Meu verão de 42
De vez em quando alguém me liga pedindo dicas de onde ficar e o que fazer em algum lugar distante, ou esquisito, ou as duas coisas ao mesmo tempo. A conselho de seus astrólogos, vão passar os aniversários em lugares astrologicamente auspiciosos.

Não sei se o que a carta zodiacal de Noronha me reserva, mas não creio que pudesse escolher um lugar esteticamente mais auspicioso para passar o meu 42º. aniversário.
 

Não, não foi de propósito. Mas a coincidência fez cair uma ficha interessante.

Todos os anos, os brasileiros (que podem) gastam mundos e fundos para passar o réveillon em algum lugar muito bacana. Acreditamos sinceramente que as condições em que passamos a virada do ano influenciarão o ano que virá. Por isso o réveillon no Brasil tem esses preços estratosféricos.

De repente, melhor do que gastar uma fortuna no réveillon de todo mundo é investir no seu réveillon pessoal. Você pode até consultar seu astrólogo. Mas, se quiser uma segunda opinião, eu dou, sem nem precisar saber o seu signo: vire o seu ano em Noronha.

 
Sim, é quase tão caro quanto passar um réveillon normal numa praia qualquer. Só que você não vai estar numa praia qualquer.

Sugestão: acorde e vá direto o Sancho, lavar todos os resquícios do inferno astral naquele marzão transparente.

Eu fiz isso, e as coisas já começaram a melhorar. Olha só que coisa: quando eu cheguei hoje ao Recife, meu presente, vindo de São Paulo, já estava me esperando no aeroporto. Eita, que saudade...


Escrito por Ricardo Freire às 11h00
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Nos bastidores do Éden
Meu querido Julio Hungria me encaminhou o e-mail de uma leitora a propósito de uma notinha que ele deu no Bluebus sobre a minha expedição. A leitora sugeria que eu me afastasse do mundo das pousadas de luxo e falasse com os moradores, para me inteirar dos graves problemas habitacionais da ilha – onde casais que se separam precisam continuar morando na mesma casa por não conseguirem autorização de construir outra casa, e reformas simples, como a instalação de um banheiro, são sumariamente vetadas.
 
A Pousada do Vale fica ao lado da Vila dos Remédios e inaugurou três bangalôs duplex
Nem é o caso específico desta leitora, mas muita gente acha um absurdo existirem pousadas de luxo em Noronha, e fica revoltada de eu falar superbem delas. Mas veja bem: é como me pedir para não recomendar o Hotel Fasano só porque boa parte da população de São Paulo mora em condições miseráveis. Ou pedir para que se evite comer no Carlota porque o restaurante tem o desplante de ficar num casarão simpático cheio de janelas que dão para uma rua arborizada e charmosa – quando quase todos os outros restaurantes paulistanos funcionam em prédios fechados de ruas feias.
 
Ainda a Pousada do Vale: Internet banda larga (satélite) em todos os quartos
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 10h51
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Mas não, eu não sou tão alienado quanto pareço. Eu sei que as pousadas de luxo de Noronha não chegaram naturalmente, vindas com a maré. Entendo também o desequilíbrio que elas causam na, digamos assim, ecologia social da ilha. Do ponto de vista do uso turístico da ilha, no entanto, elas são necessárias – tanto que vivem lotadas, mesmo cobrando pequenas fortunas pela diária.
 
Das novas pousadas de luxo, a Teju Açu é a minha favorita
E isso não acontece (só) porque Noronha entrou no circuito dos bacanas e dos metidos. As pousadas de luxo são necessárias porque Pernambuco e o Brasil não podem ter no seu portfólio um lugar com a beleza de Fernando de Noronha onde o turista só possa se hospedar em casinhas de antigas vilas militares. As alternativas às pousadas de luxo seriam muito mais nocivas: um hotelzão sem-graça gerido pelo Estado ou, Deus jamais permita, um resortão administrado por alguma grande rede internacional. Se Noronha já vira um caos total nos dias em que aportam cruzeiros na ilha, imagine um cruzeiro permanentemente hospedado por lá.
 
Teju Açu: a 15 minutos de caminhada da Praia da Conceição (e a 10 minutos do Ibama)

(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 10h50
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É injusto que uns possam transformar suas casas em pousadas de luxo e outros não consigam sequer aumentar um banheiro na sua casinha? Sem dúvida. Mas isso é culpa da história da ocupação e da administração da ilha, e não dos jornalistas de turismo.

A Solar de Loronha ainda não está terminada, mas quer oferecer mais luxo do que a Maravilha
O fato é que Noronha passou de um regime autoritário (militar) para outro (ecológico). A burocracia regula tudo com zelo soviético. Tudo o que vem do continente precisa ser desembaraçado no porto, como se fosse importado de outro país. Quando a ilha foi transformada em parque, os catadores de caranguejo foram proibidos de exercer seu ofício, mesmo só sabendo fazer isso, e fazendo isso há algumas gerações. Veja bem: estamos falando de catadores de caranguejo, não de caçadores de mico-leão-dourado. Sob um regime assim, é lógico que um pequenino vá ter dificuldade para receber autorização para aumentar o tamanho da sua caixa d’água, enquanto o grande sempre vai conseguir um atalho por Recife ou por Brasília.
 
Solar de Loronha: bangalôs com móveis de hotel de cidade e TV widescreen
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 10h37
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O que aconteceu em Noronha não é muito diferente do que aconteceu no continente durante as privatizações: alguns processos foram duvidosos, mas os resultados são positivos. Graças à rapidez de Sérgio Motta, hoje a sua empregada tem telefone celular e você consegue carregar esta página cheia de fotos em banda larga. Você jogaria fora seu cartão de crédito só porque quem liberou o cartão internacional no Brasil foi o Collor?
 
Quer uma pousada charmosa pelo preço de uma pousadinha? Reserve a Colina dos Ventos
De todo modo, essa desigualdade de Noronha é uma desigualdade diferente da que estamos acostumados. Aqui não é a riqueza convivendo com a miséria – o condomínio do lado da favela. Aqui é a fartura lado a lado com a escassez; Miami vizinha de Cuba. Tomara que a pressão popular consiga estender à comunidade algumas das facilidades conseguidas pela nova elite empreendedora e seus sócios de fora.

Natureba do Cachorro: novidade charmosa e para todos os bolsos
Você não precisa cacifar uma pousada de luxo para aproveitar os efeitos do seu surgimento no ambiente da ilha. Noronha, que nunca foi um lugar pitoresco, está finalmente perdendo o seu aspecto de vila militar. Muitas pousadinhas aderiram ao programa Cara Brasileira, do Sebrae, e estão investindo em ambientação.
  
Simples e bacaninhas: Beco de Noronha, Bela Vista e Morada do Sol
Aqui e ali surgem novidades transadinhas, como o Natureba do Cachorro (que funciona no Bar do Cachorro durante o dia) e a Palhoça da Colina, que faz luaus para pequenos grupos. O prato típico da ilha não é mais o saquinho de batatinhas Ruffles: é o peixe inteiro na brasa (muitas vezes envolto em folha de bananeira), feito em cada vez mais lugares – inclusive no gostosíssimo bar Duda Rei, na praia da Conceição.
 
O Tinho faz um peixe na brasa (e uma senhora farofa de couve) e serve com charme na Palhoça da Colina
É tanta coisa acontecendo, que no final, sem querer, acabei seguindo o conselho da leitora do Julio. Passei três dias em Noronha – mas não deu tempo de passar nem no Zé Maria, nem na Maravilha...
Escrito por Ricardo Freire às 10h37
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Expedição Pé-na-areia: 46º. dia
Quando: 30 de outubro, domingo
Onde: de Noronha a Recife
Tempo: ensolarado
Hospedagem: de volta ao meu flat favorito em Boa Viagem
Gourmet acidental: crepe de mussarela de búfala, rúcula e tomate seco no Anjo Solto DataCoco: sem coco, hoje
Escrito por Ricardo Freire às 10h27
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Expedição Pé-na-areia: 44º. e 45º. dias
Quando: 28 e 29 de outubro, sexta e sábado
Onde: Fernando de Noronha
Tempo: parcialmente nublado
Trilha sonora: Tema de “Verão de 42”, cantarolado por minha amiga Simone ao telefone
Hospedagem: duas pousadas chiques em soft opening
Gourmet acidental: moqueca de aratu no Tricolor; peixe na brasa com farofa de couve na Palhoça da Colina; petit-gâteau de goiabada com recheio de requeijão na pousada Teju-Açu
DataCoco: R$ 2,50 na saída da trilha da Caeira à Atalaia; R$ 3 na praia da Cacimba do Padre
A moqueca do Tricolor
Escrito por Ricardo Freire às 10h27
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João Pessoa: Da maior simpatia
(Atrasei um pouquinho o post para sair quase junto com a Época)
São 4 e 15 da tarde e eu estou a ponto de perder o pôr-do-sol. Não, você não leu errado. Para quem, como eu, está em João Pessoa, e quer assistir ao pôr-do-sol na praia fluvial do Jacaré, 4 e 15 é quase tarde demais.
O sol se põe em João Pessoa – e na sua vizinha Cabedelo, onde fica a praia do Jacaré – às 5 em ponto. Se o Nordeste adotasse o horário de verão, o pôr-do-sol aconteceria às 6. É uma das convenções universais – uma dúzia tem doze unidades, a água ferve a 100 graus centígrados, o sol se põe às 6 da tarde nas latitudes equatoriais. Menos no Nordeste brasileiro, onde todo mundo está tão acostumado com o fato de o sol nascer e se pôr mais cedo, que um eventual referendo pela adesão ao horário de verão resultaria nuns 99% de “não”.

Em outros lugares o sol se põe sozinho, mas em João Pessoa ele tem a ajuda de um homem: Jurandy do Sax. Desde 2000, Jurandy toca o Bolero de Ravel para acompanhar a descida do sol no horizonte. O espetáculo acontece todas as tardes e lota os trapiches dos bares à beira-rio.
 
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 20h57
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O pôr-do-sol no rio é a maior atração turística de uma cidade que ainda não conseguiu vender como poderia o sol a pino e o mar. João Pessoa tem praias limpas cujas águas ficam cristalinas no verão.

Em Barra de Gramame, na maré alta, o mar invade e faz o rio virar uma laguna
O povo é simpaticíssimo, o trânsito flui com facilidade, os preços são os mais em conta do litoral nordestino e seu plano diretor, que maravilha, impede que a orla seja transformada num paredão de arranha-céus.
 
Calçadão da praia urbana de Cabo Branco
Mas ainda não existe a infra-estrutura para reproduzir na Paraíba o boom turístico do seu vizinho de cima, o Rio Grande do Norte.
 
O Peixe Elétrico é um bar bacanérrimo na praia urbana do Bessa
O interessante é que a Paraíba começou antes. O hotel Tropical Tambaú, construído em 1971, foi o primeiro resort urbano do Nordeste. Apesar de ser um dos cartões-postais da cidade, o hotel só funciona quando visto do alto. Ao rés do chão, parece uma nave espacial de concreto plantada na areia da praia, obstruindo a vista aos pessoenses e enclausurando os hóspedes numa espécie de maquete gigante sem saída para o mar.

Hotel Tropical Tambaú
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 20h43
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Pode até ser verdade, dividindo o verde pela área total da cidade, mas não é a sensação que o visitante tem ao passear pelas áreas turísticas. Por causa da simpatia, a gente não se importa. Mas se João Pessoa se vendesse, por exemplo, como a segunda cidade mais simpática do mundo, seria muito mais fácil de acreditar.
 

30 km para o sul, Tabatinga é mais bonita que Tambaba
Ultimamente a Paraíba tem usado a praia nudista de Tambaba, a 40 km ao sul da capital, como chamariz. O problema é que, para entrar na praia, é preciso tirar completamente a roupa.

Os naturistas estão certos em não permitir que sua praia vire uma vitrine. Mas nenhum outro Estado usa suas praias de nudismo para atrair turistas comuns. Será que não daria para encontrar um meio-termo? Tipo assim – um dia com entrada liberada para turistas? Segundas-feiras, por exemplo. A turistada poderia entrar em Tambaba e fotografar um grupo de nudistas de verdade contratados pela prefeitura. (Tô falando sério.)
Para entrar de verdade no mercado, a Paraíba acaba de fazer um acordo com a CVC para construir seu primeiro grande resort. Não tenho dúvidas de que vai funcionar. Se bem que, se eu fosse as autoridades do turismo paraibano, chamaria o Jurandy do Sax para dar uns pitacos.

O homem é um gênio. De três anos para cá, ele inventou de chegar de barquinho.
 
Fica ali, no meio do rio, como um encantador de serpentes ao contrário, tocando para fazer o sol baixar. Os movimentos são cronometrados. Lá pelas tantas, Jurandy sobe no píer, e acontece o final impressionante: o sol se vai junto com o último acorde do Bolero.

São 5 e 10. Se você olhar para os lados da cidade, já é breu.
Escrito por Ricardo Freire às 20h41
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Expedição Pé-na-areia: 43º. dia
Quando: 27 de outubro, quinta
Onde: de Recife a Fernando de Noronha
Tempo: parcialmente nublado
Trilha sonora: Covers de reggae e rock brasileiro no show da pizzaria Massa da Ilha que ouço do meu quarto na pousada
Hospedagem: pousada confortável e desencanada
Gourmet acidental: peixe na brasa com farofa de banana, arroz de brócolis e purê de jerimum na Pousada do Vale
Surfe em Noronha: a moça da recepção da Pousada do Vale me perguntou se eu estava com laptop e me ofereceu um cabo de rede
DataCoco: R$ 1 no Recife; ainda não pedi em Noronha

O entardecer em Noronha não tem Bolero de Ravel
Escrito por Ricardo Freire às 20h40
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Expedição Pé-na-areia: 42º. dia
Quando: 26 de outubro, quarta
Onde: Recife
Tempo: parcialmente nublado
Trilha sonora: Cowboy viado, no alto-falante estridente do vendedor de CD pirata na praia
Hospedagem: terceira noite seguida no mesmo hotel (um récorde nesta Expedição!)
Gourmet acidental: sushi de foie gras com passa de caju e raspas de limão, no É
Atrasado como novela brasileira em Portugal: é como anda esse blog, coitado; tô embarcando pra Noronha, e ainda não botei nem os posts de João Pessoa (mas calma, Recife, eu ainda volto)
DataCoco: R$ 1 em Boa Viagem
Entre na campanha deste blog: Praia também é leitura!
Escrito por Ricardo Freire às 10h20
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Tambaba: nuazinha
Tambaba é a praia naturista mais famosa do Brasil -- só que pouca gente sabe como ela é. Primeiro, porque para entrar é preciso estar pelado – e, se você for homem, devidamente acompanhado por uma pelada. E depois, porque todas as fotos que são feitas em Tambaba privilegiam aspectos topográficos dos traseiros dos freqüentadores, e não da paisagem.
Senhores passageiros: é com orgulho que este blog apresenta, talvez pela primeira vez na imprensa brasileira, a praia naturista de Tambaba nuazinha, como veio ao mundo. (Ou quase. Tentem abstrair as palhoças e as cadeiras de plástico.)



No mais, estou pensando se revelo todos os bastidores dessa minha aventura. Estou pensando...
Escrito por Ricardo Freire às 18h58
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Expedição Pé-na-areia: 41º. dia
Quando: 25 de outubro, terça
Onde: Recife
Tempo: ensolarado
Trilha sonora: Inútil paisagem, com Elis & Tom (na rádio cabeça; leia o próximo item)
Lerê: mas pra quê? pra que tanto céu? pra que tanto mar, pra quê? se eu não saio da frente do laptop?
Hospedagem: outra noite no meu flat favorito no Recife (usando direto a banda larga)
Gourmet acidental: sashimi de salmão com gengibre e pimenta, no Soho
DataCoco: R$ 1 em Boa Viagem


 O Soho do Recife consegue ser mais impressionante do que o de Salvador
Escrito por Ricardo Freire às 18h50
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Pipa, a empinada
Na edição impressa do meu guia Freire’s, de 2001, eu descrevo assim o Hotel da Pipa: “Na praia do surf, esta é a pousada do surf. A localização é de dar vertigem, na pontinha da falésia; de lá sai uma escada privativa, de madeira, que dá na praia. Os quartos é que são muito pobrinhos, absolutamente espartanos; o banho é frio, e o único eletrodoméstico ligado na tomada é um ventilador de mesa. A roupa de cama e banho não é das mais encorajadoras. Mas se você busca astral, localização e preço baixo, vai gostar daqui. Diárias a R$ 70 (alta temporada) e R$ 35 (baixa temporada).”
 
Eu era assim, fiquei assim...
Na versão online, atualizada em janeiro de 2004, o verbete Hotel da Pipa diz: “Em 2003,o hotel passou sofreu um a guinada radical: os quartos e as áreas sociais foram inteiramente repaginados, e o hotel foi reposicionado para outro público. Só o que não mudou foi o tamanho dos quartos -- continuam bem pequenos. Diárias: frente mar, R$ 300 (alta temporada) e R$ 240 (baixa temporada)”.

Os preços dos quartos com vista agora são R$ 345 na alta e R$ 300 na baixa. Pois bem. Uma coisa é você visitar o hotel em que você dormiu por R$ 35 e constatar que, maquiado e reequipado, ele está cobrando R$ 300 por aquele mesmo quarto. Outra coisa é você pagar esses R$ 300 pelo quarto que já foi seu por R$ 35. Desta vez eu não apenas passei – eu fiquei. Senhores passageiros: doeu. Na edição que vai entrar no ar em dezembro talvez eu diga que a maquiagem anda precisando de uma manutenção, e que o hotel poderia oferecer um pouco mais de conforto e infra-estrutura, além da vista e da escadaria para a praia, para justificar seus preços.

Lerê, lerê: tem blogueiro que acorda às 4h30 só para fazer essas fotos pra você
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 14h58
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A praia do centro continua, ahn, pitoresca
Se bem que... para quem eu estou pregando, mesmo? Todos os outros hóspedes do hotel da Pipa eram gringos, que compraram pacotes na Europa. Pipa está apenas cumprindo o seu destino de ser a Búzios do Nordeste – nada mais compreensível que comece a cobrar preços buzianos. (Já a Búzios baiana, Arraial d’Ajuda, continua com preços arraial-d’ajudianos, mesmo.)

A continuarem esses preços, brasileiro só vai aparecer por aqui em passeio de bugue...
Assim como aconteceu com o Hotel da Pipa, muitas das transformações da vila não passam de maquiagem vistosa, que pede um pouquinho mais de qualidade para justificar a conta. A Avenida Baía dos Golfinhos – nome pomposo da ruazinha principal – agora tem shoppingzinhos mediterrâneos, mas o pedestre precisa ter um olho na vitrine e outro nos carros, que ziguezagueiam entre os espaços deixados pelos carros irregularmente estacionados.
 
Não gosto: do grego-com-piaçava do shopping da esquerda, e do vidro ostensivo da loja da direita
(Ao contrário de Búzios, a rua-das-pedras de Pipa não tem uma ruazinha de trás para escoar o trânsito.) Fora das imediações da rua principal, a urbanização não existe. Algumas das pousadas pioneiras de Pipa, que ficavam mais ou menos no meio do mato, hoje ficam mais ou menos no meio da favela. É lamentável que os impostos gerados pelas milionárias transações imobiliárias (a região toda se valorizou brutalmente depois que foi descoberta pelos gringos), pelo comércio e pelos meios de hospedagem de Pipa não sejam revertidos em urbanização básica da galinha dos ovos de ouro.

Depois da praia do Amor, minha segunda favorita é a do Madeiro
Bem. Dito isto, só me resta acrescentar que Pipa anda caro, mas é uma delícia. As praias são lindas (mesmo antes de o verão tingir o mar de um azul de verdade), come-se muito bem em qualquer restaurante, e as vitrines trouxeram um novo colorido à noite da cidade. No meu entender, falta, no entanto, direção de arte – algo que dê personalidade à vila, como as ruas de areia de Jeri, as estampas de Porto de Galinhas ou a vegetação do Arraial, que tire esse jeitão de uma praia qualquer do Mediterrâneo.
 
Gosto: da madeira da Pede Jambo. Adoro: o humor da Bookshop
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 14h54
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Direção de arte, por exemplo, é o que sobra nos bangalôs da Toca da Coruja – podem ser caríssimos (R$ 820 a noite), mas conseguem traduzir para o português do Brasil o luxo sobre palafitas inventado em hotéis de charme da Ásia.
 
Toca da Coruja
O clube de praia Ponta do Pirambu, em Tibau do Sul, também é tudo de bom: todo o mobiliário é de madeira, incluindo as espreguiçadeiras; e no verão, quando o mar ficar com um azul parecido com o da piscina, você vai conseguir tirar fotos ainda mais bonitas. (A consumação não é absurda, não: R$ 30 por pessoa.)

Ponta do Pirambu
A suíte 6 da Sombra & Água Fresca (que eu apelidei aqui de Suíte Gisele) é bacana, mas, sinceramente, não é nenhuma Ponta dos Ganchos. Vale mais a pena pegar um quarto standard e passar o dia na piscina principal, que é deslumbrante (e você economiza quase R$ 400 por noite).

Sombra & Água Fresca
Ainda existem pechinchas, sim. A maior delas é o Hotel do Amor, debruçado sobre a mesmíssima Praia do Amor da Sombra & Água Fresca e do Hotel da Pipa. Ali, um quarto espaçoso, com varanda, de frente para o mar, sai por R$ 140 na alta temporada (R$ 110 na baixa; foi o que eu paguei.)
 
Hotel do Amor
É bom pegar leve. Ou vai acabar faltando grana para aqueles cocos de R$ 3 do Bar Marinheiro ;-)
 
Escrito por Ricardo Freire às 14h54
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Expedição Pé-na-areia: 40º. dia
Quando: 24 de outubro, segunda
Onde: de João Pessoa a Recife
Rodados: 132 km
Trilha sonora: Gilberto Gil, As canções de Eu, Tu, Eles
Tempo: parcialmente nublado
Consegui: entrar em Tambaba para fotografar a paisagem
Hospedagem: meu flat favorito no Recife, com banda larga grátis no quarto
Gourmet acidental: sobrecoxa de frango recheada com purê de banana e acompanhada por arroz de coentro, no Assucar (melhor lida do que comida)
DataCoco: Sandra! Eu saí de João Pessoa sem tomar coco em Manaíra! Você me perdoa?
 
Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço
Escrito por Ricardo Freire às 14h53
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Expedição Pé-na-areia: 39º. dia
Quando: 23 de outubro, domingo
Onde: João Pessoa
Trilha sonora: Eu não nasci pra ser a outra / Eu nasci pra ser a única / Titular e absoluta / Do seu coração (Aviões do Forró; toca em tudo quanto é alto-falante)
Tempo: ensolarado
Pelo sim, pelo não: caramba, foi difícil achar uma escola para justificar meu voto
Hospedagem: outro hotel novinho, e econômico, da orla de Tambaú
Gourmet acidental: cuscuz com leite e açúcar no café da manhã do Mangai
CADÊ O DOSSIÊ PIPA?: Calma, calma, sai ainda hoje
DataCoco: R$ 1,00, na barraca Arte Bar, em Tabatinga
 A barraca Arte Bar, em Tabatinga (30 km ao sul de João Pessoa) tem ofurô e uma biblioteca de cordel
Escrito por Ricardo Freire às 08h27
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Fome Zero
  
Eu tinha acabado de passar o Blogmóvel pela balsa movida a gente do rio Sibaúma, quando deparei com esse back-light na pacata Barra do Cunhaú. Tive que parar. Como assim, deputada da alimentação? E por que não, musa da alimentação? Nossa Senhora da Alimentação? Ou perua da alimentação? Filha de coronel da alimentação? Demagoga da alimentação? Senhores passageiros: alguém tem que impor limites à propaganda política.
Escrito por Ricardo Freire às 08h25
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Expedição Pé-na-areia: 38º. dia
Quando: 22 de outubro, sábado
Onde: de Pipa a João Pessoa, via Barra do Cunhaú e Baía Formosa
Rodados: 195 km
Trilha sonora: José Miguel Wisnik, São Paulo-Rio, com várias participações de minha ídala Jussara Silveira
Tempo: nublado de manhã cedinho, ensolarado no resto do dia
Hospedagem: hotel novinho na orla de Tambaú, João Pessoa
Gourmet acidental: caldinho de caranguejo na barraca Peixe Elétrico, no Bessa
DataCoco: R$ 1,00, na barraca Peixe Elétrico (calma, Sandra, ainda não tomei coco nos quiosques de Manaíra)
  
A balsa do rio Sibaúma, entre Pipa e Barra do Cunhaú, é movida a gente, mesmo
Escrito por Ricardo Freire às 08h24
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Fenômeno
Estou presenciando um fenômeno impressionante, que eu preciso dividir com vocês. Não, vocês não podem imaginar o que deu para acontecer hoje de manhã. É algo que eu nunca vi nesses quarenta dias de viagem. Não sei qual é a causa, e estou sem internet no momento em que escrevo para tentar buscar uma explicação.
É o seguinte. Sabe nuvens? Então. Hoje o céu amanheceu que era um nuvão só. Isso, sem espaço entre uma nuvem e outra. Como se as nuvens resolvessem se emendar, entende? Por um lado é interessante porque o céu fica acinzentado. Por outro lado é chato porque o sol não passa.
Eu perguntei na recepção que negócio é esse e eles me falaram que isso se chama “nublado”. Mas que passa logo.

(Tô pegando a estrada em direção a João Pessoa. Lá eu subo meu Dossiê Pipa, prometo.)
Escrito por Ricardo Freire às 10h28
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Expedição Pé-na-areia: 37º. dia
Quando: 21 de outubro, sexta
Onde: Pipa
Trilha sonora: Monobloco, Seu Jorge e Marcelo D2, nas caixas do Grand Café Pipa
Tempo: parcialmente nublado
Hospedagem: flat funcional na rua principal
Aula de step: uma escadaria para cada praia
João Pessoa: de onde vem a maioria dos carros no estacionamento do flat Pipa Resort
Gourmet acidental: spaghetti com frutos do mar no Luna Café
DataCoco: R$ 1,50, nos ambulantes da muvuca noturna
  
Mas se você for mais um pouquinho até Tibau do Sul, tem uma praia com elevador
Escrito por Ricardo Freire às 10h27
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Legendas à procura de uma fotonovela




 
Escrito por Ricardo Freire às 11h26
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Expedição Pé-na-areia: 36º. dia
Quando: 20 de outubro, quinta
Onde: Pipa
Trilha sonora: João Gilberto, várias fases misturadas, no restaurante Atlântico
Tempo: ensolarado
Hospedagem: acordei na suíte Gisele de uma pousada chique, dormi num quarto de frente para o mar em outra pousada metida (caramba, preciso baixar a bola)
14 reais: a conta de duas horas e meia de çaibercafé
Praia: eu sei que ela estava lá fora em algum lugar, mas de pertinho eu só vi mesmo na tela do lepitope
Gourmet acidental: farofa de alho, nham, acompanhando um filé a cavalo no restaurante Atlântico
Existencialismo no café da manhã: por que diabos alguém resolve fazer bolo formigueiro, se com os mesmos ingredientes dá pra fazer bolo mármore?
DataCoco: R$ 2,50, na piscina da Sombra & Água Fresca

Ei, moço, como que cê adivinhou como eu tô me sentindo?
Escrito por Ricardo Freire às 11h22
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Pufavô
Primeiro – lá pela segunda semana de viagem, acho – foi o “r”. Quando eu dei por mim, tinha trocado o “r” áspero lá de baixo pelo “r” eufônico do Rio pra cima. Não, não forcei nada. É natural. Tá guardado em algum lugar da memória; ninguém se livra assim tão fácil de uma infância em Brasília.
Mas daí outro dia eu me ouvi pedindo:
- Pufavô!
Ôxe, que cabra é esse? Eita! Não é que era eu mesmo? Abestado!
Só que eu duvido que esse “pufavô” soe natural. Tudo bem, meu pai era sergipano, mas sotaque não é uma coisa que se passe adiante junto com os gens. Esse “pufavô” deve ser filho de alguma novela da Globo, isso sim.
É melhor eu me controlar, antes que alguém se ofenda e me mande de volta pro Bem-Amado. Alguém aí tem o telefone da Glorinha Bütenmüller?

Pufavô: onde ficam as escadas pra eu descer pra Praia do Amor, em Pipa?

Pó deixar, já vi. Brigado!
Escrito por Ricardo Freire às 14h55
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Expedição Pé-na-areia: 35º. dia
Quando: 19 de outubro, quarta
Onde: Pipa
Trilha sonora: um samba-enredo da Gaviões da Fiel (!) que tocou no bar da piscina da pousada Sombra & Água Fresca
Tempo: ensolarado
Hospedagem: suíte com piscininha privativa (para meu dossiê de superbangalôs)
“Foi a que a Gisele ficou”: foram as palavras mágicas do moço das reservas – pronto, cacifei
Gourmet acidental: pastel de queijo e atum no Bar Marinheiro, na Praia do Amor
DataCoco: R$ 3 no Bar Marinheiro (assalto!)


A Suíte Gisele é top, mas não é über
Escrito por Ricardo Freire às 14h52
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O guieiro e suas implicâncias, capítulo 32: piscinas naturais
Piscinas naturais costumam ser a cerejinha do bolo de uma viagem de uma semana ao Nordeste. Todo mundo paga o que pedirem para ser levado até um desses aquários em alto-mar que só aparecem na maré baixa, em pontos espalhados entre o Rio Grande do Norte e a Bahia.
Na tese de mestrado que eu nunca vou fazer, e que portanto nunca vai se chamar “Como o brasileiro desaprendeu a ir à praia”, eu nunca vou conseguir dizer que, na minha opinião, os passeios às piscinas naturais são o ponto alto do repertório da TOT – Terapia Ocupacional para Turistas.
Como nos recusamos a viajar para descansar (para isso existe o sofá da sala) ou apenas tomar sol (todo mundo tem sol perto de casa em boa parte do ano), e como ler na praia está totalmente fora de questão (taí um bom merchandising social para a próxima novela do Manoel Carlos), precisamos desperadamente fazer passeios. E nada tem um apelo tão forte quanto um aquário de peixinhos em alto mar.

Parrachos de Maracajaú, 65 km ao norte de Natal, aonde fui ontem
Na vida real, porém, os aquários de peixinhos em alto mar viram um piscinão de gente – uma espécie de banho japonês em que todo mundo veio de snorkel. (E eu ainda fico meio deprê, porque acho que se houvesse justiça na Terra todas as praias da nossa costa deveriam ter uma água tão cristalina quanto a das piscinas naturais.)
 
As Galés de Maragogi, em Alagoas, são as mais transparentes, e por isso são também as mais procuradas
(Continua no post abaixo)
Escrito por Ricardo Freire às 11h45
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Com exceção de Porto de Galinhas, ir até piscinas naturais envolve um esforço considerável: viajar até duas horas de ônibus, depois sacolejar até meia hora numa lancha ou num catamarã. Os resultados nem sempre são garantidos. Para encontrar as piscinas naturais do jeito que elas aparecem nas fotos dos vendedores de passeio, é preciso ir (1) durante a maré baixa; (2) numa lua propícia – cheia ou nova, que é quando a maré “seca mais”; (3) fora da estação das chuvas; (4) num dia ensolarado e (5) numa hora em que o sol já esteja alto.

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