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Eu sei. Já é a sexta vez que você entra no blog desde terça-feira, em busca do meu relato sobre o fim-de-semana no bangalô novo da Ponta dos Ganchos. Desculpaê. Mas é que, além do acúmulo de trabalho, eu resolvi usar essa viagem como... ahn.... gancho (desculpe, mais uma vez) para fazer um update geral do meu modesto, espartano e basiquinho Guia Freire's de Superbangalôs de Praia. Deixo com você uma amostrazinha. Amanhã ou, no mais tardar, sábado, publico a lista inteira, com os devidos comentários. Inté daqui a pouco.

 

 

 Ponta dos Ganchos, Santa Catarina

 

 

 Pousada Maravilha, Noronha

 

  Pousada Estrela d'Água, Trancoso



Escrito por Ricardo Freire às 08h32
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"Por que você nunca aparece nas fotos?"

Aproveitando que ainda não deu tempo de organizar o post da Ponta dos Ganchos (gente, eu preciso trabalhar também), resolvi trazer aqui para fora uma perguntinha que apareceu nos comentários lá de Nice.


Eu não apareço nas fotos de propósito: eu entendo que fica mais fácil para você se colocar no meu lugar se você puder enxergar tudo do mesmo ponto de vista que eu – como se você estivesse junto na mesma viagem. Ficar posando o tempo todo para a câmera anularia esse efeito.


E, last but not Liszt (ha ha: dei uma googlada rápida, e vi que esse trocadilho já foi feito 800 milhões de vezes em todas as línguas do planeta), quanto menos eu aparecer, melhor para o meu lado "guieiro" – já que, na hora de fazer o guia, o ideal é que eu não seja reconhecido.

 

Explicado?

Escrito por Ricardo Freire às 09h07
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Próxima parada: Ponta dos Ganchos, Santa Catarina

Na verdade, acabei de voltar – passei o fim de semana por lá, na árdua tarefa de testar um bangalô que eu ainda não conhecia. O relato eu posto amanhã. Enquanto isso, role a página e acompanhe minhas aventuras finais na Riviera.

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 09h18
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Design para crianças, merenda para adultos

NICE – Gostaria de deixar registrado que na próxima encarnação eu quero nascer um turista normal. Na próxima encarnação eu juro que vou me contentar em entrar em igreja e visitar museu. Ou então vou fazer força para arranjar um desses interesses que simplificam a vida do viajante – tipo mergulho ou surfe ou golfe. (Pasme: cada um no seu canto e com sua turma, o surfista e o golfista fazem viagens muito parecidas.) Na presente encarnação, contudo, não há mais jeito a dar. O fato é que não consigo ir a lugar nenhum só para apreciar a paisagem e ver o cenário e sentir o clima e observar as pessoas e comprar umas coisinhas. Devido a um cromossoma defeituoso, ou a alguma falha qualquer no DNA, eu só considero um lugar devidamente visitado se eu conheci certos hotéis e experimentei determinados restaurantes. Desculpe, é mais forte do que eu. Mas saiba que eu já pedi, e na próxima encarnação não vou ser mais assim.

Era uma da madrugada de quarta para quinta quando cheguei de volta a Nice, desta vez para ficar. Quer dizer: para ficar pelas próximas dezesseis horas, antes de iniciar a viagem de retorno ao patropi. Eu teria pouco mais de meio dia para dormir e comer nos dois endereços que mais me interessavam em Nice: um hotel esquisito e um restaurante que se recusa a ter telefone.

 

O hotel esquisito era o Hi Hotel (não diga "rai"; diga "í", mesmo), um dos ícones moderninhos de uma Nice rejuvenescida e fashion.

 

De noite o banheiro parece integrado ao quarto. 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 09h06
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Com interiores desenhados por uma jovem discípula de Philippe Starck, o Hi é uma espécie de Hotel Unique de Nice. Já dei uma notinha sobre ele (há uns dois anos, na Viagem & Turismo), já indiquei para amigos, mas nunca tinha tido a oportunidade de levar meu pijaminha metafórico para dormir por lá.

 

 

Pois bem. É por essas e por outras que eu só acredito em jornalismo de viagem que confere as coisas ao vivo. Sem ter me hospedado no hotel, o máximo que eu podia fazer era passar adiante o peixe que tinham me vendido – o de um hotel jovem e moderninho que estava ajudando a pôr Nice na moda. Enfim, uma descrição genérica, que não erra mas também não acerta. Agora, sim. Da próxima vez que eu recomendar o Hi Hotel para alguém, eu vou poder dizer que o lugar é tipo assim um albergue da juventude-design, com ambientes sociais que lembram uma escolinha maternal-design e apartamentos que poderiam estar num hospital-design.

 

 

Há vários tipos de quarto. O meu, denominado "Strata", tinha o espaço dividido em faixas vitais – de "repouso", ao nível da cama, a "reenergização", à altura do chuveiro – e vinha equipado com uma privada sem porta. De noite, ao chegar, tive a impressão de que o banheiro estava integrado ao quarto; de dia, no entanto, cheguei à conclusão de que na verdade o quarto é que ficava dentro do banheiro.

 

 

A piscina do terraço tem vista para os telhados de Nice, e o buffet do café da manhã é montado num balcão refrigerado de mercadinho e só tem produtos "bio" (diga "biô"). Adorei. Mas obviamente o lugar não é para pessoas modernas. Pessoas modernas já levam uma vida moderna e não precisam desse ambiente albergue-maternal-hospitalar-design para se sentirem modernos. Já pessoas caretas como eu podem viver uma experiência de algumas horas fora de seus corpos e achar tudo muito divertido.

 

 

 De manhã pude ver: é o quarto que está dentro do banheiro!

 

Passei a manhã na piscina do terraço, tentando escrever a Xongas da semana. Lá pela metade, precisei largar tudo, fazer as malas e fechar a conta, senão não conseguiria cumprir o meu segundo objetivo desse finalzinho de viagem: comer no La Merenda, o tal restaurante que se recusa a ter telefone.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 08h57
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A história do La Merenda é fascinante. Há pouco menos de dez anos, Dominique le Stanc, então sous-chef do estrelado Chantecler (o restaurante do hotel Négresco), desiludiu-se, como muito de seus pares, com a haue cuisine, e resolveu abrir seu bistrozinho a preços camaradas. Comprou uma portinha na velha Nice, onde já funcionava um restaurante sem telefone desde os anos 70. Le Stanc manteve o nome do lugar, não comprou telefone e continuou preparando uma comida estritamente nissarta. Ganhou uma toque (chapéu de chef, equivalente a uma estrela) no Gault-Millau, entrou para o Michelin (uma façanha para um restaurante tão simples) e consta da lista de recomendações de todos os guias bacanas e matérias descoladas. Conseguir uma mesa, no entanto, é uma aventura, já que a ausência de telefone é irmã gêmea da inexistência de reservas (e o restaurante fecha no fim de semana). Bom. A essas alturas você já me conhece. Me diga, então: como é que eu poderia me interessar em ir a algum outro restaurante na Riviera inteira?

 

 

Quando consegui achar o endereço (o La Merenda fica no número 4 da rue Raoul Bosio, mas os guias continuam usando o nome antigo: rue de la Terrasse), já era meio-dia e meia, e todas as mesas estavam ocupadas. Mas Mme Le Stanc, que gerencia o boteco, anotou meu nome e disse para voltar dali a 45 minutos – o tempo justo para dar um pulinho até ali a Fnac e comprar o iPod suffle que minha amiga D. tinha me encomendado.

 

À uma e quinze já havia duas mesas vagas – e quem chegou depois dessa hora não teve dificuldade nenhuma para sentar.

 

O cardápio vem à mesa escrito numa lousa portátil. E novamente eu posso perceber nitidamente a diferença entre o que eu leio e o que eu vejo. Não, não está errado dizer que o La Merenda serve comida autenticamente niçoise. Mas é pouco. Para que o visitante saiba o que realmente está à sua espera, é preciso dizer que o La Merenda tem o cardápio mais nojento que pode existir na culinária francesa. Tripas, rabada, andouillete (uma lingüiça de miúdos), e por aí vai. É impossível sentar aqui e não ter que pedir algo dégoûtant. Nham! Esse lugar é dos meus.

 

 

Pedi pâtes au pistou (massa caseira ao pesto), emendei com um glorioso prato de tripes à la niçoise (dobradinha! à moda de Nice! mais uma para o meu currículo!) e arrematei com um singelo clafoutis de cérises (uma torta molinha de cerejas). Com uma água Badoît e um café, 33 euros (na França, diga orrô).

 

Enfim, tendo dormido no hotel esquisito e comido no restaurante sem telefone, eu já podia dar Nice por visitada. Au revoir! À la prochaine!

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 08h56
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Fotoblog: St.-Tropez

Foi fácil para Brigitte Bardot colocar Búzios no mapa. Naquela época ela já tinha experiência. Alguns anos antes, ela tinha feito a mesma coisa com St.-Tropez.

 

 

Se esta peninsulazinha não tivesse servido de cenário para B.B. em "E Deus criou a mulher", talvez St.-Tropez continuasse a ser no verão a mesma vila sonolenta que é durante o inverno.  

 

 

 

.... Ou não. Com ou sem filme, avec ou sans Bardot, talvez fosse inevitável que o encontro entre o espírito do bas-fond de Marselha e a grana da Riviera se desse aqui mesmo, no meio do caminho.

 

 

Originalmente St.-Tropez não era um balneário, mas uma vilazinha de pescadores. Hoje o porto não tem mais pesqueiros: iates mega-power disputam cada centímetro do atracadouro. Por sinal, bisbilhotar a vida dos milhonas nos iates é uma das diversões de quem participa do footing ou estaciona num dos cafés ao longo do cais.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h02
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A cidade antiga começa no porto e esparrama suas vielas colina acima. Se você mudar os letreiros das placas no computador, pode muito bem fazer de conta de que aqui é a Itália.

 

Mas então você sai pela Place des Lices, passa pelos jogadores de boules e volta a ter certeza de de que está nas cercanias da Provence.

 

 

À noite, acontece em St.-Tropez o mesmo fenômeno que rola em Capri: os turistas que só vieram visitar já foram embora, e a cidade fica para os habituês. A cena gastronômica da cidade é mais relaxada que no resto da Côte -- os restaurantes mais disputados da cidade são o moderninho Spoon, de Alain Ducasse (no Hotel Byblos) e o vietnamita Bahn Hoï, um dos raros desta especialidade recomendados pelo guia Michelin.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 10h56
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A praia de St.-Tropez fica fora da cidade – a bem da verdade, em outro município: Ramatuelle.

A mais badalada é Pampelonne, uma enseada com 5 km de extensão que é servida por quatro acessos. Alguns trechos da praia são públicos, mas quase toda a orla é ocupada por plages privadas. Pelo menos duas delas são celebérrimas: é no Club 55 e no Voile Rouge que os astros e estrelas vão quando querem ser achados pelos paparazzi.

A última novidade da cena tropeziana é uma filial do branquérrimo Nikki Beach, uma rede de clubes de praia que se intitula como "O lugar mais sexy da Terra".

Por uma dessas ironias, o Nikki Beach de St-Tropez não fica exatamente à beira da beach. Como chegou depois de todo mundo, precisou se instalar na quadra de trás de um trecho de praia pública.

Mas ninguém parece muito interessado em sair de suas tendas, de seus pufes, de seus divãs, de seus colchõezões ou de suas espreguiçadeiras para mergulhar na água salgada. Pra quê, se dá para pular na piscina e continuar vendo e sendo visto? Garçon! Un jus de tomate épicé e un Perrier, s'il vous plaît!

Pena que eu tive que sair cedo, antes da festa esquentar. Vou te contar. É duro ser farofère!



Escrito por Ricardo Freire às 10h56
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Encontros e desencontros

Você é testemunha. Eu estava sério e compenetrado assistindo comerciais e mais comerciais no festival do cinema publicitário de Cannes. Aí os imprevistos começaram a acontecer.

Primeiro eu cruzei na rua com uma das maiores celebridades da publicidade mundial – um sujeito que por acaso é meu amigo, e, olha que coincidência, é meu patrão, também. E não é que o cara me convida para almoçar no dia seguinte em St.-Tropez?

 

 

Você pode me acusar de tudo, menos de não ser solícito e prestativo. Fazer o quê? Contra todos os meus princípios, cancelei a tarde no festival e fui almoçar em St.-Trop.

 

Depois do almoço (que foi numa plage), fui tomar sorvete e passear pela cidade antiga, acompanhando a adorável – e cada vez mais extensa – família do meu amigo-patrão.

 

 

Lá pelas tantas, me despedi, mas fiquei por lá. Eu tinha um compromisso assumido há três dias: jantar com meu amigo P. e uma turma bacana. O jantar seria às oito e meia, então eu tinha um tempinho para matar. Para não perder o hábito, passei num cybercafé. Lá abri um e-mail do meu amigo P.: o jantar tinha passado para as 10 e meia.

 

10 e meia? Então vou ter que pegar a estrada à uma da manhã e dormir às três? Nananinanina! Mais do que depressa, passei num mercado, comprei escova e pasta de dentes, e fui atrás de um hotelzinho barato. Achei um de 70 euros. Com 'parking' pro meu Scéniczinho e tudo.

 

 

O jantar foi ótimo. Mas – posso dizer uma coisa? É muito esquisito dormir fora de casa.

 

Você não imagina o que eu passei. Dormir longe do laptop. Sem acesso a nenhum Photoshop. E o pior de tudo: totalmente desprovido de recarregador de bateria de câmera digital! Gente, que aflição. Não desejo isso pra ninguém, não.

 

Quando eu tirar o atraso, eu publico um post decente sobre St.-Tropez.



Escrito por Ricardo Freire às 14h13
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A sopa de 300 paus

Você é de São Paulo? Então pense no Bolinha. Se você não for de São Paulo, pense no melhor restaurante de feijoada da sua cidade.

 

Pois bem: o Tetou, em Golfe-Juan, é o Bolinha da Côte d'Azur. O lugar mais famoso por servir o prato mais típico de região: a bouillabaisse, uma substancioso caldo de peixe acompanhado por filés de peixe, lagosta, batata, torradas e aïoli (a maionese provençal).

 

 

O Tétou começou em 1920, como "plage" – uma praia particular com restaurante anexo – e continua assim até hoje. Ou seja: é uma barraca de praia que subiu na vida e ganhou uma estrela no Guia Michelin.

 

Reservar uma mesa na temporada é difícil. Uma mesa com vista, praticamente pé-na-areia, só com muita antecedência. Deixe seus cartões em crédito no cofre do hotel: aqui eles não servem para nada. Mas não se esqueça de passar no caixa automático. Só a bouillabaisse custa 98 euros por pessoa.

 

(Ei: eu não estou com essa bola toda, não. Era um jantar de negócios. A "firma" reembolsa.)

 

 

O pior é que a danada da bouillabaisse vale cada centavo de euro. Pode até haver um certo effect Tostinès na parada (é absurdamente caro porque é absurdamente gostoso ou é absurdamente gostoso porque é absurdamente caro?). Mas a comida é sublime (o caldo, sozinho, já me satisfaria; mas a lagosta foi a mais tenra que já comi na vida) e o ambiente, espetacular, sem nem um pingo da afetação dos restaurantes estrelados franceses.

 

Mas você só percebe o tamanho da cara de pau do lugar quando vê o menu de sobremesas. O pratinho de framboesas ao natural custa – 20 euros! 60 reais por um pratinho de framboesas! Quase pedi, mas preferi não quebrar o encanto. É melhor continuar imaginando que são as framboesas mais raras do mundo, colhidas exclusivamente por mulheres albinas virgens e canhotas e transportadas em cestas de vime selvagem do norte da Tailândia.

 

Mas se algum dia te derem 200 euros na mão e disserem que você só pode gastar numa única refeição na Côte d'Azur, venha para cá.



Escrito por Ricardo Freire às 08h13
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Numa Nice

Existem os lugares perfeitos. E existem os lugares divertidos. Você e eu, que moramos num lugar divertido, normalmente sonhamos em viajar para lugares perfeitos. Mas saiba que os que moram em lugares perfeitos só pensam em tirar férias em lugares divertidos.

 

Nice não é um lugar pefeito: é um lugar divertido. Nós dois ainda não temos muita intimidade, mas, desde que passei uma tarde por aqui, há quase dez anos, tive certeza de que fomos feitos um para o outro.

 

 

Daquela vez eu não entendi o porquê da simpatia à primeira vista – naquela época Nice andava muito mal falada. Hoje eu sei o que me atrai na cidade: é que Nice é uma espécie de Mãe de Todas as Copacabanas. Foi aqui que fizeram o molde das Avenidas Atlânticas das nossas capitais à beira-mar.

 

 

A idéia de (e o dinheiro para) construir o calçadão na orla foi dos ingleses, que vinham para cá em busca do inverno ameno da Côte (praia no verão é uma invenção muitíssimo mais recente). O nome da avenida lhes faz justiça: Promenade des Anglais (Passeio dos Ingleses).

 

 

Diferentemente de todas as avenidas beira-mar das outras cidades da Côte d'Azur – mas igual à maioria das avenidas beira-mar do Patropi –, a Promenade des Anglais apenas empresta uma fachada de balneário a uma cidade de verdade. E a vida real é que faz a diferença – proporciona todas as imperfeições que podem vir a tornar um lugar divertido.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h40
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A história de Nice é peculiar. Até 150 anos atrás, a cidade não pertencia à França. Nice era um condado associado à Casa de Sabóia – uma espécie de holding que, pelo que entendi, também controlava o reino da Sicília. Ou seria da Sardenha? Ou ambos? (Googlem vocês. Eu estou totalmente offline no hotel -- depois eu conto.) Isso fez com que Nice mantivesse dialeto, cultura e gastronomia distintos da tradição provençal.

 

O melhor lugar para começar um passeio por Nice é o mercado do Cours Saleya, na cidade antiga. Graças ao tamanho da cidade, ele funciona todas as manhãs (menos às segundas, quando há um mercado de pulgas).

 

 

 

Eu cheguei perto do meio-dia, no finzinho das funções, a tempo de saber que uma xepa é uma xepa é uma xepa em qualquer lugar. Pense na última vez que você ouviu um "Olhaí freguesa! 1,50 o pacote! É pra acabar", e leia esta frase exatamente com a mesma entonação:

 

- Allez! 1,50 le paquet! Incroyable! 1,50 le paquet!

 

(Não, não descobri como se diz "moça bonita não paga mas também não leva" en Français.)

 

 

 

 

 

Dava vontade de levar pêssegos e framboesas para casa, mas eles não agüentariam o calor do carro até o fim da tarde. Então entrei no fim da fila de Thérèse, famosa por vender socca, uma panqueca de farinha de grão-de-bico, sem recheio, que se come salpicada com pimenta-do-reino e é uma especialidade nissarta.

 

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h37
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O mercado fica praticamente à beira-mar – você atravessa seus arcos e já dá no canto esquerdo da Promenade des Anglais.

 

 

A praia é de pedregulhos – mas a falta de areia, se por um lado é desconfortável, por outro deixa a cor da água linda, turquesa nas beiradinhas. A orla alterna trechos públicos com plages privadas, onde se paga entre 10 e 15 euros por uma caminha com colchonete.

 

 

Na praia: as pedras são "de" grátis, mas as caminhas saem 45 paus

 

Algumas das plages acarpetam com sisal os corredores de passagem – assim dá para ir descalço do seu colchonete até o mar.

 

 

Foi na plage Neptune, em frente ao Négresco (o Copacabana Palace niçois), que eu mantive aquele que deverá ser o diálogo mais inesquecível desta semana.

 

Chamei o menino loirinho e pedi uma Coca light. Ele perguntou:

- O senhor abriu uma conta com o monsieur brun?

 

Como assim? Um senhor? Moreno?

- Sim, o senhor abriu uma conta com o senhor moreno?

 

Não. Pelo que eu me lembrava, quem tinha me atendido era um rapazinho africano.

- Isso mesmo! O moreno!

 

(Sem comentários.)

 

 

O que me fez sair do glamour de Cannes e gastar meu sábado, o único dia livre antes do festival de publicidade começar, na plebeíssima Nice? Sei lá. Ou melhor: sei. É que eu enjôo rápido do perfeito. Eu gosto é do divertido.

 

(Quarta-feira eu volto. Decidi passar minha última noite aqui.)

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h36
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Le pit-stop

O que faz um viajante sensato ao desembarcar no meio da tarde no aeroporto de Nice depois de uma viagem transatlântica com conexão? O viajante sensato pega o carro alugado e toma a direção do hotel, para tomar um banho, desfazer as malas, fazer a barba, renovar o desodorante e sair para bater perna ao pôr-do-sol.

 

E um blogueiro de viagem? O que faz um blogueiro de viagem ao desembarcar no meio da tarde no aeroporto de Nice depois de uma viagem transatlântica com conexão? O blogueiro de viagem esconde as malas no bagageiro do carro alugado e, em vez de ir direto para seu hotel em Cannes, toma a direção de... St-Paul-de-Vence!

 

 

Mesmo amarrotado, com desodorante vencido e barba por fazer, o blogueiro de viagem nunca sabe o dia de amanhã. O que o blogueiro de viagem sabe é que, se investir duas horinhas nessa linda cidade murada, debruçada na serra, a 30 minutos de Nice ou de Cannes, ele vai garantir um post bonitinho para sua fiel audiência, pronto para ir ao ar o mais rápido possível.

 

(O blogueiro de viagem ainda não sabe que o seu laptop não se entenderá de jeito nenhum com a rede wi-fi do hotel, e que este post vai demorar quase dois dias para ir ao ar. Mas não vamos tocar neste assunto agora.)

 

 

Ao chegar a St.-Paul, o blogueiro vê que a entrada da cidade continua do jeito que estava da última vez, com uma praça (que serve de cancha de boules) e um café (que serve de arquibancada). Boules é uma variante provençal do jogo de bocha, em que a cancha não tem limites muito definidos. Os jogadores atiram a bola para qualquer lado, e os outros têm que ir atrás. Um pouco parado pro meu gosto. Enfim, uma espécie de golfe no saibro, digamos assim. Ou não.

 

 

 

Ei. Peraí. Não pode ser. Gente! Olha aquele ali na foto da direita, aqui em cima. E o mesmo que está de costas na foto grande. Atenção Hola! Atenção Hello! Alô Paris-Match! Localizei um filho perdido do Picasso na Côte d'Azur! É ELE!!!

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h32
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Picasso foi apenas um dos inúmeros pintores e escultores modernistas que viveram por essas bandas ensolaradas da França na primeira metade do século passado. Ainda pobres e desconhecidos, alguns deles pagaram com quadros por cama e comida num hotel que até hoje funciona nesta praça. Hoje, contudo, quem quiser comer e dormir rodeado por Picassos, Matisses, Chagalls e Modiglianis vai ter que pagar caríssimo. (Lamento informar que não, o Colombe d’Or não trabalha mais com sistema de permuta.)

Mas ninguém precisa cacifar o Colombe d’Or para ver arte de primeira em St-Paul. A duzentos metros da cidade fica o mais bonito museu de arte moderna da França, a Fondation Maeght. Fico devendo as fotos, porque desta vez o museu já estava fechado na hora em que cheguei. Mas não vá embora deste post sem dar uma passadinha no site da Fundação.

 

Chegue a St-Paul num entardecer, e você certamente vai cruzar com um tipo de excursão inusitada: a excursão bem-vestida. Gente que está participando de alguma convenção chique na Côte d’Azur, e que, depois de um almoço ou antes de um jantar num restaurante estrelado no Guia Michelin, é trazida de busão para dar um rolê pela cidade murada.

 

Não tem erro. Seja qual for o seu problema – um grupo de executivos americanos em convenção de board, uma tarde livre entre Mônaco e St-Tropez ou um blog de viagem para atualizar –, St-Paul-de-Vence resolve. Em meia horinha você monta um álbum completo de fotos da Provence para mostrar em casa.

 

 

(Antes que alguém queira que eu prove da minha própria ranzinzice: sim, eu sei que em português se diz Provença. Sei que existe, mas nunca fui. Eu só conheço a Provence, mesmo. Se você quiser, eu posso tentar escrever “Provãs”. Mas Provença, desculpe, j’ peux pas.)

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h28
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O problema de St.-Paul-de-Vence (claro que há um problema. Sem problema não existe post. Se o blogueiro de viagem não achar nenhum problema, ele fabrica um) é que, depois de cinco minutos, você percebe que tudo é bonitinho demais, perfeitinho demais, provençal demais. Lá pela décima loja você se dá conta de que não sobrou uma portinha sequer que venda coisas ou preste serviços que tenham alguma utilidade para pessoas que porventura ainda morem por ali. Será que alguém ainda mora por ali? Digo: afora os gatos e o filho perdido do Picasso?

 

 

Bobagem. O que não deve faltar nesta região são cidadezinhas bem mais autênticas – e bem menos bonitas. No fim das contas, sair do aeroporto direto para St-Paul-de-Vence acabou se revelando um programa muito bacaninha. Quando o blogueiro de viagem desfez as malas no hotel, parecia que já estava há uma semana no Sul da França.

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h27
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Cité Alerte

Eu atravessei o oceano. Fiquei de molho por quatro horas no aeroporto de Zurique à espera da minha conexão. Meu vôo chegou no terminal secundário do aeroporto de Nice. A fila no pequeno guichê da Avis do terminal secundário era enorme. Finalmente, quando deram o contrato na minha mão, me informaram que eu teria que trocar de terminal. Lá fui eu pegar o ônibus do aeroporto. Quinze minutos depois, no terminal principal, outra fila para pegar a chave do meu carro alugado. Chave? Fala sério: você chama ISSO de CHAVE?

 

 

Mon Dieu, chave de carro na França é que nem chave de quarto de hotel. Ou cartão de caixa eletrônico. É horrível. Não dá para virar a chave – o cartão – para dar a partida. Tem que apertar o botão START! Vem cá: isso é um Scénic ou uma Vespa?

 

 

Mas eu só saberia disso um pouco mais tarde. Antes de descobrir como ligar o carro eu precisei ler um aviso que tinha sido posto no painel do carro. Em inglês! "Precaução para usuários de carros alugados", dizia o título.

 

E o texto: "Devido aos padrões de criminalidade no Sul da França, as seguintes precauções são recomendáveis". Tipo: não deixar o passaporte no carro, não deixar bagagem visível, viajar com os vidros fechados e as portas trancadas. Olha só que absurdo! Aqui no Sul da França a criminalidade atingiu um padrão tão violento que é preciso rodar de vidros fechados e portas trancadas! Ainda bem que eu vou ficar aqui só seis dias. Como diria o Ancelmo Góis, viver num lugar assim deve ser barra!



Escrito por Ricardo Freire às 18h51
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I - Malas com alça

O corpo humano do turista se divide em: cabeça, tronco e malas.

Não existe objeto mais consciente da própria importância do que uma mala. Malas são idiossincráticas. Malas são abusadas. Malas empacam. Malas não fecham. Malas querem ser carregadas.  Malas se perdem mais do que criança em praia lotada. Não há dúvida: malas têm vida autônoma e independente, e foram postas neste mundo apenas para atazanar nossas viagens.

 

Existem três tipos básicos de malas. A mala grande, a mala de mão, e a mala que você compra no último dia para caber tudo o que comprou. Vamos a elas.

 

A mala grande

Você e sua mala grande valem por um casal. Sem direito a lua de mel. Basta uma mera corrida de táxi, e você já está colocando algum apelido carinhoso na sua companheira de viagem. Treco. Troço. Traste. Negócio. Estrupício. Trem. Jamanta. Disque-Entulho. Lurdinha. (Do francês lourde: pesada.)

           

É possível dar um jeito neste relacionamento. Em primeiro lugar, descubra se vocês dois foram realmente feitos um para o outro. Examine sua mala. Veja se ela tem as seguintes características:

• Ela é durinha?

• Ela tem tela divisória?

• Ela tem rodinhas?

• Ela tem alça longa, de preferência retrátil, para poder ser puxada feito carrinho de feira?

 

Se ela não for 100% assim, separe-se dela imediatamente. Vocês nunca deveriam ter viajado juntos; não admira que você e ela vivam se agredindo mutuamente. Tsk tsk tsk.

           

Compre imediatamente uma mala igual a esta que eu descrevi. Tenha coragem e escolha uma cor bem cheguei — amarelão, azulão, vermelhão — para que sua nova mala grande não se confunda com as milhares de malas pretas, discretas e gêmeas que aparecem na esteira. Mas não espere até a próxima viagem para comprar: na véspera da próxima viagem você vai estar tão ocupado e tão cheio de gastos imprevistos, que nunca vai se lembrar deste conselho. Compre já. Aproveite seu próximo programa mala, e por associação de idéias inclua a compra da mala no roteiro. Vai ao dentista? Saia de lá direto para comprar a mala. Almoço de família na sogra? Os shoppings agora abrem no domingo — passe antes ou depois e compre a mala. Se você está com o orçamento estourado, peça a mala de presente. De Natal, de Dia das Mães, de Dia dos Namorados. Se é para ganhar presente mala, que pelo menos seja a que você tenha escolhido.

 

A mala de mão

A melhor mala de mão é aquela exatamente igual à mala grande — PVC durinho, rodinhas, alça longa e retrátil — no modelo mais compacto que exista. (Mas, desta vez, escolha uma pretinha. Você e sua mala de mão vão ser vistos juntos a todo momento, no check-in, nas escadas rolantes, nos controles de passaporte, nas salas de embarque, dentro dos aviões, e uma maletinha laranjona pode emitir informações equivocadas sobre a sua personalidade.) É importante que você compre o menor modelo que encontrar: algumas dessas malas são um tequinho mais altas ou mais gordas que o ideal, e acabam não entrando no compartimento de bagagem de mão — ou então são apreendidas na porta do avião por comissários caxias.

 

A mala que você compra no último dia para caber todas as compras

Trata-se do popular excesso de bagagem. A mala do último dia costuma ser grande, fofa, molinha, de zíper e vários fundos falsos, com área útil equivalente a meio quarto de hotel abarrotado de sacolas de lojas. Devido ao seu estado pré-falimentar e ao caráter emergencial e descartável da mala, você compra a mais barata que achar.  Desculpe, mas este é um mico que deve ser evitado a todo custo. Até porque eu desconfio que este tipo de mala vem com um chip que aciona o sinal vermelho da alfândega. Se você é comprador compulsivo, procure se controlar antes de sair de casa, na arrumação da mala da ida. E leve uma bolsa vazia dentro da mala — ela vai ajudar você a ser mais comedido nas compras e vai chamar menos atenção do fiscal na volta.



Escrito por Ricardo Freire às 15h09
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II - Da seleção do conteúdo

Mala não é closet. Se você examinar a sua com olhos de biólogo, vai notar que as malas pertencem claramente à ordem das bolsas, não guardando nenhum parentesco com o reino dos armários e roupeiros. Pelo menos metade da sem-alcice de toda mala se deve às coisas que a gente não deveria ter empacotado nela. Não é que você vai “ter que repetir roupa”: você vai repetir roupa, mesmo que a sua mala esteja cheia de peças que você ainda não tenha usado. No mínimo, por preguiça de escolher, combinar e desamassar a roupa que está lá guardada. (Aliás, você vai descobrir como pode ser elástico seu critério de avaliação do grau de necessidade de lavar uma roupa.) Por todas essas, o conselho clássico, passado de geração a geração de viajantes, é:

Coloque sobre a cama tudo o que você acha que vai precisar — e corte pela metade.

 

Eu acrescento: se for sua primeira viagem (ou se você for chegado a um shopping) tire dois terços. Sem dó. Vá desclassificando as peças de acordo com:

• menor versatilidade; 

• mais amassabilidade; 

• mais sujabilidade.

 

O ideal é que você só carregue roupas intercombináveis — o que pode ser conseguido mesclando uma maioria de peças básicas, em cores neutras (preto/cáqui/marinho/branco) com peças que complementem o visual de acordo com finalidades específicas (social/praiano/diurno/noturno). Sapatos precisam ser muuito usados e confortáveis: sapatos novos são proibidíssimos em qualquer viagem. Se você não quer viajar com os que tem, compre os novos já e comece a amaciar desde agora.

 

Não esqueça de separar:

• seus cosméticos queridos;

• seus remédios de estimação;

• pilhas e baterias para todos os aparelhos que você estiver levando;

• um guarda-chuvinha retrátil, desses de camelô mesmo;

• uma capinha de chuva (ou uma gabardine, para levar no braço);

• lista de telefones de emergência (dos seus cartões de crédito, do seu agente de viagem, dos hotéis onde você vai se hospedar);

• fotocópia das primeiras folhas do passaporte.



Escrito por Ricardo Freire às 14h58
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III - Da arrumação da mala de mão

Comece sempre pela mala de mão. Pense nela como uma bóia salva-vidas. Ela precisa conter tudo o que você precisaria num intervalo de 24 horas caso extraviem a mala grande que você despachou. (Sim, é comum extraviarem a sua mala grande, principalmente em vôos com escalas ou conexões. Na imensa maioria dos casos ela é encontrada, e em um ou dois dias a companhia aérea se encarrega de entregar no seu hotel.) Por isso, tenha sempre na sua mala de mão:

• todos os documentos e objetos de valor;

• uma nécessaire com seus cosméticos queridos e remédios de estimação;

• uma muda de roupa íntima, meias e blusa/camisa;

• alguma peça específica de roupa que você teria que vestir no primeiro dia do outro lugar (suéter/biquíni/gravata/sandálias);

• sua leitura de bordo (mas só para este trecho específico; carregue os outros livros sempre na mala grande, senão sua mala de mão vai exceder o peso confortável para você e permitido pelas companhias aéreas).

 

A mala de mão não deve carregar nada do que deveria estar na mala grande. Se na ida  ela já estiver funcionando como mala auxiliar, é porque você está levando o dobro do que deveria. Volte para a primeira casa e comece tudo de novo.



Escrito por Ricardo Freire às 14h56
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IV - Da arrumação da mala grande

A primeira coisa a ser posta na mala são as calças: rentes ao “chão”, no sentido horizontal, com metade das pernas saindo para fora da mala. Posicione uma calça com as pernas para um lado, e a calça seguinte com as pernas para o lado oposto. (Vestidos também podem se beneficiar da mesma técnica.)

 

Coloque em seguida as camisas (dobradas não na metade exata do comprimento, mas um pouco abaixo do botão que sinaliza a sua cintura), saias e bermudas.

Então, traga as pernas das calças para dentro da mala, ensanduichando as outras roupas. 

 

 

 

 

Arrume os livros e guias e aparelhos diversos (os mais frágeis, enrolados em camisetas ou roupas de baixo) no “chão” do outro lado da mala. Coloque as meias dentro dos sapatos, guarde os sapatos nos saquinhos de pano em que eles vieram (ou em sacos de plástico), e ajeite contra a “parede” superior e inferior da mala, nos espaços deixados pelo “sanduíche de calças”. Preencha os vazios com sua roupa de baixo. Por cima coloque as camisetas e blusões — dobrados, nunca enrolados. Prenda com a tela divisória. No decorrer da viagem, use a tela para separar a roupa suja da roupa limpa. E seqüestre como souvenir o saquinho de lavanderia do primeiro hotel em que você ficar, para servir de cesto de roupa de baixo suja.

 

Se possível, leve um blazer ou casaco só, e suba com ele no avião. Se você precisar levar mais de um blazer ou casaco e não quiser carregar uma maleta-cabide, faça assim: vire o blazer pelo avesso (menos as mangas), e dobre duas vezes: uma na vertical, outra na horizontal. No dia de usar, pendure num cabide, coloque no banheiro, ligue o chuveiro no mais quente e deixe o vapor desamassar seu blazer (ou qualquer outra peça de roupa).

 

Importante: se a sua mala estiver abarrotada antes de você sair, é porque você está levando coisas demais. Ninguém precisa de duas calças jeans se já está levando uma cáqui e outra preta. O maître de um restaurante nunca vai saber que você foi com aquela mesma roupa no restaurante de anteontem. E se você levar mais do que um sapato preto, outro marrom e um tênis ou sandália, já começa a se candidatar a Imelda Marcos. Caso você esteja de partida para o inverno do mundo dito civilizado, em vez de se vestir em um milhão de camadas (que ocupam um espaço danado na mala), considere investir num bom sobretudo quando chegar lá.



Escrito por Ricardo Freire às 14h55
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V - Da maior utopia de um viajante

Viajar sem bagagem. Sonhe com isso (da próxima vez que você conseguir pegar no sono num avião).



Escrito por Ricardo Freire às 14h52
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Próxima parada: Côte d'Azur

Não estava previsto; foi só na semana passada que eu fiquei sabendo que me mandariam a Cannes. Vou a trabalho, para o festival de publicidade – mas sempre deve rolar alguma coisinha postável por aqui. Antes de sair para o aeroporto, ainda vou publicar o capítulo sobre arrumação de malas do Viaje na Viagem de papel (se tudo der certo, ilustrado por fotos estreladas pela minha nova e poderosa Samsonite). Té já.



Escrito por Ricardo Freire às 09h09
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Lugar de resort

O Hotel do Frade, em Angra, foi o primeiro resort do Brasil, aberto em 1972 (naquele tempo, claro, ainda não se falava "resort" para descrever um hotel de lazer). Depois dele, outros se instalaram na mesma região – os maiores são o Portobello e o Club Med, em Mangaratiba; e o Blue Tree Park e o Pestana Bungalows, em Angra. Existe ainda um enorme Meliá sendo construído, também em Angra. Os estilos podem ser diferentes, mas todos esses resorts têm algo em comum: as chuvas abundantes da região da Costa Verde (que não seria "verde" se não fosse tão generosamente regada por São Pedro).

Demorou, mas os resorts finalmente descobriram o outro lado da costa fluminense: a Região dos Lagos, que é muito mais árida – e, por isso, muito mais apropriada a hoteizões de praia. Ano passado, o Blue Tree anunciou a construção de um resort em Rio das Ostras (a primeira cidade passando Búzios). Ontem foi a vez do Club Med informar que seu quarto resort brasileiro vai ter como endereço a última praia de Cabo Frio antes de Búzios. Segundo o Globo de hoje, trata-se de um empreendimento de Ricardo Amaral que conseguiu enquadramento na legislação de uma área de proteção ambiental.

Para quem não é lá muito fã de resort, como eu, a notícia da construção de dois resortões na Região dos Lagos embute, de qualquer maneira, uma boa perspectiva: talvez quem sabe dê para de repente sonhar com algum vôo direto entre São Paulo e Cabo Frio – que permitiria ao paulistano dar seus pulinhos em Búzios. (Dá para voar direto de Buenos Aires a Cabo Frio; mas de São Paulo a Cabo Frio, só fazendo baldeação no Santos Dumont.)

 

Quanto ao novo Med de Cabo Frio, espero sinceramente que se chame Club Med Cabo Frio, e não Club Med Búzios. No Sul da Bahia – meus leitores sabem – o Club Med se instalou numa praia do Arraial d'Ajuda, mas usa o nome "Trancoso" para se valorizar...

 

Enquanto isso, na BA: as praias do Taípe e da Pitinga, no Arraial d'Ajuda, vistas do Club Med "Trancoso".

 

Eu não reclamo de descer 200 degraus. Eu reclamo é que o bar da praia só tem água de coco... de garrafinha!

 

Tá bom, tá bom, o nome é de menos. Seja Trancoso, seja Arraial, o lugar é lindo.

Escrito por Ricardo Freire às 08h38
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É uma Brastemp

Tem gente que ama Audi, tem gente que prefere BMW. Uns sonham com Harley, outros com Ferretti. Tem os fãs da Boeing e os admiradores da Airbus. Há quema idolatre a Ferrari, idealize a Jaguar, venere a Porsche, ponha a mão no fogo pela Volvo, vá até às últimas circunstâncias pela Volks. Existem também aqueles que esperam, sentados, pelo Segway. Mas quer saber? Para mim, nenhuma marca produz bólidos tão aerodinâmicos, inteligentes e gostosos de dirigir como a Samsonite.

 

Minha mais nova máquina. Ela sai da garagem pela primeira vez na 5a. feira. Depois eu conto pra onde.



Escrito por Ricardo Freire às 07h31
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Dia dos namorados – daqui a 15 anos

Imagine que daqui a 15 anos você comemore o Dia dos Namorados com a mesma pessoa de hoje. Provavelmente vocês terão casado – com ou sem papel passado, não importa. Com sorte, terão conseguido juntar alguma grana. E talvez estejam prontos para gastar o que podem e o que não podem numa viagem de segunda lua-de-mel.

 

Este é o relato da minha viagem de segunda lua-de-mel, realizada em 2001 (uma semana depois do 11 de setembro!), e publicada em 2002 na Viagem & Turismo. Na verdade ela sempre esteve aí no menu do lado – mas como você nunca clicou nela, eu resolvi trazer para cá (devidamente ilustrada por fotos recém-escaneadas no meu poderoso scanner novo).

 

Feliz Dia dos Namorados pra todos vocês.



Escrito por Ricardo Freire às 10h38
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I - Lua-de-mel 2, o retorno

A segunda lua-de-mel a gente nunca esquece. As crianças cresceram, as carreiras profissionais estão estabelecidas, a prestação do apartamento não assusta mais. Chegou a hora de dizer, de novo: “Enfim, sós”.

 

Não é que da primeira vez não tenha sido bom – da primeira vez foi ótimo. Mas desta vez vai ser diferente. Na primeira lua-de-mel fazemos de conta que saímos por aí para conhecer lugares, culturas, igrejas, drinques, museus, praias, monumentos, mas na verdade saímos por aí para conhecer a nós mesmos, agora em nova formação. Por mais que já tenhamos viajado juntos mil vezes antes de oficializar a coisa toda, a primeira lua-de-mel é, acima de tudo, o primeiro capítulo do casamento. A continuação da cerimônia, por assim dizer.

 

Já a segunda lua-de-mel não provoca ansiedade nem frio na barriga. Não faz parte de nenhum rito religioso nem responde a nenhuma pressão da sociedade. Não é uma viagem de autoconhecimento: é uma viagem de celebração. Até porque – se você pensar – chegar à segunda lua-de-mel é muito mais complicado do que chegar à primeira. Mas pelo menos uma coisa as duas têm em comum: a extravagância. O que diferencia a segunda lua-de-mel de todas as outras viagens a dois que fizemos e faremos depois de casados é que a segunda lua-de-mel, necessariamente, obrigatoriamente, incontornavelmente precisa ser feita em grande estilo. Conforme vamos demonstrar.



Escrito por Ricardo Freire às 10h38
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II - Destinos cruzados

Depois de adiar a troca dos carros por mais um ou dois anos, o passo seguinte é escolher o destino. Um bangalô sobre o mar em Bora Bora? De Nova York a Londres a bordo do Queen Elizabeth II? Um carro na Provence, e o telefone de meia-dúzia de relais-châteaux? Um safári na África, hospedados naquelas tendas que custam mais caro que o Ritz de Paris? Podemos retornar a lugares aonde fomos na primeira lua-de-mel (um movimento arriscado, a não ser que se volte em condições bem mais confortáveis). Ou fazer, enfim, a viagem que tínhamos sonhado originalmente – mas que, por uma razão ou outra, não conseguimos, na época.

 

As possibilidades são infinitas. Mas... aceitam uma sugestão? Na segunda lua-de-mel, o melhor é fazer algo que definitivamente não teríamos feito na primeira. Nem tanto por ser caro ou exótico demais – mas por ser careta e pouco próprio a recém-casados. Uma viagem assim como... uma noite a bordo do mitológico Orient-Express, o trem de luxo que há quase 120 anos é sinônimo de classe, romance e exotismo (eu falei exotismo, com “x”).

 

 

Todas as semanas entre o fim de março e o início de novembro, o Orient-Express vai de Londres a Veneza, via Paris. Impossível achar um roteiro mais chique do que esse. Mas... só por curiosidade, não vamos parar na primeira página do catálogo promocional. Se continuarmos a folhear os itinerários, vamos descobrir que, de vez em quando, o Orient-Express segue viagem até Florença e Roma. Que, uma vez por ano, ele chega até o seu destino original, Istambul. E que, em quatro oportunidades especialíssimas – em abril, junho, setembro e outubro – o Orient-Express desfila sua nobreza entre Veneza e Praga. Veneza e Praga? Ai meu Deus do céu. As duas cidades mais românticas do mundo, unidas pelo trem mais romântico do mundo? Está decidido. Segunda lua-de-mel, aí vamos nós.



Escrito por Ricardo Freire às 10h38
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III - Veneza: Bellini e Spriss

Esqueça a Veneza que você (e eu, e todo mundo) conheceu naquele primeiro (e fundamental) périplo pelas cidades clássicas da Itália. Visitada separadamente, sem que nossos olhos estejam embotados de Roma e Florença, Veneza é outra cidade – ainda mais exótica e sedutora. Ou seria a memória de outras viagens, que só agora é capaz de reconhecer em Veneza a porta mais civilizada para o Oriente?

 

 

Estratégia para um casal em segunda lua-de-mel em Veneza. Investir 150 dólares num motoscafo (lancha motorizada) entre o aeroporto e a cidade (é caro, mas é preciso já ir ensaiando os personagens para o Orient-Express). Fugir das multidões, procurando se perder de propósito nas ruas sem lojas nem turistas de San Polo e do Dorsoduro. Passar no Harry’s Bar para trocar impressões sobre o autêntico Bellini (prosecco e suco de pêssego) – mas também sair do sério e tomar um pilequinho de spriss (vinho branco com Campari, club soda e casca de limão) em qualquer baccaro (o boteco veneziano por excelência). Investir mais 150 dólares num passeio de gôndola (se não for agora, não vai ser nunca mais). Ah, sim: e ligar para o escritório do Orient-Express com 48 horas de antecedência para reconfirmar a sua viagem.

 

 

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 10h37
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IV - Orient-Express: bienvenue à bord

O embarque está marcado para as 19h10 – mas às 17h30 a fila já é grande no balcão especial do check-in do Orient-Express na estação Santa Lucia. Os passageiros obviamente não se conhecem, mas se observam e se cumprimentam como se estivessem chegando a uma festa. De fato, o Orient-Express não é mesmo uma viagem: é uma espécie de réveillon permanente e itinerante.

 

 

“You can never be overdressed on the Orient-Express”, diz o manual de instruções do passageiro (numa tradução livre: “você nunca estará produzido/produzida demais no Orient-Express”). Mas é preciso que a produção caiba nas malas de mão – porque as malas grandes ficam inacessíveis durante toda a viagem. Talvez por isso algumas mulheres já estejam de longo antes mesmo de embarcar. Damos uma geral na fila. Quantos daqueles casais estariam em segunda lua-de-mel? Conclusão: tirando a excursão de japoneses, todos.

 



Escrito por Ricardo Freire às 10h37
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V - Nos trilhos da história

Hoje o Orient-Express pode ser praticamente uma festa à fantasia, mas durante seus primeiros 50 anos – de 1883 até o estouro da Segunda Guerra Mundial – seus suntuosos vagões serviram realmente como meio de locomoção entre um lugar e outro. Operado pela Compagnie Internationale des Wagons-Lits et des Grands Express Européens (o próprio nome já é extenso e chique como um trem de luxo), o Orient-Express desbravou fronteiras a leste e unificou a malha ferroviária européia num momento em que isso parecia diplomaticamente impossível. Ao mesmo tempo, definiu um padrão de luxo que jamais seria igualado por nenhum outro tipo de, digamos assim, transporte coletivo.

 

 

O fim da Segunda Guerra viu implantar-se o comunismo em boa parte do território coberto pelo Orient-Express; do lado de cá da Cortina de Ferro, a invenção do jato – e conseqüentemente, o aparecimento do jet set – acabou desglamourizando a viagem ferroviária (pensando bem, nunca houve mesmo a expressão “train set”). Ao fazer sua última viagem, em maio de 1977, o Orient-Express usava vagões comuns – e era tão utilitário quanto um Itapemirim leito.

 

Sua mística só começou a ser revivida quando, ainda em 77, James Sherwood arrematou vários antigos vagões de luxo no leilão da massa falida da Compagnie International des Wagons-Lits, em Mônaco. Depois disso, ele se pôs a procurar pelos confins da Europa outros vagões originais da companhia. Impecavelmente restaurados, eles voltaram à ativa em 1982, sob o nome Venice Simplon Orient-Express.



Escrito por Ricardo Freire às 10h37
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VI - Uma festa móvel

Franz, o valete do nosso vagão, é extremamente jovem – e extremamente poliglota, também. Ele carrega as nossas malas de mão e nos conduz à nossa cabine. Construído em 1910, o compartimento é relativamente pequeno, revestido com lambris laqueados; a estampa da cortina combina com a do estofado. O mobiliário consiste em um estofado inteiriço de espaldar alto (que Franz transformará em dois beliches durante o jantar), uma mesinha retrátil, um prosaico abajur lilás (está bem: cor-de-rosa) e uma penteadeira embutida, com pia e água quente e fria. Antes que perguntemos, Franz explica que o toalete fica... no final do vagão. (E, antes que você pergunte: o chuveiro... ahn... não tem. Banho de verdade, só no próximo hotel.)

 

 

Mas ninguém embarca no Orient-Express para ficar na cabine. Sem trocar de roupa, vamos direto ao vagão-bar, onde um sujeito toca standards ao piano e os casais em segunda lua-de-mel pedem suas primeiras taças de champagne. Quem diria, hein? Nós dois tomando champagne no vagão-bar do Orient-Express! O amor é lindo. O amor é duradouro. Nossas caras-metades nunca foram tão caras.

 

 

O jantar é servido em três vagões-restaurantes decorados com aquela elegância pesada dos grandes restaurantes franceses. As cadeiras são revestidas com veludos de cores fortes – verde-escuro, bordô, azul-petróleo; as paredes têm lambris laqueados e trabalhados em marchetaria, e são enfeitadas aqui e ali com objetos e luminárias Lalique. Sobre as mesas, porcelana de Limoges, copos de cristal, talheres de prata, um vaso de flores – e o mesmo abajur lilás (está bem: cor-de-rosa) da cabine. Vocês escolhem entre dois horários, voltam à cabine, colocam o smoking e o longo e... bem, tem gente que coloca o smoking e o longo. Mas a maioria se veste só como quem vai a um jantar (muito) chique. Entretanto, se você olhar em volta, vai ver que quem vestiu smoking e longo está claramente se divertindo mais.

 

A comida? Boa, porém normal. Melhor que a de avião, claro. Mas não estamos lá para comer a comida. Estamos lá para sorver o ambiente. Degustar a extravagância. E ficar até altas horas no vagão-bar, entre cafés e digestivos, brincando de relembrar viagens antigas, mais modestas mas nem por isso menos divertidas.

 



Escrito por Ricardo Freire às 10h36
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VII - O day after

 

Dormir e acordar são os dois únicos pontos mal-resolvidos do Orient-Express. Os ricos e famosos de 1910 deviam ser baixinhos, já que com meu parco 1,70m já me senti um pouco apertado na caminha de cima. Mal acordamos, e já precisamos desocupar a cabine por uns instantes, para que Franz transforme os beliches novamente em poltronas e possa então servir o café no “quarto”.

 

 

Na hora do almoço já somos veteranos de Orient-Express, e por isso podemos nos divertir ainda mais com a pompa, a circunstância e as últimas gentilezas dos garçons na esperança de boas gorjetas. Depois de vinte horas brincando de deslumbrados, estamos mais pobres e mais felizes. Na plataforma da estação de Praga, os chefes da tripulação perfilam-se e recebem os cumprimentos dos passageiros que se despedem. A nossa sensação é a de ter acabado de sair de um baile que durou até depois do almoço. Deus, como eu preciso de um banho.

 



Escrito por Ricardo Freire às 10h36
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VIII - Praga: na Manhattan do Barroco

 

A seqüência Veneza - Orient-Express - Praga faz muito bem a Praga. Você fica com a certeza de que sua beleza é absoluta – e não uma beleza forjada na comparação com Budapeste ou Viena. O fim do comunismo pode ter trazido as hordas de turistas, mas também trouxe hotéis confortáveis e bons restaurantes – e, o que é mais importante, não acabou com a excelente (e baratíssima) cerveja.

 

 

Estratégia para um casal em segunda lua-de-mel em Praga. Acordar no primeiro dia e ir à Ponte Carlos antes mesmo de tomar café-da-manhã (é o único jeito de ver a Ponte Carlos vazia, em todo o seu esplendor). Perambular de tardezinha por Malá Strana, o bairro medieval ao pé da ponte. Jantar em todos os restaurantes da rua Parizká (que une a Praça da Cidade Velha ao Cemitério Judeu) – o melhor deles é o Pravda, de comida fusion. (Sim, já tem comida fusion em Praga.)

 

 

Uma coisa é certa: a vista do nosso quarto no Four Seasons, para o rio Vltava e o morro do Castelo, era dessas coisas que fazem um casal em segunda lua-de-mel... ficar fazendo planos para uma terceira.

 

Venice Simplon Orient-Express. O trecho de Veneza a Praga é o menos exorbitantemente caríssimo de todos os trajetos do Orient-Express, a 1.460 dólares por pessoa, incluindo refeições e excluindo bebidas. Ainda há saídas este ano em 15 de junho, 18 de setembro e 5 de outubro. O itinerário mais freqüente da companhia, de Paris a Veneza (saídas todas as semanas, entre março e novembro), custa 2.000 dólares por pessoa. www.orient-expresstrains.com

Escrito por Ricardo Freire às 10h36
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Meteorologista acidental

Só para lembrar que o litoral entre Rio e São Paulo deve emendar seu TERCEIRO FIM-DE-SEMANA CONSECUTIVO COM TEMPO ESPLENDOROSO. Alguém por acaso se lembra de algum verão por essas bandas – sobretudo do lado paulista – em que se tenha registrado TRÊS fins-de-semana consecutivos com tempo esplendoroso? Acho difícil.

 

Quem me lê há mais tempo sabe da minha tese: aqui no Brasil nós damos os nomes errados às estações. Primavera, verão, outono e inverno só funcionam em livros de ciências escritos para estudantes do primário de latitudes temperadas. Nós por aqui temos apenas duas estações disponíveis em estoque: a seca e a chuvosa, que ocorrem em momentos diferentes no Norte, no Nordeste e no Centro-Sul. (Está bem: de São Paulo para baixo temos TRÊS estações: a seca, a fria e a chuvosa.)

 

No Rio e em São Paulo, estamos no auge da Estação Seca. Se o nosso calendário fizesse algum sentido, deveríamos dar férias para as crianças e descer todos para a praia.

 

Posso te pedir um favor – me alcança o Sundown?

 

(Assim estava a praia de Lopes Mendes, na Ilha Grande, dois outonos atrás...)



Escrito por Ricardo Freire às 09h13
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O primeiro scan a gente nunca deleta

Senhores passageiros: eu sou do tempo do mimeógrafo. No que tange o rico universo da reprodução gráfica, o máximo que consegui acompanhar foi a popularização da máquina de xerox. Daí em diante eu me perdi total. Nunca me dei bem com impressorinhas, e jamais passou pela minha cabeça a idéia de ser dono de um scanner. Para mim, o scanner era uma espécie de xerox de sete cabeças, que só técnicos diplomados e/ou kardecistas conseguiam dominar. Até que, semana retrasada, me ofereceram uma impressora-copiadora-scanner a um preço camaradíssima. Resolvi experimentar.

 

Demorei quase dez dias para me animar a tirar o scanner da caixa. Instalei a criatura e fiquei olhando para a cara dela durante vários serões. Enfim, ontem à noite, tomei coragem e resolvi escanear duas fotinhas velhas (já com o pensamento voltado para este post). E não é que foi fácil? Ueba! Agora já posso falar de viagens anteriores à fotografia digital.

 

Pois bem. Continuando (só mais um dia, vai) no clima "quiz" iniciado ontem, deixo uma pergunta: em que lugar eu fotografei esta bodega chamada Casa Lusitana?

 

 

O quê? Não, não foi aí não. Nem aí. Ih! Muito menos aí. Tá frio! Quer dizer: esse lugar é quente, mas o teu palpite tá frio. Alguém mais quer chutar? Você? Você? Você, não?

Bom, vou dar mais uma pista. A foto ali de cima foi tirada no mesmo lugar dessa foto aqui de baixo.

Pronto. Agora ficou fácil. Quem arrisca um palpite?



Escrito por Ricardo Freire às 07h08
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Quiz aéreo

Li ontem (como sempre, no Panrotas) que a American Airlines começa a querer quem sabe cogitar a remota possibilidade futura de vir a possivelmente instalar uma ligação direta entre Miami e Recife.

 

 

Como você sabe, hoje o Nordeste está ligado à Europa por dezenas de vôos charter (de Portugal, Espanha, Itália, Holanda e países da Escandinávia) e por vôos regulares da TAP entre Lisboa e Fortaleza, Natal, Recife e Salvador.

 

Por que esse assunto, agora? Porque adoro estudar rotas de vôos. (Se você for ao aeroporto e vir um gordinho de cabeça raspada parado em frente ao painel de vôos entretido com aquele clap-clap-clap das placas mudando de nome, pode ter certeza de que sou eu.)

 

Mas para não dizer que este post não foi instrutivo, embarque comigo nesse quiz. É rapidinho, e as respostas estão nos comentários.

 

1) Qual é a única companhia aérea que tem vôos diretos entre Manaus e Miami?

(a) Lloyd Aéreo Boliviano

(b) Varig

(c) American

(d) United

 

2) Há 20 anos, a companhia aérea mais barata para viajar à Europa era a LAP – Líneas Aéreas Paraguayas. Qual é o novo nome da LAP?

(a) Air Paraguay

(b) Aerochaco

(c) Guaraní

(d) TAM

 

3) Qual dessas rotas, que ligam a América do Sul a outros continentes, NÃO existe?

(a) Buenos Aires-Cidade do Cabo-Kuala Lumpur pela Malaysian

(b) Santiago-Ilha da Páscoa-Taiti pela LAN Chile

(c) Fortaleza-Ilha do Sal pela Cabo Verde Airlines

(d) São Paulo-Luanda pela Varig

 

4) Na época do dólar de 1 real, as companhias aéreas brasileiras voavam a muito mais destinos no exterior. Qual desses vôos NUNCA existiu?

(a) Fortaleza-Miami pela Vasp

(b) São Paulo-Cingapura pela Varig

(c) Recife-Bruxelas pela Vasp

(d) São Paulo-Viena pela Transbrasil

 

5) Qual companhia aérea internacional tem dois vôos diários ligando São Paulo ao "hub das Américas"? E que "hub" (base de conexões) é esse?

(a) Delta, Atlanta

(b) American, Dallas

(c) Copa Airlines, Cidade do Panamá

(d) Continental, Houston

 

A resposta está no último dos comentários.



Escrito por Ricardo Freire às 09h49
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Dia dos Namorados – versão diurna

Não lembro quando foi a última vez que o Dia dos Namorados caiu num domingo. Como ficam os rituais num dia assim? Janta-se normalmente na véspera e brinda-se à meia-noite, partindo dai para uma madrugada de amor? Ou deve-se esperar até o domingo propriamente dito? Um almoço de dia dos namorados pode ser romântico? Será que os namorados do Brasil estão preparados para enfrentar fila de motel à luz do dia? E por fim: vai ter Dia dos Namorados esse ano, ou as comemorações foram suspensas em virtude do delúbio de acontecimentos em Brasília?



Escrito por Ricardo Freire às 09h00
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Dentista no feriado

ANGRA DOS REIS – Recapitulando: alguns posts atrás, a gente estava no feriadão de Corpus Christi. Onde é que eu tinha parado, mesmo? Ah: na Festa do Divino de Paraty, na quinta. Não, não foi o único acontecimento emocionante do feriado. Na sexta, fomos até o Frade (já em Angra, 100 km ao norte de Picinguaba) para sair de lancha com nossos amigos C. e F., que estavam hospedados num resort com os filhos.

Veja bem: eu não estou dizendo para ninguém sair de Ubatuba e rodar mais de 100 km só para passear de lancha em Angra. Ubatuba tem dezenas de praias lindíssimas em terra firme, algumas totalmente selvagens (como o Puruba), outras protegidas por condomínios que preservaram a orla (como o Félix e Prumirim), outras ainda com acesso apenas por trilha (como o Bonete). Ubatuba também tem suas ilhas, e muitas podem ser visitadas em barquinhos de pescador que você contrata na beira da praia. E caso você queira muito passear de barco no litoral fluminense, é preferível ficar pela baía de Paraty, que é mais  perto e mais rústica (ainda se vêem mais traineirinhas e veleiros do que lanchas e iates).  

 

Mas eu tinha que ir a Angra. Porque um sujeito na minha situação – com um guia de praias em permanente atualização – não pode perder nenhuma chance de "fazer" Angra do jeito certo: na lancha de amigos. Eu sei, existem outros meios para passear de barco em Angra. Dá para pegar um passeio de escuna (tô foríssima: trocentas pessoas, música alta, farofa em alto mar). Dá para alugar uma traineirinha a 30 reais a hora no cais do centrinho de Angra (e se sentir na terceira classe do Titanic ao chegar nos points badalados). E, claro, dá para alugar uma lancha (se bem que quem tem grana para alugar uma lancha em Angra tem grana para comprar uma lancha antes de sair de casa). Mas só indo do jeito certo – na lancha de amigos – é possível entender o (e penetrar no) Angra way of life.

 

Você já ouviu falar da baía de Angra. 365 ilhas recobertas por mata atlântica. Mar azul-marinho, que vai esverdeando em torno das ilhas e tem lá seus momentos transparentes nas beiradinhas. Um dos pontos mais bonitos do planeta para se bronzear ao mar, deitado num colchonete branquinho na proa, apreciando calmamente a paisagem, sentindo a brisa proporcionada pelo movimento suave da embarcação e escutando bossa nova – o barquinho vai, a tardinha... Opa: mas isso não é Angra, não. Na verdade Angra é um dos pontos mais bonitos do planeta para VRRRRRRUUUUUMMMMM singrar o mar a toda e VRRRRRRRRUUUUMMMM levantar marola e VRRRRUUUUMMMMM testar os limites do motor da sua superlancha e VRRRRRUUUUUMMMM chegar primeiro que as outras superlanchas nos lugares aonde todas as outras superlanchas vão.

 

 

O que não deixa de ser divertido.

 

Pode haver 365 ilhas em Angra, mas os lugares onde as lanchas gostam de se encontrar não chegam a uma dúzia. Três são especialmente concorridos: Macacos (que os operadores de passeio de escuna chamam de Lagoa Azul) e o Saco do Céu na Ilha Grande, e a Praia do Dentista na ilha da Gipóia. É pro Dentista que a gente vai. Se segura aí. VRRUUUUUMMMM!

 

 

O nome oficial da Praia do Dentista é Jurubaíba; o apelido vem do fato de, escondida pela mata, existir ali a casa de praia do Dr. Olympio Faissol, o Pitanguy das arcadas dentárias do soçaite carioca.

 

 

 

A brancura Omo Total Radiante de suas areias faz com que a beira da praia tenha águas excepcionalmente transparentes. A transparência da água atrai as superlanchas. Só que, na temporada e em feriados, vêm tantas superlanchas, que quase não sobra água transparente para os ocupantes das superlanchas nadarem.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 21h44
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Mas ninguém está preocupado com isso. (Nem eu, para falar a verdade.) Em dias como este, os aspectos naturais da Praia do Dentista não passam de um mero detalhe. Aquelas pessoas todas estão ali pelo mesmo motivo que os adolescentes se apinham nos estacionamentos de lojas de conveniência de postos de gasolina: para beber e curtir entre iguais.

 

 

 

 

Quem não está acostumado (- Presente!) estranha. Mas bastam meia horinha e um pouco de perspicácia para perceber que impera no Dentista a mesmíssima cultura praiana urbana carioca. Jurubaíba é uma espécie de Pepê ou Prainha ou Posto 9 em que os freqüentadores, em vez de levar cadeirinhas de casa, levam suas lanchas; e em vez de comprar queijo de coalho na brasa do ambulante, encomendam sushi pelo rádio ao Jangos Bar, o restaurante flutuante que sempre está a postos por ali.

 

(Não, não pague na hora. Antes de ir embora, passe um rádio para o bar, e a moça vem de lancha com a conta. No caso, para dois combinados que nem esse da foto e um PF para o marinheiro, R$ 256.)

 

Ei. O que é aquilo chegando ali? Uma escuna! Por aqui? Como assim?

 

 

Fiquei torcendo para todo mundo descer e vir à praia. (Sim, eu queria drama.) Mas não. A escuna parou apenas para servir o almoço e admirar a paisagem -- aquele ecossistema raríssimo de lanchas estacionadas no verde marinho. Até a música da escuna era baixa. Ou, mesmo se fosse alta, não teríamos como saber – a lanchona estacionada imediatamente ao nosso lado estava tocando Babado Novo e Chiclete com Banana a todo volume, numa espécie assim de Micarangra 2005.

 

 

 

 

Enfim, gente fina é outra coisa. Da próxima vez, em nome da antropologia, acho que vou de traineirinha alugada. Você já experimentou chegar de Fusquinha no Gero?

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 21h41
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Cisplatina

Fui ontem ao show do Jorge Drexler. Pessoas sensatas, depois que assistem a um show como esse, ficam com vontade de comprar todos os discos do cara. Gente maluca, feito eu, fica com vontade de viajar a Montevidéu.

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 19h53
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O turismo no "mapa geográfico"

Eu ia deixar para ir só hoje. Mas quando li no Panrotas que o presidente Lula tinha pedido ao ministro Mares Guia um novo "mapa geográfico para os aviões brasileiros", eu não pude resistir. Uma força maior me levou na mesma hora até o Salão do Turismo – Roteiros do Brasil. Eu não conseguiria dormir sem ter percorrido o mapa geográfico do turismo nacional.

 

 

A abertura do salão para o público consumidor é hoje, sexta. Ontem era só para convidados e profissionais. Ei: eu juro que tentei me credenciar. Entrei na fila e tudo. Mas quando eu falei "Imprensa", a moça disse: "Fale com a moça da catraca, entre e procure uma sala à sua esquerda". Deu certo: a moça me deixou passar, eu virei à esquerda e... quem disse que entrei na sala de imprensa? Faltavam duas horas e meia para o salão fechar, e eu ainda tinha 8 milhões, 511 mil quilômetros quadrados de stands para percorrer.

 

Comecei pela Região Norte – que acabaria se revelando a mais bem cenografada de todas. O primeiro stand era o do Acre. Gente, o negócio é sério. Tem turismo até no Acre, e eu não sabia. Mesmo sem ter planos imediatos de ir ao Acre, eu decidi que eu não posso mais ficar sem saber o que existe para ver no Acre. Pedi os folhetos, me deram uma pastinha. No Amapá foi a mesma coisa. Em Rondônia, idem. Ibidem no Tocantins. No Pará me deram a pastinha e um saquinho com pó de patchuli. Em Roraima os folhetos já tinham acabado. Como assim?!? Mas eu saí de casa querendo pegar tudo o que eu pudesse de Roraima! (Não é gozação, não: a Ilma – lembra da Ilma, com quem eu fiz o city-tour de 7 horas por São Paulo? A Ilma morou em Roraima, e me falou maravilhas da região contígua à Gran Savana venezuelana.)

 

No palco da Região Norte, um grupo apresentava músicas e coreografias do boi-bumbá de Parintins. Êpa. Eu conheço essa voz. Será? Não pode ser. Eu devo estar sugestionado. O tom é que é parecido. O sotaque. Mas... É, sim. Tento achar alguém com crachá do Amazonas por ali. Ninguém. Percorro de volta toda a extensão do stand (e, você sabe, a Região Norte é a maior do país) e pergunto à moça do balcão do Amazonas: "Ei, esse é o levantador de toadas do Caprichoso?". E ela: "É sim: o Arlindo Júnior".

 

 

Caramba! Ninguém por ali parecia saber, mas aquele pocket-show equivalia a uma canja do Jamelão ou do Neguinho da Beija-Flor. Suspirei de saudade – você não tem no-ção da beleza do espetáculo que é Parintins. Não existe nada mais bonito, talentoso e emocionante em cartaz no Brasil. (Estive lá em 1999 – você pode ler a matéria que eu fiz para a VIP aqui.) Mas não pude ficar. Ainda havia quatro regiões a visitar.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 10h45
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Atravessei o corredor e cheguei ao Nordeste. Pernambuco estava interditado – o ministro estava por lá dando entrevista depois de entrevista. Saí pela tangente e fui colher folhetos no Piauí e em Sergipe. (No stand do Piauí ninguém me reconheceu, mas em dois outros lugares do salão me cumprimentaram pelo post do PiauíSampa.)

Chegando à Bahia, descobri uma nova pousada chique na região do Pelourinho e um hotel à beira da praia de Taipus de Fora, em Maraú. Perguntei à moça da pequena companhia aérea que voa de Salvador a Morro de São Paulo e Barra Grande por que é que eles não vêm para São Paulo voar a Ubatuba e Ilhabela. Descobri que já existe uma agência fazendo um tour integrado de Morro de São Paulo, Boipeba, Maraú e Itacaré. E bati um papo com a dona de uma pousada em Imbassaí sobre os novos megaprojetos da região – um resort espanhol entre a Praia do Forte e Imbassaí, e um pequeno Sauípe português (três resorts, um com a marca Breezes, e um condomínio de 200 casas) ao lado da vila de Imbassaí. Você quer nomes, endereços, websites? Tenho tudo isso direitinho nos folhetos: só falta achar.

Eu já estava saindo do Nordeste, quando o Maranhão colocou bumba-meu-boi e tambor-de-crioula nas ruas do Salão. Foi irresistível – precisei voltar ao stand maranhense. Ai que vergonha. Essa é uma das lacunas mais graves no meu currículo: nunca fui a um São João em São Luís.

 

 

 

Quando cheguei ao Sudeste, uma hora depois de ter entrado no Salão, eu já carregava duas sacolas de folhetos. A Embratur dividiu o Brasil em 130 regiões de interesse turístico, e cada uma delas tem um material para dar. Eu sei que não deveria pegar tudo de todo lugar, mas uma oportunidade como essa, de reunir informações sobre lugares aonde o Google não sabe me levar, não dava para perder. Mas nem tudo são folhetos, porém.

 

 

Eu estava admirando as paneleiras de Vitória demonstrando a fabricação de panelas de barro – na foto elas parecem camponesas toscanas, eu sei, mas ao vivo eram bem autênticas – quando fui abordado por uma Xica da Silva da CVC me vendendo um pacote de 15 dias pela Estrada Real. Moça, posso tirar uma foto?

 

 

No Rio de Janeiro eu resolvi parar de ser simpático. Não que fossem antipáticos comigo, muito pelo contrário. Mas eu já estava correndo o risco de não conseguir juntar todos os folhetos antes do Salão fechar. Por isso, em vez de sorrir e entabular uma conversazinha rápida com o pessoal de cada stand, passei a catar meus kits de maneira objetiva. Atravessei a fronteira paulista e, mesmo a toda velocidade, não pude deixar de notar que o material promocional disponível nos stands ratificava a grande vocação turística do Estado de São Paulo – qual seja: mandar turistas para outros lugares do país. Gente, os folhetos das regiões do Estado de São Paulo são OS MAIS SEM-GRAÇA de todo o Salão. Impressionante. A exceção fica por conta dos da Capital, que estão bonitinhos.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 10h42
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Quando cheguei ao Paraná, já me faltava mão. Eu não tinha mais como carregar as sacolas, pegar folhetos, segurar a câmera e fazer anotações tudo ao mesmo tempo. O pior é que eu não podia dar tanta bandeira, porque, se você lembrar lá do início, eu estava ali sem crachá nem nada. A qualquer momento podia aparecer alguém e confiscar o material que tinha dado tanto trabalho para colecionar. Enchi outra sacola de pastinhas e folhetos em Santa Catarina, e aproveitei para fazer amigos no Rio Grande do Sul. Ganhei uma caixinha de chocolate caseiro da promotora de Gramado (não falei que só vou poder provar daqui a quatro meses, quando sair do regime) e conversei longamente (mais de três minutos, nessas circunstâncias, já caracterizava longamente) com o vice-prefeito de São Miguel das Missões sobre o melhor meio para chegar até lá (existe um vôo diário, em Fokker 50, até Santo Ângelo. Ah, sim: com escala em Chapecó).

No Centro-Oeste eu já estava exausto e não me entendia mais. Eu só queria um lugar para sentar e molhar os pés numa praia do Araguaia ("Araguaia o ano inteiro" é o título de um dos folhetinhos que eu peguei em... Goiás? Mato Grosso? Em Brasília é que não foi).

 

Mas tinha mais. Com cinco ou seis quilos de folhetos debaixo do braço, atravessei para a parte lúdico-interativa do Salão. Existe uma mega-loja com artesanato brasileiro selecionado e um mercado com produtos regionais. Mas o mais bacana fica bem ao fundo – uma praça de alimentação com comida de todos os Estados.

 

 

 

Só faltou cenografia: o lugar é tão frio quanto um refeitório de indústria. (Quer dizer: um refeitório de indústria com palco para shows folclóricos, como este do Pará.)

 

 

O balcão de cada Estado oferece dois pratos típicos, em porções pequenas, a apenas R$ 2. Onde mais você pode experimentar, num mesmo lugar, uma mujica de camarão amapaense (com farinha de mandioca, alfavaca, chicória e coentro), uma rabada no tucupi acreana, um tucunaré com leite de coco-babaçu do Tocantins, um estrogonofe de bode paraibano, um pirão de pitu sergipano, um caldo de piranha do Mato Grosso do Sul e uma "vina" (lingüiça) com chucrute catarinense? Se eu não estivesse me recuperando de uma crise gástrica brabíssima, teria caído de boca.

 

Na saída, esbodegado, arrastando uma floresta amazônica inteira de folhetos, quase fui atropelado pelo bumba-meu-boi do Maranhão, que estava decerto indo para o palco do refeitório. Ê boi!

 

 

E agora cá estou eu, em casa, com uma pequena Biblioteca de Alexandria de folhetos turísticos. Vou precisar contratar uma bibliotecária para organizar tudo por regiões. E depois vou tirar umas férias para estudar todo o material. Pode deixar: tudo o que eu aprender de novidade eu conto aqui para você.

 



Escrito por Ricardo Freire às 10h41
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Uma noite com Starck

 

Pronto, pronto, já posso dizer o que tanto eu fui fazer em Buenos Aires mês retrasado. Fui me hospedar no Faena Hotel & Universe, o primeiro hotel com design de Philippe Starck no hemisfério sul. O título é (obrigado, Kiko, por ter mantido) Uma noite com Starck, e a matéria pode ser lida na Viagem & Turismo deste mês – numa banca bem perto de você.

 



Escrito por Ricardo Freire às 10h28
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Geography (again)

Josimar Melo resenha na Ilustrada de hoje um restaurante paulistano que atende pelo nome de Paris Moscow. Então eu pergunto: Why? Pourquoi? Warum? Em francês, Moscou é Moscou (diga Moscu). Em russo é Mokba [perdão: no alfabeto cirílico é Mockba -- diga Moskva; obrigado, Amílton]. Em que região da França, da Rússia ou do Brasil a cidade de Moscou é conhecida por Moscow? E mais: como eu devo pronunciar o nome do restaurante? Péris-Móscau? O que me leva, finalmente, a indagar: como eu posso freqüentar um restaurante que me causa indigestão mesmo antes que eu prove a comida?

Escrito por Ricardo Freire às 09h53
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