De quina pra Lua

Um dos objetivos práticos do meu feriadão no Rio era dar uma passadinha na praia do Abricó, que recentemente foi oficializada como praia de nudismo. Em 2000, quando eu estava fazendo o primeiro campo para o meu guia de praias (o Nordeste está atualizado e no ar; clique aqui), o Abricó era a única praia carioca que eu não sabia onde ficava. Por sinal, nenhum dos meus amigos nativos sabia. Mas não é difícil de achar. Está vendo Grumari, aí embaixo? Pois então. Fica do ladinho de cá.

 

Grumari, Rio. 

 

Na versão impressa do guia, o verbete sobre o Abricó ficou assim:

 

ABRICÓ (Off-Barra). É muito famosa no noticiário, mas poucos cariocas sabem onde fica: no canto esquerdo de Grumari. A fama se deve a uma associação naturista que tenta há anos, sem sucesso, transformar o lugar numa praia oficial de nudismo. Se conseguisse, seria a praia nudista de mais fácil acesso do país, porque está escondida apenas por algumas pedras grandes. Com ou sem nudismo, trata-se de uma praia muito bonita, protegida pelo morro e pelas pedras que proporcionam uma sombrinha amiga. A primeira parte da praia tem um ótimo boteco com mesas num deck e garçons que servem quem está na areia também. A segunda parte, depois das pedras, é totalmente selvagem. Para chegar, estacione na ladeira final que leva a Grumari – a praia está escondida abaixo da estrada. Daí é só descer uma escada. O Abricó fica a 37 km do final do Leblon. (Freire's Brasil Praias, Editora Arx, 2001)

 

Como essa era a primeira vez que eu estava no Rio num dia de sol depois da legalização do naturismo na praia, eu precisava dar um pulinho (de 40 km) até lá e atualizar minhas notinhas. Quer vir comigo?

 

A primeira impressão é a de que nada mudou. Assim como antes, não existem placas na estradinha de acesso avisando que o Abricó fica ali. A primeira parte da praia, a que tem o barzinho, está exatamente a mesma coisa. Para ser uma praiazinha perfeita, eu só tiraria as malditas mesas de plástico da areia.

 

 

Só ao passar para a segunda prainha é que você depara com o aviso de que a partir dali a praia é de nudismo. Se você prosseguir, vai atravessar uma zona da areia denominada "faixa de adaptação", onde você deve tirar a roupa, ou será educamente convidado a dar o fora.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 09h34
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Não, você não vai encontrar nenhuma foto de gente pelada nesse post. Só tirei fotos novas da parte não-nudista e das placas que avisam sobre a zona de nudismo. Não existe nada mais mal-educado do que um não-nudista ir a uma praia de naturismo para tirar foto de gente pelada. Isso é quase tão deselegante quanto ir a uma praia de nudismo só para olhar. Ei: você não está no zoológico. Praia naturista não é para olhar: é para tirar a roupa e se sentir índio. O naturismo é como o budismo ou o Santo Daime ou o culto ao cinema iraniano – algo que só quem está enfronhado consegue entender direito.

 

Praia do Abricó - foto de 2000 (antes da regulamentação como praia de nudismo)

 

Meu interesse no assunto é mais, como diria, topográfico – como autor de um guia de praias, precisava saber quais pedaços do litoral os nudistas reivindicaram para a prática de sua religião. Adorei todas as vezes em que precisei ficar pelado (entrar na água é absolutamente delicioso). Acho que eu daria um ótimo naturista xiita – porque, como escrevi uma vez (em "O primeiro Herchcovich a gente nunca esquece", clique aqui), sou daqueles que não conseguem encontrar roupas que lhes caiam bem – daí a desencanar total é um passo. Mas nunca fiquei numa praia de nudismo o tempo suficiente para me acostumar com a idéia. Por dois motivos. Um: o quê? perder essa marca de calção de banho que deu tanto trabalho para conseguir? Dois: você já tentou passar Sundown ? Mó difícil...

 

Para quem se interessar em experimentar a sensação de se bronzear ao léu, aí vão algumas panorâmicas das praias de nudismo mais bonitas do Brasil – e como chegar em cada uma delas.

 

Tambaba, Paraíba.

Única praia de nudismo que consta do cardápio oficial de atrações turísticas de uma cidade (no caso, João Pessoa). Vans e mais vans levam os turistas até a "porta" da praia – um corredor na mata, com vigilância permanente, que impede a entrada de pessoas não-vestidas (e de homens desacompanhados de mulheres, também). A maioria dá meia-volta e vai tomar sol em praias próximas, igualmente bonitas, como Coqueirinho e Tabatinga. Quem entra pode aproveitar um bar e, até ficar numa pousada (basiquérrima). Fica 25 km ao sul de João Pessoa, pela Rota do Sol. 

 

 

 

Pinho, Camboriú.

Totalmente escondida da estrada por morros, o Pinho foi a primeira praia de nudismo do Brasil a ser regulamentada por uma prefeitura. Tem bar, camping e pousadinhas simples. A maior parte da praia é controlada por uma associação naturista que cobra ingresso e só admite casais e famílias. Mas existe um acesso secundário (não-sinalizado), que leva à ponta norte da praia, que é grátis e aberta também a homens desacompanhados. O Pinho fica 10 km ao sul de Camboriú, pela estrada Interpraias.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 09h34
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Massarandupió, Bahia.

Separada da Linha Verde por 8 km de estrada de terra, fica numa região de lindas dunas. A parte nudista da praia é controlada por uma associação naturista que anda tendo uns arranca-rabos (ops) com grupos gays baianos, que exigem a liberação da entrada de homens desacompanhados. (Boa parte dos nudistas de carteirinha acha que homens desacompanhados ou são gays à procura de sacanagem ou homens a fim de olhar as mulheres dos outros peladas.) A estradinha de acesso sai da Linha Verde 15 km ao norte da Costa do Sauípe (35 km ao norte da Praia do Forte, 90 km do aeroporto de Salvador).

 

 

Galheta, Florianópolis.

A segunda praia de nudismo de acesso mais fácil no Brasil (a primeira é o Abricó). É vizinha das areias mais badaladas de Floripa – as da Praia Mole. Além de nudistas ortodoxos, é freqüentada por gays e por surfistas em busca do melhor swell. Para chegar, ande até o canto esquerdo da Praia Mole e siga a trilha – em dez minutos você está na Galheta.

 

 

Olho de Boi, Búzios.

É um bijuzinho de praia, separada da Praia Brava por uma trilha morro acima. Para chegar aqui, além de ser nudista, você precisa ser não-fumante, porque a subida não é para qualquer um. E lembre-se: se você descer, vai ter que subir de novo. Lá embaixo, um barraqueiro pelado vende cervejas e prepara caipirinhas pelo dobro do preço (já normalmente salgado) das outras praias de Búzios. Não exagere, ou você vai ter que chamar um barco para desencalhar você de lá. Para chegar, vá até o canto direito da Praia Brava e suba o morro.

 

Para saber mais:

- Site da associação Naturis: www.naturis.com.br

- Jornal Olho Nu: www.jornalolhonu.com

- Site oficial do Abricó: www.abrico.com.br

- Site oficial do Pinho: www.praiadopinho.com.br

- Site oficial de Tambaba: www.tambaba.com.br

- Ótima matéria de Paulo Sampaio, Débora Yuri e Roberto de Oliveira na Revista da Folha 



Escrito por Ricardo Freire às 09h33
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Você já foi a um japa hoje?

O texto do post logo abaixo ("Salve o seu japonês") é a Xongas dessa semana. Resolvi republicar aqui no blog porque: (1) ir a um restaurante de comida exótica é a viagem mais fácil e rápida que se pode fazer; (2) se ninguém fizer nada contra a histeria anti-sushi que se abateu sobre o Brasil, daqui a pouco o japa mais próximo da sua casa vai ficar em Buenos Aires. Se você concordar com os meus argumentos, você me ajuda nessa campanha? Envie o texto para os seus amigos que gostam de comida japonesa. Arigatô!

 

Sushimen num sushibar de esteira na avenida Omotesando, em Tóquio. Se fosse no Brasil, seus empregos estariam por um fio

 



Escrito por Ricardo Freire às 22h35
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Salve o seu japonês

Olhe bem o que você está fazendo. Quinze anos atrás você se arrepiava só em pensar que alguém pudesse comer comida japonesa. Se falassem "peixe cru" perto de você, era como se riscassem um giz com força no quadro-negro. Era ou não era?

 

De tanto insistirem, um dia você aceitou o convite (do seu primo publicitário? Da sua namorada que mexia com cerâmica? Daquele seu namorado nissei?) e finalmente foi a um restaurante japonês. Ora, ora: para quem já tinha andado de montanha russa, não era um simples japa que ia assustar.

 

Daquela vez você só pediu "pratos quentes", lembra? Surpresa. "É mais gostoso que chinês", você disse. "E bem mais saudável", emendou o seu primo publicitário, a sua namorada que mexia com cerâmica ou o seu cacho nissei.

 

O fato é que você gostou -- pelo menos do ambiente. Ou será que foi do saquê? No mês seguinte você voltou. Na terceira vez você acreditou quando disseram: pode comer esse sushi, que o camarão é cozido. E era mesmo! Dali a gostar de kani foi um pulo. Rosadinho, bonitinho, e com um gostinho de caranguejo...

 

Então aconteceu algo incrível. Quando foi mesmo? Lá pelo Plano Real, talvez: de repente, o Brasil foi invadido pelo salmão. Cardumes e mais cardumes. Vindos do Chile. Nadando contra a correnteza de um país onde só os muito ricos conheciam esse peixe cor-de-laranja (normalmente sob o codinome "salmon").

 

"Experimenta. Você vai ver que ele derrete na boca", fizeram propaganda na sua mesa. Você pegou seus palitinhos -- a essas alturas você já estava craque -- e pinçou uma fatiazinha de salmão. Foi paixão ao primeiro sashimi.

 

 

Depois disso, nunca mais houve salmão que chegasse para o seu apetite. Você passou a traçar todo sashimi de salmão, sushi de salmão e temaki de salmão que os sushimen fossem capazes de produzir.

 

Os restaurantes japoneses captaram a mensagem, e passaram a colorir os pratos de peixe laranja. O atum, o linguado e outros menos votados apareciam só para constar. Assim o mercado foi crescendo. Os japas deixaram de ser um fenômeno paulista e ganharam o Brasil.

 

Finalmente, há cinco anos, aconteceu uma segunda revolução. A velha piada do sushi ("esqueceram de cozinhar") virou realidade. Inventaram o sushi quente. O sushi frito. O sushi empanado. E então você se lembrou que peixe cru não era mesmo muito a sua praia, e caiu de boca na novidade. A ponto de os tradicionalistas serem obrigados a deixar bem claro na hora de pedir um combinado: "Dessa vez só peixe cru, viu?".

 

Pois bem. Nos últimos quinze anos, os restaurantes japoneses fizeram tudo para agradar você. Entenderam o seu gosto. Abriram filiais no seu bairro. Passaram a entregar em casa e até no escritório.

 

E daí você lê no jornal que vinte pessoas ficaram com dor de barriga por causa de um salmãozinho bichado e... você abandona o seu japonês totalmente! Você nem passa na calçada do restaurante japonês! Você não considera a hipótese de ir ao japonês nem para comer sushi frito!

 

Vem cá, não é um pouco radical demais da sua parte, não? Porque daqui a três meses, quando ninguém mais se lembrar que um dia deu problema no salmão, você vai voltar ao japonês do seu bairro e vai dar com o nariz na porta. No lugar vai ter uma placa: "Breve aqui pizza delivery".

Eu estou fazendo a minha parte. Janto no japonês dia sim, dia não. Tenho encontrado os mesmos abnegados que não querem ver o japonês do bairro fechar. De vez em quando peço pelo telefone, para dar algum trabalho ao entregador. E, mesmo contra as minhas convicções, não deixo de pedir bastante salmão.



Escrito por Ricardo Freire às 22h34
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"The chicest beach town you've never heard of"

 

 

Deu na revista do New York Times de ontem: o meu pedaço favorito do litoral brasileiro, Trancoso, é "o mais chique vilarejo de praia do qual você nunca ouviu falar". Para ver o que NYT diz sobre Trancoso, clique aqui. Para ver o que eu escrevo no meu guia de praias, clique aqui.



Escrito por Ricardo Freire às 22h24
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Fotoblog? Eu?

Para todo mundo que, "sem desmerecer o fotógrafo", quer saber que equipamento que eu uso aqui no meu "fotoblog", aí vai a ficha das minhas companheiras de trabalho. A da foto da esquerda (role um pouquinho a página e você chega nela) é uma Canon Rebel EOS. Entrou para a minha banda há uns oito meses. Comprei porque faz fotos grandes (mais de 5 megapixels), com tamanho suficiente para agüentar publicação em revistas – caso o "fotógrafo" tenha conseguido acertar o foco, evidentemente. Minhas fotos melhoraram bastante depois que eu passei a fotografar com ela – menos por causa desse monte de megapixel, e mais por causa do cartão de 1 giga, que armazena até 300 fotos. Ou seja: pela primeira vez na vida, eu posso ficar gastando clique à toa. Além disso, graças a esse brinquedinho ao lado dela na foto –a lente 55-200 – eu finalmente criei coragem para fotografar gente. Falta aprender a fazer foco, mas com paciência eu chego lá ;-)

 

 

A câmera da direita é uma Olympus D 510. Ela está na estrada comigo desde setembro de 2002. É baiana – comprei numa loja em Salvador, logo depois do trágico acidente que resultou no falecimento de sua antecessora, uma Nikkon sem zoom nem tampinha que me acompanhava desde 1999. (Eu conto como foi. Eu estava na ilha de Boipeba e fui atravessar o riozinho entre as praias de Cueira e Moreré. Tinham me dito: "cuidado com as ostras na margem!". Mas tinha chovido, a água estava turva, eu não vi a ostra afiada que cortou o meu pé, me desequilibrou e fez a Nikkonzinha morrer na hora, por afogamento.) A Olympus faz fotos de até 2 megapixels e tem um cartão que só armazena 22 fotos em qualidade máxima. A diferença entre as duas acaba sendo que quando eu saía com a Olympus eu me atinha ao plano geral, ao cartão postal, por causa dos 22 cliques. Agora que eu saio com o cartão de 1 giga da Canon (e a zoom) eu posso brincar mais.

 

No mais, posso dizer que elas fotografam sozinhas, mesmo. Só tiro do automático quando vou usar a tele (porque a máquina é burra e tapada e insensível e nunca foca aquilo que o meu cérebro manda focar). O único mérito meu é reenquadrar no Photoshop – uma brincadeirinha sensacional, porque é quase como fazer uma foto inteiramente nova. Mas não, vocês não "desmerecem o fotógrafo" quando perguntam do equipamento. Vocês só desmerecem o redator quando chamam esse botequim aqui de fotoblog ;-)

P.S.: Tem mais Rio no decorrer da semana. (E outros assuntos que estão na minha pauta.)



Escrito por Ricardo Freire às 23h34
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Mó num patropi

"Você escolheu a pior hora para vir. Vai chover o feriado inteiro", escreveu, no box de comentários, a leitora carioca, indignada por eu amar a cidade que ela tanto detesta: suja, malcuidada, com tantos problemas de saúde e educação. Vamos por partes, começando do final. 3) Se só fosse permitido gostar de lugares imaculadamente limpos, impecavelmente bem-cuidados, com mais hospitais e escolas do que botequins, só restariam no mapa alguns dos pontos mais aborrecidos do planeta. 2) Sim, a previsão era de que o tempo ficaria chuvoso ou pelo menos nubladaço até sábado à noite. 1) Não, eu não escolhi a pior hora para vir pra cá.

 

Teoricamente, a estação que conhecemos por outono é a melhor época para programar viagens à praia no Sudeste. Os dias costumam ser secos e ensolarados; as noites são fresquinhas. É o que os guias estrangeiros chamam de "dry season", ou estação seca. O que chamamos de verão no Sudeste é chamado por esses guias de "wet season", ou estação das chuvas. Se o Brasil ficasse na Ásia, eles diriam "monções" – na minha opinião, o termo que melhor descreve nossas águas de janeiro, fevereiro e março. Mas quando o outono engrena, São Pedro sossega, e o tempo fica firme por essas bandas sudestinas. Abril e maio costumam ser secos até em Ubatuba (Ubachuva, para os escaldados). Ou seja: quando eu comprei as passagens para o Rio (aproveitando a promoção de 50% de desconto) e reservei o hotel em Ipanema, passar o feriado de Tiradentes inteirinho sob chuva não estava em cogitação.

 

 

Ao desembarcar no Santos Dumont, contudo, eu já estava conformado em voltar pra casa tão branco quanto saí. Comecei a montar um roteirinho que de repente até pudesse render um "Manual de sobrevivência em dias chuvosos no Rio". Aproveitamos a tarde de quinta para ir até o Leblon almoçar no Celeiro, na rua Dias Ferreira – que serve as melhores saladas do Brasil, e mesmo assim funciona em sistema por quilo. (Detalhe: não abre sábado nem domingo.) Dali fomos resolver a parte cultural do feriadão. Primeiro passamos no Teatro do Leblon para comprar ingressos para Grandes Momentos da Terça Insana (eu sei, eu sei, é o cúmulo do bairrismo, mas como brazilianista amador eu preciso ver como é que o besteirol made in Bom Fim and Vila Madalena se comporta sob a maresia). De lá fomos ao Shopping da Gávea, onde funcionam nada menos do que quatro teatros, dois deles passando peças que queríamos ver: Divã, baseada no livro da querida amiga Martha Medeiros (olha o bairrismo aí de novo, gente!) e Surto, uma comédia de esquetes bem recomendada (e, finalmente, 100% carioca). E então fomos para o hotel, descansar até a hora de ir para o jantar no apartamento de um amigo poderoso na Vieira Souto.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 08h58
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Choveu torrencialmente à noite, e a sexta-feira amanheceu plúmbea. Para piorar o clima, fui descarregar as fotos no laptop e – cadê o cabo da câmera? Tinha esquecido em São Paulo. E agora? Em São Paulo bastaria dar uma passadinha na Santa Ifigênia, a rua que tem tudo de eletrônica, música e informática. Onde seria a Santa Ifigênia do Rio? Entrei no Google e escrevi, entre aspas, "Santa Ifigênia" e "Rio de Janeiro". Pimba: num dos primeiros resultados, apareceu uma página que dizia que a coisa mais parecida com a Santa Ifigênia no Rio de Janeiro é o edifício Avenida Central, na Av. Rio Branco, 156. Encontrei o cabo no terceiro quiosque em que procurei, a 25 pratas, e fomos comemorar com um café expresso na Confeitaria Colombo, que fica pertinho.

Do Centro fomos a Copacabana, para uma escala perfeita para dias nublados: a Modern Sound, na Rua Barata Ribeiro, 502, perto da esquina com a Santa Clara, simplesmente a melhor loja de discos do Brasil. (No fim de tarde ela fica ainda mais bacana, porque sempre rola música ao vivo num café que funciona dentro da loja; não é raro que nomes do primeiro time façam pocket-shows.) Achei um Nei Lisboa e um Vítor Ramil que não consigo achar na Fnac (bairrismo! bairrismo!). A idéia era continuar por Copa, fotografando as fachadas art-déco dos prédios anos 40 do Posto 2, perto da praça do Lido, fechando com um almoço no ótimo Amir, na própria praça (na minha opinião, um árabe melhor que os de São Paulo).

Mas eis que ao sair da Modern Sound as nuvens de chumbo tinham ido quase todas embora, e, contrariando todas as previsões do tempo, nacionais e internacionais, o dia estava azul-azul-azul. Ipanema, volver!

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 08h58
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É a dor e a delícia de viver no trópico. Assim como você nunca pode ter certeza de que vai fazer tempo bom, também nunca pode contar incondicionalmente com o tempo ruim. Meteorologicamente falando, só existe uma certeza: a certeza de que o tempo pode virar a qualquer momento. Por essas latitudes, o nome mais apropriado para aquela seção fixa dos jornais deveria ser "Imprevisão do tempo".

 

Eu precisava de um tempo bom. Se você leu o que eu postei na quinta, sabe que esta é a primeira vez que venho ao Rio depois de dar a volta ao mundo em busca dos outros "Rios de Janeiro" do hemisfério sul – a Cidade do Cabo e Sydney. Tanto uma quanto outra me receberam com dias esplendorosos. Seria uma injustiça com os parâmetros eminentemente científicos da minha pesquisa que eu tivesse que puxar pela memória de dias esplendorosos na Guanabara para completar a comparação.

 

 

 

Um breve passeio pelo calçadão de Ipanema confirmou aquilo que eu já vinha elaborando há um tempinho – e que vou elaborar melhor no dia em que escrever de verdade sobre isso. O que faz uma cidade ser um Rio de Janeiro não é simplesmente a topografia de morro-e-mar (como na Cidade do Cabo) ou a descontração dos seus habitantes (como em Sydney). Para ser um Rio de Janeiro a cidade precisa, em primeiro lugar, ter alma de balneário.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 08h57
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Em nenhum lugar do nosso planeta existem tantas pessoas vivendo permanentemente junto ao mar – morando, trabalhando, estudando e escapulindo para a praia na primeira oportunidade, em qualquer época do ano. A praia é a sala de estar do Rio. Nas outras cidades grandes com praia (pense também em Miami, em Los Angeles, em Barcelona), a praia é uma varandinha. Ou o jardim dos fundos. Você pode até dizer: ah, mas o Rio não é só a Zona Sul e a Barra. Tudo bem. Compare a população da Zona Sul e da Barra com a de Miami Beach, a de Santa Mônica ou a de Barceloneta. Você vai ver que a Zona Sul é a Cidade do México, a Tóquio e a São Paulo dos balneários.

Um ótimo anúncio da Embratur criado no finzinho da década de 80 (por um iniciante Marcelo Serpa em dupla com Stalimir Vieira) mostrava o paredão de prédios da Avenida Atlântica com o seguinte título: "Imagine Waikiki em Manhattan". Mas como quem inventou o molde das cidades-balneário, com beira-mar e passeio (promenade), foram os franceses, permita-me ser mais besta e falar numa Nice servindo de fachada para uma Paris do trópico.

 

 

Ah, sim. O trópico. É ele que faz toda a diferença. Se a Cidade do Cabo e Sydney se mudassem 2.000 km para o norte e entrassem na zona tropical, talvez a umidade e a exuberância da vegetação tivessem feito as cidades degenerarem para uma zona que nem essa daqui.

 

 

O fato é que tanta sociologia barata deu fome, então fomos almoçar em outro quilo bacaninha (o Rio é pródigo em quilos bacaninhas), o Da Silva, na Praça N. Sra. da Paz (mas que à noite funciona como restaurante-pizzaria normal). Para fazer a digestão, uma caminhada até a encantadora Livraria da Travessa, na Visconde de Pirajá, 572 – que, além de todos os livros que você possa querer, ainda tem uma simpaticíssima seção de CDs se-le-cio-na-dís-si-mos.

 

 

Depois de uma sesta, jantamos no Nam Tai (desculpem se parece que o disco arranhou, mas não existe um tailandês como este em São Paulo), na Rainha Guilhermina, no Leblon. Em seguida, na platéia dos Grandes Momentos da Terça Insana, avistamos Dráuzio Varela e Regina Braga, Leila Pinheiro, Marcos Pasquim e Murilo Rosa. (Nenhuma vinda ao Rio de Janeiro será completa sem avistar ao menos alguém do casting fixo de Caras.) E na saída ainda demos um beijo na nossa querida amiga Ilana Kaplan (bairrismo! bairrismo!), uma das estrelas da peça.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 08h57
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Pois bem, senhores passageiros, o dia lá fora desmoraliza para sempre os institutos de meteorologia. Lamento pela minha leitora carioca que tanto detesta a sua cidade, suja, malcuidada, com tantos problemas de saúde e educação – mas, fazer o quê? Vou até ali ser feliz e já volto.



Escrito por Ricardo Freire às 08h57
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Próxima parada: Rio de Janeiro

Em janeiro, inaugurei esse blog com uma viagem grande, cujo objetivo principal era ir à Cidade do Cabo e a Sydney numa mesma vez. Assim, quando voltasse, eu poderia escrever sobre "todos os Rios de Janeiro do mundo".

 

Saber se essa matéria ainda está de pé é uma das razões que me levam ao Rio nesse feriadão. (A outra razão é que faz mais de seis meses que eu não vou ao Rio, e me afastar do Rio por um tempo tão grande é contra a minha religião.) Como eu só vou conseguir postar algo que valha a pena na sexta à noite ou no sábado de manhã, deixo aqui alguns aperitivos para você não sair dessa visita de mãos abanando.

 

 

Role a página, que você encontra.

 

O aperitivo número 1 é o link para os posts da Cidade do Cabo, escritos "ao vivo" no comecinho de janeiro. O aperitivo número 2 é o link para os posts de Sydney, também feitos "ao vivo" no meio de janeiro. E finalmente um textinho "clássico" (pretensããããããão...) sobre o Rio, Valsa de uma cidade, que eu escrevi em 98 para o meu livreto Viaje na Viagem e que resume o meu amor pela Guanabara. Inté sexta ou sábado. Fui!



Escrito por Ricardo Freire às 12h29
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Cidade do Cabo: o Rio de Janeiro da África do Sul?

 

 

Para começar pelo primeiro post, clique aqui.

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Escrito por Ricardo Freire às 12h27
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Sydney: o Rio de Janeiro da Austrália?

 

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Escrito por Ricardo Freire às 12h25
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Valsa de uma cidade

Se algum dia me perguntarem por que eu viajo, eu vou responder: para ver se encontro algum lugar mais encantador que o Rio de Janeiro. Até hoje, não encontrei. Outras cidades podem ser muito superiores em um ou outro aspecto, mas levam nota baixa em tantos quesitos — tipo ala das baianas, empolgação e alegorias de cabeça — que na média acaba dando o Rio, longe. Se você fizer questão de padrões internacionais de julgamento, tudo bem, lá vai: o Rio é Oscar de cenário, direção de arte, casting, (falta de) figurino, roteiro e trilha sonora original. Em que outro canto do planeta você encontra praia, vida cultural de primeira, gastronomia, compras e um povo exótico (nós mesmos!), tudo num lugar só, e em qualquer época do ano?

 

 

 

Para começar — eu adoro dizer isso, porque consigo injuriar paulistas e cariocas numa mesma frase — o Rio é a melhor coisa de São Paulo.

 

A própria ponte aérea já é uma grande idéia — uma invenção made in Brazil, imagine só, fruto da aliança entre o capital e a vontade de fugir do trabalho. O vôo inteiro é lindo. Com tempo bom, são pelo menos 30 minutos ininterruptos de litoral sendo traçado ao vivo embaixo do seu nariz: a Ilhabela, a baía de Ilha Grande, a restinga da Marambaia. A aterrissagem é mais linda ainda. O avião mergulha perigosamente em direção a um centrinho manhattóide — mas quando você desce a escada, o bafo, o cheiro da maresia e a visão do Pão de Açúcar no canto esquerdo da tela dissipam quaisquer dúvidas e dão as boas-vindas à Guanabara. Que Hong Kong que nada: não existe pouso como no Santos Dumont.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 12h21
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Antigamente, você mal chegava e era disputado por três ou quatro mulheres que aliciavam você ao mesmo tempo, usando a mesma frase provocante (“Táxi, senhor? Táxi?”). Hoje a coisa está (infelizmente) mais organizada. Mas mesmo assim você entra no táxi e em trinta segundos já está costeando o gramado pré-brasiliense do Aterro, com o dinheiro velho da praia do Flamengo te olhando de um lado, o Pão de Açúcar ficando cada vez mais próximo do outro, e o conjunto da obra dando a certeza de que o Brasil um dia já teve um projeto estético mais bacana.

 

Mais um pouco, você atravessa o túnel e chega a Copacabana, o RG extraviado do país, espelho quebrado da nossa alma, um bairro chamado 200 (desisto. Nada vai ser melhor que “purgatório da beleza e do caos”, © Fausto Fawcett, ou “Notre Dame d’Avenue”, © Eduardo Dusek). Se o Brasil fosse fazer um tratamento ortomolecular e tivesse que arrancar um fio de cabelo como amostra, este fio de cabelo (originalmente pichaim, depois alisado) seria Copacabana. Estamos todos lá: milionários falidos e favelados emergentes, latifundiários e sem-teto, aposentados e boys, classe média alta, classe média baixa, classe média gorda, classe média magra, gente de todos os fatores de proteção solar e de uma profusão incatalogável de sexos dividindo um quarto-e-sala de 6 postos. Copacabana não vive: se expõe. Poder andar descalço e de roupa de banho (meninas, não esqueçam a canga) pela avenida Nossa Senhora de Copacabana, na hora do rush, revela mais sobre a nossa cultura do que 5 anos de sociologia na PUC.

 

 

Adoro, mas muito obrigado. Prefiro assistir a Copacabana de uma distância segura — em Ipanema ou no Leblon. É mais bonito, você pode ir à churrascaria Plataforma invocando a memória de Tom Jobim quando na verdade é pelo ar condicionado depois da praia, e sempre dá para responder “Pela Lagoa”, não importa qual seja a pergunta do taxista. Mais para lá do que isso só se deve ir (e voltar correndo) à Prainha, ao Quinta, à Tia Palmira ou muito excepcionalmente a um show no ATL Hall. Ou seja: pule a Barra. Por enquanto, a Barra não diz respeito a forasteiros como você e eu. Viver na Barra parece ser uma espécie de programa espacial colocado à disposição do contribuinte carioca. A Barra da Tijuca é a Lua de Copacabana.

 

 

(A propósito: não acredite que para ir à praia você precisa pra lá da Barra. É verdade que as praias pra lá da Barra são incomparavelmente mais limpas e menos cheias que as da Zona Sul, mas se você quer praias incomparavelmente mais limpas e menos cheias as da Zona Sul, não vá ao Rio. O aspecto natural mais interessante das praias do Rio é a fauna. Não compensa enfrentar as agruras do trânsito apenas por um pouco de contato com o reino mineral.)

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 12h21
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O que faz do Rio um lugar fora de série para passar férias é que lá o turista nunca é intruso. O turista apenas está compartilhando das férias da população local. Não é preconceito, não: é que tudo o que é feito ao ar livre no Rio de Janeiro tem aparência, gosto, textura e consistência de férias. Eles provavelmente nem se dão conta, mas fazer jogging na beira da praia às 6 da manhã é como sair um pouquinho de férias todos os dias. Tomar um chopp na saída do trabalho (nem que seja depois de um serão nipônico) é férias. Num domingo ensolarado, a sua cidade pára — mas o Rio de Janeiro entra em férias. É um prazer incomparável poder passar as férias num lugar tão bem equipado para as férias dos seus próprios habitantes.

 

Mas claro que você não vai perceber nada disso, se passar dia e noite surtado pela síndrome da paranóia adquirida.

 

 

 

Eu sei, é mais forte do que você. Foram anos e anos de briga em rede nacional, às 8 da noite, entre seu Brizola e dona TV Globo, e fica difícil você captar o encanto quando o seu radar só está programado para detectar arrastão. Mas veja bem: se o Rio fosse tão perigoso assim, como pode tanta gente estar na rua o tempo todo, tomando seu chopinho de pé na esquina, andando no calçadão de relógio, indo a Ipanema no domingo? (Domingo é o dia Mundial do Arrastão.) Como se explicam os grupos de velhinhas que vão ao teatro? (Você já viu velhinhas saírem em grupo em São Paulo?) Muito mais perigosas são as cidades que fazem a gente ficar plantado no sofá com 3 controles remotos na mão por total falta do que fazer na rua.

 

 

 

(E agora tem a questão das balas perdidas. Se eu morasse com vista para um foco de brigas de traficantes, eu também dormiria embaixo da cama todas as noites. Agora: daí a achar que eu vou sair da avenida Angélica, tomar a ponte aérea, me hospedar em Ipanema, pegar um táxi numa hora determinada e para um trajeto tal, de modo que a incidência de sinais verdes e vermelhos,  associada à disposição do taxista em ultrapassar ou não os amarelos, faça com que a gente intercepte uma infeliz de uma bala perdida, é, realmente, muita pretensão. Se eu me considerasse estatisticamente tão importante assim, jogaria na loteria três vezes por semana.)

 

Você já pensou em riscar Roma do seu caderninho só porque lá eles têm trombadinhas de Vespa, que engancham o guidão na bolsa dos turistas e saem na boa? Miami por acaso chegou a sair das suas cogitações depois que a polícia mandou trocar as placas dos carros alugados devido às gangues que perseguiam (assaltavam e às vezes assassinavam) turistas? Duvido que você tenha esperado o prefeito Giuliani baixar a taxa de criminalidade para só então viajar a Nova York.

 

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 12h19
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O maior crime atualmente em cartaz no Rio de Janeiro é tanta gente esquecer que a cidade mais interessante da galáxia está a menos horas de vôo de casa do que as horas de fila no consulado americano.

 

Mas ir ao Rio não tem nada a ver com civismo — e tudo a ver com prazer. Vá, e faça todos os programas de turista que você sempre achou bregas. Suba ao Pão de Açúcar e ao Corcovado, assista a um jogo do Flamengo, desfile numa escola de samba — e constate enfim que virar clichê não é para qualquer um. 

 

 

 

Descubra qual é a musa do verão, do alto verão, do inverno, do feriadão ou dos próximos 15 minutos. Aproveite e embarque numa dessas modinhas que pegam no Rio como febre e que duram menos do que gripe. Tome um chá na Confeitaria Colombo (só em dias de semana), assista a um show no Rival (é mais engraçado que no Canecão, que por sua vez é muito mais legal que o Palace), faça recenseamento de globais no Antiquarius, ande de tênis e meia na pista fechada da Vieira Souto no domingo, coma um sanduíche de pernil com abacaxi no Cervantes, inicie um movimento para incluir o caldinho de feijão do Bracarense na lista da Unesco de patrimônios da humanidade, e, na dúvida, responda sempre “Pela Lagoa” a qualquer pergunta de taxista.

 

 

 

 

Na volta, fique feliz por não morar lá — assim você pode sentir muito mais vezes a emoção jobiniana de aterrissar na Guanabara.

 

Originalmente publicado no livro Viaje na Viagem, em 1998.

Escrito por Ricardo Freire às 12h18
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Feriadão em Buenos Aires: 10 dicas preciôssas

Caminito, San Telmo (foto abaixo), tango, Puerto Madero, cemitério da Recoleta, Café Tortoni, sorvete de dulce de leche do Freddo – sobre tudo isso você está cansado de saber. Vamos então a algumas dicas mais selecionadas, sobretudo no capítulo gastronomia, para o seu feriadão ficar mais sabrôsso.

 

 

 

 

1. Está vendo aquele táxi? Pegue. Corrida de táxi é a coisa mais barata que você pode comprar em Buenos Aires. Mais barato que no Rio, e cerca de 1/3 do que você pagaria em São Paulo pelo mesmo trajeto. A bandeirada é 1,60. (E o peso ainda vale 10% menos que o real.) Mesmo que você passe 20 minutos no táxi (tipo: da Florida a Las Cañitas com bastante trânsito), a corrida não deve sair mais do que 15 pesos.

 

 

 

 

2. Gostou daquele restaurante? Entre. Refeições em restaurante são a segunda coisa mais barata que você pode comprar em Buenos Aires. Pequenos restaurantes charmosos (sobretudo em Palermo Viejo) têm menus de almoço com dois ou três pratos por 15, 17, 20 pesos. Mesmo em restaurantes chiques é possível encontrar pratos principais de 20 reais no cardápio. (Se você conhecer algum restaurante de primeira linha de São Paulo com algum prato de 20 reais, me conte, please.)

 

 

 

 

3. Ninguém janta antes das 9 da noite. Alguns restaurantes sequer abrem antes das 9 da noite. Mas se você quiser comer às onze ou à meia-noite, vai encontrar muitos restaurantes bombando. (Isto é, desde que você vá ao lugar certo.)

 

4. O equivalente portenho da rua Amauri paulistana ou da Dias Ferreira carioca é a Calle Báez, uma rua só de restaurantes no meio do bairro residencial de Las Cañitas (15 minutos de táxi da Florida). Para quem gosta, sexta e sábado são as noites mais muvucadas.

 

5. O "Gero" de Buenos Aires é o Sucre, um galpão modernoso em Belgrano (20 minutos de táxi da Florida): calle Sucre 676, entre Castañeda e Alcorta, tel. 4702-9082. Outro endereço sempre badalado é o Olsen, de comida escandinava, em Palermo Hollywood: Gorriti 5870, entre Carranza e Ravignani, tel. 4776-7677. Querendo ir a um restaurante badalado com preços muito em conta, vá ao El Diamante (foto abaixo), que é do mesmo chef do Sucre mas funciona no segundo andar de um sobrado em Palermo Viejo, com decoração bagunçada e comida nouvelle-latino-americana: Malabia 1668 esquina San Salvador, tel. 4831-5735.

 

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 13h41
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6. Se você quer comer bem na Recoleta, evite os restaurantes do calçadão em frente ao cemitério. Com raríssimas exceções, são armadilhas para pegar turista. Os melhores restaurantes da Recoleta estão agrupados na outra extremidade do bairro -- no fim da calle Posadas, a duas quadras do shopping Patio Bullrich, numa passagem embaixo de um viaduto (sim, eles conseguem fazer até um Minhocãozinho ficar chique) da 9 de Julio. Essa viela de restaurantes é conhecida como La Recova e tem uma sucursal da melhor rede de churrascarias portenhas, a El Mirasol, e um dos novos restaurantes metidos mais bochinchados, o Bond -- entre outros menos votados porém simpáticos. Ainda no bairro, não perca as mais deliciôssas empanadas da cidade, que são servidas (a menos de 2 pesos cada) no Sanjuanino (foto abaixo) e podem valer por um almoço ou jantar "típico": Posadas 1515.

 

 

 

 

7. Quer uma desculpa para conhecer o tresloucado Hotel Faena, desenhado por Philippe Starck? Faça uma reserva e vá comer uma pizza no restaurante El Mercado (foto abaixo; depois, tome um café ou um digestivo no bar El Living): Martha Salotti 445, tel. 4010-9000. Diga para o taxista ir pela 9 de Julio e virar à esquerda na avenida Belgrano hacia el río.

 

 

 

 

8. Sábado à tarde, o lugar mais divertido da cidade é o bairro de Palermo Viejo (diga: Palêrmo Biêrro -- foto abaixo), onde ficam as lojas transadas e os restaurantes "de autor" mais em conta. Diga para o taxista levar você até a esquina de Malabia (diga: Malábia) y Costa Rica, e vá explorando as quadras no eixo das paralelas Honduras e El Salvador.

 

 

 

 

9. O fecho mais chique para uma viagem a Buenos Aires é o brunch de domingo do Four Seasons (foto abaixo). Servido numa mansão elegantérrima do início do século passado, tem sete estações de cozinhas internacionais (francesa, italiana, japonesa, mexicana, tailandesa, etc.) e inclui champagne no preço. Quando fui, há dois anos, saía 58 pesos por pessoa. Se você está interessado, ligue djá, porque os lugares acabam rápido. Cerrito 1455, entre Posadas e Alvear, tel. 4321-1234.

 

 

 

 

10. E como este blog, além de dar o peixe, ensina a pescar, deixo aqui o melhor site para você procurar seu restaurante em Buenos Aires: o guia do crítico Vidal Buzzi (www.vidalbuzzi.com.ar). Dá para pesquisar restaurante por nota, por tipo de comida, por bairro, por ambiente e por público.

 

Buen viaje!

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 13h41
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A Nossa Senhora da Homepage: agradecendo a graça postada

Durante as 16 horas em que o city-tour de São Paulo (veja post abaixo) ganhou uma chamada na capa do Uol, nada menos do que 33 mil passageiros embarcaram neste blog. Num dia só, fizemos mais viagens do que nos quatro meses e meio anteriores (no total tinham sido 30.500, mas com muito menos viajantes). Caso algum de vocês tenha resolvido voltar, saiba que para mim é uma honra ter você a bordo. As viagens aqui nunca têm hora certa para partir, mas sempre que o navio apita a gente vai longe.

 

P.S.: A chamada voltou para a home do Uol. Em 24 horas foram 41 mil passageiros. A todos os que continuam chegando, que tenham uma ótima viagem.



Escrito por Ricardo Freire às 13h29
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A sua mais completa tradução

Ela ia ficar oito horas presa no aeroporto, tadinha, entre o desembarque do vôo de Toronto e o embarque do vôo a Brasília. Ela é casada há seis anos com o meu melhor amigo dos tempos de escola – a quem eu não vejo há vinte. Ela resolveu me ligar. E então eu tive a idéia genial de usar minha nova amiga de infância como cobaia de um city-tour por São Paulo que eu pudesse patentear e que se tornasse o início de uma megaagência de turismo receptivo que finalmente faria com que eu ganhasse dinheiro com esse assunto e ficasse quaquilionário e... AAAAIIII! QUEM FOI QUE ME BELISCOU? Ah, fui eu mesmo. Onde é que eu estava?

 

 

Ah, sim. Em Cumbica. O vôo da Air Canada chegou na hora prevista: 9h30. Mas até minha nova amiga passar pela imigração, pegar as malas e se desvencilhar da alfândega, lá se foram 45 minutos (45 minutos a menos no nosso city-tour). Mas a espera valeu. Nesses 45 minutos descobri que o Brasil não tem o mínimo do mínimo do mínimo para fazer o turismo engrenar. Quer saber o quê? Eu digo. O mínimo do mínimo do mínimo para o turismo engrenar no Brasil seria uma plaquinha com os dizeres "Vôos de conexão/Connection flights" apontando para algum lugar. Nos 45 minutos em que passei esperando por minha nova amiga, dezenas de gringos emergiram do portão de desembarque internacional totalmente desnorteados, tentando se comunicar por intermédio de mímica e frases sem verbo ("Salvador?", "Rio?" "Natal?") para descobrir para onde deveriam se dirigir. O que a Infraero faz com a taxa de embarque mais cara do mundo, se não coloca sequer uma plaquinha de sinalização para gringos perdidos que são obrigados a desembarcar em Cumbica por falta de vôos regulares a cidades realmente turísticas?  Felizes dos turistas que têm alguém à sua espera, segurando um cartaz com seu nome escrito. Minha nova amiga tinha. (Quem me conhece haverá de identificar o cavanhaque grisalho.)

 

 

O itinerário era ambicioso. Incluía dois mirantes, dois museus, um mercado, uma feirinha (ou um shopping) e três opções de restaurantes. Eu sabia que não ia dar para fazer tudo – mas ao longo do passeio, à medida que eu fosse conhecendo minha amiga, eu saberia o que escolher. A única coisa da qual eu não abria mão era começar pelo Centro de São Paulo. Por uma razão: o Centro é o único lugar onde São Paulo é 100% São Paulo. Existem trechos da cidade em que São Paulo é tão bacana quanto Nova York, ou tão fervida quanto Londres, ou onde se come tão bem quanto na Itália. O Centro de São Paulo, no entanto, dispensa comparações. Ele é o que é. As outras cidades que tentem imitar – nenhuma vai conseguir.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 15h38
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Primeira parada: o Mercado Municipal da rua da Cantareira. O prédio é lindo, e proporciona a introdução mais coerente possível a uma cidade que dedica todo o seu tempo livre a comer bem.

 

 

Depois que foi restaurado, no ano passado, meia São Paulo corre para lá, nos sábados de manhã, para enfrentar a fila de uma hora do pastel de bacalhau ou a fila de quarenta e cinco minutos do sanduíche de mortadela. Por isso, pegamos um grande congestionamento nas ruas próximas; minha nova amiga aproveitou para tirar fotos dos ambulantes que vendiam balas, pêras, games dos Incríveis, arrebitadores de busto e varas de pescar – parecia eu em Angola (clique aqui). Na hora de estacionar, ela levou seu primeiro susto de brasileira que nunca esteve em São Paulo: o quê? 10 reais para estacionar nesse estacionamentozinho muquifento? (Os termos não foram esses, mas são os que eu usaria.)

 

 

 

Quem não quer enfrentar a fila das bancas do pastel oficial de bacalhau e do sanduíche oficial de mortadela pode subir à simpática praça de alimentação do mezzanino. Mas não, não nós não quisemos estragar o nosso almoço. Tomamos um café expresso simplesinho e partimos para a próxima escala.

 

 

Foi então que começaram a surgir aquelas dúvidas que ocorrem a todos os passageiros de city-tour: passar perto de alguma coisa conta? Se contar, então nós fomos à Catedral da Sé (na foto) e fomos ao Pátio do Colégio também.

 

 

Se bem que nem a Sé nem o Pátio do Colégio eram assim tão fundamentais ao meu city-tour. O meu city-tour precisava passar, isso sim, pelo Edifício Martinelli, que é o edifício mais bonito – e um dos menos conhecidos – de São Paulo. Construído nos anos 30, foi o primeiro arranha-céu da América do Sul. Por conta do caos arquitetônico da cidade, contudo, o Martinelli acabou escondido da visão do paulistano. Seu vizinho, o prédio do Banespa – cópia pobre do Empire State – virou um dos símbolos da cidade. Mas na minha opinião não chega aos pés do porte, da elegância e do charme cor-de-rosa do Martinelli.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 15h37
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De lá fomos ao (atravessamos o) Viaduto do Chá, fomos ao (passamos ao lado do) Teatro Municipal, cruzamos Ipiranga com avenida São João (Alguma coisa acontece no meu coração etc.), deixamos o carro com o manobrista (minha nova amiga: "Gostei! No Canadá não tem isso, não!") e subimos os 41 andares que levam ao Cristo Redentor de São Paulo: o Terraço Itália.

 

 

Tsk, tsk, tsk. Meia-decepção. O bar do Terraço Itália – com seus vidros até o chão que fazem com que São Paulo fique literalmente a nossos pés – não abre ao meio-dia. Tivemos que nos conformar em tomar um suco no restaurante, onde a visão é prejudicada pela altura do parapeito da varanda. À noite é mais bonito, sem dúvida; mas se o único passeio que você pode fazer é um "São Paulo by day", então você não pode deixar de vir aqui. Mas cuidado: se for sábado e você não estiver imbuído de sérios propósitos de almoçar em algum outro lugar, você não vai conseguir resistir ao buffet de feijoada-pega-gringo que eles interpõem entre você e a sua mesa com vista.

 

 

Eu escondi isso de vocês até agora, mas a verdade é que minha nova amiga estava se queixando do calor desde que desembarcou, quase três horas antes, em Cumbica. Eu tinha acreditado na meteorologia e tinha dito a ela que uma frente fria chegaria à cidade junto com ela. Minha nova amiga foi por mim e veio com uma calça de meia-estação que no Brasil valeria por alto-inverno. A mala já tinha sido despachada para Brasília, e por isso uma passadinha num shopping se fazia mais do que necessária. Se eu tivesse que mostrar apenas um shopping de São Paulo para alguém, eu não inventaria moda e iria direto ao Iguatemi (que, em termos de importância turística, talvez seja a maior atração de São Paulo, acredite se quiser). Mas por motivos práticos, resolvi levar minha nova amiga ao Pátio Higienópolis, que, além de ser pertinho de casa, acabou deixando este post muito mais fotogênico ;-)

 

 

Depois de um breve pit stop em casa, fiz as contas e vi que seguir o plano inicial seria inviável. O itinerário mais bacana previa uma fuga até o Ipiranga, para um programa perfeito: visitar o museu do Ipiranga e almoçar no La Paillote, que tem o melhor (e mais caro) camarão do planeta. Já eram duas e meia da tarde, e vi que o almoço talvez fosse a última parada de nosso tour. Descartei as outras duas alternativas de pratos autenticamente paulistanos que eu tinha considerado – o polpettone do Jardim di Napoli e o suflê de goiabada com molho de catupiry do Carlota – e decidi que o almoço seria num lugar onde iríamos inicialmente apenas pela vista: o hotel Unique.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 15h29
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O tempo começava a fechar. Desci pela muvuca dos Jardins, costurei pelas ruas arborizadas e repletas de mansões do Jardim Europa ("em Montreal também existem bairros assim, só que as casas não têm muros", me informou minha nova amiga) e cheguei à nossa melancia-design de estimação, o Hotel Unique. O terraço do Unique oferece o contraponto perfeito à vista do Terraço Itália. (Se você me permite a comparação, eu diria que são vistas tão complementares quanto as do Cristo Redentor e do Pão de Açúcar, no Rio.) Aqui também é melhor vir à noite, quando a área da piscina não está reservada para os hóspedes.

 

 

 

Mesmo assim, se você pedir com jeitinho ao garçom, dá para ir até a beirada e ver o tapete verde dos Jardins contra o skyline de arranha-céus da Paulista – na minha falsa modesta opinião, a vista mais bonita da cidade.

 

 

Pedimos o cardápio, e o chef Emmanuel Bassoleil não nos decepcionou: entre os pratos ainda havia o "risotto PF" (na verdade, um baião-de-dois metido a besta) para dar um quê de brasilidade ao momento mais chique do city-tour.

 

 

Na saída, enquanto o manobrista buscava o carro, chamei minha nova amiga para tirar fotos em frente ao hotel – no que fui informado pelo leão-de-chácara que não era permitido tirar fotos da fachada. Cuma? Não entendi. "Desculpe, mas não é permitido tirar foto da fachada", ele repetiu, educado e firme ao mesmo tempo. E se eu atravessar a rua? "Se atravessar a rua, pode". E fotografar melancia na feira, ainda é permitido? Brincadeirinha, não fiz essa pergunta. Em represália, atravessei a rua e tirei a foto com a maior quantidade de fiação exposta e outros sinais de Terceiro Mundo que eu pudesse enquadrar. (Se eu não estivesse com pressa, ficaria esperando até passar uma Kombi azul-calcinha.)

 

 

Saímos do Unique, fomos ao Ibirapuera (passamos do ladinho), fomos à Avenida Paulista (desfilamos por ela todinha), fomos ao Pacaembu (costeamos todo o seu muro) e finalmente pegamos a Marginal Tietê. Deixei minha nova amiga feliz da vida em Cumbica -- e voltei pensando nas coisas que não deu tempo de visitar, como a feirinha da Benedito Calixto, a Pinacoteca e o Masp. Não, não dá para ver uma megalópole inteira em 7 horas e 15 minutos. Mas deu para ver coisas que muitos paulistanos nunca viram. Muito obrigado, Ilma. Adorei te conhecer. E espero que você tenha conseguido entender um pouquinho da minha cidade. (Acho que já tenho o nome da minha megaagência de turismo receptivo: Martinelli City-Tours.)

Escrito por Ricardo Freire às 15h27
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Próxima parada: São Paulo

Hoje vou fazer um programa engraçado. A mulher do meu melhor amigo do colegial (científico, no meu tempo e na minha terra) vem do Canadá, onde eles moram, e vai passar 9 horas em São Paulo, à espera por seu vôo de conexão. Ela é brasileira mas não conhece a cidade – então resolvi fazer com ela o city-tour mais bacana que eu pudesse bolar. O dia está bonito, e, caso ela não chegue muito cansada do vôo de onze horas, o passeio vai render. Se tudo der certo, publico o relato amanhã no blog. Se não der, apago o post ;-)



Escrito por Ricardo Freire às 07h42
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Jericoacoara online

Da série Recuerdos da estrada. Essa aqui é velhíssima – está fazendo cinco anos. Foi publicada em 14 de junho de 2000.  É do tempo em que a Xongas saía no Jornal da Tarde (três vezes por semana; não sei como eu dava conta). É do tempo em que eu ainda estava fazendo a primeira viagem ao longo do litoral para fazer o Freire's (aqui). É do tempo da conexão discada. E sobretudo é do tempo em que ainda havia postos telefônicos em cidades do interior. (Hoje Jeri tem um cybercafé com conexão via satélite. Se bem que, da última vez que eu passei por lá, a luz ficava fraca às 6 da tarde e todos os computadores saíam do ar.)

 

 

A cena se repete com tanta freqüência, que um dia eu teria que contar para vocês, mesmo. Sábado passado eu estava em Jericoacoara, no Ceará, e precisava mandar a Xongas de segunda-feira (dia dos namorados). Minha pousada não tinha telefone fixo -- só celular. Como fazer para enviar a coluna pela Internet?

 

Jericoacoara não é longe: Jericoacoara é muito depois de longe. Entre Jericoacoara e o lugarejo mais próximo -- chamado Gijoca ou Jijoca, dependendo da placa que você achar mais simpática -- não existe estrada. Apenas dunas e lagoas, que mudam de lugar ao sabor do vento e das chuvas. Para chegar a Jericoacoara você precisa não apenas de um off-road: você precisa de um off-road e um nativo na direção, para não se perder no caminho.

 

Lagoa Azul, Jijoca

 

Mas em lugares assim eu já sei como proceder. Pego o meu laptop, enfio na bolsa e vou até o posto telefônico. Chego discretamente, tentando não chamar muita atenção. Falo a primeira parte do meu texto: "Eu queria fazer um interurbano pra ...". No caso, Fortaleza. Recebo como resposta o olhar entediado da atendente -- todo mundo que vai a um posto telefônico quer fazer uma ligação interurbana. Daí eu continuo: "Só que é pelo computador".

 

Olhos se arregalam. Interurbano pelo computador? Que negócio é esse?

 

 

Coisas incríveis já aconteceram nessa hora. A moça do posto de Camamu, na Bahia, ligou para a supervisora em Itabuna para perguntar se podia. A menina de Maragogi, Alagoas, estava só cobrindo uma saidinha da amiga que trabalhava lá, e me fez ficar esperando até a amiga voltar. Em São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte, precisei esperar todo o povo da vila acabar de fazer suas ligações para desativar a central telefônica, e então poder conectar o meu computador no plugue principal do posto.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 22h01
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A próxima pergunta do script é mais dramática, por ser eminentemente técnica. Eu já fui ingênuo o bastante para um dia ter feito a pergunta "A linha aqui é tone ou pulse?". Hoje eu já faço a pergunta direto em português.

 

- A linha aqui é tututu-tutu-tututu ou é cr-r-r-r-r-ec, cr-r-r-r-r-r-ec, cr-r-r-r-r-r-r-ec?

 

- É esse segundo aí que o senhor falou.

 

 

É a informação de que eu preciso para programar o modem no modo "pulse". Pronto. Tiro o fio de um dos telefones do posto e plugo no meu laptopzinho. Vamos rezar. Cr-r-r-r-r-r-ec, cr-r-r-r-r-ec, cr-r-r-r-r-r-ec, o computador disca. E, por uma mágica, a conexão se completa: pinhóóóóóim.... kpzzzzzzk-k-k-k-k... pinhóóóóóim.... kpzkkpzk-k-k-k-k...

 

Daí você pensa: bem, se a conexão se completou, está beleza. Calma. A partida não está ganha. Ainda existe a possibilidade de a conexão não se sustentar, se a velocidade da linha for muito baixa. Isso aconteceu em Fernando de Noronha -- e eu tive que achar um lugar que vendesse papel sulfite, copiar a crônica inteira a mão e passar por fax.

 

 

Mas Jericoacoara não me desaponta. Ufa: a conexão é boa. Mando a Xongas dos namorados. Recebo 26 e-mails. Já tenho leitura para antes de dormir. (14 de junho de 2000, Xongas, JT)

 

 

Para ir ao guia de Jericoacoara no Freire's, clique aqui.



Escrito por Ricardo Freire às 21h57
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Caravelas ao entardecer

Este post inaugura a série "Recuerdos da estrada". Quando eu estiver estacionado no escritório e não aparecer nenhuma notícia interessante para comentar, vou desencavar alguma história do baú. Só de causos relacionados ao meu guia de praias (aqui), dava para escrever outro livro.

 

Pois bem. Ao contrário do que todo mundo imagina, esse negócio de fazer guia envolve muito mais ralação do que propriamente diversão. Mas eu não reclamo. Hoje eu já gosto, por exemplo, de trocar de hotel ou pousada todos os dias – algo que a maioria das pessoas não faria nem de graça (e olha que eu pago todas as diárias do meu bolso).

 

Tem uma parte, no entanto, com a qual eu nunca vou me acostumar. Trata-se da obrigação (auto-imposta, como todas as outras) de ir conferir até mesmo as coisas que de antemão me parecem a maior roubada. Ou seja: eu tenho quase certeza de que vou me dar mal, mas mesmo assim não refugo. Vai que eu esteja enganado?

 

Abrolhos é um desses casos que, a despeito de toda a propaganda, me cheirava a roubada. Quero dizer: Abrolhos para quem não mergulha, como eu. Para quem mergulha não tenho dúvida nenhuma de que Abrolhos vale muito a pena – afinal, é um parque nacional marinho muito bem cuidado pelo Ibama. Quem mergulha pode pegar um dos barcos lentos que saem de Caravelas ou de Alcobaça e permanecem duas ou três noites dentro dos limites do parque marinho. Deve ser ótimo. Quem vai para mergulhar adora.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 12h13
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O que eu nunca vi com bons olhos são os passeios de lancha bate-e-volta, dirigidos principalmente ao público que está de bobeira ali por Prado ou Cumuruxatiba. Por 180 paus, você é posto numa lancha ou num catamarã, e duas horas de mar batido depois, chega às ilhotas do arquipélago. Desembarca numa das ilhas, tira foto de pássaros, então tem uma hora e meia para mergulhar (de snorkel ou garrafa) antes de enfrentar as duas horas de mar batido para voltar.

 

Eu já tinha tentado ir duas vezes, mas as saídas só acontecem se as condições atmosféricas estiverem excelentes – sem chuva nem vento nem possibilidade de mudança de tempo. Dessa última vez – em novembro do ano passado – liguei de Itaúnas, no Espírito Santo. Sim, havia uma saída prevista para dali a dois dias. Reservei um lugar. Peguei meu carrinho alugado e percorri os 260 km até Caravelas, com asfalto em bom estado (a BR 101 só se transforma num campo minado de crateras lunares um pouco mais ao norte, em Itamaraju).

 

 

Cheguei a Caravelas a tempo de pegar a operadora dos passeios aberta e pagar a minha viagem. Com o voucher na mão, deixei minha mala no hotel e fui passear no centrinho de Caravelas. Eu já tinha estado ali uma vez, e tinha achado lindo. Caravelas é uma das cidades mais antigas do Brasil (tipo 1500 e pouquíssimo) e ainda ostenta um casario razoavelmente preservado. Na minha primeira visita, contudo, o tempo estava nublado. Só agora eu pude ver que o sol se põe atrás da outra margem do rio Caravelas, banhando a cidade com uma luz dourada que deixa tudo ainda mais, sei lá, histórico. A essa hora os pescadores estão em suas casas, e todos aqueles barquinhos abandonados ao pôr-do-sol fazem qualquer um, até eu, achar que já sabe fotografar.

 

 

No dia seguinte, às 8 da manhã, eu estava a postos no embarcadouro. Tudo ocorreu conforme eu imaginava. A viagem de ida foi um martírio de quase três horas. Passei todo o trajeto agarrado num poste, na lateral do catamarã, levando vento na cara. Se ficasse no deck coberto, acabaria vomitando, como duas ou três passageiras. Não encontramos baleias pelo caminho (a temporada já tinha acabado. Mas se ainda fosse época, existem passeios mais baratos, saindo de Prado, que encontram baleias mais próximas ao continente e não deixam ninguém mariado). Acima do nível do mar, a paisagem do arquipélago era tão sem-graça quanto as fotos que eu já conhecia me faziam supor. Dentro do mar – bem, por mais bonito que possa ser, ninguém merece enfrentar o suplício da viagem de ida para ficar uma horinha e já ter que enfrentar o suplício da viagem da volta. E lá fui eu agüentar mais três horas de pensamentos suicidas agarrado ao poste do catamarã chacoalhante.

 

Se eu me arrependo? Claro que não. O meu lado profissional adorou finalmente ter feito um miniguia de Abrolhos (está no capítulo de Cumuruxatiba, aqui). E o meu lado turista nunca vai se esquecer daquele fim de tarde dourado em Caravelas.

 

 

Para ir à página de Abrolhos no Freire's, clique aqui.



Escrito por Ricardo Freire às 12h05
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O preço do orgulho

Esta semana o site Panrotas (aqui), do trade turístico, informou que o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis levou um projeto ao Severino da Câmara e ao Renan Calheiros do Senado para revogar ou pelo menos amenizar a exigência de visto para os turistas americanos. A proposta é abandonar a política de reciprocidade (olho por olho, dente por dente) definida pelo Itamaraty para a concessão de vistos. Pela política atual, tudo o que os Estados Unidos exigirem do turista brasileiro, o Brasil vai exigir do turista americano. Eles exigem visto? A gente exige visto. Eles cobram 100 dólares? A gente cobra 100 dólares. Eles ficham a gente na entrada? A gente ficha os cabras na entrada. Eles mandam a gente ficar pelado na fila, soprar no bafômetro, fazer o teste da farinha? Se mandarem, a gente manda também.

 

Isso tudo pode até fazer sentido no Itamaraty, mas tem efeitos desastrosos para os lados da Embratur. Dando uma olhadinha no site do Departamento de Estado americano (aqui), nota-se que existem apenas dois tipos de países que exigem visto  para turistas americanos: (1) os que não têm turismo de nenhuma espécie; (2) os muito, muito, muito fuinhas.

 

A imensa maioria dos países que exigem visto dos americanos pertence à categoria (1), dos que não têm absolutamente nenhum turismo. A categoria (2), dos muito, muito, muito fuinhas, tem uma meia-dúzia de gatos pingados. Encabeçando a lista estão os chamados países BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), que são os emergentes da hora e por isso se acham. Junto a eles estão Cuba (que tem todas as razões do mundo para ser muito, muito, muito fuinha com relação aos States), Egito, Indonésia e Vietnã. Com algum interesse turístico, é só.

 

Os países que não exigem visto dos americanos também podem ser classificados em dois grupos. No grupo (1) estão todos os países do Primeiro Mundo (e um ou outro tigre asiático), cujos cidadãos não precisam de visto para entrar nos Estados Unidos. No grupo (2) estão todos os países que estão nesse negócio de turismo a sério – no Caribe, na América do Sul, no Sudeste Asiático, no Leste Europeu, no sul da África – e não estão a fim de colocar entraves para a entrada de dólares direto da fonte.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 09h04
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O México não segue a política de reciprocidade do Itamaraty porque, se seguisse, boa parte dos americanos que passam férias por lá iria para o Caribe. Os Estados Unidos revogaram a isenção de visto que tinham concedido aos argentinos (entre 96 e 2002), mas nem assim o impetuoso Néstor Kirchner, aquele que tungou o FMI, resolveu voltar a exigir visto de americanos (talvez por isso eu tenha encontrado Buenos Aires coalhada de turistas ianques no fim de semana passado). Nem mesmo o falastrão do Hugo Chávez, o filho que Fidel não teve, inventou de passar a exigir visto dos americanos. Todos têm orgulho, sim – mas nenhum está queimando dinheiro.

 

Quando os Estados Unidos endurecem as exigências e cobram um absurdo pelo visto aos brasileiros, eles mandam um recado claro: nós não queremos vocês, seus imigrantes clandestinos potenciais e protetores de terroristas! Quando o Brasil devolve as mesmas exigências aos americanos, nós também mandamos um recado: nós não queremos vocês, seus.... seus o quê, mesmo? Já sei: seus turistas ricos e cheios da grana! Vão gastar esses dólares sujos em outro lugar!

 

Mundaú, 150 km a oeste de Fortaleza

 

A concorrência é grande, e o que parece bobagem (o trâmite burocrático de mandar o passaporte pelo correio à embaixada brasileira, e pagar uma taxa de 100 dólares) acaba pesando na hora de decidir uma compra. A exigência de visto pode fazer bem para o moral do país como um todo mas não traz nenhuma vantagem aos lugares do Brasil que estão apostando no turismo. Para cada destino brasileiro existe uma alternativa sem visto, sem burocracia e sem rancor consular antiamericano. Americano precisa de visto para ir à Bahia, mas não precisa de visto para ir à África do Sul. Precisa de visto para ir à Amazônia brasileira, mas não precisa de visto para ir à Amazônia peruana. Precisa de visto para ir a Noronha, mas não precisa de visto para ir às Galápagos. Precisa de visto para ir ao Pantanal, mas não precisa de visto para ir à Patagônia. Precisa de visto para ir ao Rio, mas não precisa de visto para ir a Cancún. Precisa de visto para ir a Porto de Galinhas, mas não precisa sequer de passaporte (!) para ir à República Dominicana. Precisa de visto para ir a Paraty, mas não precisa de visto para ir a Cartagena. Precisa de visto para ir a Foz do Iguaçu, mas não precisa de visto para ir a Iguazú. Precisa de visto para ir, sei lá, a Cubatão, mas não precisa de visto para ir, creiam, a Machu Picchu.

 

Pessoal, vamos isentar os americanos de visto. Ou então conceder o visto na chegada, por 10 ou 20 dólares, como fazem os países que têm orgulho mas têm os pés no chão. Façam isso hoje, e daqui a dois ou três anos vai ter tanto americano chegando, que só com o ingresso de novas divisas a gente paga o avião do Lula.



Escrito por Ricardo Freire às 08h54
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E por falar em propaganda enganosa...

Para você não me acusar de usar o mesmo expediente que eu denunciei no post logo abaixo, deixo bem claro que a foto do cabeçalho deste blog foi tirada em Los Roques, um arquipelagozinho no Caribe venezuelano. (Essa aí debaixo, também.) Qualquer dia eu falo dessa viagem. Você sabia que Caracas é o lugar mais longe aonde você pode ir com 20.000 milhas Smiles?



Escrito por Ricardo Freire às 08h51
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Coisa feia, dona TAM Viagens

Quem me lê sabe que eu gosto muito da TAM. Acho genial a poltrona do meio ser mais larga que as do corredor e da janela. Para quem viaja no Brasil, o programa Fidelidade é, disparado, o mais generoso – basta ter um lugar vago no vôo, que você troca suas milhas por uma passagem grátis, sem frescura de limitação de assentos. Até o cartão de crédito é o melhor: o Credicard TAM dá 1,33 milha por dólar gasto, mesmo na versão pé-de-boi (existem cartões que dão mais, só que nas categorias ouro e platina).

 

Pois bem: a minha admiração pela TAM só faz aumentar a minha decepção em ver anúncios da operadora do grupo recorrendo ao velho truque baixo de mostrar foto de um lugar para vender outro.

 

   TAM Magazine, edição de abril                                                 

 

O anúncio dos pacotes para Costa do Sauípe, Cabo de Santo Agostinho e Praia do Forte é ilustrado por uma praia que, pelas minhas contas, deve estar na Riviera Maia ou na República Dominicana. Já o anúncio de pacotes para Fortaleza, Jericoacoara e Itacaré é ilustrado por uma praia que até poderíamos ter no Brasil – só que no Sul ou no Sudeste.

 

  Praia do Forte? Cabo de Santo Agostinho? SAUÍPE???    Esta aqui eu até engolia -- quer dizer, em Santa Catarina...

 

Alguém pode até dizer: ah, mas todo mundo sabe que as fotos desse tipo de anúncio são de mentirinha. Aí que tá: não tinham que ser. Já bastam os asteriscos, as exceções e as letras miúdas. Se é para viajar a um banco de imagens, eu prefiro ficar em casa.



Escrito por Ricardo Freire às 09h04
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Aula de geografia: recuperação

No mapa da CVC, Itacaré não fica mais em Ilhéus. No anúncio que saiu hoje no Estadão, o bom hotel Village Back Door, de Ilhéus, não é mais vendido como base para o pacote de Itacaré (a 80 km de distância). Como a correção foi relativamente rápida (só levou três semanas), se me disserem que tudo não passou de um erro de revisão, eu até posso acreditar :-)

 

Estadão, 5 de abril: o Village Back Door, de Ilhéus, volta para Ilhéus

 

Vejinha, 13 de março: o Village Back Door, de Ilhéus, vai parar em Itacaré



Escrito por Ricardo Freire às 09h03
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O novo Palermo Viejo

BUENOS AIRES – Como eu já disse, não posso revelar nada do que estou fazendo aqui em Buenos Aires – tudo precisa permanecer inédito para a matéria que me encomendaram. Mas posso falar de coisas relativas à minha viagem anterior, há dois anos, e que permanecem bem atuais. (Todas as fotos, com exceção das publicadas no post "Próxima parada", são novas.)

 

 

 

Era março de 2003. Depois de um período de turbulência que se sucedeu à desvalorização do peso – manifestações de rua, depredações de bancos, lembra? –, Buenos Aires estava novamente calma e preparada para receber turistas. As operadoras brasileiras começaram a vender pacotes de fim de semana por 200 dólares – mais baratos do que os pacotes para Porto Seguro. (Hoje os pacotes mais baratos saem por 350 dólares – ou só um pouquinho mais caros que uma passagem área São Paulo-Porto Alegre-São Paulo.)

 

 

 

Havia uma grande manchete: a paridade cambial não era mais entre o peso e o dólar, e sim entre o peso e o real. A Argentina era o único lugar para onde o brasileiro podia viajar sem levar calculadora (continua sendo). O que estivesse marcado na etiqueta era mais ou menos o que ia ser debitado da sua conta em reais (há dois anos, o peso valia 10% a mais do que o real; hoje é o contrário).

 

 

 

Além da mera notícia cambial – que qualquer caderno de economia podia dar – eu sabia que existia uma outra matéria a ser feita. Durante os anos do peso forte, amigos meus que continuavam a ir a Buenos Aires (eu achava muito caro) me falavam de coisas que estavam acontecendo fora do circuito tradicional. Nada disso chegava ao leitor brasileiro. Todas todas todas as matérias que se faziam sobre Buenos Aires eram rigorosamente iguais: Caminito Florida Caminito Recoleta Caminito Show de tango Caminito Feira de San Telmo Caminito Puerto Madero.

 

 

 

A década do dólar "uno por uno", no entanto, modificou bastante a geografia social, cultural e gastronômica da cidade. O tradicional boxixo do Centro, movido pelos cinemas gigantescos da Lavalle que varavam as madrugadas do fim de semana com sessões "trasnoche", acabou – mudou-se para as imediações do cemitério da Recoleta, onde funciona um multiplex moderníssimo de 18 cinemas. Com a morte do Centro, hospedar-se nos hotéis nas imediações da Florida perdeu boa parte do encanto (à noite, chega a ficar levemente deprê).

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h38
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Depois de um início espetacular, em que parecia fadado a ser o grande pólo gastronômico da cidade, o Puerto Madero (um belo conjunto de armazéns portuários restaurados) parou no meio do caminho. Com duas ou três honrosíssimas exceções (entre elas, a Cabaña Las Lilas), o lugar virou uma praça de alimentação de restaurantes sem-graça. (Não procure essa informação nos suplementos de turismo dos jornais brasileiros. Para nós, Puerto Madero continua chique no úrtimo.)

 

 

 

O que estava – e continua – acontecendo na cidade era Palermo Viejo, um bairro a 10 minutos de táxi (ou 8 reais) da Recoleta. Ali, em casinhas, predinhos e casarões velhos, surgiam (e continuam surgindo) lojas de moda e design, bares charmosos e restaurantes de chefs jovens e criativos. É um bairro repovoado e repaginado por uma juventude que aproveitou os anos do peso forte para viajar muito (inclusive para o Brasil) e voltou cheia de idéias. Palermo Viejo já estava no mapa "hip" de Buenos Aires há muito tempo – mas só entrou no mapa do brasileiro depois daquela minha materinha na Viagem & Turismo (aqui).

 

 

Nesses dois anos desde aquela viagem, pude ver que Palermo Viejo não está mais apenas na rota dos descolados. As duas pracinhas do bairro já têm até feira de artesanato feio e bugigangas desnecessárias.

 

 

Mas não importa. Passear pelas ruas do bairro continua uma delícia – e num sábado de sol, com todas as lojas abertas até o anoitecer, Palermo Viejo é uma festa. Um lugar onde Buenos Aires é bem-humorada, despojada e colorida como nunca antes lhe deram a oportunidade de ser.

 

 

 

(Todas as fotos desses dois posts são de Palermo Viejo.)

Escrito por Ricardo Freire às 11h30
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Brasil x Argentina? Tô fora

BUENOS AIRES – Detesto essa mania de transformar as viagens entre Brasil e Argentina numa interminável partida de futebol. Acho de última falar de "invasão de brasileiros" exatamente no mesmo tom que se usa para descrever a invasão de uma cidade pela torcida do time visitante. Por favor, não venha com "Brasiloche". É feio. É deselegante. E é sobretudo equivocado.

 

 

Para começo de conversa, nesses casos de "invasão" – seja dos argentinos em Santa Catarina na época do peso forte, seja dos brasileiros na Argentina desde que o peso dançou –, a vitória não é do invasor, mas do invadido. Quem é que fica com a grana? Pois então.

 

 

A verdade é que não pagamos para cumprir o dever cívico de fincar nossa bandeira em território rival, nem para ter o gostinho de ver um vizinho que julgamos arrogante se rebaixar para entender e falar a nossa língua. Pagamos, sim – os brasileiros na Argentina, os argentinos no Brasil – para ver e experimentar coisas bacanas que não temos em nossos países de origem. Para os argentinos, o Brasil é um paraíso tropical. Para os brasileiros, a Argentina é a Europa. Eu sei, eu sei: nem o Brasil é um paraíso, nem a Argentina é a Europa. Mas é o que temos para o momento – e por esse preço, tá bom demais.

 

 

Agora com licença, que eu vou até ali tirar umas fotinhos da Recoleta para colorir esse primeiro post.



Escrito por Ricardo Freire às 13h20
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Próxima parada: Buenos Aires

Embarco agora à noite para Buenos Aires – ou Bs. As., que é como eles gostam de abreviar.

Vou como jornalista, e por isso não posso revelar nem o que vou fazer nem para quem estou trabalhando. Mas pode deixar, que eu não vou deixar de comentar com você todas as bobagens que não estejam na pauta da revista. Ops, já falei que é uma revista. Escapou. Hasta luego, entonces...



Escrito por Ricardo Freire às 08h57
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