Upgrade
Não, você não errou de blog. Sim, isso aqui está bem mais chique do que era antes. A culpa é da Cássia Zanon, que me deu de presente de aniversário (adiantadíssimo, sou de Escorpião) este lindo template zerinho. Ficou classudo, não ficou? Além de mais bonito, o novo template tem duas vantagens técnicas com relação ao anterior. Uma: agora o blog cabe na tela de quem usa resolução 800 x 600. A outra: acredito que daqui por diante o rss do blog vá funcionar, porque eu passei a escrever o título de cada post no lugar certo (antes do bisturi da Cássia eu não podia, senão o título aparecia num tipo de letra diferente do texto). Agora, quando elogiarem o template do blog, vou poder dizer: "Foi a tradutora do Matadouro 5 do Kurt Vonnegut que fez". Obrigadíssimo, Cássia, tu é uma quêri (traduzindo para quem não entende gauchês de guria: Cássia, você é um amor).

Maneirinho?
Escrito por Ricardo Freire às 22h37
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Um espírito baixou em mim (ou: Nem toda parada é gay)
PARATY – Admito. Para mim, o que interessa nos feriados é a sua duração. Não me pergunte exatamente o que mesmo é comemorado na data xis ou ípsilon ou zê, porque pode ser que eu não saiba a resposta. Mas me pergunte se vai cair numa quinta, numa terça ou num domingo, e eu saberei direitinho, com pelo menos doze meses de antecedência.

Até hoje não sei, por exemplo, o que se comemora no feriado estadual paulista de 9 de julho. Uma vez escrevi sobre isso, no tempo em que as Xongas eram publicadas no Jornal da Tarde. E, mesmo depois de uma montanha de cartas indignadas pedindo a minha cabeça (cheia de cabelos, naquela época) à família Mesquita, não consigo me lembrar se o 9 de julho tem a ver com a revolução de 24 ou com a revolução de 32 – e se marca o início de uma reação ou a vitória final. (Contra quem, mesmo?) O mais importante, contudo, eu sei muito bem: este ano, 9 de julho cai num sábado, e não vai servir para nada. Ano que vem cai num domingo, quanto desperdício. Mas em 2008 cai numa terça! (É bom já ir se programando.)

Um dia eu já soube o que os católicos comemoram em Corpus Christi – mas esqueci. De todo modo, os evangélicos, judeus, espíritas, budistas e muçulmanos brasileiros também folgam, mesmo em não sabê-lo. Para quem pode fazer ponte no trabalho, Corpus Christi é o feriado mais generoso do ano: cai sempre numa quinta-feira, ano sim, ano também, proporcionando aquela pausa que refresca entre Tiradentes e as férias de julho.

Se eu não tivesse cabulado essa aula do catecismo, não teria feito cara de espanto quando a gerente da pousada em que nos hospedamos em Picinguaba nos perguntou: "Vocês vão ver a procissão em Paraty?". Sim, a gente ia dar um pulinho em Paraty (são só 30 km), mas não estava sabendo nada sobre procissão nenhuma. "Vai ser lindo. Eles enfeitam as ruas com tapetes coloridos", ela disse – e só então caiu a ficha. A Festa do Divino!
Percebe como o marketing da Igreja Católica se encontra num beco sem saída? É elementar, meu caro Ratzinger. Ou você usa a marca Corpus Christi, ou usa a marca Festa do Divino. Eu mal consigo aceitar que o Cornetto agora [há uns cinco anos] é da Kibon, e vou ter que encaixar mais essa: a Festa do Divino é [sempre deve ter sido] em Corpus Christi!

Sem perder mais nem um instante, acudimos a Paraty. Eram duas da tarde, e a procissão estava marcada para as cinco, depois da missa. Coloquei minha unidade móvel a tiracolo e fui me embrenhando pelas ruelas da cidade histórica, com a intenção de registrar os preparativos de última hora.


(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 09h09
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Bem. A verdade é que tudo parece ser feito mais ou menos de última hora. E nem podia ser diferente. Você se lembra do dilúvio que desabou sobre o leste de São Paulo e do Rio na terça e na quarta passadas? A procissão ia sair na quinta. Tudo o que tivesse sido feito na véspera teria sido perdido. Perto do cais, Paraty continuava uma prima tropical de Veneza em plena acqua alta.

A essas alturas do campeonato nacional de festas do divino da primeira divisão, portanto, as cidades participantes já desenvolveram técnicas avançadas de confecção de... (como diria?) ahn... hum... tapetes viários. Pelo que vi em Paraty, é tudo incrivelmente rápido e eficiente. Jovens uniformizados atacam em grupo um trecho de calçamento e, quando você passa de novo pelo mesmo lugar, quarenta minutos mais tarde, o desenho já está praticamente pronto. São figuras de santos, símbolos eucarísticos, pombas brancas, slogans pacifistas. Vi até um João Paulo II. Ou esses cabelos brancos já seriam os de Bento-que-bento-é-o-papa?

 


(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 08h48
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Na minha Mini-Barsa armazenada no winchester cerebral, os tapetes de festas do divino eram feitos de pétalas de flores. Mas na vida real – ou, pelo menos, na vida real de Paraty – o que se usa é muita serragem colorida e alguma cal. Alguns trechos são preenchidos com retalhos de pano ou fuxicos feitos de material de saquinho plástico. Tampinhas de garrafa pintadas de dourado dão brilho aqui e ali. Senhorinhas da paróquia aproveitam que a missa ainda não começou para admirar os trabalhos já prontos. "Ei, esse Santo Antônio tá virado pro lado errado! A procissão vai vir de lá!!!". Agora é tarde, minha senhora.

A matriz de Nossa Senhora dos Remédios está enfeitada com estandartes vermelhos. É dali que a procissão com o relicário sai – e é para lá que volta, depois de dar um rolê pela cidade histórica, no circuito enfeitado pelos tapetes.

A cidade não está superlotada; a chuvarada que antecedeu o feriado deve ter feito muita gente desistir de descer a serra. Quando a missa começa, ao entardecer, somos poucos turistas empoleirados no ponto mais alto da Praça da Matriz, observando a igreja cheia até as tampas de paratyenses. Quando a missa acaba e a procissão acontece, já é noite – fica evidente que o evento não é feito para as câmeras de TV, e muito menos para as câmeras de blog.
 
Só quem... (desfila? sai? pula?) ahn... só quem participa da procissão antes do relicário passar tem a chance de admirar os tapetes desenhados nas ruas. Carregando velas, eles (desfilam? saem? pulam?)... ahn, eles vão andando pelas beiradinhas das calçadas, deixando os tapetes invictos para quando o relicário passar. Só os padres que trazem o relicário pisam sobre os tapetes. Depois de "batizados" pelos padres, os tapetes são então pisoteados pelos fiéis que seguem o relicário em procissão – e nem podem ver a beleza do trabalho que estão destruindo.

Eu estava lá, sem entender bem o que estava se passando (gente, vocês não sabem a falta que faz um Google às vezes quando a gente está assim totalmente unplugged no meio da rua) e tirando fotos com flash, quando me veio uma iluminação: por que não desligar o flash? E foi então que a coisa aconteceu. Sim, eu entendi o significado de Corpus Christi e da Festa do Divino. Role um pouquinho a página e você entenderá também. Veja só. Foi ou não foi o Espírito Santo que passou por mim?

No fim, os fiéis voltam até a Matriz. Mas os turistas ficam pelo caminho, se divertindo em pisar no que restou dos tapetes desenhados nas pedras do calçamento. E depois dizem que o Carnaval é que dura pouco...


Escrito por Ricardo Freire às 08h48
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Meu Corpus Christi inesquecível
Ou: Los Roques, o Caribe italiano na Venezuela
Ou ainda: A coisa mais maluca para fazer com 20 mil milhas Smiles
Ou simplesmente: - Caraca!
Todo mundo me pergunta onde é que fica essa praia da foto do cabeçalho do blog. A praia da bóia. Pois eu vou finalmente contar a história de como eu cheguei lá. Tudo começou numa terça-feira de março de 2003, perto da hora do almoço. Eu estava (mais ou menos) concentrado no meu trabalho, quando, na mesa ao lado, o Rodrigo soltou um:
- Caraca!
Pronto. Foi o que bastou. Três meses mais tarde eu estava tomando sol na praia da bóia.

Quer dizer: aconteceram várias coisas entre aquele "Caraca!" do Rodrigo e o meu desembarque na praia da bóia. Eu vou contar os detalhes, tintim por tintim – mas fique sabendo desde já que são todos irrelevantes. TUDO fica irrelevante perto do fato de você ouvir um "Caraca!" e, ato contínuo, resolver pegar um avião para passar Corpus Christi numa praia do estrangeiro.

Minto: esse detalhe é importante. Corpus Christi. Apesar de cair invariavelmente numa quinta-feira, Corpus Christi não é um feriadão fácil para quem quer ir à praia. No fim de maio, começo de junho, o Nordeste inteiro costuma estar debaixo de chuva. O Sudeste é uma loteria: o tempo pode estar lindo, firme e seco (por essas bandas, praia no outono é muito mais bacana que no verão); se vier uma frente fria, porém, já viu. Mas, voltando àquela manhã no escritório, perto da hora do almoço: era março, Corpus Christi ainda permanecia uma interrogação na minha agenda, e o Rodrigo soltou um "Caraca!".

(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 15h01
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Tá bom, tá bom: talvez aquele "Caraca!" não viesse a significar nada, caso o Fabinho, sentado uma mesa adiante, não tivesse aproveitado a deixa para informar:
- Morei três meses em Caracas.
Todo mundo olhou para o Fabinho. Ele continuou:
- Fui trabalhar numa campanha para a Coca-Cola. Foi ótimo. Eu ia todo fim de semana pra Los Roques.
Ninguém deu bola. Aos ouvidos de pessoas ajuizadas, "Los Roques" soa igualzinho a "Miracema do Norte" ou "Itaquaquecetuba". Eu queria ser assim. Mas tem alguma coisa no meu sistema operacional, algum software que veio instalado de fábrica, que identifica quando um nome não é apenas um nome, mas um topônimo. Quando a combinação "Los + Roques" entrou pelos meus ouvidos, imediatamente ativou o Google interno do meu cérebro, que não sossegou até localizar de onde eu conhecia aquilo. Ah, sim: de uma revista italiana de viagem. Comprada em 2001. Veneza. Isso. Eu tinha ficado espantado com a beleza desse arquipélago do Caribe venezuelano, desconhecido pelo resto do mundo, e que mesmo assim era point de italianos descolados. Quando li a matéria, prometi para mim mesmo pesquisar o assunto mais a fundo, mas terminei esquecendo.

Fui até a mesa do Fabinho. "Los Roques fica muito longe de Caracas?", perguntei, discretamente. "Meia hora de teco-teco. É bico". Vendo que eu estava me interessando, ele apelou: "Você, que gosta de mar transparente, ia adorar".
O cara conhece o meu ponto fraco. Para mim, não existe paisagem mais linda do que uma praia de areia imaculadamente branca e água cristalina, que começa incolor na beirinha e continua num degradê de azuis: primeiro azul-bebê, depois azul-celeste, daí azul-turquesa, e só então, láááá longe, azul-marinho. No Brasil, se você quiser fazer uma foto tipo assim quase praticamente mais ou menos parecida, vai precisar ir ao Sancho ou à Baía dos Porcos, em Fernando de Noronha, ou à Ilha do Campeche, em Floripa, ou às Prainhas do Pontal do Atalaia, em Arraial do Cabo. Nos tempos do dólar barato, viajei meio mundo, mais de uma vez, em busca de praias assim. Na atual pindaíba cambial, contudo, a notícia de que existem praias com o padrão Maldivas de qualidade logo ali, no nosso quintal, não pode ser ignorada.

O fato de que o vôo até Caracas pode ser feito na faixa, usando 20.000 milhas Smiles (o mesmo que a Varig cobra para qualquer viagem nacional, uma ponte-aérea que seja), dava um caráter eminentemente jornalístico e científico à empreitada. Eu PRECISAVA ir a Los Roques não para encontrar uma praia perfeita no mês de junho, mas para investigar a maneira mais rentável de usar milhas Smiles.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 15h01
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Passei a hora do almoço pesquisando na Internet, e descobri que Los Roques, além de lindo, é seco. O mês em que chove MAIS é novembro, com 50mm de precipitação (exatamente o mesmo número do mês em que chove MENOS no Rio de Janeiro, agosto). As pousadas (que se chamam posadas, mesmo) são um pouco caras (em média, a diária é 250 dólares por casal, incluindo três refeições e um traslado de barco por dia) – mas, perto da pousadinha-padrão de Noronha, as posadas de Los Roques parecem bem charmosas, mesmo quando mostradas em sites pobrinhos. Os donos geralmente são gringos – em sua maioria, italianos.

Liguei para o Smiles, consegui dois lugares para Caracas. Comecei a contatar as pousadas que achei mais simpáticas. A primeira estava lotada. A segunda tinha vaga. Entre o "Caraca!" do Rodrigo e o momento em que a minha viagem estava toda fechada, não se passaram mais do que... três dias!
Não era a primeira vez que eu decidia uma viagem no impulso. Há mais de dez anos, eu sequer precisei chegar ao segundo capítulo de "Um ano na Provence", de Peter Mayle, para decretar que minhas férias seguintes seriam no sul da França. Tempos depois, num restaurante paulistano que nem existe mais, pedi um ravióli de massa transparentede arroz recheado com pato, e, quando dei por mim, já estava planejando um pulinho ao Vietnã. Mas eu nunca tinha decidido uma viagem maluca assim tão rápido -- e por causa não de um livro, de um filme, de uma foto, de uma comida ou de uma música: por causa de uma interjeição. Caraca!

Em 2003, os vôos da Varig para a Venezuela ainda faziam escala em Manaus. Desembarcamos em Caracas no final da tarde. O saguão do aeroporto estava tomado por uma multidão de cambistas que acenavam com cédulas de bolívares. Eu não sabia que o câmbio negro pagaria 50% a mais pelos meus dólares, mas, mesmo se soubesse, não usaria seus serviços -- eu não conhecia o raio do dinheiro venezuelano, e aquele bando de gente mal-encarada no saguão me deixou apavorado. Fomos até o guichê oficial de câmbio, e tivemos que praticamente ACORDAR o sujeito que estava lá de plantão, enquanto os cambistas faziam sinais acintosos e sussurravam impropérios às nossas costas. Meia hora mais tarde, fazendo check-in no hotel onde dormiríamos perto do aeroporto, o sujeito que estava à nossa frente, em vez de entregar o seu cartão de crédito, pagou a diária adiantada com um maço alto de dinheiro -- evitando, dessa maneira, pagar a conta do cartão na cotação oficial do dólar. Ah, sim: bem-vindo à Hugochávezlândia!

Ligamos a televisão, e o que estava passando? O Clone! Perdão: El Clon! Pensei que fosse me divertir bastante com a dublagem em castejano, mas não. Em espanhol, El Clon é uma novela perfeitamente mexicana, colombiana ou venezuelana. E não é pela forçação de barra do enredo ou pela overdramaticidade dos diálogos de Glória Perez. É pela maquiagem, mesmo. Com todo aquele rímel, O Clone já era El Clon de nascença.
O final do capítulo, contudo, foi cortado abruptamente para passar uma outra teleopereta latino-americana -- a transmissão NA ÍNTEGRA do discurso do comandante Chávez na cúpula dos países sul-americanos em Assunção do Paraguai. MEIA HORA de chavismo, improvisação, bravatas e sonhos de uma mega-estatal-pan-sul-americana sem edição nem cortes de nenhuma espécie. Voz do Brasil perde! Veja lá: isso não significa que eu tenha alguma simpatia pelo outra banda da política venezuelana, mas aqui vai o que eu penso sobre o presidente da Venezuela. Hugo Chávez tem 10% do que admiro no Lula, e 10 vezes mais tudo o que eu não suporto no Lula. Mas chega de política. Vamos dormir, acordar cedinho e pegar o teco-teco para Los Roques.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 15h00
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Assim como em Morro de São Paulo, chega-se a Los Roques de teco-teco. Assim como Fernando de Noronha, Los Roques limita o número de visitantes e cobra uma taxa de permanência na chegada. Assim como em Caraíva, as ruas de Los Roques são de areia, e as pousadas, supersimples. Diferentemente de Aruba, o outro Caribe com vôos do Brasil, Los Roques não tem resorts nem cassinos nem duty-free shops.
 
As pousadas ficam quase todas em Gran Roque, a ilhota principal. Para ir à praia você precisa pegar uma lanchinha e ir até uma das ilhotinhas próximas; normalmente as pousadas incluem um traslado por dia no valor da diária.
 
Só não opta por esse plano quem vai a Los Roques para mergulhar – nesse caso, é melhor pagar só para dormir, e comprar os passeios com as companhias de mergulho, que preferem aportar em pontos verdadeiramente selvagens do arquipélago.

Além de gente maluca que faz qualquer negócio para ir em praias de mar transparente, Los Roques atrai mergulhadores, kite-surfistas e farof..., perdão, turistas de um dia só, que vêm de avião de Caracas ou da Isla Margarita para passear de catamarã e mergulhar.

(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 15h00
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Nos três dias e meios que passamos por lá, vivemos a mesma rotina besta. Acordar. Tomar café da manhã (com uma polenta de milho branco como toque local). Escolher as bebidas para levar para a ilhota. Andar 10 ou 15 minutos de lancha até a ilhota.

Esperar o barqueiro montar o guarda-sol e as cadeirinhas (de plástico, porém discretas). Marcar a hora para o barqueiro nos pegar à tarde.  
Abrir a geladeirinha térmica e ver o que tinha nos tupperwares (salada Cole Slaw. Polvo à vinagrete. Salada de penne com atum. Wraps de frango ao curry. Bolo de banana). Espantar o enxame de guaramares (esses pássaros preto e branco) que aparecia em frente ao guarda-sol sempre que a gente abria a geladeirinha.

Nadar. Ler. Almoçar. Pensar na morte das bezerras aquáticas.

Voltar para a pousada. Sestear. Jantar na pousada (ceviche. Bruschetta de barracuda. Peixe assado. Spaghetti com tomate, alho e manjericão). Fazer o footing. Morrer de sono. Dormir de janela aberta, debaixo das cobertas.
Adoramos. E – quer saber? Só vimos o lado menos bacana do arquipélago. "Qual é a ilha mais bonita?", perguntou, no terceiro dia, a hóspede venezuelana que tinha acabado de chegar. "Fica a uma hora e meia daqui", respondeu o barqueiro, para muxoxo da sua compatriota. As ilhas realmente desertas e os corais mais incríveis ficam guardados para quem compra os passeios de mergulho ou então vem no seu próprio iate (como é o caso de muitos milionários americanos que fogem do crowd do Caribe).

Felizmente eu sou uma pessoa rústica, de poucos luxos, que se contenta realmente com pouco. Para mim, bastaria que me levassem todos os dias a Madrizquí (a praia da bóia!), a ilhota preferida dos pelicanos (e a menos freqüentada pelos farof.., perdão, turistas de um dia só, porque não tem bar). Um solzinho, uma areiazinha branca, um marzinho de água transparente, uma bebidinha gelada na geladeirinha, uma brisazinha que não pára nunca. Para mim, já está bom. Espelho, espelho meu: existe alguém mais simples do que eu?
Caraca!

Serviço:
* O site mais completo sobre Los Roques: www.venezuelatuya.com/losroques
* A pousada em que fiquei: La Cigala
* Uma operadora brasileira que leva a Los Roques: Vecta Travel
* Dos arquivos: Como nascem as viagens
Escrito por Ricardo Freire às 14h59
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Próxima parada: Picinguaba
Vou passar o feriadão na última praia de São Paulo – uma base estratégica para quem quer curtir o charme de Paraty e as praias mais selvagens do litoral norte de Ubatuba numa mesma viagem. Se a meteorologia estiver correta, o tempo vai melhorar. Vou arranjar um tempinho para postar alguma coisa de um cybercafé. Mas de todo modo, antes de pegar a estrada, vou subir o post mais aguardado desde a abertura do blog: a história da praia da bóia amarela aí de cima. Foi num Corpus Christi, há dois anos. As fotos já estão editadas. Na hora do almoço eu termino o texto e subo. Té mais!
Escrito por Ricardo Freire às 08h44
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Estupidez em Alagoas
Você deve ter lido sobre o acidente com um ônibus de turismo que matou 10 e feriu 30 turistas sexta-feira em Alagoas. (Se não leu, veja aqui a matéria da Gazeta de Alagoas.) Os turistas iam de Maceió para Maragogi. Eram 7 da manhã. Chovia. O ônibus estava em alta velocidade. O motorista foi desviar de uma mulher que ia atravessar a AL-101 e acabou fazendo o ônibus capotar.
O que me deixa mais revoltado neste caso não é uma possível imperícia do motorista. É o fato de que este passeio nunca deveria ter sido oferecido nesta sexta. Simples assim. Aquelas 40 pessoas deviam ter ficado em Maceió e dormido até mais tarde, em vez de acordar de madrugada para seguir em carreira desabalada até as piscinas naturais de Maragogi.
Você provavelmente não vai ler isso em lugar nenhum, então eu vou começar a explicar do princípio.
Piscinas naturais como as de Maragogi (que aparecem na maré baixa, no interior de uma barreira de corais em alto-mar) são normalmente vendidas pelas operadoras e pelas agências de turismo receptivo como o ponto alto de viagens ao Nordeste. A imprensa de viagem concorda com isso e dissemina essa informação – porque, quando tudo dá certo, as piscinas naturais ficam realmente deslumbrantes, deixam as matérias lindas, e passam a idéia de que o Taiti pode, sim, ser aqui. Só que raramente tudo dá certo. Sexta-feira, por exemplo, quase nada daria certo para quem conseguisse chegar a Maragogi.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 13h38
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Para uma piscina natural (qualquer uma delas) ficar taitiana como se vê nas fotos de arquivo dos jornais, nas fotos de arquivo das revistas, nas fotos de arquivo dos órgãos oficiais de turismo e nas fotos dos álbuns dos vendedores de passeios, é preciso que vários fatores ocorram ao mesmo tempo. Em negrito você vai ver o que é necessário para uma piscina natural valer a viagem. Em vermelho você vai ver as condições de sexta em Maragogi.
1) Aproveita-se uma piscina natural no intervalo entre uma hora e meia antes e uma hora e meia depois do ponto mínimo da maré (de preferência antes, porque a água fica menos mexida). Segundo a tábua de marés da Marinha, o ponto mínimo da maré sexta em Alagoas seria às 7h02. O ônibus se acidentou exatamente nesse horário – e ainda estava a 30 km de Maragogi. As piscinas naturais ficam a 20 minutos de lancha da praia. Nenhum daqueles turistas chegaria à piscina natural antes das 8h, 8h15. A maré baixa – e a piscina natural – já estariam no finzinho.
2) A maré "seca" mais (=fica mais baixa) e deixa as piscinas mais bonitas (e os peixinhos, mais aparentes) na lua cheia e na lua nova. A lua de sexta era crescente.
3) Para as piscinas ficarem realmente encantadoras, é preciso haver sol forte e alto. O dia na sexta estava instável, com períodos nublados e de chuva. E mesmo que o dia estivesse lindo, na melhor hora da maré de ontem (7h) o sol não estaria suficientemente alto para revelar toda a transparência da piscina natural.
4) As piscinas naturais ficam mais bonitas em períodos de estiagem. Andou chovendo bastante em Alagoas nos últimos dias.
5) As piscinas naturais ficam mais cristalinas no verão. Já começou a temporada de chuvas – o "inverno" do Nordeste.
Ou seja: pelo certo, uma pessoa de férias só deveria se abalar de Maceió até Maragogi para ver as piscinas naturais num dia de verão, durante a lua cheia ou nova, com tempo firme, em que a maré atinja seu ponto mínimo entre 10 da manhã e uma da tarde.
E olhe lá.
Porque, mesmo com todas as condições favoráveis, trata-se de uma viagem de duas, duas horas e meia para ir, e outras tantas para voltar. Se você está na praia, vale a pena andar cinco horas de ônibus para ir à praia? É admissível fazer alguém acordar às cinco da manhã para ver o finzinho de uma maré baixa mixuruca num dia chuvoso a 130 km de distância?
Em condições normais já é meio programa de índio. Sexta-feira não fazia o mínimo sentido.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 13h38
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Galés de Maragogi
Piscinas naturais: valem a pena?
No meu guia de praias, o Freire's (não tem o Frommer's? não tem o Fodor's? pois então), eu recomendo que só se vá à piscina natural da praia ou da cidade em que você esteja hospedado. Se você tiver que pegar a estrada, desista. O tempo pode virar pelo caminho – mesmo no verão! – e você pode perder a viagem.
Mesmo quando tudo dá certo – é verão, a lua é cheia ou nova, o sol está alto e forte, e você chega na hora certa (lembre-se de que o horário da maré baixa muda todo dia, acontecendo sempre entre 30 e 45 minutos mais tarde do que no dia anterior) – e você tem o privilégio de encontrar a piscina natural igualzinha à que aparece nas fotos de arquivo, ainda assim pode ser que você se decepcione. Porque as piscinas naturais são tão marqueteadas, e atraem tantos barcos, lanchas e bares flutuantes, que aquilo que deveria ser um paraíso perdido no oceano vira uma zona. Sem falar nos danos aos corais (nos raríssimos casos em que ainda há corais vivos) e aos peixinhos (que em alguns lugares são alimentados com ração para cachorro vendida em garrafinhas aos turistas antes de embarcar).
Posso ser sincero? Eu só vou porque preciso fotografar para o meu guia e ter alguma opinião para dar. Acho que as pessoas desaprenderam a simplesmente curtir uma praia, e confundem turismo com zanzismo. Mas, já que você insiste, aí vai o Dossiê Freire de piscinas naturais do Nordeste.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 13h38
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A que não tem erro: Porto de Galinhas.
O único jeito de você se decepcionar é enganarem você com o horário da maré baixa. A idéia aqui não é mergulhar nas piscinas, mas observar os aquários que se formam nas pedras. Um deles tem o formato do mapa do Brasil. O jeito de chegar também é gostoso – cinco minutinhos de jangada. E quem fica na areia também aproveita, já que a praia toda vira uma piscina. Leia sobre Porto de Galinhas no Freire's clicando aqui.

A pé-na-areia: Taipus de Fora, em Maraú.
Ao contrário da maioria das piscinas naturais do Nordeste, as de Taipus de Fora não requerem transporte de barco. Elas ficam à beira-mar, mesmo. Você pode alugar um snorkel e explorar a barreira de corais que começa rente à areia, ou simplesmente aproveitar que a praia vira um tancão e tomar um dos banhos de mar mais gostosos da Bahia. Taipus de Fora fica a meia hora de jardineira da vila de Barra Grande. Há quem venha de Itacaré – a duas horas e meia de 4x4, por uma estradinha tenebrosa, e depois tem a volta – mas aí já não se trata de turismo, e sim de masoquismo. Leia sobre Maraú no Freire's clicando aqui.


A mais supervalorizada: Atalaia, em Noronha.
Já me disseram que eu sou radical demais, e que os peixinhos da Atalaia são os mais bonitos para se ver de snorkel em Noronha. Só que, e aqui vai uma salva de palmas por isso, o Ibama só permite a presença de 100 banhistas ao mesmo tempo na praia – o que ocasiona uma fila de até duas horas de bugues, numa estradinha de terra, debaixo do sol. Sustento minha opinião: é muito mais legal procurar os peixinhos do Sancho ou da Baía dos Porcos, onde ninguém mofa na fila e a paisagem acima d'água é ainda mais bonita. Leia sobre Fernando de Noronha no Freire's clicando aqui.

Baía dos Porcos, Noronha
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 13h37
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A mais ameaçada: Moreré, em Boipeba.
A ilha de Boipeba costuma ser o oposto da agitada ilha vizinha, Morro de São Paulo: calma, preservada e natureba. Suas piscinas naturais em alto mar (a 20 min. de lancha, em mar bravio), no entanto, se parecem muito mais com Morro do que com Boipeba. Na temporada, são invadidas por bares flutuantes que atendem às lanchas que acorrem em cada vez maior número. A associação dos amigos de Boipeba vem tentando disciplinar os passeios às piscinas. Bem que daqui poderia sair algum modelo capaz de conciliar a visita e a preservação das piscinas naturais Nordeste afora. Leia sobre a Ilha de Boipeba no Freire's clicando aqui.
A mais crowdeada: Galés de Maragogi.
Pelo que eu já vi em fotos, em seus dias mais favoráveis é a mais bonita (mais "taitiana") das piscinas naturais nordestinas. No entanto, pessoalmente, tête-à-tête, nunca consegui encontrar aquela transparência toda. De todo modo, é freqüentada muito além de sua capacidade, atraindo ônibus e mais ônibus de Maceió (125 km), Porto de Galinhas (80 km) e Recife (125 km). Fica a 20 minutos de lancha. Antes de embarcar é comum que sejam oferecidas aos passageiros garrafinhas com "comida de peixe" – só que não é aquele alpistezinho de comida de peixe, e sim bolotonas de ração de cachorro, que só fazem mal aos peixinhos. Leia sobre Maragogi no Freire's clicando aqui.
A hors-concours: Pajuçara, em Maceió.
Não vou dizer que não seja divertido. Se você gosta de circo, como eu, vai dar risada. Mas é difícil acreditar que algum dia as piscinas da Pajuçara já tenham sido transparentes (talvez por isso seja tão fácil convencer as pessoas a pagar o passeio até Maragogi). Esta foto é de 2000. Desde então, não voltei mais. Desculpe, eu sei que tenho um compromisso com o jornalismo e a prestação de serviços – mas há limites. Há limites! Leia sobre Maceió no Freire's clicando aqui.
Como? Se eu não sei de piscinas naturais que continuam naturais, e são visitadas por gente que não pisa nos corais e não dá veneno aos peixinhos? Claro que conheço. Mas só vou falar delas quando tiver certeza de que não tem ninguém da CVC me lendo.
Escrito por Ricardo Freire às 13h37
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Madame Freire vai jantar
Tudo começou em meados de janeiro, no meio daquela volta-ao-mundo que inaugurou este blog. Eu estava em Sydney, lendo o jornal no café da manhã, quando deparei com a entrevista de uma executiva francesa radicada nos Estados Unidos que tinha escrito um livro que estava estourando nos Estados Unidos. A mulher se chamava Mireille Guiliano, e o best-seller, French women don't get fat. Achei interessante. Fiz um post-it mental para comprar o livro quando chegasse aos Estados Unidos.
Dez dias mais tarde eu já tinha até esquecido da história, mas a Newsweek que eu comprei no aeroporto de Tóquio me refrescou a memória. Ao chegar a Nova York, fui direto comprar meu exemplar. O moço da Barnes & Noble que me atendeu disse que eu era o décimo naquele dia que tinha perguntado para ele onde estavam as malditas mulheres francesas que não engordavam.

Li num tapa e escrevi uma Xongas sobre o livro no avião, voltando – e com isso, consegui publicar minha resenha antes mesmo do New York Times, conforme apurou minha amiga e camarada blogueira Cássia Zanon. Mas eu entreguei meu texto tão em cima da hora, mas tão em cima da hora, que alguém lá na Época acabou cortando o primeiro parágrafo, achando, decerto, que era um bilhetinho engraçado para o editor ilustrador. O texto começava assim:
Já vou avisando. Não estranhe se você me achar, sei lá, meio diferentão daqui para a frente. É que eu tomei uma decisão hoje pela manhã. Vou virar uma mulher francesa.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 09h43
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Mas o resto saiu na íntegra:
A culpa é do livro que acabei de ler -- perdão, devorar: French women don`t get fat (Mulheres francesas não engordam). Subtítulo: "O segredo de comer por prazer". A autora é Mireille Guiliano, uma francesa de 58 anos que aparenta, digamos, 49, e é presidente do braço americano da companhia que produz o venerável champagne Veuve Clicquot.
O livro foi lançado no comecinho do ano e já vendeu 300 mil exemplares, mesmo com toda a onda antifrancesa nos Estados Unidos. Vi no site da autora (www.mireilleguiliano.com) que os direitos de tradução para o Brasil já estão com a editora Campus. Adeus, Atkins. Passe mais tarde, South Beach. Dentro de pouco tempo, a dieta da moda vai ser a não-dieta.
Por quê? Ora, porque mulheres francesas não fazem dieta. Mulheres francesas não cortam carboidrato (mulheres francesas sequer pronunciam essa palavra). Mulheres francesas pedem entrada, prato e sobremesa. Mulheres francesas tomam vinho. Mulheres francesas comem pão e chocolate. Mesmo assim, mulheres francesas não engordam.
"Magras-de-ruins!", eu seria o primeiro a denunciar. Mas não é o caso. Segundo Madame Guiliano (o sobrenome é do marido ítalo-americano), as mulheres francesas não engordam porque comem sem culpa.
Calma lá -- isso não significa que para virar uma mulher francesa basta sair traçando tudo o que aparecer pela frente, sempre lembrando de não sentir culpa nenhuma, non-je-ne-regrette-rien. O fato é que as mulheres francesas estão cobertas de razões para comer sem culpa. Mulheres francesas não comem nada entre as refeições. Mulheres francesas não comem de pé nem vendo televisão. Em vez de comer muito de uma coisa só, mulheres francesas comem um pouquinho de tudo.
Parece aquela velha e manjada reeducação alimentar, tantas vezes invocada pelo seu nutricionista. Mas é mais do que isso. Para emagrecer e manter o novo peso, Mireille Guiliano propõe um "upgrade" alimentar. Trocar o supermercado pelo mercado. O industrializado pelo artesanal. Uma barrona de chocolate vagabundo por um quadradinho de chocolate fino. Uma hora de esteira na academia por meia hora de caminhada na hora do almoço. Vem cá: como é que ninguém nunca me disse que meia-dúzia de ostras contêm apenas 70 calorias? Emagrecer nunca foi tão chique.
Aparentemente, nem é tão difícil assim virar uma mulher francesa. O único sacrifício proposto por Madame Guiliano é tomar por dois dias uma sopa de alho-poró que serve como -- as mulheres francesas que me desculpem a expressão -- pontapé inicial para o emagrecimento definitivo. Na seqüência vem um programa de "reajuste", que a autora não chama de sacrifício, mas de "descoberta de novos sabores".
Quando precisou emagrecer, na juventude -- depois de passar um ano como estudante de intercâmbio nos Estados Unidos --, Mireille Guiliano ouviu de seu médico que o segredo da boa alimentação está em promover as pazes entre o Narciso e o Pantagruel que existe em cada um de nós.
Não custa tentar. Se der certo, podem me chamar de Madame Freire.
Mulheres acabou não demorando para sair no Brasil, e já está em 3º. lugar na lista de mais vendidos (categoria não-ficção) da Época.
Pois bem. Ontem, quatro meses depois daquele café da manhã em Sydney, eu estava tomando café da manhã em São Paulo quando fiquei sabendo pela Folha de S. Paulo que o restaurante La Casserole estava fazendo um festival gastronômico inspirado nos ensinamentos de Madame Guiliano. Adivinha onde Madame Freire foi jantar ontem?

(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 09h43
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O La Casserole (pode isso? "O" La?) é a desculpa mais charmosa que um paulistano pode encontrar para ir ao Centro da cidade. O restaurante fica há 50 anos no Largo do Arouche, que não-paulistanos conhecem como a vizinhança onde morava a trupe do falecido Sai de baixo. Todos os grandes restaurantes já foram embora do Centro. Só ficou o La Casserole ("o"?), com seu painel fotográfico reproduzindo a Île de la Cité, e seus pratos tradicionais de bistrô que chegam à mesa em panelas (caçarolas...). Se você chegar cedo para jantar e vir um casal de velhinhos sacudidíssimos jantando e tomando champagne, saiba que eles são Roger e Tuna Henry, os fundadores do restaurante, que hoje é tocado por sua filha Marie.

Pelo menos uma vez por mês eu volto ao Arouche para comer uma truta com amêndoas ou me refestelar com tripas à moda de Caen. (Sim. Pedir dobradinha em restaurante francês é uma das minhas perversões gastronômicas.)
O menu mulheres-francesas-não-engordam do La Casserole não chega à mesa em panelas – até porque Mme. Guiliano prega comer de tudo, mas em quantidades pequenas. Com entrada, prato e sobremesa, e sem bebidas alcoólicas, conte em gastar entre R$ 70 e R$ 90 por pessoa.
Não tente procurar a sopa milagrosa de alho-poró no meio das entradas; a sopa de alho-poró é para o período de desintoxicação, e deve ser tomada em casa, longe da tentação dos pratos das mesas vizinhas. Resistimos ao couvert (comemos os palitos de cenoura, salsão e pepino, mas não tocamos na baguette). Para começar, pedimos um bowl de verdes e um fundo de alcachofra com mix de champignons. (Quase pedi o omelete de caviar, mas achei que uma salada me deixaria com a consciência mais leve.)
Na hora do prato principal, escolhemos as costeletas de cordeiro em crosta de ervas com couscous marroquino e o peito de frango recheado com presunto cru e sálvia (acompanhado por uma conchinha de arroz com legumes). Tudo divinamente bem temperado; pouca quantidade, ótima qualidade e muito sabor é o moto de Mireille Guiliano. Para encerrar, uma tarte tatin de manga sem massa – ou melhor, quase: só com uma laminazinha de massa "phylo", o suficiente para você sentir que não está comendo uma simples manga flambada e sim uma sobremesa de verdade.
Uma delícia. Tanto a comida quanto a sensação de ter feito um jantar gourmet que não me engordou uma grama, mesmo não sendo acompanhado dos adjetivos "light" ou "diet". Pourquoi pas?
Escrito por Ricardo Freire às 09h43
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Geography
Terça no Estadão, hoje no Globo, duas matérias de viagem, feitas por duas repórteres diferentes, fazem menção a um mesmo lugar: uma certa Burgundy. Não, as matérias não são sobre a Burgundy. Ambas falam da Butterfield & Robinson, a operadora que inventou as viagens chiques a pé e de bicicleta (o roteiro de 10 dias que eles fazem no Brasil – incluindo Tiradentes, Caminho do Ouro, Paraty, Foz do Iguaçu e o Txai em Itacaré – sai 6 mil dólares por pessoa, em quarto duplo; é mole?). A tal da Burgundy é só um dos destinos citados de passeios da Butterfield.
E o que é, afinal, essa Burgundy? Os castiços diriam que é a Borgonha. Os levemente metidos e/ou pedantes, como eu, preferem Bourgogne. Já quem não tem a mínima idéia do que seja a Borgonha ou de onde fique a Bourgogne copia Burgundy do material de divulgação em inglês e fica por isso mesmo.
Usar os nomes em inglês de lugares onde não se fala inglês é o erro que mais me irrita no jornalismo de viagem em português. O cara está escrevendo sobre a China e de repente menciona um cruzeiro pelo "Yellow River". Está numa cidade perdida no interior da Turquia mas dá uma passadinha no "Central Market". Aproveita que está em Praga e não deixa de fotografar a "Charles Bridge". Eu sei. Vocês nem notam. Mas isso me revolta o estômago e me estraga o dia.
Às vezes eu penso em largar tudo e dedicar minha existência a revisar textos de turismo em português. Zelar para que Cingapura seja sempre com "c". Que não se escreva Gouangzhou quando se pode escrever Cantão. Que até possam se referir à Birmânia como Myanmar, mas jamais como Burma. E que Brasil e Portugal não embarquem nessa canoa furada de rebatizar Pequim de... Beijing. Eca!
Tenho uma implicância toda especial com duas palavrinhas que só aparecem nos cadernos de turismo e em livros maltraduzidos.
A primeira é monastério. Eu sei que a palavra consta dos nossos dicionários, mas o fato é que o português tem uma palavra muito mais bonita que significa exatamente a mesma coisa: mosteiro. Você alguma vez já usou a palavra monastério para se referir a um mosteiro que fique no Brasil? Monastério de São Bento, que tal? No dia que eu escrever um dicionário turismês-português, o verbete monastério vai vir com a definição: "um mosteiro que teve o azar de ser construído fora do Brasil ou de Portugal".
A segunda palavrinha maldita é vegetais. Toda vez que eu leio que o restaurante tal serve um bom bife com vegetais eu entro em surto apoplético e fico com vontade de atirar um um prato de celulose com molho de clorofila em quem escreveu. De uma vez por todas: vegetais não é uma tradução possível para os "vegetables" do inglês ou mesmo os "vegetales" que já aparecem em cardápios em castelhano. Em português, para fins culinários, "vegetables" se traduzem por legumes, verduras, hortaliças, raízes e sementes. Sim, o português, pelo menos nesse caso, é mais específico que o inglês. E é isso que garante que o seu bife nunca seja acompanhado por troncos de árvores, buquês de rosas, pessoas mantidas vivas por aparelhos ou qualquer outro tipo de vegetal.
O pior é que ainda são 9h30 da manhã e eu não posso nem tomar uma taça de borgonha para relaxar.
Escrito por Ricardo Freire às 09h38
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Souvenir
Eu estava arrumando uma gaveta, jogando fora papéis inúteis, quando lá no fundo encontrei um envelope diferente – gordo, pesado e barulhento. Na frente estava escrito: FRANCOS. Recuerdos do real forte, quando dava para guardar troco estrangeiro em casa, just in case. E agora? Cadê a coragem de dizer para essas pobres moedinhas que elas não valem mais nada? Pior: que jamais verão de novo a terra de onde saíram? Situação...

Escrito por Ricardo Freire às 08h44
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O Piauí é aqui
Pegue tudo o que você sabe sobre o Piauí, inverta os sinais, e você chega a um dos endereços mais prósperos de São Paulo: a Rua Piauí.

Repare na placa aí em cima: quem dá as boas vindas à Rua Piauí não é o programa Farol de Desenvolvimento do Banco do Nordeste. Até porque a renda per capita da Rua Piauí é uma das mais altas do Brasil. O clima ali é ameno e a paisagem é verdíssima o ano inteiro – a Rua Piauí passa por duas das praças mais chiques de São Paulo, a Vilaboim (bares, restaurantes, lojinhas, megabanca de revistas) e a Buenos Aires (jogging, crianças, cachorros). Ué: Buenos Aires no Piauí? (Pode, sim: um dos times de maior torcida de Teresina se chama River.) A geografia do bairro de Higienópolis costuma ser confusa, mas pelo menos a rua paralela à Piauí faz sentido: é a Maranhão. Só que quem mora na Maranhão não é o Sarney, e sim o Fernando Henrique. Vai entender.

Peraí: por que usar ironia e humor preconceituoso para começar um post que pretende ser simpático ao Piauí? Justamente para mostrar a importância desse evento que está sendo realizado no Mercado Municipal de São Paulo, o Piauí Sampa. O negócio funciona assim: se você é pobre (como o Piauí com relação ao centro-sul do Brasil, ou como o Brasil com relação ao mundo desenvolvido), ou você faz os ricos descobrirem suas belezas e seus talentos, ou você está condenado a ser conhecido apenas pelas suas estatísticas. E por isso o Piauí resolveu empacotar seus produtos, sua música, sua comida e suas paisagens e veio se amostrar para sulistas ignorantes feito eu. Quer saber? Valeu a viagem.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 00h50
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A feira está num cantinho do Mercadão difícil de chegar – fica nos fundos, passando o Empório Chiapetta, sem muita sinalização. O lugar talvez pudesse estar mais cenografado: a arquitetura do Mercado acaba mais presente do que a paisagem ou o clima do Piauí. (Tipo assim: não é nenhuma exposição da Faap.) Mas não desista – com o olhar atento dá para encontrar detalhes que vão transportar você para o cantinho menos conhecido do Nordeste. Ou, para ser geograficamente correto: do Meio-Norte.

Mal entrei, fiz questão de ir direto ao estande da minha mais querida referência piauiense: a "cajuína cristalina em Teresina" da canção de Caetano Veloso. Você conhece a história? Caetano foi fazer um show em Teresina e aproveitou para visitar seu Hely, o pai de Torquato Neto (poeta e letrista do tropicalismo, que se suicidou em 1972, aos 28 anos, no Rio). Seu Hely serviu cajuína, os dois ficaram conversando sobre Torquato, e o baiano saiu de lá com o "existirmos, a que será que se destina".

Eu adoro tudo de caju – a fruta, o suco, a caipiroska, a castanha, o doce em calda, o caju cristalizado, a passa de caju – mas nunca tinha experimentado a cajuína. Para falar a verdade, eu não sabia direito nem o que era cajuína. Está escrito na embalagem: suco clarificado do caju. Ah, tá. Só uma coisinha. Como assim, "clarificado"? Foram chamar uma moça do Sebrae para me explicar. Trata-se do suco do caju, peneirado várias vezes (para eliminar todo resíduo do bagaço), e então levado à fervura em banho-maria. Hmmm... gostoso. Docinho. Com gosto de caju, mas sem travo de caju. Adicionam açúcar? Não mesmo? Isso é só o açúcar natural da fruta? Que delícia. Deix'eu ver... ahn... hum... assim como tantas outras coisas de caju, sinto que a cajuína é meio inclassificável. Fica em algum ponto entre um licor sem álcool, uma calda sem açúcar e um chá gelado sem cafeína. Êpa: mas com muito sabor. Comprei duas garrafinhas (a R$ 2,50 cada uma) para ver se encontro uma definição mais tarde.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 00h39
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Se dois ou três copinhos de cajuína geladinha, acompanhados por um punhado de castanhas salgadinhas, abrirem o seu apetite, suba a escada, que um bom buffet de comida regional está a postos, a módicos R$ 2,80 cada 100 gramas.

Qualquer dia eu volto ao assunto com a profundidade que ele merece, mas saiba que eu acho essa história de que São Paulo é "uma das capitais gastronômicas do mundo" um exagero. O que está bem representado em São Paulo são as cozinhas da elite: a francesa, que é a cozinha dos ricos em qualquer lugar do mundo; a portuguesa, por uma questão de tradição; e a cozinha das outras colônias que compõem a burguesia – a italiana, a libanesa, e de uns tempos para cá a japonesa. Ah, sim: tem também o churrasco, que vem da época dos tropeiros. As cozinhas baiana e nordestina, porém, não chegam a merecer sequer uma seção própria nos roteiros gastronômicos – um caso, talvez único no mundo, de um lugar que não absorveu nada da cozinha dos trabalhadores que vieram construir sua riqueza. Os alemães não viveriam sem o kebab dos turcos, a França adotou o couscous dos marroquinos como um de seus pratos nacionais, a Inglaterra descobriu que sua comida não tinha sabor quando experimentou a cozinha dos indianos, e os Estados Unidos são totalmente viciados na guacamole e nos "chillies" dos mexicanos. Mas os paulistanos não conseguiram aprender a gostar do coentro dos nordestinos. Pois não sabem o que estão perdendo.

Desculpe encher seu saco com essas rabugices, mas é nisso que eu pensava enquanto saboreava o meu prato de caminhoneiro-design (esqueci de tirar foto, mas tava bonito): um montinho de arroz Maria Isabel (com carne seca desfiada, incluindo deliciosos naquinhos da sua gordura), um montinho de baião-de-dois (mais gostoso do que os que eu comi no Ceará), um montinho de carneiro no coco, outro de carneiro com feijão-verde, e um nadinha de paçoca (farofa com carne de sol amassada). Na falta de cajuína gelada (!?!), fui de Coca Light mesmo.

Lá embaixo a feira continuava tranqüila – descobri nesse sábado que o Mercado fica bem mais agradável a partir das duas da tarde, quando as multidões debandam depois de matar sua fome de sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau. A parte da exposição com maior sucesso, como não poderia deixar de ser, é o cantinho do Museu do Homem Americano, de São Raimundo Nonato, onde estão expostos alguns achados dos sítios arqueológicos da Serra da Capivara. Ali foram encontrados os indícios mais antigos da presença do homem na América do Sul. Eu e você, que ainda não fomos até lá, estamos pelo menos 100.000 anos atrasados.

As simpáticas pinturas rupestres das cavernas da Serra da Capivara podem muito bem se tornar uma marca para o turismo e os produtos do Piauí. E os piauienses já sabem disso – pelo menos é o que eu deduzo, ao ver os interessantíssimos objetos de cerâmica com relevos inspirados nas gravuras pré-históricas que estão à venda na banca em frente ao "museu". O exibidor me contou que a técnica foi ensinada à população de vilarejos da Serra da Capivara para que abandonassem a caça predatória. No começo as peças eram vendidas só como souvenir do parque nacional, mas agora começam a ser "exportadas". A cerâmica é vitrificada, e parece muito com a que a gente encontra nas lojas japonesas da Liberdade – mas as figurinhas das cavernas fazem toda a diferença. (Os preços estão ótimos: começam em 10 reais.)

(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 00h38
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