke", o termo kimbundo para favela. Ao contrário de nossas cidades, no entanto, a riqueza (ou a falta de pobreza) se esconde por trás de fachadas decrépitas e muros sem pintura. Deve ser mais ou menos como as ruas: a aparência pode ser lamentável, mas o engarrafamento é de jipões japoneses com ar-condicionado (OK, dividindo o que restou do asfalto com um exército de vans-lotações caindo aos pedaços).

 

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Escrito por Ricardo Freire às 17h08
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Saindo da beira-mar (onde fica a parte antiga) em direção ao interior, a cidade apresenta um layout muito interessante, com avenidas largas e muitas rotatórias. Embora o socialismo instaurado com a independência já tenha dado lugar a um capitalismo pragmático, aqui e ali ainda se notam resquícios da era pró-soviética – como as avenidas Lenine e Ho Chi Minh, o cinema Karl Marx e a implicância da polícia com qualquer pessoa de posse de uma câmera fotográfica. Arquitetonicamente, a cidade (assim como aconteceu com Havana, perdoe a insistência) parou na época da revolução – no caso de Angola, em 1975. Se por um lado o Estado nunca teve dinheiro para a manutenção dos prédios residenciais que já existiam, por outro lado também não conseguiu enfear a cidade com a horrorosa arquitetura institucional comunista. Dificilmente, no entanto, Luanda vai escapar agora da horrorosa arquitetura corporativa capitalista – os arranha-céus vêm aí.

 

Descontados os problemas de infra-estrutura (os elevadores que pararam de funcionar há 20 anos, os cortes freqüentes de luz, o caos do trânsito, a necessidade de visitar supermercados de todas as redes para fechar a lista de compras), os "expatriados" não vivem mal, não. Há bons restaurantes – o melhor deles é o Bahia, do qual Flávia Virgínia, uma das filhas de Djavan, é sócia –, um clube noturno muito bacana, o Palos, e os ótimos bares de praia da Ilha. A propósito, vai-se à praia em Luanda com um conforto e uma mordomia que nós só encontramos no Brasil em pousadas de altíssimo luxo à beira-mar.

 

 

O melhor desses clubes de praia, o Miami, faz todos os domingos uma Noite das Músicas com cantores e bandas locais. Domingo passado um dos convidados especiais foi um compositor-cantor-produtor chamado Heavy C. Com o porte do Ed Motta e a inteligência de um Eduardo Dusek, Heavy C é autor de letras satíricas geniais. Eu estava sem papel e caneta, de modo que não consegui anotar toda a letra de uma canção que começava com o verso "Eu quero ser um corno feliz", em que Heavy pede à namorada que lhe poupe de saber. Nem de "A higiene é um dom", sobre a tragédia de uma noie de amor prejudicada pela falta de asseio da companheira. Procurei por discos dele, mas não achei. Agora vou em busca de pelo menos um mp3.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 17h08
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O povo – e nós que vivemos no Brasil, decididamente, não temos moral nenhuma para criticar – não tem acesso a nada disso. Se falta luz para os ricos, falta tudo para os pobres. Mas já esteve muito pior, é o que todos dizem. Se hoje a guerra é uma desculpa para todos os males que ainda afligem o país, até 2002 a guerra era uma realidade de todos os dias. O problema mais visível da cidade é o lixo que se espalha por todo canto. Mas a se acreditar no que nos contam, há dois anos havia pilhas de lixo mais altas que os jipes. Se isso continuar a evoluir no mesmo ritmo, daqui a dois anos Luanda vai estar mais limpa que Zurique :-)

 

 

 

Todo mundo adverte o tempo todo para o problema da segurança, mas não vi muito motivo. Como não existem táxis e quase não há comércio (o primeiro shopping ainda está para ser inaugurado), nenhum visitante tem possibilidade ou motivo para andar sozinho pela cidade. Ainda assim, com exceção de disputas entre flanelinhas para vigiar o carro (alguém por acaso nunca passou por isso no Brasil?), não vi nada que pudesse indicar um ambiente hostil. Na vida real, pelo que notei, o medo maior é o de ser achacado pela polícia.

 

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Escrito por Ricardo Freire às 17h07
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Depois de muito insistir, acabei sendo levado a uma área normalmente off-limits (eu poderia dizer "vedada", mas off-limits é tão mais proibido, não é?) a estrangeiros: o Roque Santeiro, o maior mercado negro do mundo. São quilômetros e mais quilômetros de barracas montadas diariamente no alto de uma colina, onde se encontra de pasta de dente a metralhadora.

 

 

Existem quarteirões inteiros dedicados a artigos como jeans, perfumes, móveis e telemóveis (celulares). Lá dentro dá para ir ao cinema, jogar videogame, obturar uma cárie ou trepar em francês com putas importadas do Congo.

 

 

Por sinal, quase tudo no Roque (e em Angola) é importado – das Havaianas falsificadas na Nigéria aos sachezinhos de uísque fabricados na África do Sul.

 

 

Vende-se muita coisa produzida no Brasil. Cerca de um terço dos passageiros do meu vôo da South African de São Paulo para Joanesburgo era de muambeiros (muambeiras, sobretudo) de Angola. Em São Paulo, a fila do guichê de excesso de bagagem é quase tão grande quanto a fila do check-in. (Parênteses: é incrível que a Varig não esteja numa rota movimentadíssima como esta.) Entre Joanesburgo e Luanda, a South African coloca um Jumbão, juntando as sacoleiras que vieram do Brasil às que só foram até a África do Sul. No aeroporto de Luanda, o desembarque de bagagem dura quase duas horas. Cada muambeira traz cinco, seis malonas. Boa parte dessa mercadoria vem parar no Roque.

 

 

 

(Eu sei, você quer saber a origem do nome. Ouvi duas versões e ainda não decidi em qual acreditar mais. Uma vertente dá conta de que o mercado começou na época da primeira exibição da novela em Angola. Outros dizem que o nome vem do fato de sempre terem vendido muitos produtos brasileiros por ali.)

 

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Escrito por Ricardo Freire às 17h07
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"Pode descer com a câmera, eu garanto". O segurança me pegou de surpresa. Eu tinha levado a máquina só para fotografar o mercado por fora. Já estava conformado em deixar o equipamento no carro. Claro que não precisei de nenhuma insistência para colocar a alça em volta do pescoço e me embrenhar com a minha Canon pelo Maracanã dos camelódromos.

 

Tão logo começamos a descer – nosso grupo: dois brasileiros visitantes, um brasileiro residente, três seguranças angolanos – deu para ver que  barra não era tão pesada assim. Quem pinta o Roque como um lugar apavorante certamente nunca pulou o carnaval em Salvador (naquele momento em que você resolve sair do bloco e precisa atravessar a pipoca). Eu posso imaginar vários outros lugares – a bilheteria do Pacaembu em dia de venda de ingresso para decisão, por exemplo – em que aqueles três seguranças se fariam mais necessários.

 

 

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Escrito por Ricardo Freire às 17h06
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No início eu fotograva timidamente, sem querer enquadrar ninguém em primeiro plano. Mas de repente comecei a ouvir "Amigô, tira foto!", "Amigô, filma a minha barraca!", "Amigô, a minha também!". Se o resto do grupo não estivesse com pressa, eu poderia passar a tarde inteira fazendo lambe-lambe do povo do Roque.

 

 

Nossos guias acabaram errando a saída, e demos numa altura da avenida um pouco longe do ponto em que a van tinha ficado. Enquando procurávamos o lugar certo, eu aproveitava que estávamos no ponto mais alto do mercado e me postava em cada vão livre para tirar fotos daquela mar de barracas com o Atlântico ao fundo. Foi então que ele apareceu – o policial. Aos berros, ele dizia para um dos nossos seguranças (exatamente o que tinha dito que eu poderia levar a câmera) que era proibido levar estrangeiros ao Roque sem escolta policial – e terminamentemente proibido tirar fotografias. Eu olhava para a minha Canonzinha e temia pelo pior.

 

 

 

Ela não estava nem há seis meses na minha mão, tadinha. Pensei rapidamente numa maneira de fingir que estava apagando todas as fotos, mas ainda não aprendi sequer a manejar os botões certos, que dirá os errados. O segurança resolveu engrossar a voz com o polícia, e o resultado é que fomos parar todos na "esquadra" – um cercadinho com chão de terra batida que fazia as vezes de distrito policial. Ali, sob um sol senega... ops, angolano, eu fiquei bem uns 20 minutos com o kimbundo na mão, enquanto os seguranças chegavam a bom termo com os polícias. Não sei como se entenderam, não quero saber, e se soubesse, talvez não tivesse como publicar. O fato é que saí inteiro, de posse de minha câmera e cheio de fotos do Roque para postar. (Se bem que, assim em close, o Roque Santeiro não é muito diferente de qualquer feira que se possa fotografar nos grotões do Brasil.)

 

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Escrito por Ricardo Freire às 17h06
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É divertido ouvir os angolanos. A elite angolana fala igualzinho aos portugueses. Já o povo tem um sotaque diferente – os nasais são agudos, espanholados (Luánda, Án-gola, páo, máe); alguns "e" e "o" são fechados (dêla, côla). Nos meus ouvidos autocentrados, eles soam como estrangeiros falando o português do Brasil. Mas a surpresa é quando cantam. Se a música for angolana ou portuguesa, o sotaque é português. Mas se o cantor ataca de música brasileira, o sotaque se torna carioca da gema, com todos os dji, tchi, amorrr e forrrrça a que se tem direito.

 

 

 

O Brasil é adorado por aqui. Quer dizer: graças à exibição diária do "Cidade Alerta" pela Record Internacional, o Brasil não é mais idealizado, mas é de qualquer maneira queridíssimo. A identificação cultural é enorme. (E não estou falando de candomblé, vatapá ou acarajé – coisas, a propósito, inexistentes por aqui.) É triste ver que o Brasil não esteja mais presente em Angola neste momento tão fundamental. Portugal será, na melhor das hipóteses, um bom padrasto – enquanto o Brasil está fugindo às suas obrigações de irmão mais velho. O que tanto estamos fazendo na Venezuela, quando existe um país inteiro de fãs do Martinho da Vila precisando da nossa força (e oferecendo imensas oportunidades)?

 

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Escrito por Ricardo Freire às 17h05
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Na falta de um guia de viagem, passei esses cinco dias colecionando informações sobre lugares do país que vale a pena visitar quando voltar (sim, eu devo voltar em breve). Me falaram bem da ilha do Mussulo, a uma hora de barco de Luanda. Fiquei bastante interessado em ir até a reserva natural e às praias virgens próximas à barra do rio Kwanza, 100 km para o sul. (Safári e praia num mesmo lugar? Nunca soube de nada parecido na África.) Me contaram também de uma praia impressionante na costa norte, chamada Santiago, onde barcos gigantescos estão encalhados na areia. Já tenho também convites para ir a casas de família provar a comida angolana que não é servida nos restaurantes metidos – muamba de galinha, funje de mandioca, calulu.

 

 

Então ficamos assim. Da próxima vez, prometo que trago um relato menos Globo Repórter e mais National Geographic Traveler.

Escrito por Ricardo Freire às 17h05
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Tava terminando...

... mas agora tenho que ir para o aeroporto pegar o vôo para Johanesburgo. Assim que chegar ao hotel lá (vou ter que dormir uma noite na África do Sul) eu publico. Té já.



Escrito por Ricardo Freire às 05h34
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Um bocadinho mais de paciência...

... que por enquanto só deu para organizar as fotos. Só vou conseguir atacar o texto mais tarde. Mas aí vai um trailerzinho.

 

 

Aqui estão duas imagens que sintetizam como me pareceu Luanda: uma mistura de Havana com Serra Pelada.

 

 

Inté daqui a pouco, com texto de verdade e muitas fotos – inclusive do interior do formigueiro do Roque Santeiro, o maior camelódromo do planeta.

Escrito por Ricardo Freire às 11h53
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Calma, calma, tá tudo bem

LUANDA – Não, o MPLA (diga Emepelá) não me seqüestrou. Não, a Unita não cortou minha conexão de Internet. Vou dizer mais: sequer o feijão no óleo de palma (eles não dizem "dendê" na África!) que comi ontem me fez mal. Só não mandei notícias porque (1) anteciparam o fechamento da minha coluna na Época para ontem e (2) o guia do Estadão me encomendou um textinho urgente, e acabei usando todo o meu escasso tempo livre para entregar tudo na hora. Mas prometo que hoje à noite apiloudo (do verbo apiloudar) um post fresquinho – e apago este.



Escrito por Ricardo Freire às 11h54
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Efeito Glória Perez

Não, isso ainda não é um post sobre Luanda. É só um post para dizer que sim, eu tenho conexão para Internet no quarto do meu hotel (discada, mas tenho), e por isso vou poder transmitir daqui mesmo.

 

 

Só deixei o aeroporto no meio da tarde, depois de quase três horas de fila na alfândega. Aqui todo passageiro é obrigado a abrir as malas para os fiscais, dentro daquele programa de suplementação salarial do funcionalismo público em vigor em países do nosso Terceiro Mundo. Mas como minha mala foi uma das últimas a chegar, na hora em que passei o pessoal já devia ter garantido a féria do dia e me dispensou sem mais delongas, talvez porque quisesse ir logo para casa.

 

 

Mal chegamos ao hotel, nosso cliente angolano (que é brasileiro) nos levou para almoçar num bar-restaurante na beira da praia chamado, ahn, Miami. Miami? Peraí. Essa novela aqui não era "África"? Como é que virou "América"?

 



Escrito por Ricardo Freire às 17h15
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Air Herodes

 

Adoro o Economist. Chego a gostar mais do Economist do que das grandes revistas de viagem. Como não achar fascinante uma revista conservadora que é a favor da liberdade de imigração, do casamento gay e da discriminalização da maconha? Pois há uns dois ou três anos, numa de suas edições de fim-de-ano – ocasiões em que fica particularmente petulante –, o Economist trouxe um editorial genial. Seu ponto: a mesma linha de raciocínio que levou à proibição do cigarro em aviões deveria levar à proibição de bebês em aviões.

 

Maldito editorial. Eu fui lembrar dele antes do embarque, e deu no que deu. Dois bebês berrando a noite inteira entre São Paulo e Johanesburgo.

 

Se eu pudesse reescrever aquele editorial do Economist, eu iria mais longe. Eu diria que as medidas de segurança antiterrorismo em vigor no mundo justificam a proibição imediata de bebês a bordo. Se o passageiro não pode subir nem com uma inocente tesoura de unha, como é que deixam alguém subir armado de um bebê que, mal o avião decola, se revela filho de uma ambulância com um motorzinho de dentista?

 

Não, eu não tenho coração. Eu já não tenho coração ao rés-do-chão, que dirá preso numa lata de sardinha voadora, com meus joelhos imprensados pela poltrona da frente, tentando dormir sentado, com uma almofada inflável em volta do pescoço e dois bebês-DJ's animando uma rave na madrugada. O que um passageiro pode querer mais? Com exceção  de uma porção de milho-pipoca seco para se ajoelhar no corredor, não consigo pensar em mais nada.

 

Declaro a quem interessar possa que a partir de hoje a Fundação Freire para o Bem-Estar do Viajante vai destinar vultosas somas para a pesquisa científica acerca de todos os efeitos maléficos e irreversíveis causados pelas viagens de avião nos frágeis organismos em formação dos pequenos infantes. Assim que descobrirem os primeiros efeitos maléficos e irreversíveis causados pelas viagens de avião nos frágeis organismos em formação dos pequenos infantes, acionaremos nossos poderosos lobbies em Washington, Bruxelas, Tóquio e Brasília para que o transporte de bebês em aviões seja interditado.

 

Pronto, falei.



Escrito por Ricardo Freire às 17h06
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Tudo o que eu sei de Angola

Não é muito, mas aproveito para dividir com você. Assim a gente embarca nessa sabendo todos as mesmas coisas.


O ritmo mais importante de Angola é a kizomba. Com um pouquinho de pós-produção e toques de dance e rap, a kizomba vira o kuduro. Sim, kuduro significa isso mesmo que você está pensando.


(Ou quase: apesar de nos terem inspirado a palavra "bunda" – devido aos traseiros avantajados do povo kimbundo –, os angolanos, assim como os portugueses, chamam a bunda inteira de cu.)


Existe um certo Hélder, o Rei do Kuduro, mas o maior nome atual da cena kudura é o Dog Murras. Eu gostaria muito de ter visto o seu vídeo, mas o meu videocassete mastigou a fita e eu fiquei na vontade.


O futebol é muito popular em Angola; no entanto, o esporte de rua é o basquete. Por sinal, Angola é heptacampeã africana de basquete. (Alô, revisão: Angola é feminino? Uma luz, please.) O "extremo-poste" (seja lá o que isso signifique) Joaquim Gomes "Kikas" jogou no time principal da Universidade de Valparaíso, nos Estados Unidos, entre 2000 e 2004 (depois disso o Google perdeu contato), e foi considerado um dos atletas-revelação do basquete nos Jogos Olímpicos de Atenas.


Quase tudo em Angola é importado, e tudo é caro. A moeda se chama kwanza. Me contaram o câmbio, mas esqueci. Em um ano a inflação baixou de 70% para 30%. O PIB cresceu 12% no ano passado (olhaí, Palocci).


O presidente de Angola, a exemplo do Tasso Jereissati, é engarrafador de Coca-Cola.


Martinho da Vila é ídolo popular em Angola. Daniela Mercury e Ivete Sangalo estão muito em voga. Djavan é dono de uma pizzaria em Luanda. Custa 50 dólares comer pizza na pizzaria do Djavan.


Jussara Silveira gravou duas músicas de angolanos no seu último disco. (Você não conhece Jussara Silveira? Pois então saiba que Jussara Silveira é a melhor cantora que você não conhece.) Depois foi a Luanda e rodou um lindo videoclip dirigido por Lô Politi.


O centro comercial mais importante de Angola é um imenso camelódromo chamado... Roque Santeiro. Um lugar tão grande, mas tão grande, que tem até puteiro dentro. Eis a máxima suprema do marketing angolano: nenhum produto faz sucesso no país se não estourar no Roque Santeiro. Ou seja: o Roque Santeiro seria tipo assim a Curitiba de Angola. A diferença é que, no Roque Santeiro, brancos só podem entrar se estiverem cercados de seguranças – mais ou menos como no carnaval de Salvador.


(Eu quero! Eu quero! Eu quero!)



Escrito por Ricardo Freire às 00h02
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Próxima parada: Luanda

Você sabe que seu caso de turistitis cronicae é patológico quando chegam para você no trabalho e dizem: "Você vai ter que passar uma semana em Angola" – e você fica feliz da vida.

 

Tudo bem, não é Moçambique nem Cabo Verde, os dois lugares da África portuguesa que há tempos eu morro de vontade de visitar. Mas para quem – como eu – gosta de viagens exóticas, Angola é um prato cheio.

 

Acho que embarco amanhã. Digo "acho" porque até ontem o meu passaporte ainda não tinha voltado do consulado angolano no Rio. Entre os documentos que precisei tirar constava uma "cópia autenticada da carteira de identidade". Isso mesmo – mofei uma hora no cartório só para tirar um xerox do RG para acompanhar meu passaporte ao Rio de Janeiro. Resquícios da colonização lusitana, só pode ser.

 

No começo da semana, entrei no único site que poderia me dar informações quentes e isentas sobre Angola: o Lonely Planet. Só o Lonely Planet se dedica a lugares esquecidos pela indústria do turismo. Eu estava certo de que eles não me deixariam na mão numa hora dessas.

 

Pois veja o que Lonely Planet diz aos intrépidos mochileiros e antropoturistas que consideram tirar férias em Angola:

 

"Um acordo de paz assinado em abril de 2002 pôs fim a 25 anos de uma guerra civil que devastou o país. Mesmo assim, Angola ainda é instável e imprópria para viagens."

 

(leia o original aqui)

 

Ah, sim: o título da página é "WARNING". O texto continua com mais dois parágrafos de motivos para não ir para lá. E só.

 

Senhores passageiros: estou levando câmera e laptop. Se o meu hotel tiver business center funcionando, mando notícias.

Escrito por Ricardo Freire às 09h03
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A grande mágica da CVC: desaparecer com 80 km de litoral na Bahia...

Quando a CVC diz na propaganda que faz mágica para realizar sua viagem ao Nordeste, acredite: ela faz mesmo. Examine, por exemplo, o anúncio que saiu hoje na Veja São Paulo. Um pacote de 7 noites para Itacaré está saindo por inacreditáveis R$ 699. Mas essa é só uma parte da mágica. O truque genial – digno dos maiores ilusionistas – é oferecer a hospedagem do pacote de Itacaré num hotel em... Ilhéus. Mais precisamente em Olivença, a 85 km do centro de Itacaré.

 

 

 

O hotel em questão, o Village Back Door, nem é mau; é bem-estruturado, simpático e bem-mantido. Só que NÃO FICA em Itacaré. Ele é inclusive o hotel que eu recomendo no meu site de praias – para quem quer ir a Ilhéus, bem entendido. Quem se hospeda ali está na boca das duas praias mais bacanas de Ilhéus, Batuba e Back-Door, freqüentadas pela rapaziada do surf e suas admiradoras. Mas se o consumidor quiser ir todos os dias a Itacaré (conforme o anúncio lhe permite fantasiar), o pobre vai precisar primeiro vencer os 20 km que separam Olivença de Ilhéus, para em seguida atravessar todo o perímetro urbano de Ilhéus, então seguir pelas praias do norte, pegar a estrada-parque de Itacaré e subir a Serra Grande, para só aí aparecerem as primeiras porteiras que levam às praias de Itacaré. Prático, não?

 

Talvez a grande mágica aqui não seja nem vender uma praia como se fosse outra. É conseguir transformar o hotel mais bem-localizado de Ilhéus no hotel mais mal-localizado de Itacaré...

 

Mr. M adverte: mesmo em mágicas menos graves do que esta, saiba que localização quase nunca é o forte dos hotéis mais baratos oferecidos nos pacotes. Acredito, inclusive, que isso faça parte da estratégia das operadoras de massa. Ao se hospedar num hotel mal-localizado – em frente a uma praia imprópria para banho, ou pelo menos longe das praias desejadas – o cliente vai ter um estímulo a mais para comprar todos os passeios "opcionais" vendidos depois de chegar ao destino. Por 30 reais, um ônibus passa todas as manhãs na frente do seu hotel mal-localizado para levar você a uma barraca de praia conveniada com a operadora. (Então eu ensino: juntando seus 30 reais com os 30 reais do seu companheiro de quarto, dá para alugar um carro numa locadora regional e ir para onde você quiser, à hora que bem entender.)

 

Então tá. Prometo ficar de olho. Se começarem a vender pacotes para Trancoso com hospedagem em Porto Seguro, eu volto em edição extraordinária.

Escrito por Ricardo Freire às 11h58
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David Neeleman, um brasileiro

"Quando eu faço palestras, eu não gosto de ler nada. Eu prefiro falar de coração".

Talvez David Neeleman queira dizer que prefere "falar de cor", mas em inglês as duas coisas dão no mesmo. O idealizador, dono e presidente da companhia aérea de maior sucesso dos Estados Unidos é paulista – mas fala português com quase tanto sotaque quanto o Mangabeira Unger. Ele (o Neeleman, não o Mangabeira) esteve no Brasil nesta semana, para dar uma palestra no Fórum Panrotas. A imprensa foi até lá, mas não esperou pela palestra – se contentou com duas frases do ministro Palocci na cerimônia de abertura e deu no pé. Pena: quem foi embora perdeu a chance de ver para onde, de fato, caminha o negócio da aviação.

 

 

 

David Neeleman nasceu em São Paulo quando seu pai trabalhava aqui como correspondente estrangeiro. Mudou-se para os Estados Unidos com 5 anos, desaprendeu a língua de Camões e Odorico Paraguaçu, mas voltou para cá aos 19 anos, como missionário, e ficou dois anos trabalhando com favelados no Recife. Ah, sim: além de paulista, o dono da companhia aérea de maior sucesso dos Estados Unidos também é mórmon. E desde já vai se desculpando por qualquer, digamos assim, inadequação vocabular.

 

"Quando eu estava aqui como missionário, eu falava sobre santos, apóstolos, escrituras. Eu não falava nada de... como se diz mesmo? Ahn... decolagem".

 

E olha que de decolagem ele entende. Sua companhia, a JetBlue, entrou no mercado há cinco anos, e conseguiu crescer sem parar mesmo durante a maior crise da história da aviação americana. Enquanto o setor amargava perdas conjuntas de 20 bilhões de dólares (mais do que todo o lucro obtido nos últimos 50 anos), a JetBlue conseguia lucros operacionais ano sim, ano também – com um detalhe: cobrando as tarifas mais baixas dos Estados Unidos. Tipo assim: Nova York-Los Angeles por 99 dólares – uma viagem de 6 horas. Tá bom ou quer menos?

 

O fato é que a JetBlue é a melhor Gol do mundo. David Neeleman pegou os fundamentos das companhias "low-cost, low-fare" mais bem-sucedidas, e acrescentou muito conforto e qualidade de atendimento. Os aviões da JetBlue não são apenas novinhos: são novinhos e têm poltronas de couro. São novinhos e têm maior espaço para as pernas. São novinhos e têm monitores de TV em todas as poltronas – passando 36 canais de DirecTV ao vivo.

 

Para montar sua equipe, Neeleman tirou proveito a onda de demissões das companhias aéreas tradicionais e arrematou os melhores e mais experientes profissionais que acabaram sobrando (muitos deles, saídos de programas de demissão voluntária ou aposentadoria compulsória). Hoje todo mundo quer trabalhar na JetBlue. Ano passado a companhia teve 100.000 candidatos a emprego – escolheu 1.600.

 

De olho em criar o melhor ambiente de trabalho – e oferecer o melhor atendimento ao cliente –, a JetBlue dá participação de lucros a todos os empregados, e vende ações da companhia com 15% de desconto para funcionários (85% deles são acionistas). Com isso, de quebra, consegue deixar do lado de fora da empresa os sindicatos, que tanto transtornam a vida das companhias tradicionais.

 

Todos os funcionários são treinados na JetBlue University, onde o próprio David Neeleman faz questão de dar aulas. Aliás, a coisa que o dono da JetBlue menos gosta de fazer é ficar no seu escritório. O cara viaja nos aviões da companhia pelo menos uma vez por semana – ocasião em que aproveita para ajudar na distribuição do serviço de bordo (um pacote de salgadinhos) e na coleta de lixo entre um vôo e outro. Quer dizer – caso a gente possa acreditar no vídeo promocional que ele acaba de passar no telão.

 

Continua no post abaixo



Escrito por Ricardo Freire às 14h29
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Lá pelas tantas, Neeleman brinca de reclamar que o lucro da Gol ano passado foi maior do que o da JetBlue. "Mas também, a JetBlue cobra uma média de 100 dólares por cada 2.000 km voados; a Gol cobra uma média de 100 dólares por 600 km".

 

(Como é que a JetBlue consegue ser mais barata que a Gol? Titio Freire explica. Antes de mais nada, o mercado americano é infinitamente maior, e os impostos de lá, bem menores. Depois, a JetBlue segue de maneira ortodoxa o modelo das "low-cost": vôos diretos, sem escalas nem conexões, usando sempre que possível aeroportos secundários, e fazendo com que os aviões permaneçam no máximo 30 minutos no solo. Já a Gol tem uma malha de vôos semelhante a qualquer companhia tradicional, com muitas escalas e conexões, e usa como base principal o caótico aeroporto de Congonhas – tudo isso faz diminuir bastante a eficiência. E finalmente, a Gol andou aproveitando o cartel de preços entre Varig e TAM para subir consideravelmente suas tarifas – coisa que começa a corrigir agora.)

 

Mas devolvamos a palavra a David Neeleman. "Eu só sou presidente de uma companhia como a JetBlue hoje porque eu vivi aqui no Brasil entre as pessoas pobres", diz ele.

 

Não, não se trata de uma declaração demagoga especial para ouvintes brasileiros. Trata-se de uma declaração demagoga que David Neeleman faz freqüentemente por aí – como você pode conferir nesta entrevista recente ao jornal San Francisco Chronicle (aqui). Neeleman diz que aprendeu a tratar as pessoas – e a não se considerar melhor do que ninguém – durante seu convívio com os nossos favelados.

 

Sua família continua com negócios por aqui. Ele vem de vez em quando, e contribui para um programa de sua igreja que mantém jovens missionários dando aulas em escolas do Nordeste. (Coincidência: há três semanas eu voei entre São Paulo e Recife com um grupo de loirinhos mórmons, que conversavam entre si num português carregado de sotaque americano.)

 

"Eu sabia que os brasileiros são capazes de fazer coisas maravilhosas" – diz Neeleman, antes de emendar numa declaração de amor ao novo jato da Embraer, o 190. "Vocês estão fazendo melhor avião do mundo em São José dos Campos".

 

Mais uma vez, David Neeleman não fala da boca para fora. Já comprou 100 unidades do Embraer 190, com opção de compra de mais 100, e está pensando em encomendar mais 200. A esquadra de Embraer 190 vai fazer com que a JetBlue possa atuar em todas as cidades de porte médio que não são servidas por uma companhia "low-fare" – e nesse ponto, o executivo empreendedor se confunde com o missionário em cruzada contra as passagens aéreas exorbitantes. Antes de mudar de assunto, ele pergunta: "Eu não entendo como o Brasil ainda não descobriu o Embraer 190".

 

(Dois dias mais tarde saíram notinhas na imprensa notinhas dando conta que a B.R.A. estaria interessada em encomendar alguns Embraer 190 – "porque a manutenção é aqui do lado".)

 

Em seu escritório em Salt Lake City, David Neeleman expõe a Ordem do Rio Branco que recebeu do presidente Lula (não entendi direito, mas parece que foi pelo correio mesmo). Quando lhe perguntam o porquê da condecoração, ele explica que deve ter recebido a Ordem porque nasceu no Brasil e fala português quase bem.

 

"E talvez também porque eu comprei 6 bilhões de dólares de avião do Brasil."

 

Anote aí: o melhor do Brasil é o brasileiro que vira dono de companhia aérea americana.

Escrito por Ricardo Freire às 14h27
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Gol nos descontos

Golaço da Gol. Em 24 horas ela conseguiu reverter a percepção de que não era mais uma companhia "low fare". No fim das contas, os descontos vão sair barato para a empresa. Primeiro, porque vão aumentar a demanda e lotar aviões na baixa temporada. Depois, porque toda essa jogada funcionou como a melhor campanha publicitária feita por uma companhia aérea nos últimos tempos.

 

Acompanhe meu raciocínio. Quando a Casas Bahia baixa o juro a 1%, ela precisa comprar páginas e páginas de jornais e poluir o intervalo da novela com os comerciais daquele menino .............. (preencha os pontinhos com o adjetivo que melhor lhe aprouver). Mas quando a Gol faz uma promoção de preços, a campanha sai de graça na primeira página de todos os jornais e entra no noticiário (não no intervalo!) da TV e do rádio. Brilhante!

 

Pelo menos por enquanto, não se trata de marketing enganoso, não. As tarifas estão muito boas, inclusive em horários nobres. Munido de alguma paciência (o site continua devagar, e às vezes pede para você voltar mais tarde), pesquisei vôos saindo de São Paulo na sexta-feira da semana que vem, dia 18.

 

De Congonhas para o Santos Dumont, a Gol está cobrando entre R$ 199 (a maioria dos vôos) e R$ 299 (os três melhores horários da manhã e os três melhores do início da noite). A TAM cobra R$ 366, independentemente do horário.

 

De Congonhas para Porto Alegre, a Gol cobra entre R$ 192 e R$ 269; a TAM, R$ 511 fixos.

 

De Cumbica para Fortaleza, a Gol pega leve em R$ 433, enquanto a TAM mete a faca em R$ 827.

 

Todos esses preços são só de ida, saindo na sexta-feira dia 18.

 

Agora é esperar pela manutenção desses preços – e pela resposta do mercado. Como você leu nos jornais de hoje (eu ouvi ao vivo, no Forum Panrotas), o ministro Palocci já deixou claro que a política de preços combinados com o DAC está com os dias contados. No site do Panrotas (aqui) já saiu a notícia de que a CVC negociou para baixo o preço dos pacotes que usam vôos regulares TAM. Continuo apostando que, se a TAM não chegar perto, pelo menos a Varig, depois do final do code-share, vai colocar pelo menos um lote de assentos acompanhando os preços da Gol.

 

A ver...

Escrito por Ricardo Freire às 09h23
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Por que a Gol baixou as tarifas?

A explicação oficial foi o pequeno crescimento da companhia em fevereiro (5,8%, segundo a Reuters no Uol Economia, contra 43,6% de crescimento da TAM – os dois números em comparação aos resultados de fevereiro de 2004).

 

Duvido que esse seja o principal motivo. A verdade é que o pessoal da Gol não é bobo e já está se preparando para o fim do acordo de compartilhamento de vôos entre Varig e TAM. (E, por que não, para a transformação da charteira B.R.A. em companhia aérea regular.)

 

O code-share foi ótimo para as empresas, que lucraram como nunca, mas péssimo para o consumidor. Para nós, foi o pior dos mundos: com o fim da guerra de preços, a Gol pôde tranqüilamente elevar seus preços para um patamar bem próximo de Varig e TAM. E sem competir uma com a outra, Varig e TAM puderam baixar o padrão do seu serviço de bordo praticamente ao nível da Gol.

 

Enquanto o mundo inteiro vivia o apogeu das companhias aéreas low-cost, low-price, no Brasil a gente precisou agüentar um sistema único: o low-cost, high-price.

 

Por enquanto não dá para ficar muito animado, já que a Gol informou que a baixa de tarifas é para vôos fora do horário de pico. Tentei entrar no site para checar preços, mas as torcidas do Flamengo e do Corinthians estão fazendo a mesma coisa (a notícia é capa do Uol) e o sistema de reservas não está dando conta.

 

Em todo caso, minha bola de cristal diz o seguinte: como a baixa de tarifas não é indiscriminada, as outras companhias aéreas devem acompanhar os preços da Gol. Nos horários e nos destinos em que a Gol for barata, as outras também vão ser (pelo menos em algum lote de assentos). Nos horários e destinos em que a Gol continuar com tarifa cheia, as outras não vão se mexer.

 

A não ser que aconteça algo que não pode ser descartado – com o fim do code share, talvez a Varig seja obrigada a fazer uma liquidação de preços (ou superpromoções de milhagem) para evitar a fuga do seu passageiro para a TAM. Afinal, o consumidor teve dois anos para comparar a idade dos aviões e o padrão de eficiência das duas companhias. Agora que ele vai voltar a poder escolher, as leis do mercado vão voltar a vigorar.

 

É, talvez a coisa fique boa de novo para quem viaja de avião dentro do Brasil.

Escrito por Ricardo Freire às 14h35
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Nova York, algumas semanas antes de Christo

Role a página e veja, finalmente, os últimos posts relativos a quatro dias passados em Nova York agora há pouco, no... finalzinho de janeiro. (Ô blogzinho atrasado.) Em vez dos gates do Christo no Central Park, a cidade ainda vivia os efeitos de uma nevasca que tinha deixado montanhas de gelo sujo nas calçadas.

Como você vai notar, todos os posts giram em torno de comida, bebida e cama, que são as únicas coisas que se tornam relevantes num frio desses. Mas agora, pronto. Acaba a novelinha da viagem volta-ao-mundo e o blog volta a ser ao vivo. Ufa.



Escrito por Ricardo Freire às 08h17
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O Central Park das praças de alimentação

NOVA YORK – Botei essa expressão entre aspas no Google ("the Central Park of food plazas") e não voltou nada. Talvez em inglês a associação entre "park" e "plaza" não seja tão evidente. Mas em freirês é, e eu não consigo imaginar definição melhor para o Time Warner Center, o shopping chique inaugurado há um ano no Columbus Circle, numa das "esquinas" do Central Park. Eu sei, eu deveria ter ido visitar o novo MoMA, mas foi aqui que acabamos passando um entardecer depois da matinê do teatro.

 

Não que o lugar se apresente como um shopping; o jargão oficial é "varejo vertical". No subterrâneo existe um concorridíssimo supermercado com uma seção enorme de produtos orgânicos. Nos dois primeiros andares, poucas e boas lojas – uma mega Williams-Sonoma, uma Borders com deli Dean & DeLuca, um showroom-conceito da Samsung. Até aí, normal. O espanto acontece no terceiro e no quarto andar, onde estão reunidos alguns dos restaurantes mais caros de Nova York. Num shopping center!!!! Trata-se de uma idéia tão absolutamente anti-Nova York, que só poderia ter sido feita em Nova York, mesmo.

 

No per se, do chef californiano Thomas Keller (dono do aclamado French Laundry, no vale de Napa), o menu-degustação tem duas versões (uma delas, vegetariana) e nove pratos, e custa 175 dólares. (Não, não fui.) No Masa, também vindo da Califórnia (é o sushibar mais metido de Los Angeles), a degustação de sushi custa módicos 300 dólares por cabeça. (Não, também não fui.)

 

Nos casos de (a) pessoas que ganham a vida em reais, (b) pessoas que se recusam a comer em restaurante de shopping e (c) pessoas que se enquadram nas duas categorias anteriores, o porto mais seguro do shopping inteiro é o bar Stone Rose, onde por 10 dólares você toma um drink instalado numa das poltronas do lounge com uma vista sensacional para o Central Park. (Sim, nesse eu fui.)

Escrito por Ricardo Freire às 08h16
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E com vocês, o kulfi de Ovomaltine

NOVA YORK – Jean-Georges Vongerichten é o Rogério Fasano de Nova York – o mais bem-sucedido restaurateur da cidade, com oito restaurantes dificílimos de reservar (do francês Jean-Georges ao chinês 66), e mais algumas franquias mundo afora. Francês da Alsácia, foi o primeiro chef estrelado a emprestar prestígio à cozinha tailandesa, ao montar o Vong.

 

Um de seus sucessos mais recentes é o Spice Market. O espaço é absolutamente deslumbrante: um galpão enorme no Meatpacking District decorado com entalhes vindos do Rajastão, da Birmânia e da Malásia. A proposta gastronômica é música para minhas papilas gustativas: comida de rua do Sudeste Asiático e do subcontinente indiano. Nham. Comemos rolinhos vietnamitas, samossas indianas de frango com iogurte de coentro, mexilhões no coco com capim-santo, macarrão de arroz com alho e pimenta e um bacalhau com molho malaio (coco, amendoim).

 

Na hora do sobremesa, o garçom fez propaganda fortíssima de duas. Um arroz-doce brûlé (rice pudding brûlé) e um kulfi de Ovomaltine (Ovaltine kulfi). Evidentemente, nenhuma das duas existe na vida real, e eram criações de Jean-Georges. Aceitamos as sugestões, até porque dava para imaginar com facilidade como elas seriam. O arroz-doce brûlé seria um arroz-doce com uma crosta de açúcar feita no maçarico. E o kulfi (diga câlfi) de Ovomaltine seria certamente um sorvete de chocolate à moda indiana (caso você tenha faltado a essa aula, kulfi é o sorvete indiano, que leva bastante leite condensado na receita).

 

O arroz-doce brûlé era mesmo o que a gente imaginava. Já o kulfi de Ovomaltine... era gelado, mas não chegava a ser sorvete. Não vinha em bolas, como sorvete, mas numa fatia, como uma torta gelada. Mas não levava farinha. Era uma delícia, sim, mas... não, não era bem um kulfi. Tinha um sabor e sobretudo uma consistência que me eram familiares -- mas não de qualquer viagem à Índia. Não, aquilo decididamente não era sorvete, e muito menos indiano. Então caiu a ficha: o kulfi de Ovomaltine do Spice Market não passa de um.... brigadeiro gelado!

 

Catei o garçom e dei a notícia: "Hey! This is the Brazilian national birthday party candy!". (Acho que o cara não entendeu.)

Escrito por Ricardo Freire às 08h15
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A melhor carta de vinhos dos últimos tempos...

NOVA YORK – ... é a do Schiller's Liquor Bar, a nova casa de Terence McNally, o dono do Balthazar e do Pastis, especialista em criar ambientes que transportam o freguês a alguma velha estação de trem na França. Tudo no Schiller's é mais simplesinho que nas outras casas de McNally – desde a localização (Lower East Side) ao cardápio (todo de pratos da baixa gastronomia anglo-americana, como fish & chips e macaroni & cheese), sem esquecer, lógico, do preço. Mas nada é tão deliciosamente baixo quanto a sua carta de vinhos. Os vinhos vêm à mesa sem rótulo, em garrafas onde está escrito em letras enormes a qualidade do líquido. As categorias são três, a saber: CHEAP, DECENT e GOOD. Quer saber? O meu DECENT tava ótemo.



Escrito por Ricardo Freire às 08h15
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Brasse...rio?

(Ou: ninguém manda querer tomar caipiroska em Nova York)

 

NOVA YORK – Não me entenda mal: em princípio eu não tenho nada contra trocadilhos. Principalmente em inglês. Se fosse proibido fazer trocadilho em inglês, muitos jornais – e praticamente todas as revistas – da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Austrália teriam que fechar as portas. (Até o Economist, a revista mais inteligente e bem-escrita deste planeta, manda ver num título trocadilhesco de vez em quando.) O inglês talvez se preste a trocadilhos mais elegantes devido à maluquice do seu sistema ortográfico (ou melhor, à falta de um sistema ortográfico digno do nome), que faz com que palavras com grafias beeeem distintas sejam pronunciadas da mesmíssima maneira.

 

O que não acontece propriamente com o trocadilho (bilíngüe) que dá nome ao novo restaurante de comida brasileira de Nova York, Banana & Caviar "Brasserio". Caso você não tenha notado, a idéia é misturar brasserie (em francês, ao pé da letra, "cervejaria" – mas na vida real um tipo de restaurante grande e descontraído) com Rio (cidade maravilhosa, cheia de encantos mil etc.).

 

Calma. Pára a novela. Por que diabos um sujeito que está terminando uma viagem de volta ao mundo perde uma noite em Nova York para jantar num restaurante de comida brasileira?

 

Continua no post abaixo



Escrito por Ricardo Freire às 23h50
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Eu explico. Por baixo da minha pele falsa de turista profissional, eu sou na verdade um brazilianista amador. Nunca serei reconhecido como um brazilianista legítimo porque me falta a credencial mais importante, que é a de não ser brasileiro. Mesmo assim, não fujo às minhas responsabilidades – entre elas, ir atrás de como somos representados nas capitais do mundo, sobretudo agora que o Brasil está na moda (Gisele, Ronaldos, Havaianas, bossa eletrônica, Carlinhos Brown, caipirinha).

 

Se bem que ninguém precisa se armar de tanta desculpa assim para ir a um restaurante com cardápio assinado por Claude Troisgros. Mas como sempre aparece alguém para patrulhar, pronto: a justificativa oficial está no parágrafo aí de cima.

 

O restaurante fica na rua 22 entre Broadway e Park, num endereço onde por muitos anos funcionou o Rocco – pelo que me conta o Google, uma cantina badalada que chegou a servir de cenário para um reality show da NBC ("The Restaurant") mas terminou mal, com um barraco judicial entre o empreendedor americano (dono de vários outros restaurantes em Nova York) e o chef italiano (o tal Rocco). Pelo que pude deduzir, mudou a culinária, mas o conceito continua o mesmo: um restaurantão temático apoiado no prestígio de um chef reconhecido.

 

(Nota de rodapé a quem eventualmente precisar: Claude Troisgros é filho de um dos maiores chefs franceses de todos os tempos, Pierre Troisgros – que, juntamente com Paul Bocuse, formulou as bases da revolução criativa que viria a ser conhecida como "nouvelle cuisine". Claude Troisgros veio ao Brasil nos anos 70 para trabalhar no Le Pré-Catelan do Rio, se apaixonou – pelo Brasil e por uma brasileira – e acabou se tornando um dos pioneiros a explorar ingredientes e receitas brasileiras com técnica e rigor de cozinheiro francês. Na década de 90, abriu um restaurante em Nova York, o C.T., que teve grande sucesso de crítica mas só funcionou por três anos.)

 

PELO CERTO EU DEVERIA ESCREVER O RESTO DO POST ASSIM, porque este é o volume em que Pedro Luís e a Parede, Fernanda Abreu e Jorge Ben Jor, estourando o alto-falante, obrigavam a gente a conversar na mesa. Isso quando o barman – perdão: bartender – não resolvia acompanhar o ritmo com maracas ao vivo. EU SEI QUE ESTÁ UM BARULHÃO, MAS VOCÊ NÃO OUVIU MAL, NÃO: eu falei MARACAS, sim. Também, onde é que eles iam arranjar um bartender porto-riquenho que saiba tocar cuíca?

 

Junto com os cardápios, o garçom deixa na mesa a parte boa do nome do restaurante – a banana e o caviar. A banana é de verdade: um vidrão de chips de banana-da-terra. O caviar é deliciosamente falso: uma latinha de sagu de tapioca marinado no shoyu e no vinagre balsâmico. Sen-sa-cio-nal. Um trocadilho visual divertido e cheio de bossa. Vale a viagem, faz a gente relevar as maracas do bartender e querer saber: quando é que vai ter no Brasil também?

 

(Onde é que eu estava com a cabeça, que eu não levei a câmera pra fotografar a latinha de caviar de tapioca?)

 

A carta de drinks traz várias opções esquisitas (esqueci de anotar, porém se não me engano tinha coisas como Rio Mojito e São Paulo Margarita), mas o que eu estava interessado mesmo era em matar a saudade das minhas caipiroskas. Ninguém neste planeta gosta tanto de caipiroska como eu. Para mim, a capiroska está para a caipirinha assim como a bossa-nova está para o samba: a raiz é a mesma, mas o resultado é infinitamente mais suave e sofisticado. Amasse uma fruta tropical (suficientemente doce a ponto de não necessitar adição de açúcar) num copo com duas doses de vodka, acrescente gelo, e você obtém o drink mais saboroso, refrescante e "ressaca-free" que pode existir. Caipiroska de lima-da-pérsia (sem açúcar!) é o nosso champagne: vai bem com absolutamente qualquer prato. Minha maior pretensão é entrar nos anais da gastronomia como o descobridor do acompanhamento perfeito para comida indiana: caipiroska de manga! (Uma espécie assim de chutney alcooólico.)

 

Continua no post abaixo



Escrito por Ricardo Freire às 23h50
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Como não havia lima-da-pérsia, influenciei quase toda a mesa (nós dois, nossa amiga A.C. e um amigo seu, outra amiga brasileira e seu namorado, um chef francês) a pedir caipiroskas de manga sem açúcar.

 

Ai, que vergonha. Se o bartender das maracas fizer isso com todas as caipiroskas pedidas no restaurante, o dano à reputação mundial da caipiroska será irreparável. Minha futura carreira promissora de Robert Parker Jr. das caipiroskas não terá a mínima chance de acontecer.

 

Você não vai acreditar no que veio. (Por que eu não levei a câmera!!!) Para começar, a caipiroska veio de pinga mesmo – mas isso foi o menor dos problemas. O equívoco fundamental – aquele que indicava que seria inútil pedir para o das maracas refazer o drink – estava no fato de as mangas não terem sido amassadas. Manja, cortar uma manga em cubinhos e botar tudo para boiar num mar de cachaça, sem fazer nada? Tá bem, você pode dizer que eu podia largar de ser preguiçoso e amassar a manga eu mesmo, com o misturador do drink ou até com a minha faca. Impossível, senhoras. Fora do meu alcance, senhores. A manga contida na minha caipiroska, digo, caipirinha, era verde. Verde não no quesito cor, mas no sentido de manga não-madura. Manga dura. Manga azeda. Manga perfeita para salada tailandesa, com nam pla, coentro, açúcar, camarão seco e amendoim, mas absolutamente inadequada para a minha caipiroska favorita. Acabou? Quem me dera. Se não bastasse tudo isso – a fruta errada, o desconhecimento de que a magia da caipirinha/roska está em amassar a fruta em contato direto com a base alcoólica –, o manual de fazer caipirinha do Banana & Caviar Brasserio manda colocar PEQUENOS GOMOS DE LIMÃO, igualmente não-amassados, junto com as mangas verdes para salada tailandesa, tudo boiando no meu copo de pinga com gelo. Manga com limão! O americano dono do restaurante precisa urgentemente patrocinar uma viagem de estudos do bartender de maracas à Bahia.

 

E a comida?

 

Muito boa. (Ufa.) De entrada tem coisas como casquinha de siri e palmito assado. (A casquinha estava ótima; o palmito, no entanto, estava meio durinho.) Os pratos principais são colocados no meio da mesa, o que faz com que todo mundo acabe provando de tudo. O cardápio desfila clássicos brazucas (camarão à paulista, azul-marinho, moqueca) com uma ou outra idéia troigrosiana, como um ex-cep-cio-nal pato no açaí.

 

No caso do pato no açaí, tentei inclusive dar minha contribuição ao aperfeiçoamento do restaurante. Procurei transmitir ao cumim (natural de algum país onde os bartenders sabem tocar maracas mas não sabem o que é uma cuíca) a noção de que "açaí" é uma palavra oxítona. Transcrevo o nosso diálogo:

 

Cumim: - El pato con açái?

Eu: - Açaí.

Cumim: Êsso. Açái.

Eu: A-ÇA-ÍÍÍÍ!!!!!

 

O cumim deixou o prato e saiu assustado.

 

Todos gostaram muito da comida (inclusive o chef francês). Na hora da sobremesa, porém, o garçom – brasileiro – resolveu ser sincero e desrecomendar quase todas. O negócio era pedir a crêpe passion (que ele pronunciava com um pé no inglês e outro no francês: pa-shiôn). Ignoramos a sugestão e pedimos várias – todas boas, com destaque para um canudinho de doce-de-leite que se revelou o churro mais chique que eu já tive a felicidade de provar.

 

O gourmet acidental informa: o Banana & Caviar Brasserio está mais para Favela Chic do que para C.T. O que não é mau. Quer dizer – contanto que eles aprendam a fazer caipiroska.



Escrito por Ricardo Freire às 23h49
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Um hotel para chamar de meu

Ficar num hotel bacana em Nova York faz você ficar pelo menos 300 dólares mais pobre por dia. Para ficar num hotel muito bacana – tipo Mercer, Soho Grand, W Union Square – a conta começa lá pelos 400.

 

Se você só faz questão de uma cama e de um banheiro limpinho, o negócio é entrar num dos mega-sites "atacadistas" de reservas, como o www.hoteldiscount.com e o www.quikbook.com. Pesquisando com antecedência, você normalmente vai encontrar no mínimo uma dúzia de opções entre 100 e 150 doletas. Muita atenção, porém, antes de fechar negócio. Milagres não existem: se o hotel custar menos de 120 paus, muito provavelmente o banheiro vai ser fora do quarto – uma informação que nem sempre os mega-sites de reservas fazem questão de dar. (Como evitar entrar de desavisado? Vá googlando até achar o site oficial do hotel, então entre e procure informações sobre "rooms" e "facilities".) Confira também a localização. A maioria dos hotéis de 130/140/150 dólares fica em ruas pouco charmosas porém bem localizadas em Midtown; no meio das opções, entretanto, podem aparecer hotéis de aeroporto ou fora de Manhattan – por isso,  muita calma nessa hora.

 

Muito complicado para o seu gosto? Bem, eu não esquento mais a cabeça. Tenho o meu hotelzinho em Nova York, e – pelo menos enquanto o dólar não voltar a valer 1 real, quá quá quá – não troco ele por nada.

 

Não, não é segredo. Desde que foi inteiramente reformado, há uns 10 anos, o Washington Square Hotel é tido como o hotel com a melhor relação custo x conforto x localização por todo mundo que acha que a Nova York mais legal fica abaixo da rua 30. Quanto vale ficar no coração do Village, e a no máximo 15 minutos de caminhada do Soho, de Chelsea, da Union Square e do Meatpacking District? Bem mais do que os 166 dólares de diária da baixa temporada (inverno), ou que os 190 que eles cobram na alta (o resto do ano).

 

 

Os quartos são pequenos (alguns, muito pequenos) porém dignos, com banheiro impecável e, agora, até com Internet banda larga (grátis!). Mas o que deixa o hotel uma quase-pechincha é que o café da manhã está incluso – a raridade das raridades em Nova York. Café (trazido continuamente), um prato de frutas frescas, bagel, muffin, manteiga e geléia, servidos no simpático restaurante do hotel (que tem vida própria ao meio-dia e à noite). Na rua, esse Continental breakfast sairia uns 15 dólares por pessoa. Subtraia esses 30 dólares do valor da diária, e você vai ver que o Washington Square fica praticamente na mesma faixa das pechinchas dos mega-sites de reservas – mas com uma localização imbatível e até mesmo, vá lá, um certo charme.

 

(Antes que eu me esqueça: todas as diárias citadas aqui nesse post não incluem os impostos locais, que encarecem a brincadeira em uns 18%. Mas se você realmente quer viajar para Nova York, faça como eu: esqueça esse detalhe e deixe para levar o susto quando a fatura do cartão de crédito chegar.)

 

Tá bom, tá bom. Você achou 160 verdinhas (e 190 na alta) caro demais, anyway. Então deixo mais duas sugestões de hotéis decentes na região de Downtown, com diárias de 120 dólares. Nos dois, todos os quartos têm banheiro no quarto – mas o café da manhã não está incluso. O Union Square Inn fica perto de Union Square e é quase bonitinho. O Cosmopolitan fica no finalzinho da West Broadway, já em TriBeCa (mas atenção: só fique aqui se você não for alérgico a carpete roxo.)

 

Bookmarque os sites (todos têm reserva online)

Meu favorito: www.washingtonsquarehotel.com

Alternativas mais em conta: www.unionsquareinn.com, www.cosmohotel.com

Escrito por Ricardo Freire às 12h56
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