Itaúnas: arrasta-pé-na-areia
A madrugada já ia alta de domingo para segunda. Se me perguntassem, eu não saberia dizer a hora exata, porque perdi meu celular, provavelmente no raio-x do aeroporto, e com ele lá se foi meu relógio. Só sei que no palco se apresentava o jovem trio Dona Zefa – três irmãos, filhos de uma mulher chamada Zefa mesmo – que no ano passado tinha vencido o IV Festival Nacional do Forró de Itaúnas, e por isso foi convidado para fazer o show de abertura do V Festival, este ano. Mas como eu ia dizendo, eu estava mesmo precisando saber as horas, quando o mestre de cerimônias do Bar Forró apareceu no palco, pegou o microfone e anunciou:
- Agora são... deixa eu ver... 4 e 59. Vocês têm mais... um minuto!
 
Os meninos do Dona Zefa ganharam o festival do ano passado e abriram o deste ano, que vai até domingo
Fez uma pausa protocolar, olhou para os meninos do trio, emendou:
- Está bem. Vocês podem tocar mais... vinte minutos.
E, antes que alguém tivesse tempo de insistir:
- Meia hora. Vocês podem tocar mais meia hora.
Se deixassem, o forró de Itaúnas ia até o sol raiar. E continuava. E atravessava o dia. E virava rave de forró. Mas a Justiça determinou que o forró acabe no máximo às 5 da manhã, dando ao pacato cidadão itaunense uma hora de escurinho para tentar pegar no sono.
 
Mestre Zinho é uma das atrações do Festival; neste fim de semana tem Dominguinhos
Itaúnas tem forró o ano inteiro – mas quando é só para consumo interno, o fole ronca praticamente acústico, no simpático, porém acanhado, Forró do Coco. Os mega-bate-coxas com volume no talo acontecem nos dois forrós maiores, o Bar do Forró e do Buraco do Tatu, nas épocas em que a vila é tomada pelas hordas de forrozeiros de fora – em janeiro, no carnaval e em julho. Não por coincidência, férias escolares. Você já ouviu a expressão "forró universitário", designando a onda de forró que de uns anos para cá tomou conta da garotada alternativa de classe média? Pois anote aí no seu caderno: Forró Universitário – capital, Itaúnas.
Às 5 e meia em ponto, decorrida a prorrogação e cobrados os pênaltis, o mestre de cerimônias voltou ao palco para dar por encerrada a noite no Bar Forró. Mas não sem discurso.
- Algum dia seremos livres novamente para tocar e dançar forró até a hora que a gente bem entender!

Essa questão da hora-que-a-gente-bem-entender é bastante interessante. Apesar de ficar a apenas 280 km de Vitória – mais ou menos a distância entre São Paulo e Paraty –, a vila praiana de Itaúnas, na divisa do Espírito Santo com a Bahia, funciona num fuso horário todo seu.
Em época de forró, às oito da noite, quando o resto do Brasil se prepara para assistir ao Jornal Nacional, meia Itaúnas vai dormir.
Entre meia-noite e duas da manhã, quando o país se deita, em Itaúnas ouvem-se rádios-relógios e celulares apitando nas pousadas, nos campings e nas casas de temporada. É hora de levantar e ir para o forró.
Às seis da manhã, o relógio de Itaúnas volta a coincidir – por poucas horas – com o relógio do Brasil, e a rapaziada toma café da amanhã ao mesmo tempo que seus pais e avós que ficaram em Vitória, Belo Horizonte, Rio ou São Paulo.
Aí, quando em outras cidades litorâneas os turistas se aprontam para pegar uma praia, os forrozeiros de Itaúnas se preparam para encarar uma cama.
Senhores passageiros: Itaúnas dá jet lag.

(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 10h15
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A hora do almoço no Brasil é a hora de ir à praia em Itaúnas. Mas as areias só lotam mesmo às duas da tarde – que é quando começa o forró de frente para o mar.
Ir à praia significa sair da vila, atravessar a ponte sobre o Rio Itaúnas, caminhar uns dez minutos pela estradinha de terra, e então encarar o personagem que determinou o destino da vila: a Duna. Passou filtro solar? Então vamos.

Sobe!
Na década de 40 do século passado, a Duna, que é móvel, começou a soterrar o vilarejo, então localizado na margem norte do rio Itaúnas. Lentamente a areia foi entrando nas casas e devorando terrenos. O primeiro lugar importante que a Duna soterrou foi o cemitério. Uma maquete da cidade antiga, em exibição no Centro de Visitantes, mostra que a cidade chegou a ter um "cemitério novo" – que também acabou debaixo da montanha de areia, junto com a igreja e todas as outras casas. Pois bem: não é exatamente por cima disso que você passa nos dez minutinhos que leva para atravessar a Duna – mas ninguém precisa lembrar desse detalhe nessa hora.

Primeiro andar, areia e céu

Segundo andar, nesgas de mar

Terceiro andar, vista para as barracas

Desce!
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 10h05
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Lá embaixo, sete barracas disputam a preferência dos andarilhos. Algumas, como a Barraca do Itamar e a Barraca do Zeka, se esmeram na cozinha e aceitam cartão de crédito.
 
O camarão com moranga é do Itamar; o peixe com alcaparras é do Zeka, e foi dica de uma leitora do blog.
A conjunção do pé-de-serra com o pé-na-areia, no entanto, se dá naquela que talvez seja a mais rústica da classe: a Barraca do Coco, a filial praiana do Forró do Coco, o tal forró simplesinho dos nativos da vila. Ali, em vez de serviço de bordo, oferece-se sanfona, zabumba e triângulo até o anoitecer.

A banda que abre os trabalhos, às duas em ponto, é formada pelos filhos do dono da barraca – mostrando aos universitários que forró, por aqui, se aprende no maternal.

Enquanto a azaração rola na areia, o chão do quiosque vira um salão de baile. Foi ali que notei a prática daquela que talvez seja a modalidade de dança mais arriscada para execução em público: o forró de sunga. Um perigo!

Por isso eu vou na casa dela, ai ai, falar do meu amor pra ela, ai ai
 
Ói eu aqui de novo xaxando, ói eu aqui de novo para xaxar
 
Ah ah ah ah, mas eu tô rindo à toa
  
Vem morena pros meus braços, vem morena vem dançar, quero ver tu remexer, quero ver tu requebrar

Um xodó pra mim do meu jeito assim que alegre o meu viver
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 10h02
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"O Nordeste começa aqui", eu li uma vez no folheto de um hotel dos arredores da vila, e nunca mais consegui escrever sobre Itaúnas sem usar esta frase. (Manja as tais "42 praias" de Floripa, que sempre estão no primeiro parágrafo de qualquer matéria de viagem sobre a ilha? Ou o clichê "uma das 10 praias mais bonitas do mundo segundo o Washington Post" nos textos sobre Jericoacoara?) De fato, Itaúnas é parente próxima de outras vilas de praia do sul da Bahia, como Caraíva (Itaúnas é mais certinha) e Cumuruxatiba (Itaúnas é mais rústica). As dunas correspondem mais à imagem que temos de Nordeste do que do Espírito Santo; e o ritmo oficial da vila, como se sabe, nasceu no sertão de Pernambuco.

A praia, para o meu gosto, só tem um defeito: a cor do mar, que nos melhores dias de verão consegue um tom bege-azulado, e agora no inverno praticamente se tinge de marrom. Se bem que, no auge da temporada de forró, há muitas coisas mais interessantes para onde dirigir o olhar ;-)

De todo modo, adorei descobrir duas grandes qualidades da praia propriamente dita que tinham me passado despercebidas até hoje.

A primeira tem a ver com a época: o sol de inverno por aqui é delicioso – não arde, nem sequer esquenta a areia. Atravessa-se a duna sem o menor sacrifício (no verão você precisa tomar uma cerveja imediatamente ao chegar ao quiosque, apenas para recobrar os sentidos). À noite dá para dormir de cobertor (mas o ar-condicionado continua útil, caso você precise abafar o som do forró).

A segunda grande qualidade cuja ficha só me caiu agora é que, dois pontos: Itaúnas é o único lugar de praia famoso por suas dunas que não permite bugue. Dunas sem bugue – uhuuu!!! Sem sandboard. Sem esquibunda. Itaúnas é totalmente esquibunda-free! Agüenta essa, Natal.

(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 09h49
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Casa arrombada, tranca de ferro: em 1991, três décadas depois de a Duna acabar de soterrar totalmente a vila original, Itaúnas ganhou um Parque Estadual para preservar o que restou de seu ecossistema – e, por que não, prevenir novos desastres naturais.

A praia está dentro dos limites do parque, que também abrange manguezais, alagados e trechos de Mata Atlântica. Por isso é proibido o tráfego de veículos automotivos pela Duna; até os quiosqueiros transportam bebidas e alimentos em carroças puxadas por burros.

Existe uma história deliciosa, que confirma a postura implacavelmente ecológica da administração do parque. No verão de 2004, um helicóptero sobrevoou a praia e baixou na Duna. Cercada por guarda-costas, desembarcou uma americana identificada por todos como Angelina Jolie. Quinze minutos depois, funcionários do parque mandaram a trupe catar seu helicóptero e voltar para Salvador, ou a Hollywood, se preferissem. Diz-que a Jolie teria declarado à imprensa: "Sou bem-recebida em todo lugar, fui expulsa de uma praia no Brasil". O único furo dessa história é que ela não deixou vestígios na Internet.
Quer dizer: a partir de agora, quem googlar "Angelina Jolie" e "Itaúnas" vai achar esse texto aqui ;-)

(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 09h43
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Essa postura "eco" sem dúvida tem ajudado Itaúnas a administrar seu crescimento sem se descaracterizar demais. Na primeira vez que visitei a vila, em 99, o telefone era praticamente a lenha, e só havia ar-condicionado em uma pousada. Nos últimos cinco anos, a vila assistiu à chegada da telefonia moderna, à disseminação do ar-condicionado e até ao aparecimento, aqui e ali, do cartão de crédito – mas não perdeu o seu jeitão alternativo.
 
Eu, que só tinha passado por Itaúnas fora de temporada, fui agradavelmente surpreendido pela tranqüilidade da vila durante o Festival de Forró. A explicação talvez esteja no fato de os forrozeiros serem uma tribo muito mais sossegada do que roqueiros ou micareteiros. Pensando bem, se você exagerar na xiboquinha (cachaça com cravo, canela, limão, gengibre e ervas), no cipó-cravo (cachaça curtida numa erva da região) ou na catuaba (uma mistura de vinho de maçã com guaraná e otras cositas más), cadê a coordenação motora para forrozar? Até onde eu pude ver, o pessoal pega leve no mé (e no fumacê) para poder arrastar pé sem moderação.
 
Todos os visitantes parecem caber dentro dos dois grandes forrós, que se revezam: a cada noite abre um. Na segunda metade de julho o esquema muda um pouquinho: na terceira semana o Buraco do Tatu funciona todas as noites, com o Encontro Nacional do Forró Pé-de-Serra. Na última semana – que vai até domingo agora – é a vez do Bar Forró abrir todas as noites, por conta do Festival Nacional de Forró. A cada noitada cinco grupos competem pelo título, ou pelo menos pela chance de figurar no CD com as canções finalistas. No fim da maratona se apresentam dois nomes consagrados – neste fim de semana, a atração maior será Dominguinhos.

O Buraco do Tatu tem dois ambientes. Na pista coberta, dá para ouvir o xilépi-xilépi do arrasta-sandália.
Está bem. Eu conto o que você quer saber. Não, não dancei. Não sei dançar forró. E não era ali, no meio daquela garotada que dança môôôito, que eu ia aprender. Da próxima vez que eu for, faço um curso de danças de salão antes e daí mando ver.
Na minha última noite – segunda-feira – procurei voltar ao fuso horário paulista. Fui dormir cedo. Liguei o ar condicionado para abafar o som e pegar no sono. Botei o despertador para as 6 e meia. Acordei, desliguei o ar. Abri a janela, o dia estava claro. E então notei que, bem ao fundo, dava para perceber uma zabumba desconjuntada que não parava de tocar.
Me vesti e fui atrás do som. Na ponte do rio Itaúnas, um grupinho se recusava a encerrar os trabalhos da noite anterior. Quer dizer: o sanfoneiro já tinha desistido, mas a zabumba e o triângulo continuavam na ativa, e pelo menos um casal insistia em dançar.

Quando eu estava saindo da ponte para voltar à pousada, um nativo passou de bicicleta e comentou:
- Mas esses cara não enjoa de forró, não?
É julho em Itaúnas. Esses cara não enjoa, não.

Mais Itaúnas na Internet:
Guia Itaúnas
Casinha de Aventuras
Bar Forró
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 09h32
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Itaúnas chic
Eu sei, Itaúnas é, por definição, um lugar alternativo. Eu sei, os campings cobram 6 reais por pessoa, e dá para arranjar pousadinhas por até 30 reais a diária para casal. Mas este blog não seria este blog se não abrisse um post à parte para falar da pousada mais bacana de Itaúnas.
 
Sim, Itaúnas tem sua pousada de charme. Ela se chama Casa da Praia, funciona há dois anos, e custa uma fortuna para os padrões itaunenses: 120 reais a diária de casal, na alta temporada. Mas em nenhum lugar de praia do Brasil você compra tanto bom-gosto por apenas 120 pratas.
 
A dona, Ayunes Lourenço, a Tuca, é uma dentista de Bauru que se apaixonou pelo lugar e conseguiu um terreno à beira-rio. Adaptou a casinha que havia lá e fez um varandão agradabilíssimo. O projeto da ala de apartamentos lembra muito a Pousada do Quadrado, em Trancoso. (Por sinal, a Casa da Praia não faria feio em Trancoso – muito pelo contrário.) E este ano, inaugurou uma terraço com vista para a duna que é o luxo dos luxos. Digo: o luxo rústico dos luxos rústicos.
 
Não existe pouso mais gostoso para quem está subindo de carro para o Sul da Bahia. Só tem um problema: venha com tempo sobrando, porque talvez você demore para seguir viagem.

Internet: www.casadapraiaitaunas.com.br
Escrito por Ricardo Freire às 09h27
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Amanhã, sem falta: Itaúnas
Senhores passageiros: ainda não consegui terminar de editar o material. Eu sei, eu falei que o post ia estar pronto depois do almoço, mas não rolou. De todo modo, de amanhã cedo não passa.
Enquanto isso, continua no ar o trailer...




Escrito por Ricardo Freire às 08h08
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Slow food na Cantareira
Você quer sair de São Paulo neste fim de semana. Você quer curtir um clima de inverno. Mas você não quer se meter no crowd de Campos do Jordão. Nem quer voltar pra casa cheirando a raclette. Então eu sei exatamente o que você quer. Você quer almoçar domingo no Quinta da Canta, na Serra da Cantareira.

Se fosse no Rio, já seria cult -- como qualquer um daqueles restaurantes de Vargem Grande ou Guaratiba. Acontece que São Paulo que é bem mais devagar para reconhecer lugarzinhos fora do circuito. Não tem problema. Devagar, neste caso, é um adjetivo bem-vindo. Porque a Quinta da Canta é um restaurante slow food.
Para começo de conversa, você demora para chegar. Nem tanto pela distância, mas pelo caminho. Moradores de São Paulo não sabem se movimentar fora de estradas e avenidonas. Se você não freqüenta a Zona Norte, em algum momento vai se perder. Mas daí é só ligar, que o chef explica onde você virou errado.
(Não é que o chef necessariamente atenda o telefone -- mas, de toda a equipe do restaurante, é ele quem sabe informar melhor.)

Chegou? Então deixe a pressa no carro. Você veio aqui para passar a tarde, como num almoço de domingo na casa de campo de amigos. Ah, esqueci de apresentar: os amigos se chamam Sérgio Lima e sua Teresa. De segunda a sexta, eles trabalham em publicidade, essa atividade em que tudo é pra ontem. Nos fins de semana, desaceleram em torno de um fogão a lenha. Sorte de quem sobe a Cantareira.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 00h46
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As boas vindas vêm na forma de uma cestinha de pães quentinhos e adocidados – de milho, de abóbora, de cenoura – que combinam à perfeição com o pote de delicella, uma pasta à base de azeite e manjericão com um toque sutil de aliche.
 
Dali a pouco, a Teresa pode vir com um amuse-gueule (diverte-goela?) fora do cardápio, mandado pelo Sérgio: por exemplo, um creme de pimentão quentinho, servido num copo de pinga.
Antes que você peça para renovar o couvert pela terceira vez, a entrada deve chegar: uma saladinha em torno de algo reconfortante, como uma terrine. (Neste fim de semana vai ser uma brandade de bacalhau com verduras orgânicas da horta do Sérgio.)
O prato que se seguirá, dali a não menos que vinte, trinta minutos, será rústico o bastante para caracterizar um dimanche à la campagne. Semana passada comi um baeckenhof alsaciano – que eu descreveria, se me permitem, como uma espécie de cozido, só que assado ;-). Divino.

O menu sempre traz pelo menos duas opções; esta semana eu traçaria o picadinho cozido nas cervejas clara e escura, com lingüiça portuguesa, azeitonas pretas e farofa de banana. Nham. Mas vá devagar. De sobremesa, amanhã tem tarte tatin com sorvete. E depois disso, não dá para sair da mesa antes de pelo menos três xícaras de café orgânico (de coador).
Ai, ai. A única coisa que (infelizmente) não é slow é o entardecer desta época do ano: a noite cai abruptamente, avisando que é hora de ir embora.
Por enquanto o Quinta da Canta funciona apenas aos sábados (para grupos fechados) e domingos (para avulsos), sempre sob reserva. É impossível ir até lá e não pensar que a Teresa podia arranjar uns quartos para a gente passar a noite. Ou que o Sérgio podia descolar uma casinha mais perto para cozinhar durante a semana.
Mas acho que é só o começo. Como você sabe, devagar se vai ao longe.
  
Serviço. O menu completo, sem bebidas, sai R$ 75 por pessoa; o menu infantil – macarrão com bifinho – sai R$ 18, grátis para menores de 7 anos. Telefones para reservas: 4485-2185 ou 9688-6712. Para ver o menu completo da semana e imprimir as instruções do caminho, www.quintadacanta.com.br.
Escrito por Ricardo Freire às 00h45
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Próxima parada: Itaúnas
Amanhã parto para três noites de sanfona, triângulo e zabumba em Itaúnas, no Espírito Santo. Vou conferir o auge da temporada de forró, que começou no fim de semana passado e vai até domingo, dia 31.

Espero mandar boletins mais ou menos ao vivo – mas já vou avisando que, da última vez que passei por lá, o cybercafé da cidade usava linha discada, e era lento que só.
Antes de sair ainda subo uma dica esperta para o fim de semana nos arredores de São Paulo. Té daquiapoquim.
Escrito por Ricardo Freire às 09h32
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"Corso" Maltese
Eu não costumo publicar press releases, mas esse aqui é suficientemente esquisito para ganhar uma nota no blog. (Além do quê, coincidiu de eu ter achado o álbum para escanear as fotos.)
Negócio seguinte: a central de intercâmbio EF está montando um grupo de terceira idade para estudar inglês em Malta.
(Sim, fala-se inglês em Malta. Se bem que, até onde eu me lembro, não como primeira língua.)

La Valetta, a capital
O lugar é exótico (uma mistura de Itália com Oriente Médio), ensolarado (nesta época do ano), tem muitas praias – e é muito mais perto, por exemplo, que a Austrália. Qualquer coisa, a Sicília está a apenas meia hora de vôo.

St. Peter's Pool
Mas esse negócio de turma de terceira idade... sei não... isso tá me cheirando a bagunça, saliência e sacanagem!
Escrito por Ricardo Freire às 07h32
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Diagnosticado, enfim
O caderno de viagem do Estadão de hoje traz uma matéria interessante sobre a TPV, Tensão Pré-Viagem, terrível mal que acomete pessoas às vésperas de pegar a estrada, entrar num avião ou desembarcar em lugares desconhecidos.
Gostaria de mandar um muito obrigado ao Estadão e, em particular, ao autor da matéria, Fábio Vendrame. Graças a vocês eu finalmente consegui descobrir a doença que me aflige em particular.
Senhores passageiros: sofro de TPNV – Tensão Pré-Não-Viagem.
Morro de medo de não-avião.
Tenho síndrome de pânico de ficar em casa.
Me pélo de paúra do conhecido!
Se descobrirem a cura, por favor: não me avisem.

Escrito por Ricardo Freire às 08h53
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Diarios de La Habana (2002)
Num gentil oferecimento do meu novo scanner e do arquivo de Xongas publicadas no Jornal da Tarde, aqui vai um relato ilustrado de um carnaval (nosso, não deles) passado em Cuba.
Não sei o quanto as coisas mudaram depois da última endurecida de Fidel (ternura, que é bom, jamais). Talvez um bom título para a matéria fosse "Havana, 2002: impressões de uma primavera neoliberal".
(Para ir aos sites relacionados, clique nas palavras em azul no meio do texto.)

A vista do meu quarto no Hotel Santa Isabel
Escrito por Ricardo Freire às 12h39
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I – My moheetoes, my dykirees
O carnaval em Cuba só acontece em julho. Mas quando entramos no nosso quarto no Hotel Santa Isabel – o antigo palacete do Conde de Santovena, na Praça de Armas, restaurado nos trinques –, a música que subia da rua vinha de pelo menos três direções, num convite a descer imediatamente para a noite de Havana Velha.
As últimas três horas tinham sido atribuladas. Na sala de espera do aeroporto de Cancún, os 150 passageiros de um vôo para a Cidade do México passaram quarenta minutos disputando autógrafos e fotos ao lado de uma loira de telenovela. Menos de um quilômetro depois de sair do aeroporto de Havana, nosso táxi, um Peugeot 306, acusou um pneu furado. E ao chegar ao hotel, o computador tinha engolido nossa reserva.
Abrimos as portas da sacada. A música ficou mais alta – e só então pudemos ver que o quarto que nos tinham arranjado não dava para a praça, mas para uma viela escura, que o hotel dividia com um casarão decrépito com jeito de cortiço. O visual era puro "Morango e Chocolate". A música era totalmente "Buena Vista Social Club". Eram os orixás cubanos nos dando as boas-vindas.
Eu tinha feito planos. Se conseguíssemos chegar ao hotel até as onze da noite (mesmo com o pneu furado e a pequena confusão da reserva engolida, conseguimos), a idéia era sair num tour boêmio expresso – para delimitar o território, como fazem os cachorros e os astronautas.
A Bodeguita del Medio e o Floridita são o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor de Havana: seus maiores (e incontornáveis) clichês turísticos. "My mojitos in La Bodeguita, my daiquiris in El Floridita", escreveu Ernest Hemingway (um personagem quase tão cultuado na ilha quanto Fidel). Fazer do mojito da Bodeguita e do daiquiri do Floridita meu primeiro mojito e meu primeiro daiquiri em Cuba era a única maneira que eu via de dar algum lustro ao clichê.
 
El mojito a la izquierda; el daiquirí a la derecha
Nas quatro ou cinco quadras entre o hotel e a Bodeguita, tivemos que resistir a pelo menos três bares com música ao vivo. Eu ainda não sabia que dali a quatro dias teria exaurido completamente minha capacidade de tolerar "Guantanamera", por isso vou poder guardar para sempre aquele encantamento inicial de caminhar por um lugar com tanta boa música em oferta.
(A última vez que tinha me sentido assim foi há quase vinte anos, numa sexta-feira de carnaval em Olinda, em que os foliões eram tão poucos que dava para ouvir as orquestras de frevo.)
A 3 dólares o copo, o mojito da Bodeguita custa 1/3 do salário mínimo do país; a única maneira de ver um cubano do lado de cá do balcão é convidando um. Mesmo assim, a Bodeguita tem um charme e uma autencidade difíceis de encontrar no resto de Havana Velha, cujos bares para turista – eu veria nos dias seguintes – abusam um pouco da cenografia.

No fim da noite, sem nenhuma excursão saindo pelo ladrão, a Bodeguita é um boteco adorável – eu ficaria tomando meus mojitos até o lugar fechar, se minha missão de cachorro astronauta não me obrigasse a estender meu território até o Floridita. Durante apenas um mojito, no entanto, foi possível apreciar o manuscrito de Hemingway (my mojitos, etc.), o pôster autografado de Diego Maradona e o cartaz informando dos franchises da Bodeguita na Cidade do México e em Puerto Vallarta.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 12h32
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Da Bodeguita ao Floridita são mais umas seis ou sete quadras, de preferência pela calle Obispo, que é a rua do footing de Havana Velha. Ali, turistas de bermuda se misturam com os nativos – que, com a desculpa de que estão fazendo footing, aproveitam para oferecer informações, charutos, mulheres, ou todas as alternativas anteriores.

Se o Bodeguita é o protótipo do botequim, o Floridita é o bar americano por excelência, conservado como um museu desde os anos 50. A única coisa que parece ter mudado por ali é o daiquiri – que agora é feito com gelo, no liquidificador. (Para tomar o tradicional, peça um "daiquiri antiguo". Se quiser sem açúcar, e com o dobro de rum, à maneira de Hemingway, peça um "Papa Doble".)
A 6 dólares por taça, o daiquiri do Floridita custa 2/3 do salário mínimo nacional. Por isso, a única maneira de ver um cubano do lado de cá do balcão é convidando um. Mesmo assim, o Floridita tem um charme e uma autenticidade difíceis de encontrar no resto da etc. etc. etc.
Pronto. Sobrevivemos aos clichês. No dia seguinte, estávamos livres para descobrir Havana.
(Continua no próximo post)
Escrito por Ricardo Freire às 12h28
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II – Sinta-se em casa
É muito fácil se apaixonar por Cuba: basta gostar do Brasil. Se os historiadores não nos provassem de outra maneira, daria para supor que algum cataclisma geológico tivesse feito o território cubano se desgarrar do continente (à altura da Bahia, provavelmente) até parar em sua latitude atual, no Caribe.
Sabe aquela sensação de não pertencer à América Latina que nos sobrevém toda vez que visitamos um país da América Latina? Em Cuba isso não acontece. Na Argentina e no Chile nos sentimos bárbaros, no Peru e no México nos sentimos marcianos, mas em Cuba estamos em casa.
Em Cuba descobrimos que não somos tão esquisitos assim; que temos companhia nesse mundo. Cuba nos oferece um espelho que não encontramos nem mesmo em Portugal.

Essa identificação é muito fácil de explicar. Brasil e Cuba foram civilizados pela mesma potência colonial: a África – que acabou se mestiçando, lá e aqui, a sucessivas levas de europeus transplantados a contragosto.
Não é só porque o prato nacional daqui e de lá seja o arroz-com-feijão, ou porque os orixás da santería sejam os mesmos do candomblé, ou porque as nossas músicas populares sejam as únicas do planeta a fazer páreo à melhor música americana.
É por tudo isso – e mais alguma coisa no ar. O fato é que há muito mais “brasilidade” em Cuba do que no Rio Grande do Sul. Ou em São Paulo, for that matter.
Escrito por Ricardo Freire às 12h26
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Um observador mais cínico (eu, por exemplo) poderia dizer que os dois países estão passando por um momento econômico muito parecido.
A situação atual de Cuba é a seguinte: depois de privatizar setores estratégicos da economia, como as telecomunicações e o turismo, abrindo o país ao capital multinacional e ao livre repatriamento de lucros, as condições de vida do povo cubano melhoraram sensivelmente (em comparação chamado Período Especial, logo depois do colapso da União Soviética, quando não havia comida nem combustível).

Ao mesmo tempo, a desigualdade social não pára de aumentar. A dolarização de fato da economia – não, não foi o FMI quem mandou – faz com que o salário mínimo do país (200 pesos cubanos, ou 9 dólares) seja apenas nove vezes o valor da gorjeta (em espanhol: propina) normalmente recebida por garçons e taxistas.
A política econômica atual – que poderia ser resumida pelo slogan “Hay que dolarizar, pero sin perder la propina jamás” – faz com que a disparidade de renda entre os que ganham menos (funcionários públicos, professores, médicos) e os que ganham mais (garçons, taxistas, carregadores de mala, funcionários de joint-ventures, gente com parentes em Miami) seja uma das maiores do Ocidente.
Diante de tudo isso, um observador muito, muito cínico (eu, de novo) poderia até mesmo dizer que Cuba é, hoje, o maior laboratório de experimentos neoliberais do planeta.
A Revolución parece ter se reduzido a apenas um plano de saúde. E que plano de saúde. Fidel é um maravilhoso marqueteiro de si mesmo, e transformou a saúde e a educação em ícones de consumo. Hoje a sociedade cubana “consome” saúde e educação em níveis inimagináveis em qualquer outra parte do Terceiro Mundo.
Enquanto isso, nas ruas de Havana Velha e nas imediações dos hotéis do Vedado, os vendedores de charutos clandestinos buscam os dólares que lhes darão acesso ao consumo de outras coisas – e ajudarão a aumentar as contradições internas do sistema, até que a própria dialética marxista provoque o triunfo da contra-revolução.

Saem os carrões americanos, entra o cocotáxi
Só mesmo os mais tapados senadores republicanos não percebem que a manutenção do embargo americano a Cuba serve apenas para atrasar a chegada do dia em que os cubanos, além de um belo plano de saúde e de educação universal, terão também democracia, liberdade de expressão e de ir e vir.
Mas nós, os turisticamente incorretos, podemos dizer: que importa? Socialista ou neoliberal, Cuba é uma delícia.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 12h24
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III – RiqTours informa
Quem for a Havana com propósitos sinceros de se apaixonar por Cuba deve se esquivar dos hotéis normalmente oferecidos pelos pacotes.
O Meliá Cohiba é grande, novinho, moderníssimo – e impessoal. O Meliá Habana é tudo isso – e, de quebra, ainda fica bem fora de mão. O venerável Nacional é tocado pela casta mais antipática de funcionários públicos. Dos grandões, só o Habana Libre (era Havana Hilton antes da revolução; hoje é administrado pela rede Meliá) tem algum encanto (isto é, caso você enxergue algum encanto na hotelaria clássica americana dos anos 50).
Em matéria de acomodações, o verdadeiro tesouro cubano está escondido na parte já restaurada de Havana Velha – ou, no original, La Habana Vieja.
É ali que a Habaguanex, uma empresa comercial estatal ligada ao patrimônio histórico da cidade, vem transformando cortiços caindo aos pedaços em hotéis elegantes, restaurantes charmosos, cafés agradáveis e lojas sofisticadas.
Constituída em 94 – logo depois que a Unesco tombou o centro colonial de Havana como patrimônio histórico da humanidade –, a Habaguanex é a única empresa cubana que não precisa repassar seus lucros ao Estado. Todo o dinheiro que ela arrecada no exterior e toda a receita de seus hotéis, restaurantes e lojas são reinvestidos na restauração de Havana Velha.

(Antes que você pergunte: não, não parece haver cubanos morando nos antigos cortiços restaurados. Um turista mais ou menos apressado – eu, por exemplo – diria que a parte restaurada de Havana é ocupada apenas por museus, hotéis, escritórios e flats para estrangeiros.)
É um belo trabalho, executado com mão-forte e rigor nos detalhes pelo “historiador de la ciudad”, Eusebio Leal – descrito, num site dissidente, como “el dueño de La Habana”, por desalojar a sangue-frio os moradores dos cortiços e depois entregar as jóias restauradas ao turismo internacional.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 12h20
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Insensibilidade social à parte, La Habana Vieja é um turistódromo dos mais charmosos que se podem encontrar por aí – um Pelourinho com upgrade, um Recife Antigo mais bacana, uma Lapa classuda.
A parte restaurada e esterilizada de Havana Velha é toda voltada para o terminal marítimo de Sierra Maestra, onde aportam os cruzeiros internacionais. Dali os turistas podem facilmente se esparramar pelo corredor (meia-lua talvez fosse um termo mais apropriado) formado por quatro “plazas”: Vieja, San Francisco, de Armas e de la Catedral.
Os restaurantes e bares com (ótima) música ao vivo se sucedem quarteirão depois de quarteirão. Na Calle Mercaderes, lojas finas – de charutos, perfumes, livros raros, objetos orientais – são cenografadas para você se sentir no início do século (passado). O clima é um tanto quanto disneyano, mas sem aquele mau-gosto americano (taí um aspecto positivo do embargo).
Os únicos a se beneficiarem em tempo integral dessa Havana cenografada são os turistas que abrem mão da piscina e do vidro fumê dos novos hotéis internacionais e reservam com antecedência um quarto num dos palacetes de Havana Velha restaurados pela Habaguanex.
Quase todos têm pátio espanhol, com fontes e plantas, e decoração a um tempo rústica e charmosa. O mais bonito é o Hotel Santa Isabel, antiga residência do Conde de Santovena, que domina a Plaza de Armas. Ali perto, na Calle Obispo – já na zona “misturada” de Havana Velha, freqüentada tanto por turistas quanto por nativos – fica o Hotel Florida, menos colonial e mais europeizado que o Santa Isabel.


Hotel Santa Isabel, na Plaza de Armas
O mais sossegado de todos é o Hostal Conde de Villanueva – autodenominado “el hostal del habano”, ou o albergue do charuto –, na chiquérrima Calle Mercaderes. Bolsos mais sensíveis podem considerar o simpático Hostal Valencia (com graffittis pró-revolução na fachada) ou ainda o austero Hotel Ambos Mundos, o preferido de Hemingway.
[Update: se bem que, da próxima vez, o que eu quero mesmo é experimentar a hospedagem em casas de cubanos. O site Cuba Particular se ocupa da burocracia.]
Mas vale a pena ir a Havana e ficar só na ilha da fantasia da Unesco? Claro que não. Vale a pena, isso sim, ficar hospedado na ilha da fantasia da Unesco – e de lá fazer incursões à vida real.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 12h19
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IV – De Habana Vieja a Miramar
Pelo menos nos (ameníssimos) dias de inverno que passamos em Cuba, o Malecón – a avenida beira-mar, construída sobre recifes, que costeia toda Havana – não deu mostras de ser a sala de estar da cidade que prometem os guias de viagem e os romances bas-fond de Pedro Juan Gutiérrez e Reinaldo Arenas.
Deserto de gente, o Malecón fica ainda mais feio e deprimente, ressaltando a decrepitude dos edifícios da orla, desgastados pela maresia e ameaçando desabar a qualquer momento.
Um dia resolvemos andar a pé, por dentro: uma hora e pouco do nosso hotel em Havana Velha até o Hotel Nacional, no Vedado. Nas quarenta quadras que percorremos, principalmente pela Calle Neptuno, vimos que o Malecón era uma vitrine fiel daquilo que escondia.

Em Habana Vieja: um prédio restaurado, outro decrépito
Centro Habana, como é conhecido este bairro entre Havana Velha e o Vedado, é uma favela de predinhos históricos decrépitos e superpovoados, de vez em quando com um boteco triste ou uma lojinha escura no térreo. A cada vinte passos, uma janelinha aberta com uma listinha de preços dependurada vende café, sanduíches ou doces em pesos cubanos.
(As nossas favelas são bem mais feias, mas em compensação os nossos botecos de favela são bem mais animados.)
No meio daqueles quarteirões em escombros, no terceiro andar de um prédio que, como todos os outros, está a ponto de ser tombado pela gravidade, e não pelo patrimônio histórico, fica o La Guarida – o mais difícil de reservar dos “paladares” de Havana.
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 12h14
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Paladar, caso você não saiba, é o substantivo cubano para “restaurante particular”. Até mesmo o seu guia em inglês lhe dirá que o nome vem de uma “Brazilian soap opera, ‘Vale Todo’” – em que Paladar era o nome da empresa de catering da Regina Duarte.

Num "paladar" comum: o arroz e o feijão podem vir separados ou juntos (moros y cristianos, o baião-de-dois local)
Por (a) ter boa comida e (b) ter servido de cenário para o filme “Morango e Chocolate”, o La Guarida é o paladar mais concorrido da cidade. Reservamos por telefone, e só conseguimos lugar para dali a quatro noites – e sob a condição de reconfirmarmos na véspera, como é praxe entre os grandes restaurantes de Nova York ou Paris.
(Acabamos perdendo a reserva, porque nosso vôo de Cayo Largo partiu bem mais tarde do que esperávamos.)
O bairro seguinte, o Vedado, tem ruas arborizadas e lindos casarões – tão decrépitos e superpovoados quanto os predinhos antigos de Centro Habana. Você pensa: será que dar assistência médica e educação universal implica necessariamente em acabar com as condições de moradia e destruir a linda arquitetura de uma cidade?
A resposta está no próximo bairro. Em Miramar, casarões neoclássicos, bem ajardinados e em impecável estado de conservação perfilam-se ao longo de uma avenida que parece a nossa Brasil – caso em vez de lojas de azulejos a Brasil tivesse embaixadas.
Nas quadras internas do bairro ficam as casas da elite cubana – gente com cargos no governo ou parentes em Miami. Os paladares mais chiques ficam por lá, além de clubes com nomes bem pouco “revolucionários”, como “Le Select”.
Meu Deus. Lá se foram quatro colunas, e eu ainda nem falei do show do Cumpay Segundo, da velhinha desdentada para quem eu paguei uma cerveja no Lluvia de Oro, da reserva no La Guarida que a gente perdeu, do cabaré kitsch do Hotel Nacional, do arroz com feijão do paladar em Havana Velha ao som do rádio tocando Alexandre Pires em espanhol, do garoto com lenço de bandeira americana e camiseta do Tio Sam que enrolava charutos na fábrica da Corona, nem do motorista de Cayo largo que dirigia o ônibus e tocava violão ao mesmo tempo.

Cayo Largo, uma ilhota a 30 minutos de teco-teco
Mas se é para encerrar a série com um moral da história, eu concluiria que, pigarro, dois pontos: essa Cuba de hoje não cabe mais nem na propaganda da esquerda romântica, nem no discurso do anticomunismo raivoso.
Um observador cínico – eu, por exemplo – diria que se trata de um lindo e charmoso país, que há 40 anos está desgraçadamente envolvido numa briguinha de comadres entre um barbudo de uniforme e um bando de senadores gagás. E quanto mais gente como eu e você viajar para lá, mais cedo essa briga sem sentido pode acabar.

Escrito por Ricardo Freire às 12h13
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As cidades mais sexy do mundo
O blog de viagem Gridskipper, um dos filhotes do Gawker, pôs no ar uma eleição das cidades mais sexy do
planeta. A votação começou ontem e vai até o dia 19, em várias categorias.

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