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Eu sei. Já é a sexta vez que você entra no blog desde terça-feira, em busca do meu relato sobre o fim-de-semana no bangalô novo da Ponta dos Ganchos. Desculpaê. Mas é que, além do acúmulo de trabalho, eu resolvi usar essa viagem como... ahn.... gancho (desculpe, mais uma vez) para fazer um update geral do meu modesto, espartano e basiquinho Guia Freire's de Superbangalôs de Praia. Deixo com você uma amostrazinha. Amanhã ou, no mais tardar, sábado, publico a lista inteira, com os devidos comentários. Inté daqui a pouco.

 

 

 Ponta dos Ganchos, Santa Catarina

 

 

 Pousada Maravilha, Noronha

 

  Pousada Estrela d'Água, Trancoso



Escrito por Ricardo Freire às 08h32
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"Por que você nunca aparece nas fotos?"

Aproveitando que ainda não deu tempo de organizar o post da Ponta dos Ganchos (gente, eu preciso trabalhar também), resolvi trazer aqui para fora uma perguntinha que apareceu nos comentários lá de Nice.


Eu não apareço nas fotos de propósito: eu entendo que fica mais fácil para você se colocar no meu lugar se você puder enxergar tudo do mesmo ponto de vista que eu – como se você estivesse junto na mesma viagem. Ficar posando o tempo todo para a câmera anularia esse efeito.


E, last but not Liszt (ha ha: dei uma googlada rápida, e vi que esse trocadilho já foi feito 800 milhões de vezes em todas as línguas do planeta), quanto menos eu aparecer, melhor para o meu lado "guieiro" – já que, na hora de fazer o guia, o ideal é que eu não seja reconhecido.

 

Explicado?

Escrito por Ricardo Freire às 09h07
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Próxima parada: Ponta dos Ganchos, Santa Catarina

Na verdade, acabei de voltar – passei o fim de semana por lá, na árdua tarefa de testar um bangalô que eu ainda não conhecia. O relato eu posto amanhã. Enquanto isso, role a página e acompanhe minhas aventuras finais na Riviera.

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 09h18
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Design para crianças, merenda para adultos

NICE – Gostaria de deixar registrado que na próxima encarnação eu quero nascer um turista normal. Na próxima encarnação eu juro que vou me contentar em entrar em igreja e visitar museu. Ou então vou fazer força para arranjar um desses interesses que simplificam a vida do viajante – tipo mergulho ou surfe ou golfe. (Pasme: cada um no seu canto e com sua turma, o surfista e o golfista fazem viagens muito parecidas.) Na presente encarnação, contudo, não há mais jeito a dar. O fato é que não consigo ir a lugar nenhum só para apreciar a paisagem e ver o cenário e sentir o clima e observar as pessoas e comprar umas coisinhas. Devido a um cromossoma defeituoso, ou a alguma falha qualquer no DNA, eu só considero um lugar devidamente visitado se eu conheci certos hotéis e experimentei determinados restaurantes. Desculpe, é mais forte do que eu. Mas saiba que eu já pedi, e na próxima encarnação não vou ser mais assim.

Era uma da madrugada de quarta para quinta quando cheguei de volta a Nice, desta vez para ficar. Quer dizer: para ficar pelas próximas dezesseis horas, antes de iniciar a viagem de retorno ao patropi. Eu teria pouco mais de meio dia para dormir e comer nos dois endereços que mais me interessavam em Nice: um hotel esquisito e um restaurante que se recusa a ter telefone.

 

O hotel esquisito era o Hi Hotel (não diga "rai"; diga "í", mesmo), um dos ícones moderninhos de uma Nice rejuvenescida e fashion.

 

De noite o banheiro parece integrado ao quarto. 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 09h06
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Com interiores desenhados por uma jovem discípula de Philippe Starck, o Hi é uma espécie de Hotel Unique de Nice. Já dei uma notinha sobre ele (há uns dois anos, na Viagem & Turismo), já indiquei para amigos, mas nunca tinha tido a oportunidade de levar meu pijaminha metafórico para dormir por lá.

 

 

Pois bem. É por essas e por outras que eu só acredito em jornalismo de viagem que confere as coisas ao vivo. Sem ter me hospedado no hotel, o máximo que eu podia fazer era passar adiante o peixe que tinham me vendido – o de um hotel jovem e moderninho que estava ajudando a pôr Nice na moda. Enfim, uma descrição genérica, que não erra mas também não acerta. Agora, sim. Da próxima vez que eu recomendar o Hi Hotel para alguém, eu vou poder dizer que o lugar é tipo assim um albergue da juventude-design, com ambientes sociais que lembram uma escolinha maternal-design e apartamentos que poderiam estar num hospital-design.

 

 

Há vários tipos de quarto. O meu, denominado "Strata", tinha o espaço dividido em faixas vitais – de "repouso", ao nível da cama, a "reenergização", à altura do chuveiro – e vinha equipado com uma privada sem porta. De noite, ao chegar, tive a impressão de que o banheiro estava integrado ao quarto; de dia, no entanto, cheguei à conclusão de que na verdade o quarto é que ficava dentro do banheiro.

 

 

A piscina do terraço tem vista para os telhados de Nice, e o buffet do café da manhã é montado num balcão refrigerado de mercadinho e só tem produtos "bio" (diga "biô"). Adorei. Mas obviamente o lugar não é para pessoas modernas. Pessoas modernas já levam uma vida moderna e não precisam desse ambiente albergue-maternal-hospitalar-design para se sentirem modernos. Já pessoas caretas como eu podem viver uma experiência de algumas horas fora de seus corpos e achar tudo muito divertido.

 

 

 De manhã pude ver: é o quarto que está dentro do banheiro!

 

Passei a manhã na piscina do terraço, tentando escrever a Xongas da semana. Lá pela metade, precisei largar tudo, fazer as malas e fechar a conta, senão não conseguiria cumprir o meu segundo objetivo desse finalzinho de viagem: comer no La Merenda, o tal restaurante que se recusa a ter telefone.

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 08h57
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A história do La Merenda é fascinante. Há pouco menos de dez anos, Dominique le Stanc, então sous-chef do estrelado Chantecler (o restaurante do hotel Négresco), desiludiu-se, como muito de seus pares, com a haue cuisine, e resolveu abrir seu bistrozinho a preços camaradas. Comprou uma portinha na velha Nice, onde já funcionava um restaurante sem telefone desde os anos 70. Le Stanc manteve o nome do lugar, não comprou telefone e continuou preparando uma comida estritamente nissarta. Ganhou uma toque (chapéu de chef, equivalente a uma estrela) no Gault-Millau, entrou para o Michelin (uma façanha para um restaurante tão simples) e consta da lista de recomendações de todos os guias bacanas e matérias descoladas. Conseguir uma mesa, no entanto, é uma aventura, já que a ausência de telefone é irmã gêmea da inexistência de reservas (e o restaurante fecha no fim de semana). Bom. A essas alturas você já me conhece. Me diga, então: como é que eu poderia me interessar em ir a algum outro restaurante na Riviera inteira?

 

 

Quando consegui achar o endereço (o La Merenda fica no número 4 da rue Raoul Bosio, mas os guias continuam usando o nome antigo: rue de la Terrasse), já era meio-dia e meia, e todas as mesas estavam ocupadas. Mas Mme Le Stanc, que gerencia o boteco, anotou meu nome e disse para voltar dali a 45 minutos – o tempo justo para dar um pulinho até ali a Fnac e comprar o iPod suffle que minha amiga D. tinha me encomendado.

 

À uma e quinze já havia duas mesas vagas – e quem chegou depois dessa hora não teve dificuldade nenhuma para sentar.

 

O cardápio vem à mesa escrito numa lousa portátil. E novamente eu posso perceber nitidamente a diferença entre o que eu leio e o que eu vejo. Não, não está errado dizer que o La Merenda serve comida autenticamente niçoise. Mas é pouco. Para que o visitante saiba o que realmente está à sua espera, é preciso dizer que o La Merenda tem o cardápio mais nojento que pode existir na culinária francesa. Tripas, rabada, andouillete (uma lingüiça de miúdos), e por aí vai. É impossível sentar aqui e não ter que pedir algo dégoûtant. Nham! Esse lugar é dos meus.

 

 

Pedi pâtes au pistou (massa caseira ao pesto), emendei com um glorioso prato de tripes à la niçoise (dobradinha! à moda de Nice! mais uma para o meu currículo!) e arrematei com um singelo clafoutis de cérises (uma torta molinha de cerejas). Com uma água Badoît e um café, 33 euros (na França, diga orrô).

 

Enfim, tendo dormido no hotel esquisito e comido no restaurante sem telefone, eu já podia dar Nice por visitada. Au revoir! À la prochaine!

 

 



Escrito por Ricardo Freire às 08h56
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Fotoblog: St.-Tropez

Foi fácil para Brigitte Bardot colocar Búzios no mapa. Naquela época ela já tinha experiência. Alguns anos antes, ela tinha feito a mesma coisa com St.-Tropez.

 

 

Se esta peninsulazinha não tivesse servido de cenário para B.B. em "E Deus criou a mulher", talvez St.-Tropez continuasse a ser no verão a mesma vila sonolenta que é durante o inverno.  

 

 

 

.... Ou não. Com ou sem filme, avec ou sans Bardot, talvez fosse inevitável que o encontro entre o espírito do bas-fond de Marselha e a grana da Riviera se desse aqui mesmo, no meio do caminho.

 

 

Originalmente St.-Tropez não era um balneário, mas uma vilazinha de pescadores. Hoje o porto não tem mais pesqueiros: iates mega-power disputam cada centímetro do atracadouro. Por sinal, bisbilhotar a vida dos milhonas nos iates é uma das diversões de quem participa do footing ou estaciona num dos cafés ao longo do cais.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h02
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A cidade antiga começa no porto e esparrama suas vielas colina acima. Se você mudar os letreiros das placas no computador, pode muito bem fazer de conta de que aqui é a Itália.

 

Mas então você sai pela Place des Lices, passa pelos jogadores de boules e volta a ter certeza de de que está nas cercanias da Provence.

 

 

À noite, acontece em St.-Tropez o mesmo fenômeno que rola em Capri: os turistas que só vieram visitar já foram embora, e a cidade fica para os habituês. A cena gastronômica da cidade é mais relaxada que no resto da Côte -- os restaurantes mais disputados da cidade são o moderninho Spoon, de Alain Ducasse (no Hotel Byblos) e o vietnamita Bahn Hoï, um dos raros desta especialidade recomendados pelo guia Michelin.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 10h56
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A praia de St.-Tropez fica fora da cidade – a bem da verdade, em outro município: Ramatuelle.

A mais badalada é Pampelonne, uma enseada com 5 km de extensão que é servida por quatro acessos. Alguns trechos da praia são públicos, mas quase toda a orla é ocupada por plages privadas. Pelo menos duas delas são celebérrimas: é no Club 55 e no Voile Rouge que os astros e estrelas vão quando querem ser achados pelos paparazzi.

A última novidade da cena tropeziana é uma filial do branquérrimo Nikki Beach, uma rede de clubes de praia que se intitula como "O lugar mais sexy da Terra".

Por uma dessas ironias, o Nikki Beach de St-Tropez não fica exatamente à beira da beach. Como chegou depois de todo mundo, precisou se instalar na quadra de trás de um trecho de praia pública.

Mas ninguém parece muito interessado em sair de suas tendas, de seus pufes, de seus divãs, de seus colchõezões ou de suas espreguiçadeiras para mergulhar na água salgada. Pra quê, se dá para pular na piscina e continuar vendo e sendo visto? Garçon! Un jus de tomate épicé e un Perrier, s'il vous plaît!

Pena que eu tive que sair cedo, antes da festa esquentar. Vou te contar. É duro ser farofère!



Escrito por Ricardo Freire às 10h56
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Encontros e desencontros

Você é testemunha. Eu estava sério e compenetrado assistindo comerciais e mais comerciais no festival do cinema publicitário de Cannes. Aí os imprevistos começaram a acontecer.

Primeiro eu cruzei na rua com uma das maiores celebridades da publicidade mundial – um sujeito que por acaso é meu amigo, e, olha que coincidência, é meu patrão, também. E não é que o cara me convida para almoçar no dia seguinte em St.-Tropez?

 

 

Você pode me acusar de tudo, menos de não ser solícito e prestativo. Fazer o quê? Contra todos os meus princípios, cancelei a tarde no festival e fui almoçar em St.-Trop.

 

Depois do almoço (que foi numa plage), fui tomar sorvete e passear pela cidade antiga, acompanhando a adorável – e cada vez mais extensa – família do meu amigo-patrão.

 

 

Lá pelas tantas, me despedi, mas fiquei por lá. Eu tinha um compromisso assumido há três dias: jantar com meu amigo P. e uma turma bacana. O jantar seria às oito e meia, então eu tinha um tempinho para matar. Para não perder o hábito, passei num cybercafé. Lá abri um e-mail do meu amigo P.: o jantar tinha passado para as 10 e meia.

 

10 e meia? Então vou ter que pegar a estrada à uma da manhã e dormir às três? Nananinanina! Mais do que depressa, passei num mercado, comprei escova e pasta de dentes, e fui atrás de um hotelzinho barato. Achei um de 70 euros. Com 'parking' pro meu Scéniczinho e tudo.

 

 

O jantar foi ótimo. Mas – posso dizer uma coisa? É muito esquisito dormir fora de casa.

 

Você não imagina o que eu passei. Dormir longe do laptop. Sem acesso a nenhum Photoshop. E o pior de tudo: totalmente desprovido de recarregador de bateria de câmera digital! Gente, que aflição. Não desejo isso pra ninguém, não.

 

Quando eu tirar o atraso, eu publico um post decente sobre St.-Tropez.



Escrito por Ricardo Freire às 14h13
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A sopa de 300 paus

Você é de São Paulo? Então pense no Bolinha. Se você não for de São Paulo, pense no melhor restaurante de feijoada da sua cidade.

 

Pois bem: o Tetou, em Golfe-Juan, é o Bolinha da Côte d'Azur. O lugar mais famoso por servir o prato mais típico de região: a bouillabaisse, uma substancioso caldo de peixe acompanhado por filés de peixe, lagosta, batata, torradas e aïoli (a maionese provençal).

 

 

O Tétou começou em 1920, como "plage" – uma praia particular com restaurante anexo – e continua assim até hoje. Ou seja: é uma barraca de praia que subiu na vida e ganhou uma estrela no Guia Michelin.

 

Reservar uma mesa na temporada é difícil. Uma mesa com vista, praticamente pé-na-areia, só com muita antecedência. Deixe seus cartões em crédito no cofre do hotel: aqui eles não servem para nada. Mas não se esqueça de passar no caixa automático. Só a bouillabaisse custa 98 euros por pessoa.

 

(Ei: eu não estou com essa bola toda, não. Era um jantar de negócios. A "firma" reembolsa.)

 

 

O pior é que a danada da bouillabaisse vale cada centavo de euro. Pode até haver um certo effect Tostinès na parada (é absurdamente caro porque é absurdamente gostoso ou é absurdamente gostoso porque é absurdamente caro?). Mas a comida é sublime (o caldo, sozinho, já me satisfaria; mas a lagosta foi a mais tenra que já comi na vida) e o ambiente, espetacular, sem nem um pingo da afetação dos restaurantes estrelados franceses.

 

Mas você só percebe o tamanho da cara de pau do lugar quando vê o menu de sobremesas. O pratinho de framboesas ao natural custa – 20 euros! 60 reais por um pratinho de framboesas! Quase pedi, mas preferi não quebrar o encanto. É melhor continuar imaginando que são as framboesas mais raras do mundo, colhidas exclusivamente por mulheres albinas virgens e canhotas e transportadas em cestas de vime selvagem do norte da Tailândia.

 

Mas se algum dia te derem 200 euros na mão e disserem que você só pode gastar numa única refeição na Côte d'Azur, venha para cá.



Escrito por Ricardo Freire às 08h13
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Numa Nice

Existem os lugares perfeitos. E existem os lugares divertidos. Você e eu, que moramos num lugar divertido, normalmente sonhamos em viajar para lugares perfeitos. Mas saiba que os que moram em lugares perfeitos só pensam em tirar férias em lugares divertidos.

 

Nice não é um lugar pefeito: é um lugar divertido. Nós dois ainda não temos muita intimidade, mas, desde que passei uma tarde por aqui, há quase dez anos, tive certeza de que fomos feitos um para o outro.

 

 

Daquela vez eu não entendi o porquê da simpatia à primeira vista – naquela época Nice andava muito mal falada. Hoje eu sei o que me atrai na cidade: é que Nice é uma espécie de Mãe de Todas as Copacabanas. Foi aqui que fizeram o molde das Avenidas Atlânticas das nossas capitais à beira-mar.

 

 

A idéia de (e o dinheiro para) construir o calçadão na orla foi dos ingleses, que vinham para cá em busca do inverno ameno da Côte (praia no verão é uma invenção muitíssimo mais recente). O nome da avenida lhes faz justiça: Promenade des Anglais (Passeio dos Ingleses).

 

 

Diferentemente de todas as avenidas beira-mar das outras cidades da Côte d'Azur – mas igual à maioria das avenidas beira-mar do Patropi –, a Promenade des Anglais apenas empresta uma fachada de balneário a uma cidade de verdade. E a vida real é que faz a diferença – proporciona todas as imperfeições que podem vir a tornar um lugar divertido.

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h40
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A história de Nice é peculiar. Até 150 anos atrás, a cidade não pertencia à França. Nice era um condado associado à Casa de Sabóia – uma espécie de holding que, pelo que entendi, também controlava o reino da Sicília. Ou seria da Sardenha? Ou ambos? (Googlem vocês. Eu estou totalmente offline no hotel -- depois eu conto.) Isso fez com que Nice mantivesse dialeto, cultura e gastronomia distintos da tradição provençal.

 

O melhor lugar para começar um passeio por Nice é o mercado do Cours Saleya, na cidade antiga. Graças ao tamanho da cidade, ele funciona todas as manhãs (menos às segundas, quando há um mercado de pulgas).

 

 

 

Eu cheguei perto do meio-dia, no finzinho das funções, a tempo de saber que uma xepa é uma xepa é uma xepa em qualquer lugar. Pense na última vez que você ouviu um "Olhaí freguesa! 1,50 o pacote! É pra acabar", e leia esta frase exatamente com a mesma entonação:

 

- Allez! 1,50 le paquet! Incroyable! 1,50 le paquet!

 

(Não, não descobri como se diz "moça bonita não paga mas também não leva" en Français.)

 

 

 

 

 

Dava vontade de levar pêssegos e framboesas para casa, mas eles não agüentariam o calor do carro até o fim da tarde. Então entrei no fim da fila de Thérèse, famosa por vender socca, uma panqueca de farinha de grão-de-bico, sem recheio, que se come salpicada com pimenta-do-reino e é uma especialidade nissarta.

 

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h37
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O mercado fica praticamente à beira-mar – você atravessa seus arcos e já dá no canto esquerdo da Promenade des Anglais.

 

 

A praia é de pedregulhos – mas a falta de areia, se por um lado é desconfortável, por outro deixa a cor da água linda, turquesa nas beiradinhas. A orla alterna trechos públicos com plages privadas, onde se paga entre 10 e 15 euros por uma caminha com colchonete.

 

 

Na praia: as pedras são "de" grátis, mas as caminhas saem 45 paus

 

Algumas das plages acarpetam com sisal os corredores de passagem – assim dá para ir descalço do seu colchonete até o mar.

 

 

Foi na plage Neptune, em frente ao Négresco (o Copacabana Palace niçois), que eu mantive aquele que deverá ser o diálogo mais inesquecível desta semana.

 

Chamei o menino loirinho e pedi uma Coca light. Ele perguntou:

- O senhor abriu uma conta com o monsieur brun?

 

Como assim? Um senhor? Moreno?

- Sim, o senhor abriu uma conta com o senhor moreno?

 

Não. Pelo que eu me lembrava, quem tinha me atendido era um rapazinho africano.

- Isso mesmo! O moreno!

 

(Sem comentários.)

 

 

O que me fez sair do glamour de Cannes e gastar meu sábado, o único dia livre antes do festival de publicidade começar, na plebeíssima Nice? Sei lá. Ou melhor: sei. É que eu enjôo rápido do perfeito. Eu gosto é do divertido.

 

(Quarta-feira eu volto. Decidi passar minha última noite aqui.)

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h36
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Le pit-stop

O que faz um viajante sensato ao desembarcar no meio da tarde no aeroporto de Nice depois de uma viagem transatlântica com conexão? O viajante sensato pega o carro alugado e toma a direção do hotel, para tomar um banho, desfazer as malas, fazer a barba, renovar o desodorante e sair para bater perna ao pôr-do-sol.

 

E um blogueiro de viagem? O que faz um blogueiro de viagem ao desembarcar no meio da tarde no aeroporto de Nice depois de uma viagem transatlântica com conexão? O blogueiro de viagem esconde as malas no bagageiro do carro alugado e, em vez de ir direto para seu hotel em Cannes, toma a direção de... St-Paul-de-Vence!

 

 

Mesmo amarrotado, com desodorante vencido e barba por fazer, o blogueiro de viagem nunca sabe o dia de amanhã. O que o blogueiro de viagem sabe é que, se investir duas horinhas nessa linda cidade murada, debruçada na serra, a 30 minutos de Nice ou de Cannes, ele vai garantir um post bonitinho para sua fiel audiência, pronto para ir ao ar o mais rápido possível.

 

(O blogueiro de viagem ainda não sabe que o seu laptop não se entenderá de jeito nenhum com a rede wi-fi do hotel, e que este post vai demorar quase dois dias para ir ao ar. Mas não vamos tocar neste assunto agora.)

 

 

Ao chegar a St.-Paul, o blogueiro vê que a entrada da cidade continua do jeito que estava da última vez, com uma praça (que serve de cancha de boules) e um café (que serve de arquibancada). Boules é uma variante provençal do jogo de bocha, em que a cancha não tem limites muito definidos. Os jogadores atiram a bola para qualquer lado, e os outros têm que ir atrás. Um pouco parado pro meu gosto. Enfim, uma espécie de golfe no saibro, digamos assim. Ou não.

 

 

 

Ei. Peraí. Não pode ser. Gente! Olha aquele ali na foto da direita, aqui em cima. E o mesmo que está de costas na foto grande. Atenção Hola! Atenção Hello! Alô Paris-Match! Localizei um filho perdido do Picasso na Côte d'Azur! É ELE!!!

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h32
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Picasso foi apenas um dos inúmeros pintores e escultores modernistas que viveram por essas bandas ensolaradas da França na primeira metade do século passado. Ainda pobres e desconhecidos, alguns deles pagaram com quadros por cama e comida num hotel que até hoje funciona nesta praça. Hoje, contudo, quem quiser comer e dormir rodeado por Picassos, Matisses, Chagalls e Modiglianis vai ter que pagar caríssimo. (Lamento informar que não, o Colombe d’Or não trabalha mais com sistema de permuta.)

Mas ninguém precisa cacifar o Colombe d’Or para ver arte de primeira em St-Paul. A duzentos metros da cidade fica o mais bonito museu de arte moderna da França, a Fondation Maeght. Fico devendo as fotos, porque desta vez o museu já estava fechado na hora em que cheguei. Mas não vá embora deste post sem dar uma passadinha no site da Fundação.

 

Chegue a St-Paul num entardecer, e você certamente vai cruzar com um tipo de excursão inusitada: a excursão bem-vestida. Gente que está participando de alguma convenção chique na Côte d’Azur, e que, depois de um almoço ou antes de um jantar num restaurante estrelado no Guia Michelin, é trazida de busão para dar um rolê pela cidade murada.

 

Não tem erro. Seja qual for o seu problema – um grupo de executivos americanos em convenção de board, uma tarde livre entre Mônaco e St-Tropez ou um blog de viagem para atualizar –, St-Paul-de-Vence resolve. Em meia horinha você monta um álbum completo de fotos da Provence para mostrar em casa.

 

 

(Antes que alguém queira que eu prove da minha própria ranzinzice: sim, eu sei que em português se diz Provença. Sei que existe, mas nunca fui. Eu só conheço a Provence, mesmo. Se você quiser, eu posso tentar escrever “Provãs”. Mas Provença, desculpe, j’ peux pas.)

 

 

(Continua no post abaixo)



Escrito por Ricardo Freire às 11h28
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O problema de St.-Paul-de-Vence (claro que há um problema. Sem problema não existe post. Se o blogueiro de viagem não achar nenhum problema, ele fabrica um) é que, depois de cinco minutos, você percebe que tudo é bonitinho demais, perfeitinho demais, provençal demais. Lá pela décima loja você se dá conta de que não sobrou uma portinha sequer que venda coisas ou preste serviços que tenham alguma utilidade para pessoas que porventura ainda morem por ali. Será que alguém ainda mora por ali? Digo: afora os gatos e o filho perdido do Picasso?

 

 

Bobagem. O que não deve faltar nesta região são cidadezinhas bem mais autênticas – e bem menos bonitas. No fim das contas, sair do aeroporto direto para St-Paul-de-Vence acabou se revelando um programa muito bacaninha. Quando o blogueiro de viagem desfez as malas no hotel, parecia que já estava há uma semana no Sul da França.

 



Escrito por Ricardo Freire às 11h27
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Cité Alerte

Eu atravessei o oceano. Fiquei de molho por quatro horas no aeroporto de Zurique à espera da minha conexão. Meu vôo chegou no terminal secundário do aeroporto de Nice. A fila no pequeno guichê da Avis do terminal secundário era enorme. Finalmente, quando deram o contrato na minha mão, me informaram que eu teria que trocar de terminal. Lá fui eu pegar o ônibus do aeroporto. Quinze minutos depois, no terminal principal, outra fila para pegar a chave do meu carro alugado. Chave? Fala sério: você chama ISSO de CHAVE?

 

 

Mon Dieu, chave de carro na França é que nem chave de quarto de hotel. Ou cartão de caixa eletrônico. É horrível. Não dá para virar a chave – o cartão – para dar a partida. Tem que apertar o botão START! Vem cá: isso é um Scénic ou uma Vespa?

 

 

Mas eu só saberia disso um pouco mais tarde. Antes de descobrir como ligar o carro eu precisei ler um aviso que tinha sido posto no painel do carro. Em inglês! "Precaução para usuários de carros alugados", dizia o título.

 

E o texto: "Devido aos padrões de criminalidade no Sul da França, as seguintes precauções são recomendáveis". Tipo: não deixar o passaporte no carro, não deixar bagagem visível, viajar com os vidros fechados e as portas trancadas. Olha só que absurdo! Aqui no Sul da França a criminalidade atingiu um padrão tão violento que é preciso rodar de vidros fechados e portas trancadas! Ainda bem que eu vou ficar aqui só seis dias. Como diria o Ancelmo Góis, viver num lugar assim deve ser barra!



Escrito por Ricardo Freire às 18h51
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I - Malas com alça

O corpo humano do turista se divide em: cabeça, tronco e malas.

Não existe objeto mais consciente da própria importância do que uma mala. Malas são idiossincráticas. Malas são abusadas. Malas empacam. Malas não fecham. Malas querem ser carregadas.  Malas se perdem mais do que criança em praia lotada. Não há dúvida: malas têm vida autônoma e independente, e foram postas neste mundo apenas para atazanar nossas viagens.

 

Existem três tipos básicos de malas. A mala grande, a mala de mão, e a mala que você compra no último dia para caber tudo o que comprou. Vamos a elas.

 

A mala grande

Você e sua mala grande valem por um casal. Sem direito a lua de mel. Basta uma mera corrida de táxi, e você já está colocando algum apelido carinhoso na sua companheira de viagem. Treco. Troço. Traste. Negócio. Estrupício. Trem. Jamanta. Disque-Entulho. Lurdinha. (Do francês lourde: pesada.)

           

É possível dar um jeito neste relacionamento. Em primeiro lugar, descubra se vocês dois foram realmente feitos um para o outro. Examine sua mala. Veja se ela tem as seguintes características:

• Ela é durinha?

• Ela tem tela divisória?

• Ela tem rodinhas?

• Ela tem alça longa, de preferência retrátil, para poder ser puxada feito carrinho de feira?

 

Se ela não for 100% assim, separe-se dela imediatamente. Vocês nunca deveriam ter viajado juntos; não admira que você e ela vivam se agredindo mutuamente. Tsk tsk tsk.

           

Compre imediatamente uma mala igual a esta que eu descrevi. Tenha coragem e escolha uma cor bem cheguei — amarelão, azulão, vermelhão — para que sua nova mala grande não se confunda com as milhares de malas pretas, discretas e gêmeas que aparecem na esteira. Mas não espere até a próxima viagem para comprar: na véspera da próxima viagem você vai estar tão ocupado e tão cheio de gastos imprevistos, que nunca vai se lembrar deste conselho. Compre já. Aproveite seu próximo programa mala, e por associação de idéias inclua a compra da mala no roteiro. Vai ao dentista? Saia de lá direto para comprar a mala. Almoço de família na sogra? Os shoppings agora abrem no domingo — passe antes ou depois e compre a mala. Se você está com o orçamento estourado, peça a mala de presente. De Natal, de Dia das Mães, de Dia dos Namorados. Se é para ganhar presente mala, que pelo menos seja a que você tenha escolhido.

 

A mala de mão

A melhor mala de mão é aquela exatamente igual à mala grande — PVC durinho, rodinhas, alça longa e retrátil — no modelo mais compacto que exista. (Mas, desta vez, escolha uma pretinha. Você e sua mala de mão vão ser vistos juntos a todo momento, no check-in, nas escadas rolantes, nos controles de passaporte, nas salas de embarque, dentro dos aviões, e uma maletinha laranjona pode emitir informações equivocadas sobre a sua personalidade.) É importante que você compre o menor modelo que encontrar: algumas dessas malas são um tequinho mais altas ou mais gordas que o ideal, e acabam não entrando no compartimento de bagagem de mão — ou então são apreendidas na porta do avião por comissários caxias.

 

A mala que você compra no último dia para caber todas as compras

Trata-se do popular excesso de bagagem. A mala do último dia costuma ser grande, fofa, molinha, de zíper e vários fundos falsos, com área útil equivalente a meio quarto de hotel abarrotado de sacolas de lojas. Devido ao seu estado pré-falimentar e ao caráter emergencial e descartável da mala, você compra a mais barata que achar.  Desculpe, mas este é um mico que deve ser evitado a todo custo. Até porque eu desconfio que este tipo de mala vem com um chip que aciona o sinal vermelho da alfândega. Se você é comprador compulsivo, procure se controlar antes de sair de casa, na arrumação da mala da ida. E leve uma bolsa vazia dentro da mala — ela vai ajudar você a ser mais comedido nas compras e vai chamar menos atenção do fiscal na volta.



Escrito por Ricardo Freire às 15h09
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II - Da seleção do conteúdo

Mala não é closet. Se você examinar a sua com olhos de biólogo, vai notar que as malas pertencem claramente à ordem das bolsas, não guardando nenhum parentesco com o reino dos armários e roupeiros. Pelo menos metade da sem-alcice de toda mala se deve às coisas que a gente não deveria ter empacotado nela. Não é que você vai “ter que repetir roupa”: você vai repetir roupa, mesmo que a sua mala esteja cheia de peças que você ainda não tenha usado. No mínimo, por preguiça de escolher, combinar e desamassar a roupa que está lá guardada. (Aliás, você vai descobrir como pode ser elástico seu critério de avaliação do grau de necessidade de lavar uma roupa.) Por todas essas, o conselho clássico, passado de geração a geração de viajantes, é:

Coloque sobre a cama tudo o que você acha que vai precisar — e corte pela metade.

 

Eu acrescento: se for sua primeira viagem (ou se você for chegado a um shopping) tire dois terços. Sem dó. Vá desclassificando as peças de acordo com:

• menor versatilidade; 

• mais amassabilidade; 

• mais sujabilidade.

 

O ideal é que você só carregue roupas intercombináveis — o que pode ser conseguido mesclando uma maioria de peças básicas, em cores neutras (preto/cáqui/marinho/branco) com peças que complementem o visual de acordo com finalidades específicas (social/praiano/diurno/noturno). Sapatos precisam ser muuito usados e confortáveis: sapatos novos são proibidíssimos em qualquer viagem. Se você não quer viajar com os que tem, compre os novos já e comece a amaciar desde agora.

 

Não esqueça de separar:

• seus cosméticos queridos;

• seus remédios de estimação;

• pilhas e baterias para todos os aparelhos que você estiver levando;

• um guarda-chuvinha retrátil, desses de camelô mesmo;

• uma capinha de chuva (ou uma gabardine, para levar no braço);

• lista de telefones de emergência (dos seus cartões de crédito, do seu agente de viagem, dos hotéis onde você vai se hospedar);

• fotocópia das primeiras folhas do passaporte.



Escrito por Ricardo Freire às 14h58
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III - Da arrumação da mala de mão

Comece sempre pela mala de mão. Pense nela como uma bóia salva-vidas. Ela precisa conter tudo o que você precisaria num intervalo de 24 horas caso extraviem a mala grande que você despachou. (Sim, é comum extraviarem a sua mala grande, principalmente em vôos com escalas ou conexões. Na imensa maioria dos casos ela é encontrada, e em um ou dois dias a companhia aérea se encarrega de entregar no seu hotel.) Por isso, tenha sempre na sua mala de mão:

• todos os documentos e objetos de valor;

• uma nécessaire com seus cosméticos queridos e remédios de estimação;

• uma muda de roupa íntima, meias e blusa/camisa;

• alguma peça específica de roupa que você teria que vestir no primeiro dia do outro lugar (suéter/biquíni/gravata/sandálias);

• sua leitura de bordo (mas só para este trecho específico; carregue os outros livros sempre na mala grande, senão sua mala de mão vai exceder o peso confortável para você e permitido pelas companhias aéreas).

 

A mala de mão não deve carregar nada do que deveria estar na mala grande. Se na ida  ela já estiver funcionando como mala auxiliar, é porque você está levando o dobro do que deveria. Volte para a primeira casa e comece tudo de novo.



Escrito por Ricardo Freire às 14h56
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IV - Da arrumação da mala grande

A primeira coisa a ser posta na mala são as calças: rentes ao “chão”, no sentido horizontal, com metade das pernas saindo para fora da mala. Posicione uma calça com as pernas para um lado, e a calça seguinte com as pernas para o lado oposto. (Vestidos também podem se beneficiar da mesma técnica.)

 

Coloque em seguida as camisas (dobradas não na metade exata do comprimento, mas um pouco abaixo do botão que sinaliza a sua cintura), saias e bermudas.

Então, traga as pernas das calças para dentro da mala, ensanduichando as outras roupas. 

 

 

 

 

Arrume os livros e guias e aparelhos diversos (os mais frágeis, enrolados em camisetas ou roupas de baixo) no “chão” do outro lado da mala. Coloque as meias dentro dos sapatos, guarde os sapatos nos saquinhos de pano em que eles vieram (ou em sacos de plástico), e ajeite contra a “parede” superior e inferior da mala, nos espaços deixados pelo “sanduíche de calças”. Preencha os vazios com sua roupa de baixo. Por cima coloque as camisetas e blusões — dobrados, nunca enrolados. Prenda com a tela divisória. No decorrer da viagem, use a tela para separar a roupa suja da roupa limpa. E seqüestre como souvenir o saquinho de lavanderia do primeiro hotel em que você ficar, para servir de cesto de roupa de baixo suja.

 

Se possível, leve um blazer ou casaco só, e suba com ele no avião. Se você precisar levar mais de um blazer ou casaco e não quiser carregar uma maleta-cabide, faça assim: vire o blazer pelo avesso (menos as mangas), e dobre duas vezes: uma na vertical, outra na horizontal. No dia de usar, pendure num cabide, coloque no banheiro, ligue o chuveiro no mais quente e deixe o vapor desamassar seu blazer (ou qualquer outra peça de roupa).

 

Importante: se a sua mala estiver abarrotada antes de você sair, é porque você está levando coisas demais. Ninguém precisa de duas calças jeans se já está levando uma cáqui e outra preta. O maître de um restaurante nunca vai saber que você foi com aquela mesma roupa no restaurante de anteontem. E se você levar mais do que um sapato preto, outro marrom e um tênis ou sandália, já começa a se candidatar a Imelda Marcos. Caso você esteja de partida para o inverno do mundo dito civilizado, em vez de se vestir em um milhão de camadas (que ocupam um espaço danado na mala), considere investir num bom sobretudo quando chegar lá.



Escrito por Ricardo Freire às 14h55
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V - Da maior utopia de um viajante

Viajar sem bagagem. Sonhe com isso (da próxima vez que você conseguir pegar no sono num avião).



Escrito por Ricardo Freire às 14h52
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Próxima parada: Côte d'Azur

Não estava previsto; foi só na semana passada que eu fiquei sabendo que me mandariam a Cannes. Vou a trabalho, para o festival de publicidade – mas sempre deve rolar alguma coisinha postável por aqui. Antes de sair para o aeroporto, ainda vou publicar o capítulo sobre arrumação de malas do Viaje na Viagem de papel (se tudo der certo, ilustrado por fotos estreladas pela minha nova e poderosa Samsonite). Té já.



Escrito por Ricardo Freire às 09h09
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Lugar de resort

O Hotel do Frade, em Angra, foi o primeiro resort do Brasil, aberto em 1972 (naquele tempo, claro, ainda não se falava "resort" para descrever um hotel de lazer). Depois dele, outros se instalaram na mesma região – os maiores são o Portobello e o Club Med, em Mangaratiba; e o Blue Tree Park e o Pestana Bungalows, em Angra. Existe ainda um enorme Meliá sendo construído, também em Angra. Os estilos podem ser diferentes, mas todos esses resorts têm algo em comum: as chuvas abundantes da região da Costa Verde (que não seria "verde" se não fosse tão generosamente regada por São Pedro).

Demorou, mas os resorts finalmente descobriram o outro lado da costa fluminense: a Região dos Lagos, que é muito mais árida – e, por isso, muito mais apropriada a hoteizões de praia. Ano passado, o Blue Tree anunciou a construção de um resort em Rio das Ostras (a primeira cidade passando Búzios). Ontem foi a vez do Club Med informar que seu quarto resort brasileiro vai ter como endereço a última praia de Cabo Frio antes de Búzios. Segundo o Globo de hoje, trata-se de um empreendimento de Ricardo Amaral que conseguiu enquadramento na legislação de uma área de proteção ambiental.

Para quem não é lá muito fã de resort, como eu, a notícia da construção de dois resortões na Região dos Lagos embute, de qualquer maneira, uma boa perspectiva: talvez quem sabe dê para de repente sonhar com algum vôo direto entre São Paulo e Cabo Frio – que permitiria ao paulistano dar seus pulinhos em Búzios. (Dá para voar direto de Buenos Aires a Cabo Frio; mas de S